“O alfaiate dos silêncios” Toda vez... Silasoliveira13

“O alfaiate dos silêncios”

Toda vez que alguma coisa me feria, eu procurava o alfaiate da esquina. Ele trabalhava dentro de um relógio parado e tinha o costume de costurar bolsos por dentro das pessoas.
Mais um? perguntava, sem levantar os olhos.
Eu concordava. Ele abria um pequeno espaço entre minhas costelas e guardava ali o que eu não tivera coragem de dizer. Depois, fechava tudo com uma linha tão fina que ninguém percebia. Eu saía, comprava pão, cumprimentava os vizinhos. Quando me perguntavam como estava, uma risada escapava da minha boca antes que eu pudesse responder.
Com os anos, fui ficando cheio de bolsos. Havia palavras dobradas junto ao pulmão, despedidas atrás do estômago, uma tarde inteira comprimida sob o coração. Para caber mais, comecei a diminuir cada acontecimento. Uma humilhação virava um mal-entendido. Uma ausência, falta de tempo. Certas frases, que ainda me cortavam durante o sono, eu chamava de brincadeira.
Certa manhã, não consegui vestir a camisa. Durante a noite, meus bolsos haviam crescido para fora do corpo. Arrastavam-se pelo quarto, pesados, derrubando os móveis. De um deles saía a chuva de uma terça-feira antiga. De outro, uma voz repetia meu nome num tom que eu levara anos tentando esquecer.
Corri ao alfaiate.
Preciso que esconda isso.
Ele procurou a agulha, mas suas mãos estavam cobertas de ferrugem.
Já não há onde costurar.
Sentei no chão. Pela primeira vez, reparei que o relógio onde ele morava não tinha ponteiros: tinha duas mãos apertadas contra a boca.
Tentei fazer uma piada. Saiu um soluço.
O alfaiate puxou uma cadeira e sentou perto de mim. Ficou ali, sem medir nada.
Então contei. No começo, falei baixo, com vergonha de ocupar tanto silêncio. Disse uma frase e esperei que ele me pedisse uma prova, que trouxesse a dor de outra pessoa para comparar com a minha. Mas ele apenas continuou sentado.
Contei mais.
Enquanto eu falava, os bolsos se abriam. A chuva encontrou uma janela. A terça-feira voltou lentamente ao calendário. Aquela voz atravessou a porta e foi perdendo força pela rua.
Ainda havia muita coisa preso em mim quando anoiteceu. O alfaiate acendeu a luz.
Podemos continuar amanhã disse.
Voltei para casa com a camisa amarrotada e alguns botões abertos. Na padaria, perguntaram se estava tudo bem. Minha velha risada chegou até os dentes, pronta para trabalhar.
Dessa vez, pedi que esperasse.

Descrição:

, “O alfaiate dos silêncios” fala sobre o peso de esconder a própria dor para continuar parecendo forte. A crônica transforma esse hábito em algo visível: cada sentimento calado ganha um bolso dentro do corpo, até que já não existe espaço para guardar mais nada.
O alfaiate representa o mecanismo que o narrador criou para disfarçar o sofrimento e seguir com a vida. Procurá-lo se torna uma rotina, assim como comprar pão ou cumprimentar os vizinhos. Esse detalhe mostra como alguém pode carregar uma grande tristeza enquanto mantém uma aparência comum, sorridente e disponível.
Os bolsos guardam aquilo que ficou sem expressão: palavras que não foram ditas, despedidas mal compreendidas, lembranças dolorosas. Quando o narrador transforma uma humilhação em “mal-entendido” ou uma frase cruel em “brincadeira”, ele diminui a importância do que sentiu. Aos poucos, passa a desconfiar do próprio direito de se magoar.
O relógio parado sugere que certas experiências continuam acontecendo dentro dele, embora o tempo avance do lado de fora. As duas mãos apertadas contra a boca tornam essa imagem ainda mais forte: o silêncio mantém o narrador preso ao que não conseguiu contar.
Quando os bolsos crescem para fora do corpo, aquilo que estava escondido passa a interferir em sua vida. A chuva antiga, a terça-feira e a voz que repete seu nome dão forma à memória: acontecimentos que pareciam encerrados ainda ocupam o presente.
A mudança começa quando o alfaiate deixa a costura e se senta para ouvir. Ele não pede justificativas, não compara sofrimentos, não exige que o narrador demonstre a gravidade da ferida. Sua presença oferece espaço para que a história seja contada. Conforme as palavras encontram saída, a terça-feira pode voltar ao calendário: começa a ocupar seu lugar no passado.
A frase “Podemos continuar amanhã” também importa. Ela respeita o tempo de quem fala. O narrador não precisa contar tudo de uma vez nem sair dali completamente recuperado. Ainda há coisas presas, mas agora existe a possibilidade de compartilhá-las.
No final, pedir que a velha risada espere é um pequeno gesto de liberdade. Pela primeira vez, ele interrompe a resposta automática que escondia sua verdade. A crônica termina nesse instante porque ali já aconteceu algo profundo: ele começa a se ouvir e a permitir que os outros o conheçam além do sorriso. Sua dor pode finalmente existir sem precisar pedir desculpas pelo espaço que ocupa.