Coleção pessoal de PaulHBenz

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*O Uniforme da Virtude*


O jornal apareceu no meu jardim numa manhã em que eu não estava esperando por notícias.


Não era assinante. Nunca fui muito chegado a jornais, principalmente depois que descobri que as tragédias do mundo chegavam mais rápido pela internet e as mentiras continuavam chegando no mesmo ritmo.


Peguei o jornal pela ponta, como quem recolhe alguma coisa suspeita.


Levei para a varanda.


Sentei na cadeira velha e coloquei os pés sobre o parapeito. O gato estava deitado no degrau. Olhou para mim. Miou.


Parecia perguntar:


— Você vai realmente ler isso?


Não respondi.


Ele se espreguiçou, virou de costas e foi cuidar de assuntos mais importantes. Provavelmente dormir.


Abri o jornal.


Na primeira página havia um cidadão sorrindo.


Era um dos homens que ocupavam um dos cargos eletivos daquela nova cidade. O sorriso tinha aquela medida exata que os fotógrafos gostam. Nem alegria demais, nem preocupação demais. Apenas o suficiente para parecer humano.


Ao lado da fotografia, um título falava sobre dignidade humana.


Li.


O homem defendia respeito, inclusão, empatia, tolerância e todas aquelas palavras que hoje aparecem juntas com a mesma facilidade com que antigamente se escrevia “atenciosamente” no fim de uma carta.


Continuei lendo.


Não havia nada errado com o que ele dizia.


Esse era justamente o problema.


O sujeito tinha aprendido a dizer tudo certo.


Fiquei alguns minutos olhando para o papel.


Pensei que talvez eu estivesse ficando velho demais para certas coisas. Talvez o problema fosse comigo. Talvez fosse apenas implicância de um homem que já viu muita gente falar bonito antes de fazer alguma coisa feia.


Mas então lembrei que tratar alguém com respeito nunca foi o problema.


O problema começa quando a virtude vira uniforme e a consciência passa a usar crachá.


Parei de ler.


O gato voltou.


Sentou ao meu lado.


Olhou para o jornal.


Depois olhou para mim.


— É — eu disse. — Também achei estranho.


Voltei ao texto.


O homem falava sobre uma sociedade mais humana. Era uma boa ideia. Quase bonita.


Só que eu conhecia aquele tipo de discurso.


A cidade continuava cheia de gente que passava por moradores de rua sem enxergá-los. Velhos continuavam conversando sozinhos dentro de apartamentos silenciosos. Crianças aprendiam cedo que certas coisas eram vendidas antes mesmo de serem compreendidas.


E nós continuávamos medindo pessoas.


Pelo salário.


Pela aparência.


Pelos seguidores.


Pela utilidade.


Pela capacidade de nos servir.


Depois chamávamos aquilo de sociedade civilizada.


Talvez fosse por isso que a expressão “politicamente correto” tivesse adquirido tanta importância.


Não porque respeito fosse ruim.


Respeito é necessário.


O problema é quando a palavra passa a substituir o comportamento.


Trocaram a ética pela etiqueta.


É mais fácil.


Etiqueta exige apenas que você saiba onde colocar o garfo.


Ética exige que você saiba onde colocar a própria crueldade.


E isso dá trabalho.


Continuei lendo.


O político falava sobre empatia.


Eu pensei em quantas pessoas conhecia que publicavam frases sobre empatia e não conseguiam ouvir cinco minutos de alguém que discordasse delas.


Era uma coisa curiosa.


A crueldade havia aprendido gramática.


A hipocrisia descobrira o vocabulário da inclusão.


A mentira tinha feito faculdade.


E eu não estava completamente fora disso.


Foi aí que a leitura começou a ficar desagradável.


Porque é fácil apontar o dedo para o sujeito da fotografia.


Mais difícil é olhar para a própria mão.


Eu também já fui injusto.


Já tratei pessoas como inconvenientes porque estavam atrapalhando meu dia.


Já concordei com alguém em público e pensei o contrário em silêncio.


Já me calei diante de uma covardia porque falar custaria alguma coisa.


Já fui educado quando deveria ter sido honesto.


E talvez essa seja uma das formas mais discretas da hipocrisia.


Não mentir para os outros.


Mentir para si mesmo com boas maneiras.


Fechei o jornal.


Fiquei olhando para o jardim.


O gato tinha encontrado uma sombra e dormia dentro dela.


Ele não precisava escrever sobre dignidade.


Não precisava defender ninguém.


Não precisava publicar uma frase bonita.


Se alguém o incomodasse, ele simplesmente iria embora.


Talvez houvesse alguma sabedoria nisso.


A verdadeira decência nunca precisou de cartilha.


Ela aparece quando ninguém está olhando.


Quando você poderia humilhar alguém e decide não fazê-lo.


Quando poderia esmagar e prefere não usar a força.


Quando discorda sem precisar transformar o outro em inimigo.


Quando ninguém está fotografando.


Quando não existe plateia.


Quando não existe recompensa.


Talvez seja aí que começa o caráter.


Todo o resto pode ser teatro.


E o teatro sempre foi um esconderijo confortável para quem tem medo de ser visto sem maquiagem.


Voltei a abrir o jornal.


A fotografia continuava ali.


O sorriso também.


Pensei que talvez o homem da fotografia acreditasse sinceramente no que havia escrito.


Isso também me incomodou.


Porque seria mais fácil se ele fosse apenas um canalha.


Mas ninguém é apenas uma coisa.


Nem eu.


Nem ele.


Nem o sujeito que fala sobre moral enquanto pisa no outro.


Talvez o maior escândalo do nosso tempo não seja a existência de pessoas ruins.


Elas sempre existiram.


O problema é outro.


Aprendemos a vestir a roupa da virtude.


Aprendemos quais palavras provocam aplausos.


Aprendemos quais indignações rendem aprovação.


Aprendemos a parecer bons.


E, em algum momento, esquecemos de perguntar se ainda somos.


Olhei novamente para o gato.


Ele abriu um olho.


— Você tem alguma opinião sobre isso?


Ele fechou o olho.


Justo.


Talvez a humanidade pudesse aprender alguma coisa com os animais.


Eles não costumam fingir que são melhores do que são.


Nós fazemos o contrário.


Construímos discursos para esconder nossos dentes.


Chamamos isso de civilização.


Chamamos de progresso.


Chamamos de consciência.


Às vezes, talvez seja apenas medo de admitir que continuamos sendo animais assustados, egoístas e famintos por aprovação.


A diferença é que agora sabemos escrever sobre isso.


E escrever bem sobre humanidade não torna ninguém humano.


Fechei o jornal de vez.


Coloquei-o sobre a mesa.


O gato continuava dormindo.


Fiquei ali, olhando para ele e pensando que talvez eu tivesse passado a manhã inteira procurando hipocrisia nos outros para não precisar encontrá-la em mim.


Essa foi a parte que mais me incomodou.


Porque a consciência também sabe usar uniforme.


E, quando quer, sabe até sorrir para a fotografia.

*O HOMEM QUE NÃO QUERIA SER PRESO*




Era final de tarde de domingo e minhas alegres visitas tinham partido.


A casa ficou com aquela aparência de lugar onde alguma coisa aconteceu, mas ninguém teve a educação de limpar depois. Havia copos sobre a mesa, brinquedos espalhados, migalhas no sofá e um cheiro de comida que já começava a perder a batalha para o cheiro de casa fechada.


Não me incomodei.


Algumas bagunças são provas de que a vida esteve ali.


O Sol decidiu Acompanhar as crianças e a chuva veio para o expediente.


O gato ficou.


Estava deitado na janela, olhando para a rua com a seriedade de quem aguardava uma decisão importante. As crianças tinham ido embora fazia pouco tempo e, aparentemente, aquilo tinha sido uma experiência marcante para ele.


Talvez tivesse descoberto que humanos pequenos são mais divertidos do que os grandes.


Ou talvez estivesse esperando que voltassem para continuar o serviço.


Eu sabia que não voltariam naquele dia.


Ele não.


Ficou olhando.


Quanto a mim, era apenas o outro morador da casa. Aquele que compra comida, abre a porta, limpa a caixa de areia e paga as contas.


Ele fazia um trabalho muito mais nobre.


Companhia.


Achei injusto.


Fui até a padaria.


Era uma dessas padarias de bairro que colocam algumas mesas na calçada e fingem que aquilo é uma extensão da sala de estar. Sentei do lado de fora. Dali dava para ver o parque, as árvores e os últimos pedaços de sol tentando atravessar os galhos.


O trânsito de domingo fazia pouco barulho.


Alguns carros passavam sem pressa. Pessoas caminhavam pelas calçadas. Um casal empurrava um carrinho de bebê. Um homem levava um cachorro que parecia mais interessado em qualquer coisa do que nele.


Era um bairro residencial. Não havia grandes lojas, vitrines iluminadas ou aquela necessidade permanente de convencer alguém a comprar alguma coisa de que não precisava.


O parque estava cansado.


Talvez eu também.


As árvores continuavam ali, mas tinham aquela aparência de coisa que sobrevive mais por hábito do que por vontade.


A natureza é muito mais honesta quando ninguém tenta fotografá-la.


Pedi um café.


Na mesa atrás da minha havia três mulheres.


Falavam alto o suficiente para dispensar qualquer esforço de escuta.


Conversavam sobre homens.


Pretendentes.


Ex-namorados.


Homens que sumiram.


Homens que apareceram demais.


Homens que não ligavam.


Homens que ligavam demais.


Uma delas dizia que precisava dar um jeito de prender um homem.


Falou aquilo com a naturalidade de quem estava discutindo uma receita.


As outras riram.


Depois começaram a trocar métodos.


Demonstrar menos interesse.


Depois demonstrar mais.


Fazer ciúmes.


Desaparecer por dois dias.


Voltar como se nada tivesse acontecido.


Não responder imediatamente.


Responder quando ele estivesse começando a desistir.


Fazer com que sentisse falta.


A velha engenharia do afeto.


Pensei que talvez o amor moderno fosse isso.


Um jogo de caça com aplicativos.


Uma espécie de pesca esportiva onde ninguém quer admitir que está segurando a vara.


Uma delas falou que homem gosta de quantidade.


Outra discordou.


Disse que o problema era encontrar um que prestasse.


Elas riram novamente.


Eu fiquei olhando para o café.


Já ouvi aquela história antes.


Em bares.


Quartos.


Mesas de restaurantes.


Às vezes falando de mim.


Às vezes falando de homens que eu conhecia.


Às vezes falando de homens que eu não conhecia e provavelmente não queria conhecer.


Ja houvi que sou um homem de muitas mulheres.


Talvez seja.


Ou talvez eu apenas tenha vivido tempo suficiente para descobrir que os rostos mudam muito mais rápido do que as cicatrizes.


As pessoas chegam.


Fazem barulho.


Deixam alguma coisa sobre a mesa.


Depois vão embora.


Algumas deixam perfume.


Outras deixam contas.


Quase todas deixam alguma história que você prefere não contar inteira.


Nunca fui muito bom em explicar isso.


A verdade é menos interessante do que parece.


Nunca procurei quantidade.


Só não sabia muito bem como procurar outra coisa.


Durante algum tempo, confundi desejo com companhia.


Depois confundi companhia com amor.


Mais tarde descobri que nenhuma das duas coisas servia para preencher uma casa vazia.


Eu queria abrigo.


Só isso.


Um lugar onde não precisasse estar em guarda o tempo inteiro.


E abrigo é uma coisa rara.


Principalmente entre pessoas que passaram a vida aprendendo a partir antes de aprender a ficar.


Talvez eu também tenha feito isso.


Talvez tenha chamado de liberdade aquilo que, em algumas ocasiões, era apenas medo de descobrir o que aconteceria se eu permanecesse.


As mulheres continuavam falando.


Uma delas dizia que o problema era deixar o homem confortável demais.


Eu quase ri.


Conforto virou ameaça.


Imagine isso.


Duas pessoas passam anos procurando alguém com quem possam descansar e, quando encontram, começam a desconfiar porque o outro parece confortável.


Talvez tenhamos aprendido a confundir paz com desinteresse.


Talvez o barulho seja mais fácil de reconhecer como paixão.


Eu já confundi.


Muitas vezes.


Conquistar alguém é fácil.


No começo tudo ajuda.


A novidade ajuda.


O desejo ajuda.


A mentira ajuda.


Até o silêncio parece interessante quando ainda existe mistério.


Depois chegam as contas.


As manias.


Os dias ruins.


O mau humor.


As doenças.


Os parentes.


As mensagens não respondidas.


A roupa jogada no lugar errado.


A mesma história contada pela terceira vez.


O silêncio que não tem nada de sexy.


É aí que começa o trabalho.


E é aí que muita gente vai embora.


Não porque deixou de amar.


Às vezes porque descobriu que amar dá trabalho.


A mulher da mesa atrás falou que ninguém deve deixar um homem completamente livre.


Pensei no gato.


Ele tinha liberdade para sair pela janela.


Não saía.


Tinha comida.


Tinha água.


Tinha um lugar quente para dormir.


E ainda assim ninguém havia colocado uma tela naquela janela.


Talvez fosse esse o segredo que os humanos complicaram.


Não quero possuir ninguém.


Posse é medo fantasiado de amor.


Se alguém ficar ao meu lado, quero que fique porque poderia ir embora.


Quero que a porta esteja aberta.


Quero saber que existe uma rua do outro lado.


Quero que a pessoa possa caminhar para qualquer lugar e, mesmo assim, em algum momento, decida voltar.


Isso é muito diferente de prender alguém.


Prender é fácil.


Até animais sabem fazer isso.


O difícil é ser escolhido quando ninguém é obrigado a escolher você.


Fiquei olhando para o parque.


O sol já tinha descido mais um pouco e a chuva escurecia as ruas.


As sombras das árvores, sob relâmpagos atravessavam a calçada.


Um homem passou empurrando uma bicicleta.


Uma senhora caminhava rapido com duas sacolas de mercado.


Do outro lado da rua, um menino corria atrás de uma bola enquanto alguém gritava seu nome.


A cidade fazia o que sempre faz no domingo.


Tentava parecer tranquila.


Mas havia qualquer coisa de cansado em tudo aquilo.


Talvez porque domingo seja o dia em que as pessoas percebem que segunda-feira existe.


Pedi outro café.


A mesa atrás de mim tinha ficado mais silenciosa.


Por alguns segundos.


Depois uma delas disse que o problema era encontrar alguém que soubesse ficar.


Dessa vez ninguém riu.


Achei curioso.


Talvez aquela fosse a única coisa verdadeira que tinham dito naquela tarde.


Ficar.


É uma palavra pequena.


Mas custa caro.


Eu não me apaixono pela perfeição.


Nunca me interessou.


A perfeição é uma mentira bem vestida.


Gosto de quem sangra.


De quem tropeça.


De quem já perdeu uma guerra e ainda aparece no dia seguinte com a cara amassada para tentar outra vez.


Talvez porque eu conheça esse tipo de gente.


Talvez porque eu seja esse tipo de gente.


Carrego ferrugem na alma.


Algumas rachaduras.


Há coisas que o tempo não consertou.


Apenas ensinou a esconder melhor.


Também erro.


Muito.


E talvez tenha demorado mais do que deveria para entender que continuar presente na vida de alguém pode ser mais difícil do que conquistá-la.


No começo, quase todo mundo sabe ficar.


Depois é que começam os problemas.


Quando o encanto diminui.


Quando o outro deixa de parecer uma descoberta e passa a parecer uma pessoa.


Com seus defeitos.


Suas manias.


Seus medos.


Sua história.


Seu mau humor.


É nesse momento que você descobre se estava apaixonado pela pessoa ou pela versão que inventou dela.


Eu já tive versões.


Algumas bastante convincentes.


Nenhuma durou muito.


A maturidade talvez seja justamente isso.


Parar de procurar alguém que nos faça sentir completos e começar a procurar alguém diante de quem não precisamos fingir que estamos.


Não ofereço salvação.


Não tenho.


Não ofereço uma vida sem problemas.


Seria propaganda enganosa.


Ofereço café.


Silêncio.


Alguma honestidade.


E a possibilidade de continuar aqui quando a novidade acabar.


A conta chegou.


Paguei.


Fiquei alguns minutos olhando o parque antes de levantar.


As mulheres ainda estavam ali.


Agora falavam de outra coisa.


Talvez de homens.


Talvez de outra maneira de prendê-los.


Não importava.


Peguei o caminho de casa.


Quando cheguei, a bagunça continuava exatamente onde eu havia deixado.


Os copos.


Os brinquedos.


As migalhas.


As marcas da visita.


O cheiro de comida.


O gato continuava na janela.


Olhou para mim como quem verifica se o funcionário responsável finalmente voltou ao posto.


Depois voltou a olhar para a rua.


As crianças ainda não tinham voltado.


Talvez estivesse decepcionado.


Talvez apenas gostasse de esperar.


Fiquei pensando nisso.


Esperar também é uma forma de liberdade.


Você não espera alguém porque foi obrigado.


Espera porque quer.


Talvez seja por isso que a maturidade muda a maneira como enxergamos o amor.


Quando somos jovens, queremos ser desejados.


Depois queremos ser escolhidos.


Mais tarde, talvez, queremos apenas encontrar alguém que conheça nossas partes ruins e ainda consiga sentar ao nosso lado sem precisar fingir que elas não existem.


Alguém que poderia ir embora.


E sabe disso.


Mas fica.


Não porque foi convencido.


Não porque foi preso.


Não porque tem medo da rua.


Fica porque, entre todos os lugares possíveis, escolheu aquela mesa.


E talvez seja isso que eu tenha procurado o tempo todo sem saber dar um nome.


Não muitas mulheres.


Não muitas histórias.


Não muitas conquistas.


Só algum lugar onde dois sobreviventes pudessem parar por alguns minutos.


Olhar um para o outro.


Sem algemas.


Sem promessas grandiosas.


Sem precisar provar nada.


A porta continua aberta.


A rua continua ali.


Cada um poderia ir.


Mas ninguém vai.


E, depois de tudo o que já aconteceu, depois de todas as pessoas que passaram, todas as que partiram e todas as que juraram ficar, existe uma frase que ainda vale alguma coisa.


Não precisa ser dita.


Basta que os dois saibam.


Ainda estou aqui.

A HUMANIDADE MORRE EM SILÊNCIO


O bar estava quase vazio naquela quarta-feira.


Aquele tipo de noite em que até os bêbados pareciam cansados de suas próprias histórias.


Havia duas mesas ocupadas. Um homem sozinho perto da janela, mexendo no celular como se esperasse uma mensagem que nunca chegaria. No balcão, três sujeitos discutiam futebol, política e o mundo inteiro com a mesma certeza de quem nunca precisou consertar nada do que destruiu.


A televisão estava ligada sem som alto.


Era mais um noticiário.


Mais uma guerra.


Mais uma cidade destruída.


Mais uma fotografia de pessoas correndo com aquilo que conseguiram salvar da própria vida.


Ninguém levantou a cabeça.


Até que alguém comentou:


— O problema é que esse povo também procura confusão.


Foi dito com a tranquilidade de quem pede outra cerveja.


Outro respondeu:


— Cada um tem o governo que merece.


E todos continuaram bebendo.


Essa é uma das coisas mais estranhas que aprendi depois de certa idade.


O ser humano consegue assistir ao sofrimento de alguém enquanto termina o jantar.


Consegue condenar uma vítima que nunca conheceu.


Consegue transformar uma tragédia em opinião antes mesmo de tentar entender o que aconteceu.


A cidade não fede por causa do esgoto.


Isso seria simples demais.


A cidade fede quando a consciência começa a apodrecer sem fazer barulho.


Depois dos sessenta, você percebe algumas coisas.


Não porque ficou mais sábio.


Mas porque perdeu algumas ilusões.


O espelho começa a cobrar dívidas antigas.


Amigos viram fotografias.


Conversas que pareciam eternas acabam guardadas em algum lugar da memória.


Os cães que acompanhavam seus dias ficam apenas em lembranças.


Os lugares onde você gastou noites inteiras desaparecem, substituídos por farmácias, bancos e lojas iguais a todas as outras.


A vida continua.


Essa talvez seja a maior crueldade dela.


Ela não diminui o passo porque alguém foi embora.


O mundo amanhece no horário marcado.


O café continua quente.


Os boletos continuam chegando.


E nenhuma ausência parece grande o suficiente para interromper a rotina.


Mas naquela noite, olhando aquelas pessoas no bar, pensei que o problema nunca foram apenas os monstros.


Eles são poucos.


O problema sempre foi a multidão de pessoas comuns que olha para tudo e diz:


“Não é comigo.”


Essa frase já construiu mais tragédias do que muitos exércitos.


Porque a violência raramente começa com alguém puxando um gatilho.


Às vezes começa com alguém escolhendo não olhar.


A indiferença é confortável.


Ela senta na poltrona.


Liga a televisão.


Passa o dedo pela tela.


Olha uma criança ferida durante três segundos e depois procura um vídeo engraçado para esquecer.


Não porque seja cruel.


Pior.


Porque aprendeu a não sentir.


A alma não desaparece de uma vez.


Ela vai enferrujando.


Primeiro você deixa de sentir a dor do desconhecido.


Depois do velho abandonado.


Depois da mulher agredida.


Depois da criança que nasceu no lugar errado do mundo.


Até que um dia você percebe que também não sente mais a própria dor.


E chama isso de maturidade.


Como se ficar vazio fosse uma forma de crescer.


Passei muitos anos em bares.


Vi muita gente quebrada.


E aprendi uma coisa estranha.


Alguns bêbados eram mais honestos do que muitos homens respeitáveis.


Pelo menos eles sabiam que estavam perdidos.


Os outros escondiam a própria podridão atrás de roupas caras, frases bonitas e discursos sobre valores.


A verdadeira humanidade nunca apareceu quando alguém falou sobre bondade.


Apareceu quando a dor de um desconhecido tirou seu sono.


Quando uma notícia estragou seu café.


Quando você percebeu que aquela fotografia distante não era sobre “eles”.


Era sobre nós.


Porque essa é a parte que ninguém gosta de aceitar.


Nunca existiram eles.


Sempre fomos nós.


E quando essa verdade aparece, as desculpas acabam.


Não é mais a culpa do governo.


Não é mais a culpa de uma ideologia.


Não é mais a culpa do destino.


Sobra você.


Apenas você.


E uma escolha simples que quase todo mundo tenta evitar:


importar-se.


Não para parecer uma pessoa melhor.


Não para ganhar recompensa.


Não para contar aos outros que possui um coração.


Importar-se porque, no dia em que a dor do outro deixar de atravessar você, talvez continue andando pelas ruas, pagando contas e conversando normalmente...


Mas alguma coisa essencial já terá morrido.


E ninguém perceberá.


Porque a humanidade, diferente do corpo, não morre de uma vez.


Ela morre em silêncio.

*O CÉU E O INFERNO FUNCIONAM EM HORÁRIO COMERCIAL*


A sexta-feira chegou ao bar como sempre chegava.
Cheia.
Gente demais tentando parecer feliz por algumas horas. Homens soltando risadas mais altas do que sentiam. Mulheres olhando para o celular enquanto fingiam prestar atenção na conversa. Garrafas sendo abertas como se dentro delas existisse alguma resposta que a semana inteira não conseguiu entregar.
O bar estava lotado.
A música vinha baixa demais para criar clima e alta demais para permitir uma conversa honesta. No fundo, um cantor sozinho brigava com um violão velho e com uma canção que parecia ter envelhecido junto com as pessoas que ainda lembravam dela.
A fumaça dos cigarros subia devagar entre as lâmpadas amareladas. Copos vazios ocupavam as mesas como pequenos relatórios de derrotas particulares.
Eu estava no centro do balcão já que o canto estava ocupado.
O lugar onde ninguém pergunta muito e onde o barman já aprendeu que meu silêncio não precisa de explicação.
Eu gosto desse lugar.
Não porque seja confortável.
Mas porque ninguém espera nada de você quando está sentado diante de um balcão.
Foi quando chegaram os quatro.
Dois casais.
Sentaram perto demais de mim, a mesa atrás de meu banco, porque o bar estava cheio. Não era amizade. Não era interesse. Era apenas falta de espaço.
Mas existe uma coisa curiosa sobre bares.
As pessoas entram pensando que vão beber apenas álcool.
Depois de algumas horas, começam a beber lembranças.
E algumas lembranças descem queimando mais do que qualquer bebida.
No começo, falavam baixo.
Falavam de coisas comuns.


Trabalho.
Viagens.
Conhecidos.
Até que alguém mencionou amor.
Não sei por que as pessoas gostam de falar sobre amor quando estão cansadas dele.
Talvez porque seja mais fácil discutir aquilo que já não conseguem sentir.


A mulher começou dizendo que no começo era diferente.


Sempre começa assim.


“Antes era diferente.”


Essa frase aparece em quase todos os relacionamentos que estão morrendo.


Ela contou que, no início, ele mandava mensagens de madrugada.


Perguntava onde ela estava.


Queria saber como tinha sido o dia dela.


Escutava problemas que hoje ele considera reclamações.


Fazia planos.


Dizia que ela era diferente.


Ele ouviu sorrindo.


Aquele sorriso curto de quem já decidiu que o outro está exagerando.


Depois falou:


— Você está romantizando tudo.


Foi uma frase simples.


Mas algumas frases simples carregam uma crueldade silenciosa.


Ela continuou.


Disse que depois vieram as contas.


O trabalho.


O cansaço.


A televisão.


O celular.


A rotina.


Aquela velha máquina que transforma pessoas apaixonadas em colegas de apartamento.


Ele respondeu que era assim mesmo.


Que ninguém consegue viver de declarações.


Que a vida real não era filme.


Que depois de alguns anos ninguém fica perguntando todos os dias como foi o dia de alguém.


Talvez ele estivesse certo.


Talvez ela também.


O problema é que muitas vezes duas pessoas podem estar certas e ainda assim conseguirem destruir alguma coisa.


Eu continuei bebendo.


Não porque não tivesse opinião.


Tenho opiniões demais.


Esse sempre foi um dos meus problemas.


Fiquei olhando para os dois e pensando em como algumas histórias terminam muito antes de alguém admitir o fim.


O amor raramente morre com uma grande tragédia.


Ele não faz barulho.


Não chama testemunhas.


Não deixa um corpo no chão.


Ele vai desaparecendo aos poucos.


Primeiro vem uma conversa que fica para amanhã.


Depois um abraço que fica para depois.


Depois um beijo que vira hábito.


Depois o silêncio.


Até que um dia duas pessoas acordam na mesma cama e percebem que estão dividindo apenas o colchão.


O resto cada uma carrega sozinha.


O outro casal tentou mudar de assunto.


Não conseguiu.


Quando quatro pessoas bebem o suficiente, sempre aparece alguma verdade guardada.


Vieram acusações antigas.


Pequenas feridas acumuladas.


Coisas que ficaram anos esperando uma oportunidade para sair.


E sexta-feira à noite, em um bar cheio, costuma ser uma excelente oportunidade.


Fiquei pensando naquela velha busca humana pelo Céu.


Essa necessidade de acreditar que existe algum lugar onde tudo finalmente fará sentido.


Talvez exista.


Talvez não.


Nunca tive muita certeza sobre essas coisas.


Mas olhando para aquela mesa, percebi uma coisa:


Talvez o Céu e o Inferno não sejam lugares para onde vamos.


Talvez sejam lugares que construímos enquanto estamos aqui.


O Céu aparece em coisas pequenas.


Quando alguém escuta de verdade.


Quando alguém fica mesmo tendo motivos para ir embora.


Quando alguém pede desculpas sem colocar uma defesa depois da frase.


Quando alguém ama sem transformar carinho em moeda de troca.


Parece pouco.


Mas quase tudo que importa na vida parece pouco antes de desaparecer.


O problema é que nós transformamos amor em contrato.


Eu faço isso por você.


Então você me deve aquilo.


Eu trabalhei.


Então tenho direito ao meu silêncio.


Eu pago as contas.


Então não preciso prestar atenção.


Eu fiquei.


Então você me pertence.


Talvez seja aí que começa o erro.


Porque amar alguém não deveria significar possuir alguém.


Mas nós gostamos de possuir.


Casas.


Objetos.


Memórias.


Pessoas.


Até sentimentos antigos nós tentamos prender.


Depois ficamos surpresos quando alguém tenta respirar longe daquilo que chamamos de amor.


O homem daquela mesa dizia que aquilo era exagero.


Talvez fosse.


Mas existe uma coisa ainda mais triste:


fingir que uma relação continua viva apenas porque duas pessoas ainda dividem o mesmo endereço.


Existem casamentos que continuam apenas porque terminar parece mais difícil do que continuar sofrendo.


Existem pessoas que passam vinte anos juntas e já não sabem mais quem está deitado ao lado.


E existem encontros de uma hora que conseguem lembrar alguém de que ainda está vivo.


O Inferno talvez não seja fogo.


Nem demônio.


Nem castigo.


Talvez seja olhar para alguém que um dia significou tudo e perceber que você ajudou a construir a distância entre vocês.


Tijolo por tijolo.


Com orgulho.


Com silêncio.


Com pequenas crueldades justificadas.


Até que a parede ficou alta demais.


Depois você senta diante dela e pergunta por que ninguém mais consegue chegar perto.


O ódio funciona do mesmo jeito.


Começa pequeno.


Uma mágoa.


Uma palavra.


Uma injustiça.


Depois cresce.


Você começa a separar o mundo.


Os bons.


Os maus.


Os que merecem.


Os que não merecem.


Até que o coração vira uma repartição pública.


Entrada proibida.


Documentos exigidos.


Atendimento somente com agendamento.


O curioso é que quase ninguém percebe quando chega ao Inferno.


Porque ele não parece Inferno.


Ele parece rotina.


As pessoas continuam trabalhando.


Pagando contas.


Postando fotos felizes.


Comprando presentes.


Dizendo “eu te amo”.


Tudo funcionando normalmente.


Talvez seja por isso que ele seja tão eficiente.


O Inferno não precisa de fogo.


Basta parecer normal.


Olhei novamente para aquela mesa.


Ela chorava.


Ele olhava o celular.


Aquilo me pareceu mais violento do que uma discussão.


Porque a raiva ainda reconhece o outro.


O desprezo não.


O desprezo apaga.


O cantor começou outra música.


Ninguém percebeu.


O barman recolheu copos.


A fumaça continuou subindo.


A sexta-feira continuou acontecendo.


O mundo não para quando alguém está destruindo outra pessoa por dentro.


Essa é uma das coisas mais duras sobre estar vivo.


Você pode estar quebrando alguém.


E do lado de fora alguém continua servindo cerveja.


Terminei minha bebida.


Fiquei alguns segundos olhando para aquela cena.


Não sabia quem estava certo.


Talvez ninguém.


Talvez os dois.


Mas pensei que todos nós recebemos pequenas escolhas todos os dias.


Abrir uma porta.


Ou construir uma parede.


Perdoar.


Ou guardar uma dívida emocional.


Amar.


Ou negociar.


O Céu talvez não seja tão distante quanto imaginamos.


Talvez ele apareça quando deixamos de tratar pessoas como propriedades.


E o Inferno talvez já esteja funcionando quando precisamos destruir alguém para provar que estamos certos.


No fim, quase ninguém perde uma guerra contra o outro.


Perde contra aquilo que se tornou.


Saí do bar.


A música ficou para trás.


As vozes ficaram para trás.


A sexta-feira continuou cheia.


Como sempre.


E pensei que talvez o Céu e o Inferno realmente funcionem em horário comercial.


Não precisam de julgamento final.


Não precisam de grandes sinais.


Às vezes basta olhar para quem está ao nosso lado.


Se ainda conseguimos amar sem cobrar pagamento, talvez por alguns minutos tenhamos encontrado o Céu.


Se precisamos odiar para continuar existindo, talvez já tenhamos chegado ao outro lugar.


E o pior de tudo:


não precisamos morrer para descobrir.


Basta continuar vivendo exatamente como estamos.

*Aquilo que o tempo não consegue levar.*


O bar tinha apenas três mesas ocupadas. Um casal discutia em voz baixa no canto, um homem dormia abraçado ao copo como se aquilo fosse uma espécie de documento de identidade, e eu estava no lugar de sempre, perto do balcão, ouvindo uma música antiga sair do junkbox com aquele som cansado de quem também já viveu mais do que deveria.
O dono do bar limpava um copo que nunca parecia ficar limpo. Talvez fosse uma mania. Talvez fosse uma forma de passar o tempo sem precisar pensar nele.
Pedi outra dose.
Não porque precisava beber. Isso seria uma explicação simples demais. Às vezes a gente não procura o álcool. Procura um intervalo. Um lugar onde ninguém pergunte quem você se tornou depois de tantos anos tentando ser alguém.
Fiquei olhando aquelas pessoas espalhadas pelo salão e pensei que todo bar é uma pequena sala de espera.
Cada mesa tem alguém negociando consigo mesmo.
Tem gente tentando esquecer uma conversa que nunca teve coragem de iniciar. Tem gente comemorando uma vitória que já perdeu o sentido. Tem gente rindo alto apenas para não ouvir o próprio silêncio.
Eu conheço bem esse tipo de gente.
Conheço porque já sentei em todas essas cadeiras.
Existe uma despedida que acontece sem barulho. Ela não chega anunciada. Não leva malas. Não deixa bilhete em cima da mesa.
Ela apenas começa a diminuir alguma coisa dentro da gente.
Um dia você percebe que já não ri como antes. Que alguns sonhos perderam a força. Que aquela vontade quase irresponsável de mudar tudo foi substituída por uma lista de desculpas bem organizadas.
É assim que a vida costuma vencer.
Não destruindo.
Adaptando.


Ela não precisa arrancar sua coragem. Basta oferecer conforto suficiente para que você mesmo entregue.
A tragédia não está nos cabelos brancos, nas rugas ou nos anos acumulados.
A tragédia é quando alguém olha para dentro e percebe que virou exatamente aquilo que prometeu nunca ser.
Uma pessoa aceitável.
Uma pessoa que aprendeu a engolir a própria indignação para manter a mesa organizada, o emprego seguro e a fotografia da família sem rachaduras.
Aos poucos, a tempestade vira previsão do tempo.
E depois a culpa vai para os anos.
Como se o calendário tivesse assinado os contratos por nós.
Mas a verdade é menos bonita.
Foram pequenas escolhas. Pequenas desistências. Pequenas covardias guardadas como se fossem maturidade.
O homem do canto pediu mais uma bebida. O casal foi embora sem se despedir. A música mudou no junkbox.
Eu continuei ali.
Pensando que talvez o maior perigo da vida não seja perder tudo.
Talvez seja conservar tudo e perder a si mesmo no processo.
Porque o tempo realmente leva algumas coisas.
Leva a juventude.
Leva a força.
Leva o corpo devagar, sem pedir permissão.
Mas existe uma parte que ele não consegue tocar.
A parte que ainda deseja.
A parte que ainda se revolta.
A parte que ainda é capaz de errar por vontade própria.
Essa parte não morre com o tempo.
Morre quando a gente abandona.
Então eu levantei o copo, não como uma celebração, mas como um aviso para mim mesmo.
Ainda havia alguma coisa ali.
Alguma coisa imperfeita.


Alguma coisa que não tinha aceitado completamente a derrota.
E talvez seja isso que mantém alguns de nós de pé.
Não a esperança.
A esperança é uma palavra muito bonita para uma noite tão cansada.
Talvez seja apenas a recusa silenciosa de entregar tudo.
Porque no fim das contas, o tempo leva apenas o corpo.
O resto...somos nós que deixamos para trás.

*O GATO, OS MORTOS E A ÚLTIMA PÁGINA*
A sala estava do jeito que eu havia deixado.
Não era exatamente bagunça. Bagunça pressupõe algum critério. Aquilo era apenas o resultado de anos deixando as coisas para depois.
Havia caixas de livros encostadas na parede desde a última mudança. Algumas ainda fechadas. Outras abertas. Uma delas tinha o canto rasgado e deixava escapar algumas lombadas, como se os livros estivessem tentando fugir.
No canto da sala havia uma vitrola do final dos anos setenta. Pesada, de madeira escura, com a tampa transparente já marcada pelo tempo. Ao lado dela, uma coleção de vinis que eu vinha carregando de uma casa para outra havia mais tempo do que gostaria de admitir.
Um disco girava.
Eu não estava prestando muita atenção à música.
Talvez fosse esse o motivo de ela ainda estar tocando.
A música servia melhor quando não exigia nada da gente.
Na mesa havia uma xícara de café com whisky irlandês.
Não era um hábito.
Era uma negociação.
O café me mantinha acordado.
O whisky fazia parecer menos estúpido o fato de eu estar acordado.
A televisão permanecia ligada.
Passava um filme antigo.
Muito antigo.
Um daqueles filmes em que as pessoas ainda tinham tempo para ficar em silêncio antes de dizer alguma coisa importante.
Eu gostava disso.
Hoje ninguém tem tempo para silêncio.
Há mensagens.


Notificações.
Contas.
Reuniões.
Senhas.
Aplicativos.
Até a tristeza precisa ser rápida.
Talvez por isso eu ainda gostasse dos livros.
Eles não têm pressa.
Podem deixar um homem sofrer por quatrocentas páginas sem pedir que ele melhore no capítulo seguinte.
Fiquei olhando para as caixas.
Uma delas estava aberta.
Eu não lembrava de ter deixado daquele jeito.
Aproximei-me.
Havia um romance.
Um livro de história.
Um drama.
Um livro que eu tinha comprado e não lembrava por quê.
E outro que eu lembrava perfeitamente por que tinha comprado, mas já não sabia por que ainda conservava.
Foi aí que percebi uma coisa desagradável.
Os livros sobrevivem aos motivos pelos quais foram comprados.
Talvez as pessoas também.
Fiquei algum tempo parado diante daquela caixa.
Depois puxei um dos livros.
A poeira subiu.
E minha memória resolveu trabalhar.
O que foi uma péssima ideia.
Frida Kahlo apareceu primeiro.
Não como retrato.
Como ferida.
Frida.


Ferida.
Uma palavra puxando outra.
Sal.
Salitre.
Saudade.
Uma palavra quase igual a outra, mas com uma letra de diferença.
É curioso como uma letra pode mudar uma vida.
Pensei naquilo e comecei a lembrar de outras coisas.
Pimenta do campo.
Sertão.
Terra seca.
Estrada.
Distância.
Não sei por que certas palavras ficam guardadas enquanto outras desaparecem.
Talvez a memória não seja um arquivo.
Talvez seja um bêbado escolhendo o que levar para casa.
Peguei outro livro.
Jonas.
O Leviatã.
Um homem dentro de um peixe.
Fiquei olhando para a página.
Um homem entra dentro de um peixe e sai de lá com uma missão.
Eu entro dentro de mim mesmo e saio com azia.
Fechei o livro.
Depois pensei em Moisés.
A arca.
Os animais.
Dois de cada.
Ou sete.
A memória não sabe mais.


Ela altera as coisas para poder continuar funcionando.
Pandora apareceu depois.
Sempre a caixa.
Os homens gostam de caixas.
Guardam documentos.
Fotografias.
Cartas.
Remédios.
Armas.
Livros.
Coisas que não querem esquecer.
Coisas que não conseguem jogar fora.
Às vezes guardam mortos.
Eu olhei para as caixas espalhadas pela sala.
Foi quando percebi que talvez tivesse feito a mesma coisa.
Passei anos guardando pessoas dentro de objetos.
Uma fotografia.
Um livro.
Uma música.
Uma rua.
Um cheiro.
Um disco.
Meu pai apareceu assim.
Não numa fotografia.
Num pensamento.
Estava entre os mortos da minha memória como se nunca tivesse saído de lá.
Isso me incomodou.
Não porque eu não quisesse lembrar.
Mas porque algumas lembranças não pedem licença.
Elas simplesmente entram.
E sentam.


Peguei outro livro.
Hamlet.
Depois Hamnet.
A palavra ficou na minha cabeça.
Hamnet.
O menino que morreu cedo demais.
Um nome pequeno para uma ausência enorme.
Pensei nele durante algum tempo.
Talvez todos nós sejamos um pouco Hamnet.
Filhos de alguma coisa que não conseguimos terminar.
Pais de alguma coisa que não conseguimos salvar.
Ou apenas homens que chegaram tarde demais para algumas coisas.
A garganta apertou.
Eu bebi o café.
Ainda estava quente.
O whisky já tinha desaparecido.
Foi então que percebi que eu estava cansado.
Não fisicamente.
Era outro tipo de cansaço.
Aquele que aparece quando a pessoa começa a perceber que passou boa parte da vida tentando compreender coisas que não foram feitas para serem compreendidas.
Peguei outro livro.
Odisseu.
Hades.
Agamenon.
Tirésias.
Os mortos conversando com os vivos.
Aquilo me pareceu familiar.
Meu pai continuava ali.
Não dizia nada.
Talvez soubesse que eu já tinha perguntado demais.


Olhei para ele dentro da minha cabeça.
Queria dizer alguma coisa.
Não disse.
Há conversas que só funcionam depois que uma das pessoas morre.
Talvez porque finalmente desapareça a expectativa de resposta.
Sentei novamente.
A música continuava girando na vitrola.
A agulha fazia aquele ruído pequeno entre uma passagem e outra.
Era um som antigo.
Um som de coisa que ainda precisava de matéria para existir.
Hoje apertamos um botão e a música aparece.
Naquela vitrola, era preciso colocar o disco.
Levantar a tampa.
Baixar a agulha.
Esperar.
Talvez a espera também tenha sido uma tecnologia que perdemos.
A televisão mostrava o filme.
Um homem falava.
Uma mulher chorava.
O homem parecia culpado.
As pessoas daqueles filmes tinham uma quantidade impressionante de tempo para sofrer.
Nós não.
Hoje precisamos sofrer entre uma reunião e outra.
A vida moderna não eliminou a dor.
Apenas organizou a agenda dela.
Ri sozinho.
Foi então que pensei na Casa Verde.
Machado de Assis.
Bacamarte.
A razão tentando medir a loucura.
O homem que decidiu descobrir quem era louco e acabou colocando quase todo mundo dentro da instituição.


Talvez a diferença entre loucura e normalidade seja apenas uma questão de votação.
Alguns recebem diagnóstico.
Outros recebem cargo.
Alguns falam sozinhos.
Outros têm microfone.
A loucura não desapareceu.
Aprendeu a usar gravata.
Olhei para os livros.
Eu já não sabia se estava lendo ou apenas lembrando.
Napoleão apareceu.
Depois Alexandre.
Depois César.
Depois Jesus.
Depois Moisés.
Depois Pandora.
Depois meu pai.
Tudo misturado.
A história inteira parecia ter entrado naquela sala sem pedir autorização.
O problema dos mortos é esse.
Eles não precisam de espaço físico.
Cabem todos dentro de uma cabeça.
Fui até a janela.
Lá fora havia uma noite tranquila.
A casa estava cercada por aquele silêncio de bairro que aparece quando as pessoas finalmente fecham as portas e param de fingir que têm algum controle sobre a própria vida.
Olhei para o céu.
Pensei em Deus.
Nunca tive muita sorte com essa questão.
Há homens que encontram Deus numa igreja.
Outros encontram numa doença.
Alguns encontram no fundo de uma garrafa.


Eu sempre encontrei perguntas.
Talvez Deus seja apenas o nome que damos ao que não conseguimos suportar não compreender.
Voltei para a sala.
O gato entrou pela porta.
Sem cerimônia.
Não perguntou o que eu estava fazendo.
Não perguntou por que havia livros espalhados.
Não quis saber quem era Hamlet.
Passou pela vitrola.
Cheirou uma caixa.
Ignorou um livro.
Parou diante de mim.
Olhou.
Depois continuou andando.
Aquilo me pareceu uma atitude muito inteligente.
Um gato não precisa saber quem foi Napoleão.
Não precisa saber quantos animais entraram na arca.
Não precisa resolver o problema de Deus.
Não precisa compreender a morte.
Precisa de comida.
Água.
Um lugar razoavelmente quente.
E talvez alguma paz.
Nós complicamos tudo.
Inventamos religiões.
Filosofias.
Sistemas.
Teorias.
Construímos universidades para tentar explicar aquilo que um gato resolve dormindo.
Fui até a cozinha.


Coloquei comida no prato.
Chamei.
Ele apareceu.
Comeu.
Sem agradecer.
Como deve ser.
Depois desapareceu.
Procurei pela casa.
Encontrei-o na minha cama.
Já havia tomado posse.
Não discuti.
Naquela altura da vida, eu já tinha perdido discussões mais importantes.
Apaguei a luz.
A sala ficou escura.
A vitrola continuava girando.
A música havia terminado.
O disco permanecia dando voltas.
Fui até ela e desliguei.
O silêncio entrou no lugar da música.
Foi então que tudo pareceu voltar para o lugar.
Os livros voltaram a ser livros.
As caixas voltaram a ser caixas.
Os mortos voltaram para dentro das páginas.
Frida voltou para sua ferida.
Jonas para o Leviatã.
Odisseu para o Hades.
Hamlet para sua dúvida.
Hamnet para sua morte.
Fabiano para a seca.
Severino para sua cova.
Bacamarte para a Casa Verde.


Meu pai voltou para onde quer que os mortos permaneçam quando ninguém está pensando neles.
E eu fiquei ali.
Sentado.
Um homem numa sala.
Nada mais.
Pensei que talvez essa fosse a parte que mais incomodava.
Passamos a vida tentando ser alguma coisa.
Inteligente.
Forte.
Bom.
Importante.
Amado.
Lembrado.
No fim, continuamos sendo apenas um corpo sentado numa sala escura, esperando a próxima coisa acontecer.
O gato se aproximou.
Deitou-se ao meu lado.
Senti a respiração dele.
Regular.
Pequena.
Sem preocupação alguma com o destino da humanidade.
Não perguntou quantos anos eu tinha.
Não quis saber o que eu havia feito da minha vida.
Não perguntou se eu acreditava em Deus.
Não quis saber se eu estava louco.
Não perguntou se eu tinha amado o suficiente.
Apenas ficou.
Foi aí que percebi uma coisa.
Talvez eu tivesse passado tempo demais procurando respostas em homens mortos.
Nos livros.
Nas religiões.


Na filosofia.
Na memória.
E talvez a resposta estivesse naquela coisa simples que eu sempre considerei pequena demais para ser levada a sério.
Uma presença.
Alguém ficando.
Não para resolver.
Não para explicar.
Apenas para não ir embora naquele instante.
Fiquei olhando para o teto.
Pensei que talvez esse fosse o nosso maior erro.
Queremos a resposta inteira.
O livro inteiro.
A história inteira.
Queremos saber o começo antes de começar e o fim antes de continuar.
Queremos compreender o amor antes de amar.
Queremos compreender a morte antes de morrer.
Queremos saber para onde estamos indo antes de dar o próximo passo.
Talvez não exista essa informação.
Talvez exista apenas a próxima página.
O próximo gole.
A próxima noite.
O próximo corpo ao nosso lado.
Senti o gato se aproximar mais.
Fechei os olhos.
Por alguns segundos, não havia Napoleão.
Não havia Moisés.
Não havia Pandora.
Não havia César.
Não havia Jesus.
Não havia Hamlet.


Não havia meu pai.
Não havia Casa Verde.
Não havia Sertão.
Não havia Hades.
Não havia Deus.
Havia apenas o quarto.
O gato.
Meu corpo.
E o silêncio.
Dessa vez, o silêncio não pareceu vazio.
Pareceu suficiente.
Talvez seja isso que a velhice ensina quando finalmente perde a paciência com as próprias perguntas.
Nem tudo precisa de resposta.
Algumas coisas precisam apenas de companhia.
O gato respirava ao meu lado.
A casa permanecia quieta.
As caixas continuavam esperando.
Os livros continuavam fechados.
A vitrola estava parada.
E eu pensei que talvez a última página não fosse o fim.
Talvez fosse apenas o lugar onde finalmente paramos de escrever perguntas.
Então dormi.
Sem descobrir o nome da tristeza.
Sem descobrir o nome de Deus.
Sem descobrir o que seria de mim.
Mas com um gato ao lado.
Para uma vida inteira, talvez isso seja pouco.
Ou talvez seja exatamente o bastante.

*O FOGUETE QUE FICOU NO QUINTAL*


O sábado amanheceu com aquele sol que parece ter preferência pelos sábados.


Durante a semana ele se esconde atrás de nuvens, prédios, compromissos e caras fechadas. No sábado, resolve aparecer. Como se também tivesse direito a descansar.


Eu estava na varanda quando ouvi o primeiro grito.


Depois outro.


Depois uma discussão sobre quem tinha pegado o brinquedo de quem.


As crianças tinham chegado.


Meus filhos, meus netos, suas vozes, suas provocações e aquela capacidade irritante de transformar qualquer cinco minutos de silêncio em uma guerra civil de pequenas proporções.


A casa ficou diferente.


O gato também percebeu.


Era talvez sua primeira experiência com crianças. No começo ficou parado, olhando para aqueles pequenos seres correndo pela sala como quem observa uma espécie desconhecida. Depois descobriram o gato.


Em menos de dez minutos ele já estava sendo disputado.


Um queria pegar.


Outro queria fazer carinho.


Outro dizia que era dele.


O gato olhava para mim com uma expressão que parecia perguntar por que eu tinha permitido aquela invasão.


Não fiz nada.


Algumas coisas precisam ser vividas até o fim.


Inclusive a paciência de um gato.


Na cozinha, as crianças descobriram a torta.


Uma delas desapareceu.


Depois outra parte.


Quando percebi, havia apenas algumas migalhas e uma espécie de silêncio constrangido entre os pratos.


Teria que encomendar mais duas.


Talvez três.


Na sala, atacaram a estante.


Mexeram nos livros.


Puxaram alguns.


Empilharam outros.


Os livros que ainda estavam nas caixas abertas foram parar no chão.


Fizeram castelos.


Muralhas.


Fortalezas.


Durante alguns minutos, aquela pilha de livros que eu passei anos tentando conservar em ordem parecia ter encontrado uma função muito mais honesta.


Servia para brincar.


No pátio, havia três balanços presos às duas árvores.


Nunca tinham parecido um playground.


Naquele sábado, pareciam.


Havia caixas de madeira, pedaços de tábua, coisas esquecidas na garagem.


Então meu neto olhou para um tambor velho e decidiu que aquilo era um foguete.


Um foguete.


Fiquei olhando para ele.


Ele não precisava de tecnologia.


Não precisava de combustível.


Não precisava de autorização da NASA.


Precisava apenas de um tambor velho, algumas tábuas e uma noite estrelada.


E então me lembrei de uma coisa que eu havia esquecido.


Eu também já quis ir para o espaço.


Houve um tempo em que eu acreditava que pisaria num foguete.


Não porque entendesse de ciência.


Porque toda criança precisa inventar um céu onde a vida pareça valer a pena.


O foguete nunca foi um veículo.


Era uma mentira bonita.


Daquelas que a gente conta para si mesmo antes de descobrir que o mundo costuma distribuir mais boletos do que milagres.


Depois vieram os quarenta.


A idade em que o espelho deixa de fazer gentilezas.


Foi quando percebi que nenhum foguete pisou no quintal daquela casa.


O que chegou foram contas.


Responsabilidades.


Cansaço.


Algumas mulheres que passaram como chuva de verão.


Amigos que aprenderam a sorrir para fotografias enquanto enterravam silenciosamente a própria fome de existir.


Eu ainda procurava alguma coisa.


Não sabia exatamente o quê.


Chamava de sentido porque qualquer palavra menor pareceria covardia.


Aos quarenta ainda existe uma certa arrogância.


A gente acredita que está atrasado, mas que ainda dá tempo.


Aos sessenta e dois, a conta fica diferente.


Não dói apenas o corpo.


Doem também as expectativas que sobreviveram tempo demais.


Os dias começam a parecer copos vazios esperando uma bebida que ninguém serve.


Não é exatamente tristeza.


É um cansaço antigo.


Uma coisa que dorme no peito e acorda antes da gente.


Às vezes olho para uma folha caindo de uma árvore e tenho vontade de colocá-la de volta no galho.


É um impulso ridículo.


Mas compreensível.


Porque a gente passa boa parte da vida tentando devolver as coisas ao lugar.


Um casamento ao começo.


Uma amizade ao primeiro abraço.


Um pai à juventude.


Um amor ao instante anterior à despedida.


Só existe um problema.


Folhas não voltam.


Pessoas também não.


E o tempo é o sujeito mais mal-educado que conheço.


Ele não pede licença.


Não negocia.


Não aceita pagamento parcelado.


Enquanto isso, o mundo continua vendendo a mesma velha mentira.


Todo mundo merece um dia melhor.


É bonito dizer isso.


O problema é que ninguém ensina o caminho.


Ensinaram-me a trabalhar.


A competir.


A produzir.


A acumular.


A parecer bem.


Ninguém ensinou a existir.


Talvez por isso tanta gente tenha aprendido a construir uma vida que parece ótima por fora e não serve para morar por dentro.


Basta abrir qualquer tela.


Casas perfeitas.


Viagens perfeitas.


Corpos perfeitos.


Casamentos perfeitos.


Famílias sorrindo diante de uma paisagem que provavelmente alguém levou vinte minutos para escolher.


A vida virou vitrine.


E ninguém quer aparecer com a mercadoria quebrada.


Eu olho para antigos amigos.


Alguns parecem ter vencido.


Casas maiores.


Carros melhores.


Viagens.


Fotografias.


Sorrisos impecáveis.


Mas já não acredito muito nessa luz.


Existe um sol artificial iluminando a terra da normalização.


É uma luz forte.


Só não aquece.


Ali, o verbo ser foi lentamente assassinado pelo verbo ter.


As pessoas compram identidades em prestações.


Vendem a própria autenticidade em troca de aprovação.


Sorriem como quem cumpre expediente.


Abraçam como quem assina contrato.


A empatia virou artigo de luxo.


A delicadeza passou a parecer fraqueza.


A verdade tornou-se inconveniente.


E talvez seja por isso que eu viva dentro de uma espécie de bolha.


De um lado, o mundo do faz de conta.


Do outro, o mundo real que quase ninguém parece querer habitar.


Eu ainda acredito em coisas que parecem ter ficado velhas.


Palavra.


Lealdade.


Silêncio.


Afeto.


Presença.


Acredito que uma pessoa pode sentar ao lado da outra sem precisar fotografar o momento.


Acredito que carinho não precisa de testemunhas.


Acredito que uma amizade não deveria depender de utilidade.


Talvez eu esteja errado.


Aos sessenta e dois, já aprendi que estar errado é uma das poucas coisas que ainda podemos fazer de graça.


Durante muitos anos procurei minha rainha da beleza.


Não a mulher das revistas.


Essa desaparece quando a maquiagem encontra a primeira lágrima.


Eu procurava outra coisa.


Uma beleza sentimental.


Uma mulher cuja inteligência soubesse abraçar sem tocar.


Que pudesse permanecer em silêncio sem transformar o silêncio em distância.


Alguém cuja alma não estivesse à venda por curtidas, status ou conveniências.


Ainda procuro.


Talvez ela também esteja perdida em algum balcão de bar.


Talvez esteja cansada.


Talvez tenha desistido.


Talvez tenha encontrado alguém.


A vida não costuma prestar contas.


Naquela tarde, porém, havia outras coisas acontecendo.


Meu neto continuava construindo o foguete.


Pegou uma caixa.


Depois uma tábua.


Depois o tambor.


Pediu ajuda para amarrar uma coisa na outra.


Disse que precisava ficar pronto antes da noite.


Queria olhar as estrelas de dentro dele.


Eu ajudei.


Não porque acreditasse que aquilo fosse realmente um foguete.


Mas porque, naquele momento, percebi que talvez eu tivesse passado tempo demais tentando provar que os foguetes não existiam.


Talvez essa seja uma das doenças da idade.


A gente descobre como o mundo funciona e começa a desprezar quem ainda acredita que ele pode funcionar de outra maneira.


Olhei para aquelas crianças correndo pelo pátio.


O gato fugindo de um lado para outro.


Os livros espalhados.


As migalhas da torta.


As caixas.


As tábuas.


O tambor.


A casa completamente fora do lugar.


E, pela primeira vez em muito tempo, aquilo não me incomodou.


Talvez porque o caos deles tivesse alguma coisa que o meu mundo organizado perdeu.


Vida.


Não a vida vendida nas fotografias.


A outra.


A que grita.


Que suja.


Que derruba.


Que quebra.


Que pergunta.


Que inventa foguetes com um tambor velho.


Fiquei pensando que talvez envelhecer seja descobrir que o mundo nunca prometeu salvação.


O foguete não veio.


Aos quarenta, eu descobri.


Aos sessenta e dois, aceitei.


Mas naquele sábado alguma coisa mudou.


Porque o foguete não precisava mais ser meu.


Ele estava ali.


No quintal.


Construído pelas mãos pequenas de quem ainda não sabia que o mundo cobra caro pelos sonhos.


E talvez seja isso que eu queira para eles.


Que demorem muito para descobrir.


Que tenham coragem de olhar para as estrelas sem perguntar quanto custa.


Que não confundam sucesso com felicidade.


Que não entreguem a própria autenticidade em troca de aplausos.


Que saibam amar sem transformar o amor em vitrine.


Que tenham amigos capazes de permanecer quando não houver fotografia.


Que aprendam a sentir a dor sem fazer dela uma identidade.


Que não tenham vergonha da delicadeza.


Que não deixem ninguém convencer que possuir é mais importante do que ser.


E, principalmente, que vivam.


De verdade.


Porque talvez a grande tragédia não seja envelhecer.


Talvez seja chegar aos sessenta e dois, olhar para trás e perceber que passamos a vida inteira tentando parecer vivos.


Naquela noite, meu neto entrou no tambor.


Olhou para o céu.


Perguntou se eu achava que dava para chegar até as estrelas.


Eu olhei para ele.


Depois olhei para o foguete improvisado.


E disse que sim. Olhe bem para o infinito, feche os olhos e demore um pouco. Abra, feche e demore. Isso irá fotografar o céu. Depois, ligue a inguinação e voe.


Ele sorriu.


Foi um sorriso verdadeiro.


Sem câmera.


Sem postagem.


Sem filtro.


E foi provavelmente a coisa mais verdadeira que vi naquele sábado.


Fiquei na varanda enquanto as crianças brincavam.


O sol já tinha ido embora.


As estrelas começaram a aparecer.


E, por alguns minutos, eu não pensei nos quarenta.


Nem nos sessenta e dois.


Nem nas coisas que não voltam.


Nem nos amigos que se perderam.


Nem nas mulheres que foram embora.


Nem nos boletos.


Nem nesse mundo que aprendeu a vender felicidade em prestações.


Fiquei apenas ali.


Ouvindo meus netos.


E percebi uma coisa que talvez eu tenha levado sessenta e dois anos para entender:


alguns foguetes não foram feitos para sair do chão.


Foram feitos para nos lembrar de olhar para cima.


E talvez seja isso que importa.


Não chegar às estrelas.


Mas não perder a capacidade de procurá-las.

*O QUARTZO E O BASALTO*


*SiO₂*


O primeiro número apareceu na tela antes que alguém terminasse o café.


Era uma reunião de escritório.


Daquelas que começam com uma apresentação cheia de gráficos e terminam com alguém dizendo que precisamos melhorar os indicadores.


No meio, vieram os números.


Depois as queixas.


Depois mais números.


Perguntas.


Repreguntas.


Questões que não tinham sido pontuadas direito e deixaram dúvidas em alguns.


Era só ter explicado antes.


Mas isso seria esperar demais de uma reunião.


Alguns perguntaram.


Outros ficaram quietos.


Era mais seguro.


A sala era bonita. Cara. Vidros por todos os lados. Mesa grande. Ar-condicionado. Uma tela enorme na parede.


O nome da empresa também era bonito.


Dava a impressão de que ali se fabricavam soluções.


Nomes assim são úteis.


Fazem parecer que existe alguma coisa acontecendo.


Eu olhava para a tela e pensava que talvez existisse.


Mas não.


Existiam números.


E pessoas tentando fazer os números parecerem importantes.


Foi aí que uma coisa começou a me incomodar.


Não eram as cobranças.


Cobrança faz parte do trabalho.


Todo mundo cobra alguém.


E quase sempre existe alguém cobrando quem está cobrando.


É uma cadeia alimentar.


Só que, naquela sala, havia uma combinação que me incomodava.


Número e ser vivo.


Caso 1847.


Protocolo 3921.


Atendimento concluído.


Meta atingida.


Parece simples.


Só que o número não acorda de madrugada.


O número não perde o emprego.


O número não tem uma mãe doente.


Não fica olhando para o teto tentando descobrir como vai pagar uma conta.


Não sente vergonha.


Não sente medo.


Não se arrepende.


O número não sabe que existe.


O sujeito atrás dele sabe.


E essa diferença parecia não caber naquela sala.


Precisamos dos números.


Eu sei.


Seria idiota dizer o contrário.


É preciso registrar.


Classificar.


Medir.


Organizar.


Sem isso, ninguém sabe quantos entraram, quantos saíram, quantos foram atendidos.


O problema começa quando o número deixa de ser ferramenta.


Quando passa a ser o objetivo.


Quando a pessoa deixa de ser alguém que precisa de uma solução e vira apenas mais um caso atendido.


Atendido.


Essa palavra me incomodou.


Atendido não significa resolvido.


Uma ligação é atendida.


Um telefone é atendido.


Uma torneira pode ser atendida.


Uma pessoa também.


Mas uma pessoa não é uma torneira.


Embora, naquela sala, às vezes parecesse.


As pessoas que queriam os números estavam longe.


Não em quilômetros.


Em outra coisa.


Talvez nunca tivessem visto um daqueles rostos.


Talvez tivessem visto.


Depois de algum tempo, isso não faz muita diferença.


Um rosto vira estatística quando você precisa justificar uma meta.


E o mais engraçado era que essas pessoas também estavam sendo pressionadas.


Por quem?


Por gente que queria solução.


Aí estava a piada.


Queriam solução.


Cobravam números.


Queriam mais casos assistidos.


Mais atendimentos.


Mais produtividade.


Mais eficiência.


Mais indicadores.


E, no final, mais números.


Poucas soluções.


A máquina estava funcionando perfeitamente.


Só não estava resolvendo nada.


Foi quando pensei no quartzo.


Não porque eu entendesse de geologia.


Não entendia.


Mas algumas coisas aparecem na cabeça quando você está cansado de ouvir a mesma conversa.


O quartzo é comum.


Está por toda parte.


A matéria-prima não tem nada de especial.


Talvez nós também sejamos assim.


Gostamos de acreditar que somos únicos.


É uma necessidade humana.


Ajuda a suportar a própria existência.


Dizemos que somos diferentes.


Que temos nossa história.


Nosso jeito.


Nossos problemas.


Mas a matéria-prima é quase sempre a mesma.


Medo.


Desejo.


Raiva.


Solidão.


Vergonha.


Esperança.


Vontade de ser reconhecido.


Todo mundo carrega alguma coisa disso.


O que muda é a formação.


E então pensei no basalto.


Na minha cabeça, ele era o mundo.


A pressão.


O lugar.


A família.


O trabalho.


As perdas.


Os fracassos.


As humilhações pequenas.


As pessoas que ficaram.


As que foram embora.


As que deveriam ter ficado.


Tudo aquilo que chega de fora e, depois de algum tempo, deixa de parecer de fora.


O basalto não fica simplesmente ao redor.


Ele entra.


Deixa marcas.


Algumas ficam tanto tempo que começamos a chamá-las de personalidade.


Foi aí que percebi que talvez a reunião tivesse alguma coisa a ver com isso.


O sistema também entra na gente.


Começa pedindo um número.


Depois pede uma meta.


Depois um resultado.


Depois uma justificativa.


Quando você percebe, está falando como a planilha.


Usando as mesmas palavras.


Pensando nos mesmos números.


Medindo pessoas pelo que pode ser contado.


Talvez fosse isso que me incomodava.


O mundo nos forma.


O sistema nos classifica.


E nós confundimos as duas coisas.


Uma coisa deixa marcas.


A outra coloca etiquetas.


Uma participa daquilo que nos tornamos.


A outra quer saber onde nos colocar.


É mais fácil assim.


Cargo.


Função.


Resultado.


Histórico.


Currículo.


Nome.


Número.


Tudo cabe numa planilha.


Menos a parte que interessa.


A planilha não quer saber quem você era antes.


Não pergunta o que fizeram com você.


Não pergunta o que você fez consigo mesmo.


Quer uma célula preenchida.


E nós preenchemos.


Porque é mais fácil.


Talvez seja essa a parte mais miserável.


Nós mesmos ajudamos a desaparecer.


Depois reclamamos que ninguém nos enxerga.


É uma piada ruim.


Mas também não dá para jogar o basalto fora.


Essa é a parte desagradável.


Se eu arrancar tudo o que me formou, o que sobra?


Não sei.


Talvez uma pedra.


Talvez nada.


Durante muito tempo pensei que identidade fosse encontrar alguma coisa escondida dentro de nós.


O verdadeiro eu.


Uma espécie de núcleo intacto.


Hoje acho isso bonito demais para ser verdade.


O que existe em mim antes do mundo?


Não sei.


O que o mundo colocou em mim?


Isso eu sei.


Algumas coisas eu aceitei.


Outras eu recusei.


Algumas tentei arrancar.


Não consegui.


Outras entraram tão fundo que passaram a parecer minhas.


É difícil separar.


Talvez não seja para separar.


O basalto me feriu.


Também me deu contorno.


Não agradeço pelo que doeu.


Não sou tão idiota.


Mas reconheço as marcas.


Existe uma diferença.


Talvez identidade seja isso.


Não uma coisa pura.


Não uma essência esperando ser descoberta.


Uma disputa.


O que sou.


O que fizeram de mim.


O que aceitei.


O que recusei.


E o que ainda consigo fazer com tudo isso.


Foi quando pensei novamente no homem dentro do protocolo.


Talvez fosse esse o problema.


O protocolo não era o homem.


O número não era o homem.


Mas, depois de algum tempo, todos começaram a agir como se fosse.


E fazemos isso fora do escritório também.


Transformamos alguém em um erro.


Em uma dívida.


Em um cargo.


Em um passado.


Em uma aparência.


Em uma opinião.


Depois esquecemos o resto.


É mais confortável.


Um ser humano inteiro dá trabalho.


Um número não.


Saí da reunião com a sensação de que havíamos contado tudo.


Menos o que importava.


Os números estavam corretos.


As planilhas fechavam.


Os indicadores provavelmente seriam apresentados como bons.


No dia seguinte, tudo estaria ali novamente.


As metas.


Os protocolos.


As cobranças.


Os gráficos.


As pessoas.


Ou o que sobrasse delas depois dos gráficos.


Fiquei pensando no quartzo.


No basalto.


No número.


Talvez os três tivessem mais em comum do que eu gostaria.


O quartzo não escolheu onde nasceu.


Nós também não.


O basalto participou da formação.


O mundo também.


O número veio depois.


Esse, pelo menos, deveria ser apenas uma ferramenta.


Mas talvez a pior coisa não seja virar número.


Talvez seja começar a acreditar que somos um.


E aí fica difícil saber onde termina o que somos e começa aquilo que colocaram em nós.


Talvez seja isso que chamamos de identidade.


Não saber exatamente quem somos.


Mas ainda conseguir perceber quando estão tentando nos transformar em outra coisa.


Somos quartzo.


Somos basalto.


Somos a pressão.


Somos as marcas.


E, às vezes, somos também o idiota que olha para tudo isso e tenta entender.


Saí da sala.


Ninguém perguntou pelo homem dentro do protocolo.


Também não esperava que perguntassem.


Afinal, a reunião tinha terminado.


E o indicador precisava fechar.

*A REVOLUÇÃO DOS CANSADOS* - Naquela manhã, ele caminhava para o escritório sob um céu baixo e cinzento, desses que parecem ter desistido antes mesmo de o dia começar. A cidade estava suja. Havia lixo acumulado junto às calçadas, restos de papel molhado, garrafas vazias e a fumaça dos fogos ainda suspensa no ar. De algum lugar vinha o grito dos prós. Do outro lado da rua, os contras respondiam. Todos tinham uma opinião. Todos pareciam ter uma certeza. Ele apenas continuava andando.

Durante anos, tinha acreditado que precisava convencer alguém de alguma coisa. O patrão de que trabalhava demais. A família de que fazia o possível. Os amigos de que estava bem. O mundo de que ainda era útil. Era um trabalho cansativo. Talvez mais cansativo do que o próprio trabalho.

Com o tempo, começou a perder alguns talentos. Primeiro, o talento de discutir. Depois, o de explicar. Por fim, perdeu o hábito de parecer indignado. Descobriu que a indignação permanente era apenas outra forma de cansaço, e que quase todo mundo estava cansado demais para admitir isso.

Passou diante de um bar ainda com as portas meio abertas. Lá dentro, algumas mesas sujas, cadeiras tortas e homens olhando para copos como se esperassem deles alguma resposta. Havia fumaça no ar e silêncio entre uma frase e outra. O lugar tinha a aparência honesta das coisas que já não prometem nada.

Ele parou por alguns segundos diante da porta. Pensou em entrar. Não entrou. Ainda precisava bater ponto.

Na rua, alguém gritava sobre liberdade. Outro gritava contra. Um terceiro filmava tudo com o telefone. Mais adiante, um cartaz anunciava um futuro melhor. Estava colado sobre uma parede coberta de mofo. Ele achou aquilo particularmente engraçado.

A cidade continuava fabricando heróis. Heróis de ocasião. Mártires de fim de semana. Revolucionários que falavam alto até a hora em que precisavam voltar para casa porque havia reunião na segunda-feira.

Ele já tinha visto aquilo antes.

As guerras eram travadas por homens que quase nunca apertavam o gatilho. As virtudes eram defendidas por gente que não abriria mão do próprio conforto nem por quinze minutos. E os grandes discursos serviam, muitas vezes, para esconder uma coisa muito simples: ninguém fazia a menor ideia do que estava fazendo aqui.

Talvez fosse isso que mais o incomodasse.

Não a mentira. A necessidade de fingir que ela não existia.

Continuou caminhando. Um caminhão passou e levantou água suja da sarjeta. Molhou sua calça. Ele não reclamou. Havia coisas piores.

Pensou nas bandeiras que já tinha carregado. Algumas tinham mudado de dono. Outras tinham mudado de cor. Algumas continuavam sendo erguidas pelas mesmas pessoas que, anos antes, juravam combatê-las. A política tinha esse talento extraordinário de transformar convicções em mercadoria.

Ele estava cansado.

Não apenas do trabalho. Não apenas das pessoas. Estava cansado da obrigação de se importar com tudo.

Talvez fosse uma espécie de revolução.

Parar de explicar.

Parar de justificar.

Parar de correr atrás da cenoura enquanto alguém segura o chicote.

Ele queria uma mesa de bar. Uma cerveja gelada. Uma mulher inteligente rindo do seu cinismo. Uma motocicleta velha esperando na calçada. Quilômetros sem destino. Nada grandioso. Nada que precisasse ser fotografado, publicado ou transformado em opinião.

O escritório aparecia no fim da avenida.

As janelas refletiam o céu cinzento. Gente entrava apressada. Gente saía fumando. Gente carregava pastas, problemas, boletos e pequenas ambições cuidadosamente embaladas.

Ele olhou para o prédio.

Por um instante, teve vontade de simplesmente virar as costas.

Não virou.

Ainda não.

Mas alguma coisa dentro dele já tinha ido embora fazia tempo.

Talvez liberdade não fosse fugir.

Talvez fosse apenas chegar ao ponto em que já não se precisa provar nada.

Ela não chegava montada num cavalo branco. Não havia música. Não havia aplausos. Não havia discurso.

Às vezes aparecia numa manhã miserável, diante de um escritório qualquer, com olheiras, o bolso quase vazio e uma paz estranha no peito.

Para quem olhava de fora, aquilo parecia derrota.

Ele sabia que podia ser.

Mas também desconfiava de outra coisa.

Talvez a derrota fosse passar a vida inteira tentando parecer vencedor.

E talvez, depois de tantos anos, a verdadeira revolução começasse exatamente ali.

Quando um homem cansado olhava para o mundo, dava de ombros e dizia, sem raiva e sem heroísmo:

— Hoje, não.

Depois entrava no escritório.

Porque até a liberdade, às vezes, precisa bater o ponto.

E ninguém precisava saber que, por dentro, ele já tinha ido embora.

*O QUE A RAIZ SABE*

Às duas da madrugada eu acordei com aquela sensação desagradável de quem não tinha dormido direito, apenas tinha perdido algumas horas. Fiquei olhando para o teto. O quarto estava escuro. O silêncio não era exatamente silêncio. Havia um carro passando longe, um motor qualquer insistindo em existir, e os grilos fazendo seu trabalho de sempre, como se a madrugada ainda tivesse alguma importância.

O gato estava ao lado da minha cabeça. Ficou me olhando por alguns segundos. Depois levantou uma das patas e colocou-a sobre a minha testa. Talvez fosse carinho. Talvez fosse um aviso. Talvez estivesse apenas tentando me mandar de volta para onde eu deveria estar.

Não funcionou.

Levantei.

Fui até a varanda e acendi um charuto. Eu já sabia que o sono não voltaria. Quando a cabeça decide andar pela casa às duas da manhã, não existe travesseiro capaz de fazê-la parar.

O gato veio atrás.

Parou na porta da varanda e ficou me olhando. Parecia querer dizer: volte para a cama, homem. Você já tem idade suficiente para saber que pensar depois da meia-noite nunca termina bem.

Ignorei.

Fiquei ali, fumando, ouvindo os grilos cantarem na boêmia da madrugada e alguns veículos atravessarem a distância. A cidade dormia. Ou fingia.

Comecei a pensar nas imagens que a gente carrega.

Não nas fotografias.

Nas outras.

Aquelas que ficam dentro da cabeça.

A imagem de quem fomos. A imagem de quem deveríamos ter sido. A imagem que alguém criou de nós e que, por alguma razão estúpida, decidimos acreditar.

Talvez uma parte da nossa desgraça venha daí.

Passamos anos tentando caber numa fotografia que já não existe.

Olhei para a fumaça do charuto.

A fumaça desaparecia.

Pensei que nós também fazemos isso.

Só que demoramos mais.

A gente passa a vida tentando ser reconhecido. Quer aplauso. Quer aprovação. Quer que alguém diga que valeu a pena. E quando isso não acontece, começamos a acreditar que fomos derrotados.

Mas talvez não exista derrota.

Talvez exista apenas a necessidade de encontrar um lugar onde ninguém esteja distribuindo medalhas.

Um pedaço de chão.

Qualquer um.

Mesmo escondido.

Porque às vezes tudo o que você precisa é parar de disputar o lugar onde os outros foram coroados.

Fincar os pés em outro lugar.

E ficar.

Pensei também naquilo que nos alimenta quando tudo dá errado.

Não estou falando de grandes discursos.

Às vezes é uma lembrança da mãe.

Um café.

Um abraço que aconteceu há vinte anos.

Uma conversa idiota que, por algum motivo, ainda mora na memória.

É estranho como a vida consegue nos manter vivos com coisas pequenas enquanto o mundo inteiro insiste em vender soluções enormes.

Talvez sobreviver seja isso.

Aprender novamente o tamanho das coisas.

Uma respiração.

Um copo d’água.

Um cigarro.

Um gato colocando a pata na sua testa às duas da manhã.

Não parece muito.

Mas, quando tudo desaba, quase nada parece muito.

E ainda assim é o suficiente para atravessar mais uma noite.

A graça também não é gentil o tempo inteiro.

Essa é outra mentira que contamos para nós mesmos.

Às vezes a vida acolhe.

Às vezes ela bate.

Às vezes ela simplesmente passa por cima.

Há coisas que não se resolvem com frases bonitas. Há perdas que não ensinam nada. Há abandonos que não escondem nenhuma lição. Há pessoas que vão embora e deixam apenas um espaço vazio onde antes havia rotina.

E você fica olhando para aquilo.

Esperando alguma explicação.

Ela não vem.

Então você aprende a respirar sem ela.

Foi aí que pensei nas chances.

Elas raramente chegam em horário conveniente.

Quase nunca batem na porta.

Algumas aparecem quando você está cansado, quebrado, desconfiado, com o coração fechado e uma lista enorme de motivos para dizer não.

E talvez esse seja o problema.

A gente espera estar inteiro para começar de novo.

Só que ninguém está inteiro.

Não depois de certa idade.

Depois de algumas perdas, algumas traições, alguns funerais e algumas noites mal dormidas, você descobre que inteiro é uma palavra para quem ainda não prestou atenção.

O que resta é o que interessa.

Aquela parte que sobreviveu.

É dali que você tira alguma coisa.

Não porque a dor seja bonita.

Dor não é bonita.

Dor é dor.

Mas às vezes ela deixa alguma coisa escondida.

Uma habilidade.

Uma lucidez.

Uma coragem que você não sabia que tinha.

Um tipo de ouro ordinário, desses que não servem para comprar nada, mas servem para lembrar que você ainda está aqui.

O problema é que também carregamos nossas próprias imagens como condenados.

Repetimos insultos antigos.

Vozes de pessoas que já foram embora.

Frases ditas por quem nunca nos conheceu de verdade.

Você é isso.

Você não consegue.

Você nunca vai mudar.

Você não é suficiente.

E, depois de algum tempo, nem sabemos mais quem disse.

Somos nós.

A voz foi incorporada.

Virou morador.

E continuamos pagando aluguel para ela.

Talvez seja preciso expulsar algumas imagens.

Não esquecer.

Expulsar.

Porque aquilo que você repete todos os dias acaba parecendo verdade.

E algumas verdades são apenas feridas com boa memória.

O charuto estava quase no fim.

O gato continuava na porta.

Agora parecia menos paciente.

Olhei para ele e pensei que os animais talvez tenham entendido alguma coisa que nós complicamos demais.

Eles não ficam tentando justificar a existência.

Eles dormem quando têm sono.

Comem quando têm fome.

Vão embora quando querem.

E, quando gostam de você, simplesmente ficam.

Nós transformamos tudo em contrato.

Até o afeto.

Até a saudade.

Até o abandono.

Quando alguém parte, queremos explicações.

Quando alguém fica, queremos garantias.

Quando tudo termina, queremos saber por quê.

Mas o rio não explica por que seca.

Ele apenas seca.

E talvez algumas pessoas sejam assim.

Elas atravessam a nossa vida, deixam alguma coisa, levam outra e desaparecem.

Não é justo.

Nunca foi.

Então chega a hora de quebrar.

Não necessariamente por fraqueza.

Às vezes quebrar é a única maneira de deixar alguma coisa ir embora.

A gente segura tanto que começa a confundir apego com amor.

Não é a mesma coisa.

Amor sabe partir.

Apego exige cadáveres.

Fiquei olhando para a rua vazia.

Pensei no medo de esperar.

A espera é cruel.

Ela coloca você diante de si mesmo sem distração.

Sem barulho.

Sem pessoas.

Sem a próxima novidade.

E talvez seja justamente ali que estejam os tesouros que ninguém encontra porque ninguém suporta ficar tempo suficiente no escuro.

A gente foge.

Liga a televisão.

Abre o celular.

Procura alguém.

Procura qualquer coisa.

Tudo para não ficar sozinho com a própria cabeça.

Eu também fiz isso.

Muitas vezes.

Talvez ainda faça.

Mas naquela madrugada eu estava ali.

Sem fugir.

E percebi uma coisa desagradável.

A vida não estava me devendo nada.

Nem explicações.

Nem reparações.

Nem um final bonito.

Ela simplesmente continuava.

O mundo continuaria girando depois de mim.

Os grilos continuariam cantando.

Os carros continuariam passando.

Alguém estaria beijando alguém.

Alguém estaria chorando.

Alguém estaria nascendo.

Alguém estaria morrendo.

E nada disso pediria minha autorização.

Talvez maturidade seja aceitar essa humilhação.

Você não é o centro.

Nunca foi.

Mas isso não significa que sua vida não tenha valor.

Significa apenas que você precisa parar de esperar que o mundo confirme isso.

A Terra continua.

Ela parece cansada.

Mas continua.

E talvez ainda queira ser tocada.

Não com discursos.

Com presença.

Com verdade.

Com coragem para sentir novamente aquilo que você passou anos tentando anestesiar.

Inclusive a partida.

Porque todo recomeço cobra alguma coisa.

Às vezes cobra uma pessoa.

Às vezes uma versão antiga de você.

Às vezes uma esperança que já estava morta e você ainda carregava como se fosse viva.

Eu terminei o charuto.

O gato continuava olhando.

Talvez fosse hora de voltar.

Talvez não.

Fiquei mais alguns minutos.

Pensei nas raízes.

Elas não são bonitas.

Ficam enterradas.

Ninguém fotografa uma raiz.

Ninguém elogia uma raiz.

Ela trabalha no escuro.

Aguenta a terra.

Encontra água onde parece não existir nada.

E, se tiver sorte, algum dia aparece uma flor.

Talvez seja isso que nos resta.

Não tentar parecer flor o tempo inteiro.

Aceitar a raiz.

Aceitar o escuro.

Aceitar a parte de nós que ninguém vê e que talvez nem nós mesmos gostemos muito.

Porque pode ser justamente ali que alguma coisa esteja começando.

Não uma versão melhor.

Não uma versão perfeita.

Apenas uma versão verdadeira.

Olhei novamente para o gato.

Ele virou e voltou para a cama.

Sem discurso.

Sem terapia.

Sem conclusão.

Fui atrás.

A madrugada continuava lá fora.

E, pela primeira vez naquela noite, não precisei que ela me dissesse nada.

Eu já tinha entendido.

Algumas coisas precisam morrer.

Algumas precisam ser deixadas.

Algumas precisam ser perdoadas.

E algumas precisam permanecer enterradas.

Não para desaparecer.

Mas para criar raiz.

Porque, no fim, talvez reescrever a própria vida não seja começar do zero.

É olhar para o que sobrou.

Parar de mentir sobre isso.

E decidir, mesmo com medo, que ainda dá para plantar alguma coisa.

*O BAR ONDE AS ALMAS BEBEM* - O bar nunca fechava.
Porque o bar era o mundo.
Os balcões eram estradas polidas pelos cotovelos de homens que aprenderam a negociar a própria alma antes mesmo de aprenderem a pronunciá-la. Ali ninguém chegava para beber. Chegava para esquecer o nome daquilo que um dia acreditou ser.
O barman nunca servia bebidas.
Servia sentenças.
Seu rosto era o meu, alguns fracassos mais velho. Seus olhos não julgavam. Apenas devolviam a imagem de um homem que descobriu cedo demais que a consciência é o único carrasco que jamais dorme.
Sentava-me diante dele como quem comparece ao próprio julgamento.
Não havia defesa.
Ao meu redor, os copos tilintavam como sinos de um funeral interminável. As vozes enchiam o ambiente, mas nenhuma dizia coisa alguma. Eram ruídos produzidos por almas que confundiram existência com sobrevivência e passaram a chamar adaptação de virtude.
As cadeiras vazias pesavam mais do que as ocupadas.
Porque a ausência também possui corpo.
Ela senta ao nosso lado, acende um cigarro invisível e nos acompanha até o último gole.
Acendi meu charuto.
A fumaça subiu lentamente, desenhando pensamentos que jamais encontrariam repouso. Não era fumaça.
Eram ideias recusando o cemitério.
Flutuavam acima da minha cabeça como corvos circulando um campo onde Deus esqueceu de aparecer. Algumas morriam antes de ganhar forma. Outras retornavam para devorar aquilo que eu ainda chamava de esperança.
O barman serviu o whisky.
Não veio da garrafa.
Veio dos grãos espalhados pelo caminho. Da terra pisada por desconhecidos. Das derrotas herdadas de homens que nunca conheci. Das lágrimas que não eram minhas, mas que fermentaram dentro de mim até perderem o gosto de sal e adquirirem o gosto amargo da lucidez.
Bebi devagar.
Cada gole era um verso.
Cada verso era uma hemorragia que aprendera a sangrar para dentro.
Foi então que compreendi a maior mentira já aceita pelos frequentadores daquele lugar.
Não haviam destruído os valores.
Apenas mudaram seus nomes.
A covardia vestiu a roupa da prudência.
A indiferença passou a ser maturidade.
O egoísmo ganhou o perfume da liberdade.
A mentira tornou-se diplomacia.
A rendição foi chamada de paz. E a consciência... essa foi trancada no porão para que ninguém precisasse ouvir seus gritos durante o jantar.
Todos brindavam.
Não à vida.
Mas ao alívio de não precisarem mais distinguir o certo do conveniente.
É mais fácil dormir quando se assassina o espelho.
Olhei novamente para o barman.
Ele sorriu com uma tristeza antiga.
Como quem sabe que nenhum homem sai dali melhor do que entrou. Apenas mais consciente da própria escuridão.
E talvez seja esse o verdadeiro inferno.
Não o fogo.
Nem os demônios.
Mas caminhar entre milhões de pessoas e descobrir que a maioria já não vendeu a alma.
Descobrir que sequer acredita possuir uma.
Apaguei o charuto.
As últimas espirais desapareceram no teto como desaparecem as civilizações: não quando deixam de respirar, mas quando deixam de reconhecer o peso da verdade.
Deixei o copo vazio sobre o balcão.
O barman nada disse.
Também não era necessário.
Há silêncios que escrevem poemas com mais sangue do que qualquer homem conseguiria suportar

*Era outra noite no pub*

Eu ainda estava procurando um lugar que parecesse menos falso que os outros. Não necessariamente um lugar bonito. Beleza demais sempre me deixou desconfiado. Eu queria apenas um lugar onde ninguém precisasse fingir tanto.

Ela era uma das inúmeras profissionais que frequentavam o escritório. Já havíamos conversado algumas vezes. Coisas de trabalho. Horários. Processos. Café ruim. Aquele tipo de conversa que mantém duas pessoas civilizadas e completamente desconhecidas.

Naquela noite resolvemos sair.

Conhecer um pub.

Talvez conhecer um ao outro.

O segundo sempre dá mais trabalho.

Sentamos, pedimos alguma coisa e começamos pelo roteiro habitual dos primeiros encontros. Trabalho. Filmes. Música. Viagens. Relacionamentos. Pequenas biografias cuidadosamente editadas para não assustar ninguém.

As pessoas fazem isso.

Entregam uma versão resumida de si mesmas.

Como se fossem currículos emocionais.

Depois de algum tempo, a conversa cansou de ser educada.

Foi quando ela começou a falar de coisas que não cabiam no escritório.

Disse que crescera sentindo a falta de amor do pai. Não a falta física. A outra. A pior. Aquela em que o sujeito está presente, respira na mesma casa, ocupa a mesma cadeira e ainda assim parece ter feito um acordo com a própria ausência.

Depois veio o casamento.

Falido desde o começo.

Algumas relações não terminam. Apenas continuam mortas por falta de coragem dos vivos.

E havia o relacionamento mais recente.

Abuso emocional.

Ela não precisou usar muitas palavras.

Certas coisas aparecem no jeito como alguém segura o copo.

No intervalo antes de responder.

Na maneira de rir quando conta alguma coisa que ainda dói.

Eu ouvi.

Não porque soubesse o que dizer.

Eu quase nunca sei.

Também não acredito nessa obrigação moderna de oferecer uma frase bonita para cada ferida. Às vezes a melhor coisa que alguém pode fazer é não transformar a dor do outro em palestra.

Então fiquei ali.

Ouvindo.

Ao redor, o pub fazia seu trabalho habitual.

Gente bebendo para esquecer que precisava voltar para casa.

Casais se olhando como quem verifica se ainda existe alguma coisa ali.

Homens falando alto para parecerem importantes.

Mulheres rindo de coisas que provavelmente não tinham graça.

Garçons carregando copos.

Garrafas alinhadas.

Luzes baixas.

Música suficiente para impedir que o silêncio dissesse alguma coisa.

Era um lugar razoavelmente decadente.

Gostei.

A decadência, pelo menos, não costuma mentir.

Observei os rostos.

Todo mundo parecia estar tentando parecer alguma coisa.

Feliz.

Interessante.

Desejável.

Bem resolvido.

As imagens estavam por toda parte.

Nas paredes.

Nos copos.

Nas roupas.

Nas fotografias.

Nos telefones sobre as mesas.

Cada um carregava uma pequena propaganda de si mesmo.

Era curioso.

A espécie humana inventou espelhos e depois passou a acreditar neles.

Talvez seja por isso que eu goste tanto de observar pessoas quando elas não sabem que estão sendo observadas.

É quando a propaganda falha.

É quando aparece o sujeito.

Ou o que restou dele.

Ela continuou falando.

Eu continuei ouvindo.

Em algum momento percebi que aquela noite já não era sobre conhecer um pub.

Era sobre conhecer alguém além da pele.

E isso é perigoso.

A pele é uma excelente embalagem.

Esconde defeitos.

Esconde medos.

Esconde abandono.

Esconde pais ausentes.

Casamentos mortos.

Relacionamentos que transformaram carinho em controle.

Esconde quase tudo.

Até que alguém decide falar.

Então a embalagem começa a rasgar.

E você descobre que ninguém é exatamente aquilo que parece.

Nem eu.

Posso parecer um humano,
mas no fundo sou apenas notas inexoráveis,
hinos desconcertantes ao nascer do sol e muito silêncio
uma noção boba
um suspiro
uma emoção arrogante
eternidade em cativeiro, perpetuação irrepreensível
curvas, não uma única linha reta
uma contradição
uma contração tola, mas necessária
uma abstração
uma piada interna
uma risadinha sóbria
um enigma.

Talvez todos sejamos.

A diferença é que alguns aprenderam a esconder melhor.

Eu não tenho muita paciência para isso.

Nunca tive.

Talvez porque, depois de certa idade, você perceba que passar a vida inteira construindo uma imagem de si mesmo é uma maneira bastante sofisticada de morrer antes da hora.

Você começa tentando ser alguém.

Depois tenta parecer alguém.

Depois passa a defender essa aparência.

E, quando percebe, já não sabe mais onde termina o personagem e começa o sujeito.

Ela falava sobre o passado.

Eu pensava no meu.

Não havia muita diferença entre nós nesse ponto.

As histórias mudam.

A falta permanece.

Cada pessoa encontra uma maneira diferente de carregar aquilo que não recebeu.

Alguns bebem.

Alguns trabalham demais.

Alguns colecionam amantes.

Alguns colecionam dinheiro.

Alguns colecionam diplomas.

Alguns fazem discursos sobre felicidade.

Outros simplesmente ficam quietos.

Eu prefiro o silêncio.

Ele pelo menos não exige explicação.

Ficamos ali por algumas horas.

Duas pessoas tentando descobrir se havia alguma coisa além das apresentações.

Talvez houvesse.

Talvez não.

Não importa tanto.

Há encontros que não precisam terminar em romance para terem alguma importância.

Às vezes basta alguém enxergar você por alguns minutos sem pedir que você seja diferente.

Isso já é quase uma espécie de milagre.

Mas eu desconfio de milagres.

Eles costumam cobrar juros.

Quando saímos do pub, a noite continuava exatamente como antes.

A cidade não tinha aprendido nada.

As pessoas também não.

Os carros passavam.

As luzes continuavam acesas.

Alguém ria do outro lado da rua.

Alguém provavelmente chorava em algum apartamento.

Alguém estava começando um casamento.

Outro estava terminando.

Alguém dizia “eu te amo” sem saber o que aquilo significava.

Outro dizia “vai ficar tudo bem” sabendo perfeitamente que não ficaria.

E eu pensei que talvez essa fosse a grande piada.

A gente passa a vida procurando uma linha reta.

Não existe.

Existem curvas.

Desvios.

Contrações.

Recaídas.

Pequenos momentos de lucidez entre longos períodos de estupidez.

E, no meio disso tudo, chamamos a coisa de vida.

Talvez seja isso.

Uma contradição tentando respirar.

Uma emoção arrogante fingindo ter respostas.

Uma abstração andando por aí com documentos, contas, lembranças e alguma esperança mal escondida no bolso.

Uma piada interna que ninguém explicou.

Uma risadinha sóbria diante do absurdo.

Um enigma.

E talvez a parte mais amarga seja descobrir que não existe solução.

Só continuação.

A eternidade em cativeiro.

A perpetuação irrepreensível.

Você acorda.

Trabalha.

Ama mal.

É amado mal.

Perdoa quando consegue.

Machuca quando não consegue.

Bebe alguma coisa.

Escuta alguém contar uma história.

Conta a sua.

E segue.

Não porque encontrou sentido.

Mas porque, por alguma razão estúpida, ainda não acabou.

Talvez sejamos apenas isso.

Notas inexoráveis.

Alguns acordes desconcertantes ao nascer do sol.

Muito silêncio.

E uma vontade quase ridícula de continuar, mesmo sabendo que, no fim, ninguém saberá exatamente o que fomos.

Talvez nem nós.

E é aí que começa o verdadeiro problema.

Quando você finalmente fica sozinho, sem o pub, sem as imagens, sem os outros, sem a roupa social, sem a profissão, sem a história que conta sobre si mesmo, sem ninguém para confirmar que você existe...

quem sobra?

Talvez aquele seja o único encontro que realmente importa.

O resto é apenas barulho.

E talvez eu ainda esteja procurando um pub onde possa me encontrar.

*O LUGAR ONDE A POESIA NÃO SERVIA PARA NADA*

Eu era novo na cidade e ainda não tinha escolhido um lugar para beber. Toda cidade exige isso de você. Um lugar onde entrar sozinho não pareça uma declaração de fracasso. Um balcão onde ninguém pergunte seu nome. Uma mesa onde você possa ficar olhando para o copo como se houvesse alguma resposta lá dentro.

Encontrei o pub perto de um parque.

Era pequeno. Bucólico demais para o meu gosto, mas não o suficiente para me fazer ir embora. Havia árvores antigas do lado de fora, bancos de madeira e uma iluminação amarela que fazia tudo parecer mais importante do que realmente era.

Dentro, havia estantes cheias de livros, quadros de artistas locais e alguns instrumentos musicais pendurados nas paredes. Um pequeno tablado, quase no mesmo nível do chão, servia para música, debates literários e noites de poesia.

Pedi uma bebida e sentei no canto do balcão.

Era um bom lugar para observar.

E observar é uma das poucas coisas que ainda consigo fazer sem estragar tudo.

Uma mulher subiu ao pequeno tablado.

Trazia algumas folhas na mão.

Começou a declamar.

Não era uma poesia bonita.

Ainda bem.

Falava de solidão, de perdas, de um homem que foi embora, de uma mãe que nunca soube abraçar, de noites em que o telefone não toca e de manhãs em que ninguém tem coragem de admitir que gostaria de não ter acordado.

Falava de gente.

Isso já era uma coisa bastante desagradável para algumas pessoas.

No canto próximo ao balcão havia um grupo de homens e mulheres que parecia ter escolhido aquele lugar por engano. Tinham roupas boas, relógios caros e aquele tipo de conversa que costuma começar com dinheiro e terminar em dinheiro.

Um deles riu.

Outro disse que aquilo era deprimente.

Uma mulher comentou que poesia não servia para nada.

O homem do relógio concordou.

— Poesia não paga conta.

Era uma frase perfeita.

Curta.

Prática.

Estúpida.

Eles riram.

Eu bebi.

A mulher continuou.

E, enquanto ela falava, comecei a pensar que talvez aquela fosse a pergunta errada.

Para que serve a poesia?

A pergunta parecia razoável até você perceber que existe uma doença escondida nela.

A necessidade de que tudo tenha utilidade.

Se alguma coisa não produz dinheiro, produtividade ou resultado, passa a ser considerada inútil.

Uma árvore precisa dar fruto.

Um homem precisa produzir.

Uma mulher precisa vencer.

Um filho precisa ter futuro.

Uma casa precisa valorizar.

Um livro precisa ensinar.

Uma conversa precisa gerar alguma coisa.

Até o descanso precisa servir para recuperar alguém para o trabalho do dia seguinte.

Tudo precisa servir.

Talvez fosse por isso que aquela mulher incomodava tanto.

Ela estava ali fazendo uma coisa que não servia para nada.

Ou, pelo menos, não servia para aquilo que eles entendiam como vida.

Ela não estava vendendo nada.

Não estava aumentando patrimônio.

Não estava melhorando o currículo.

Não estava produzindo uma estatística.

Estava apenas dizendo alguma coisa que doía.

E talvez fosse justamente aí que estivesse a resistência.

A poesia não consertava o mundo.

Não pagava aluguel.

Não trocava o óleo do carro.

Não diminuía a fila do supermercado.

Não impedia que um idiota fosse eleito presidente de alguma coisa.

Mas resistia.

Resistia à ideia de que o ser humano pudesse ser reduzido ao que possui, ao que produz e ao que consegue provar.

Ela funcionava como metáfora daquilo que dá sentido à existência.

Não porque tivesse respostas.

Mas porque fazia perguntas que ninguém conseguia transformar em dinheiro.

Quem sou eu?

O que perdi?

Quem amei?

Quem ainda me ama?

Por que continuo aqui?

Perguntas inconvenientes.

Nenhuma delas cabe numa planilha.

O grupo continuava rindo.

O homem do relógio começou a falar do carro novo.

A mulher ao lado dele mostrou fotografias de uma viagem.

Outro falou sobre investimentos.

Tinham muito.

Era evidente.

Talvez tivessem tudo.

E foi justamente isso que me incomodou.

Pareciam ter passado tanto tempo acumulando coisas que esqueceram de acumular alguma experiência que não pudesse ser fotografada.

Talvez confundissem ter com ser.

Eu não podia julgá-los.

Também tinha passado boa parte da vida fazendo coisas que não sabia se queria fazer.

Trabalhando.

Pagando.

Cumprindo.

Esperando.

Adiando.

A diferença talvez fosse apenas o tipo de mentira que cada um contava para continuar funcionando.

A mulher terminou o poema.

Algumas pessoas aplaudiram.

Poucas.

Ela agradeceu e desceu.

Passou perto de mim.

Por um instante, olhou para o meu copo.

Depois para mim.

Não disse nada.

Talvez não precisasse.

Pedi outra bebida.

Depois outra.

A noite avançou.

O grupo foi embora.

Um deles saiu falando ao telefone sobre uma reunião às oito da manhã.

A poesia havia terminado.

O dinheiro continuava funcionando.

O mundo tinha sobrevivido a mais uma noite.

Paguei a conta e saí.

O parque estava quase vazio.

Comecei a caminhar para casa.

A cidade parecia diferente sem as pessoas falando.

Os prédios eram apenas prédios.

As lojas estavam fechadas.

As vitrines continuavam iluminadas para ninguém.

Passei por um carro importado estacionado na rua.

Pensei no homem do relógio.

Ele provavelmente chegaria em casa, colocaria as chaves sobre uma mesa cara e dormiria numa cama confortável.

Talvez fosse feliz.

Eu não sabia.

E esse era o problema.

Ninguém sabe.

Passamos a vida tentando construir uma resposta com coisas que podem ser medidas.

Salário.

Cargo.

Casa.

Carro.

Viagens.

Seguidores.

Objetos.

Conquistas.

E, no fim, quando tudo isso fica em silêncio, sobra uma pergunta que não pode ser respondida por extrato bancário.

Você viveu?

Ou apenas funcionou?

Continuei andando.

Pensei novamente na mulher do pub.

Talvez poesia fosse isso.

Não um luxo.

Não uma distração para quem não tem problemas.

Mas uma espécie de resistência contra a vida automática.

Um pequeno defeito na máquina.

A recusa em aceitar que nascer, trabalhar, pagar contas, envelhecer e morrer seja uma biografia suficiente.

Talvez um poema seja apenas alguém dizendo: eu estive aqui.

Eu senti isso.

Eu perdi aquilo.

Eu amei alguém.

Eu tive medo.

Eu não entendi.

Mas estive aqui.

E talvez fosse isso que aquelas pessoas não compreendessem.

A poesia não precisava salvar ninguém.

Bastava impedir que alguém se transformasse completamente naquilo que o mundo queria que ele fosse.

Cheguei em casa.

Abri a porta.

Acendi a luz.

Meu gato apareceu no corredor.

Olhou para mim com aquela expressão de quem estava profundamente decepcionado com a minha pontualidade e com a espécie humana em geral.

Tinha fome.

Claro que tinha.

Coloquei comida no prato.

Ele comeu.

Depois passou pela minha perna e desapareceu.

Fiquei alguns segundos parado no meio da sala.

A casa estava silenciosa.

Não havia aplausos.

Não havia relógios caros.

Não havia gente discutindo patrimônio.

Não havia ninguém perguntando quanto eu ganhava ou o que eu possuía.

Havia apenas um gato, uma garrafa pela metade e eu.

E foi ali que entendi uma coisa bastante simples.

Talvez a poesia não sirva para nada.

Talvez nunca tenha servido.

Talvez esse seja justamente o seu valor.

Porque algumas coisas precisam existir sem prestar contas.

Uma música.

Um beijo.

Uma conversa inútil às três da manhã.

Um homem bebendo sozinho.

Uma mulher lendo seus versos para meia dúzia de desconhecidos.

Um gato esperando alguém voltar para casa.

Nada disso aumenta o patrimônio.

Nada disso melhora a produtividade.

Nada disso aparece no currículo.

Mas, quando tudo o que pode ser comprado, medido e contabilizado finalmente perde importância, são essas coisas que permanecem.

Fiquei olhando para o gato.

Ele me olhou de volta.

Nenhum dos dois tinha uma resposta.

Pela primeira vez naquela noite, isso não pareceu um problema.

Talvez viver seja justamente continuar fazendo coisas que não servem para nada e que, por alguma razão, fazem a existência valer alguma coisa.

Talvez seja por isso que ainda escrevemos.

Por isso que ainda ouvimos música.

Por isso que ainda amamos mesmo depois de descobrir que amar não oferece nenhuma garantia.

A poesia não existe para tornar a vida mais útil.

Existe para impedir que a vida se torne apenas útil.

E naquela noite, sozinho em casa, com um gato faminto andando pela sala e a cidade inteira funcionando do lado de fora, percebi que talvez essa fosse a única forma de resistência que ainda me interessava.

Continuar vivo.

Mas não apenas funcionando.

*O Céu e o Inferno Funcionam em Horário Comercial* - Naquela sexta-feira o bar estava cheio, como quase toda sexta-feira em que as pessoas precisam esquecer que passaram mais cinco dias fingindo que gostam da própria vida. Música baixa demais para ser ouvida e alta demais para permitir uma conversa decente. Um cantor sozinho, no fundo, brigava com o violão e com alguma música antiga que ninguém mais lembrava direito. Fumaça de cigarro subia entre as lâmpadas amareladas. Copos vazios ocupavam as mesas como pequenas provas de fracasso.

Eu estava no meu canto habitual do balcão. O lugar onde ninguém pergunta muita coisa e o barman já sabe que não precisa conversar comigo.

Foi então que dois casais se aproximaram. Sentaram perto demais. Não porque quisessem minha companhia. Apenas porque o bar estava cheio.

E quando quatro pessoas bebem juntas, em algum momento alguém decide que a verdade precisa ser dita.

Começaram falando de amor. Não sei por quê. Talvez fosse o álcool. Talvez fosse sexta-feira. Talvez as pessoas só consigam falar de amor quando já estão cansadas de praticá-lo.

A mulher dizia que no começo era diferente. Havia mensagens de madrugada. Promessas. Planos. Juras de que nunca deixariam a rotina destruir aquilo que tinham encontrado.

O homem riu.

Não foi uma risada engraçada. Foi aquela risada curta de quem já decidiu que o outro está exagerando.

Ela continuou.

Disse que no começo ele queria saber onde ela estava. Perguntava como tinha sido o dia. Queria ouvir seus problemas. Fazia planos para o fim de semana. Dizia que ela era diferente das outras.

Depois vieram as contas.

O trabalho.

O cansaço.

A televisão.

O celular.

A cama.

A obrigação de acordar cedo.

A vida.

Aquela velha assassina silenciosa.

Ela disse que o amor tinha desaparecido dentro da rotina.

Ele respondeu que aquilo era frescura.

Mimimi.

Romantismo hipócrita.

Disse que ninguém consegue viver de declaração de amor. Que a vida real era outra coisa. Que depois de alguns anos ninguém fica perguntando como foi seu dia.

Ela olhou para ele como se tivesse acabado de descobrir que dormia com um desconhecido.

Talvez tivesse.

O outro casal tentou amenizar.

Não funcionou.

A conversa ficou mais quente. Vieram acusações antigas. Coisas guardadas durante anos, esperando uma sexta-feira, quatro cervejas e um bar lotado para sair pela boca.

Eu continuei bebendo.

Não porque não tivesse opinião.

Eu tinha.

Tenho opiniões demais.

Esse é um dos meus problemas.

Fiquei pensando naquela história de amor que começou com promessas e terminou em planilhas, horários, boletos e silêncio.

Talvez o homem tivesse razão.

Talvez a mulher tivesse razão.

Talvez os dois estivessem errados.

O problema é que o amor costuma morrer muito antes de alguém perceber que ele morreu.

Não há funeral.

Não há certidão.

Ninguém aparece para dizer que acabou.

Ele simplesmente começa a ser substituído por pequenas coisas.

Uma resposta que não vem.

Um abraço que fica para depois.

Uma conversa que nunca acontece porque há alguma coisa mais importante na televisão.

Um beijo mecânico.

Um jantar em silêncio.

Uma cama dividida por dois corpos que já vivem em países diferentes.

E então alguém percebe.

Tarde demais.

Foi ali, ouvindo aquela mulher reclamar e aquele homem chamar tudo de frescura, que pensei em uma coisa bastante simples.

Nós passamos a vida procurando o Céu e tentando escapar do Inferno.

Como se houvesse uma porta em algum lugar.

Como se depois da morte alguém fosse entregar uma senha.

Como se Deus fosse um funcionário público sentado atrás de uma mesa cósmica conferindo documentos.

Talvez seja tudo muito mais simples.

Talvez o Céu e o Inferno não estejam esperando por nós.

Talvez já estejam aqui.

O Céu aparece quando conseguimos amar alguém sem transformar o amor em contrato.

Quando não fazemos carinho esperando receber carinho de volta.

Quando ajudamos sem guardar recibo.

Quando ouvimos sem preparar uma resposta.

Quando permanecemos ao lado de alguém não porque temos medo de ficar sozinhos, mas porque queremos estar ali.

Isso parece pouco.

Não é.

O mundo inteiro está cheio de gente fazendo negócios em nome do amor.

Eu te dou isso se você me der aquilo.

Eu faço isso por você, portanto você me deve aquilo.

Eu fui fiel, então você precisa ser fiel.

Eu trabalhei o dia inteiro, então você deve entender meu silêncio.

Eu pago as contas, portanto tenho direito a não prestar atenção em você.

Eu sou seu marido.

Eu sou sua mulher.

Eu sou sua família.

Eu sou seu.

É aí que começa a desgraça.

Porque amar alguém não deveria significar possuir alguém.

Mas nós gostamos de possuir.

Casas.

Carros.

Pessoas.

Opiniões.

Memórias.

Até os mortos nós queremos possuir.

Dizemos que alguém é nosso.

E depois reclamamos quando essa pessoa começa a respirar longe de nós.

O homem do bar dizia que aquilo era romantismo hipócrita.

Talvez fosse.

Mas existe uma hipocrisia ainda maior: fingir que uma relação continua viva apenas porque duas pessoas ainda dividem o mesmo endereço.

Há casamentos que são funerais com financiamento imobiliário.

Há relacionamentos que continuam apenas porque ninguém quer explicar aos outros que acabou.

Há pessoas que dormem juntas durante vinte anos e nunca mais se encontram.

E há outras que se encontram por uma hora e conseguem lembrar uma à outra que ainda estão vivas.

O Inferno talvez seja isso.

Não o fogo.

Não o demônio.

Não as correntes.

É olhar para alguém que um dia foi importante e perceber que você construiu uma muralha entre vocês, tijolo por tijolo, usando orgulho, ressentimento, silêncio e pequenas crueldades.

Depois sentar diante da muralha e perguntar por que ninguém mais consegue chegar até você.

O ódio também funciona assim.

Ele começa pequeno.

Uma mágoa.

Uma injustiça.

Uma palavra.

Depois cresce.

Você começa a dividir o mundo.

Os bons e os maus.

Os que merecem.

Os que não merecem.

Os que são como você.

Os outros.

E quando percebe, seu coração virou uma repartição pública.

Entrada proibida.

Documentação obrigatória.

Atendimento mediante agendamento.

O curioso é que quase ninguém percebe quando entra no Inferno.

As pessoas continuam trabalhando.

Pagando contas.

Postando fotografias felizes.

Comemorando aniversários.

Trocando presentes.

Dizendo “eu te amo”.

Tudo perfeitamente normal.

É por isso que o Inferno funciona tão bem.

Ele não precisa parecer Inferno.

Basta parecer rotina.

Olhei para o casal outra vez.

Ela estava chorando agora.

Ele olhava para o celular.

Aquilo me pareceu mais cruel que qualquer grito.

Porque existem momentos em que o desprezo é mais violento que a raiva.

A raiva ainda reconhece a existência do outro.

O desprezo simplesmente desliga a luz.

O cantor no fundo começou outra música.

Ninguém prestou atenção.

O barman recolheu alguns copos.

A fumaça continuava subindo.

A sexta-feira continuava funcionando.

O mundo não tinha parado para assistir ao fim daquele pequeno amor.

Nunca para.

É uma das coisas mais humilhantes sobre estar vivo.

Você pode estar destruindo alguém por dentro e, do lado de fora, o garçom continua servindo cerveja.

Talvez seja por isso que eu não acredito muito nessa conversa de esperar o Céu.

Se existe algum lugar melhor, talvez ele comece quando aprendemos a não transformar a vida dos outros em nosso campo de batalha.

Talvez comece quando paramos de cobrar amor como quem cobra uma dívida.

Talvez comece quando conseguimos dizer “eu errei” sem acrescentar um “mas você também”.

Talvez comece quando percebemos que algumas pessoas não precisam de uma solução.

Precisam apenas que alguém fique.

E talvez o Inferno já esteja funcionando quando transformamos toda relação em uma disputa para descobrir quem sofreu mais.

No fim, ninguém vence.

Só sobra alguém com razão e outro sozinho.

Terminei minha bebida.

Levantei.

Antes de sair, olhei mais uma vez para os quatro.

A discussão continuava.

Talvez continuasse até o fechamento.

Talvez até a manhã seguinte.

Talvez por mais vinte anos.

Não sei.

O que sei é que todos nós temos uma escolha pequena e diária.

Podemos amar.

Ou podemos negociar.

Podemos perdoar.

Ou podemos colecionar dívidas emocionais.

Podemos abrir a porta.

Ou construir outra parede.

O Céu não parece exigir muita coisa.

O Inferno também não.

Ambos são baratos.

Funcionam vinte e quatro horas.

E não precisam de religião, sacerdote ou julgamento final.

Basta olhar para a pessoa ao nosso lado.

Se ainda conseguimos amá-la sem exigir pagamento, talvez por alguns minutos estejamos no Céu.

Se precisamos odiá-la para justificar nossa própria existência, provavelmente já chegamos ao outro lugar.

E o pior é que ninguém precisa morrer para descobrir.

Basta continuar vivendo exatamente como está.

Isso costuma ser suficiente.

Estamos On-line?

Mais um dia no escritório. A mesma mesa engolida por papéis amarelados. Um computador que parece saber mais sobre mim do que qualquer confissão que eu já fiz em voz alta. Um telefone que grita quando o mundo não deveria ter voz. E uma fila de gente com o olhar gasto, esperando.

Esperando uma solução.

É quase cruel como ainda chamamos isso de solução. Quase sempre é só mais um protocolo frio, mais um formulário que não sangra, mais uma senha esquecida, mais um número que ninguém sabe decifrar. Um labirinto de papel e código onde a dor entra viva e sai desidratada.

As pessoas chegam com problemas mais viscerais, reais até o osso, e recebem respostas virtuais, sem carne, sem cheiro, sem peso. Querem resolver a vida pela tela como quem tenta estancar uma hemorragia com papel. O mundo aprendeu a transformar qualquer desgraça em número de protocolo — e isso, de algum jeito, nos parece normal.

Eu observo.

Estamos todos on-line.

Pelo menos é o que dizem.

Há gente conectada ao banco, ao trabalho, ao aplicativo, ao governo, ao médico, ao amante, ao ex-amante, ao desconhecido que nunca viu seu rosto e ainda assim opina sobre sua vida. Sabemos quem comeu o quê, quem viajou para onde, quem morreu sozinho, quem traiu sem piscar, quem enriqueceu e quem perdeu a própria dignidade no processo.

Sabemos de tudo.

Menos de nós.

O computador continua aceso.

Uma luz pálida, quase doente, tremendo na minha frente.

Talvez seja isso que chamamos de vida agora: uma luz insistente dizendo que ainda estamos disponíveis, como mercadoria em prateleira.

Mas disponíveis para quê?

A fila cresce como um organismo vivo, respirando devagar, pesado, impaciente.

Cada pessoa carrega uma pequena tragédia particular, escondida mal e mal sob a pele: uma aposentadoria que nunca chega, uma dívida que morde por dentro, um benefício negado, um documento perdido, uma doença que não espera, uma separação que ainda sangra, um filho que depende de um sistema que não sente nada, um pedido que depende de outro pedido, que depende de uma assinatura que depende de alguém que não está.

A humanidade inventou a burocracia para domesticar o caos.

Depois inventou a internet para acelerar o colapso.

Talvez seja por isso que essa palavra — conexão — me soa cada vez mais como uma piada mal contada.

Estamos conectados a tudo.

E desconectados de quase tudo que ainda pulsa.

Falamos em nuvem como se ela tivesse consciência, como se guardasse algo além de dados frios. Mas talvez ela só armazene nossos rastros: fotos sorrindo enquanto por dentro tudo desaba, conversas vazias, promessas digitais, e uma quantidade obscena de ruído disfarçado de vida.

A nuvem não sabe quem somos.

E, às vezes, suspeito que nós também não.

Existe uma espécie de wi-fi interno. Não sei se é alma, instinto ou só um nome bonito para o que foi sendo abafado aos poucos.

Alguma coisa dentro da gente deveria ainda captar sinais.

Um desconforto no peito.

Um arrepio sem motivo.

Um silêncio que pesa.

Um aviso bruto, quase animal, dizendo: pare.

Mas o dia inteiro somos atravessados por notificações.

O celular vibra como um nervo exposto.

O computador pisca como um olho doente.

O telefone cospe vozes.

Alguém chama.

Alguém exige.

Alguém cobra.

Alguém vende.

Alguém promete salvação em três cliques.

E depois nos perguntamos por que estamos exaustos, como se a resposta não estivesse gritando o tempo todo.

Talvez nossos neurorreceptores não estejam quebrados.

Talvez estejam apenas afogados.

É difícil ouvir qualquer coisa pequena quando o mundo inteiro decidiu gritar dentro da sua cabeça.

A sociedade aprendeu a ocupar cada fresta do silêncio. Música forçada no elevador. Tela acesa na sala. Podcast enchendo o carro. Vídeo mastigando o almoço. Mensagem invadindo a conversa. Notificação mordendo o sono.

Nunca estamos sozinhos.

E, ainda assim, nunca estivemos tão abandonados por dentro.

Fico encarando a tela.

E me vem aquela pergunta antiga, quase primitiva, que ninguém aguenta sustentar por muito tempo: de onde diabos vem tudo isso?

A vida.

A consciência.

Esse impulso cego de continuar mesmo quando nada faz sentido.

Aquela coisa estranha que empurra alguém a acordar numa terça-feira qualquer, vestir a própria pele como se fosse uniforme, pegar um ônibus lotado, engolir trânsito, entrar numa fila e passar o dia tentando consertar problemas que já nasceram condenados a serem substituídos por outros.

Talvez exista mesmo uma inteligência maior.

Talvez exista uma nuvem original, viva, pulsante, indiferente.

Talvez sejamos só fragmentos dela, esquecidos de si mesmos.

Ou talvez não exista absolutamente nada.

Um vazio elegante, sem explicação, sem propósito, sem testemunha.

E isso, de algum modo, também parece plausível.

A diferença é que ninguém recebeu o manual.

Entramos aqui sem instruções, sem mapa, sem legenda.

Passamos anos tentando decifrar o painel de controle da própria existência, apertando botões aleatórios, esperando que algo acenda.

Depois alguém nos chama de velhos.

E o sistema começa a falhar de verdade.

Memória falha.

Joelhos rangem.

Dentes cedem.

Sono vira fuga.

E então aparece a mensagem final, sem emoção, sem piedade:

encerrando sessão.

Sem atualização.

Sem suporte.

Sem segunda tentativa.

A fila continua.

O telefone grita outra vez.

O computador exige uma senha como se ainda houvesse controle.

Uma pessoa pergunta se falta muito.

Eu olho sem saber o que responder.

Nunca sei.

Talvez seja essa a única honestidade que ainda não foi censurada dentro de nós.

Não sabemos por que estamos aqui.

Não sabemos o que somos quando ninguém está olhando.

Não sabemos para onde isso tudo está nos levando.

Mas seguimos on-line.

Sempre on-line.

Publicando fragmentos de felicidade para provar que ainda existimos.

Dando opiniões como quem tenta convencer a si mesmo de que pensa.

Acumulando contatos para fingir que não estamos afundando sozinhos.

Comprando coisas para simular vitória.

E encarando uma tela brilhante enquanto alguma coisa dentro de nós, em silêncio absoluto, tenta desesperadamente estabelecer uma conexão que nunca chega.

Talvez o problema nunca tenha sido o sinal.

Talvez o problema seja que desaprendemos a escutar o que ainda está vivo por dentro.

A fila finalmente se move.

Um corpo se levanta.

Outro ocupa o lugar como se nada tivesse acontecido.

O telefone volta a tocar.

Eu encaro a tela do computador.

E, por alguns segundos, não faço absolutamente nada.

Só isso.

E penso que talvez estar realmente conectado seja exatamente isso:

aguentar alguns segundos sem ser invadido por nada.

Só você.

Sua cabeça.

Seu silêncio.

E aquela pergunta incômoda, crua, quase sangrando por dentro, que nenhum aplicativo jamais vai conseguir responder:

quem diabos está usando você enquanto você acredita estar vivendo?

*O FILTRO É O PROBLEMA*

No primeiro sábado realmente quente depois do inverno, fui ao parque central da cidade.
Não por esperança. Tenho idade suficiente para desconfiar de qualquer coisa que prometa renovação.
A primavera tinha chegado sem pedir licença. Havia flores demais, folhas novas demais, gente demais tentando recuperar em poucas horas aquilo que o frio havia roubado durante meses.
As crianças ocupavam os espaços com a irresponsabilidade própria de quem ainda não descobriu que a vida cobra juros. Algumas brincavam. Outras apenas estavam ali, largadas ao sol, como se não houvesse nada urgente no mundo.
Os adolescentes circulavam em pequenos grupos. Ensaiavam aproximações. Um olhar demorava mais que o necessário. Uma risada surgia sem motivo. Um deles ajeitava o cabelo antes de passar perto de alguma garota. Pequenas operações de guerra, ainda sem mortos.
Os adultos eram mais complicados.
Alguns caminhavam como se estivessem cumprindo uma obrigação médica. Outros conversavam, sorriam, fotografavam flores, filhos, cães, os próprios pés, qualquer coisa que pudesse provar depois que haviam participado daquele dia.
Havia também os de sempre.
Sentados com a expressão de quem fora condenado a respirar o mesmo ar que os outros.
Reclamavam da quantidade de pessoas.
Do barulho.
Das crianças.
Do calor.
Da primavera.
Esses deveriam ter ficado em casa.
Não porque o mundo lhes devesse silêncio, mas porque certas pessoas carregam uma espécie de quarentena particular. Saem de quatro paredes e levam outras quatro dentro da cabeça.
O curioso é que chamavam aquilo de realidade.
Fiquei observando.
O parque não era bonito.
Também não era feio.
Era apenas um lugar cheio de gente tentando interpretar o que estava diante dos olhos.
E foi aí que percebi o truque.
Talvez o caos nunca tenha sido tão caótico quanto parece.
Talvez o problema esteja no sujeito que olha.
Um homem vê uma multidão e sente ameaça.
Outro vê companhia.
Um enxerga crianças fazendo barulho.
Outro enxerga infância.
Um vê adolescentes desperdiçando tempo.
Outro reconhece, com alguma vergonha, a própria juventude.
A mesma cena. Cabeças diferentes.
E cada cabeça jurando possuir a versão correta.
Passei boa parte da vida fazendo isso.
Escolhendo um ângulo.
Defendendo uma interpretação.
Chamando suas preferências de princípios e suas feridas de experiência.
Depois comecei a perceber que muita coisa que eu chamava de verdade era apenas uma maneira confortável de permanecer sentado dentro da minha própria versão dos acontecimentos.

O sujeito cria uma explicação.
Depois passa a viver dentro dela.
Cria um inimigo.
Depois precisa encontrá-lo todos os dias.
Cria uma identidade.
Depois passa o resto da vida protegendo-a.
Cria uma história sobre si mesmo.
E quando alguém ameaça essa história, reage como se estivessem tentando arrancar-lhe a pele.
Talvez liberdade seja uma coisa bem menos gloriosa do que imaginamos.
Talvez seja simplesmente deixar de acreditar tanto na própria narrativa.
Eu olhei novamente para as pessoas.
As crianças continuavam brincando.
Os jovens continuavam tentando impressionar uns aos outros.
Os adultos continuavam fingindo que sabiam para onde estavam indo.
Os mal-humorados continuavam mal-humorados.
Nada havia mudado.
Só havia mudado o lugar de onde eu estava olhando.
E isso foi desconfortável.
Porque, quando o observador percebe que também faz parte da cena, perde a vantagem de julgar.
Não há mais plateia.
Não há mais personagem principal.
Há apenas alguém olhando.
E esse alguém também está sendo observado pela própria consciência.
Nesse instante, minha história pareceu menos importante.
As coisas que eu havia defendido.
As coisas que eu havia perdido.
As pessoas que eu culpei.
As versões que construí para suportar determinadas noites.
Tudo começou a parecer uma coleção de móveis dentro de uma casa que eu já não precisava habitar.
Foi estranho.
Não houve revelação.
Nenhuma luz desceu do céu.
Nenhuma música começou a tocar.
Apenas uma pequena suspeita.
Talvez eu não seja aquilo que penso sobre mim.
Talvez você também não seja.
Talvez sejamos menos definidos do que passamos a vida tentando parecer.
Fiquei ali por mais alguns minutos.
Sem procurar significado.
Sem tentar consertar o mundo.
Sem transformar o parque em uma lição.
As pessoas continuavam passando.
E, pela primeira vez em muito tempo, eu não precisei decidir o que aquilo significava.
Foi quase nada.
Mas, para quem passou anos carregando explicações, quase nada já é uma forma razoável de liberdade.

DUAS Xícaras de café vazias


O café estava cheio, embora ninguém parecesse ter tempo para estar ali. Eu estava sentado numa mesa na calçada, debaixo da cobertura, diante de três xícaras. Duas vazias. Uma ainda pela metade, mas fria. Não sei por que não pedi outra. Talvez porque três cafés já fossem suficientes para aquela manhã. Talvez porque eu estivesse esperando alguma coisa. A essa altura da vida, a gente aprende que quase sempre está esperando alguma coisa sem saber exatamente o quê. Dentro do café, duas televisões estavam ligadas. O proprietário sabia o que estava fazendo. Não havia necessidade de som alto. Bastava a imagem. Um programa qualquer de revista, com pessoas sorrindo e especialistas ensinando como viver. Como comer. Como dormir. Como trabalhar. Como emagrecer. Como envelhecer sem parecer velho. Como ser feliz em cinco passos. Como descobrir seu propósito. Como se reinventar. Como abandonar aquilo que não serve mais. Eu olhava para aquilo e pensava que finalmente tínhamos conseguido transformar a existência humana em manual de instruções. “Seja você mesmo”, dizia uma legenda. Achei engraçado. Passamos a vida inteira sendo treinados para ser outra coisa e depois alguém aparece na televisão mandando a gente ser nós mesmos. Primeiro dizem que você precisa vencer. Depois dizem que precisa produzir. Depois que precisa cuidar da aparência. Depois que precisa viajar. Depois que precisa encontrar alguém. Depois que precisa se encontrar. Parece que até para estar perdido existe um procedimento correto. Na calçada, a vida continuava sem obedecer à televisão. Pessoas caminhavam para seus afazeres. Algumas depressa. Outras devagar. Um homem falava sozinho ao telefone. Uma mulher ria enquanto digitava alguma coisa. Um sujeito caminhava com a cara fechada, como se tivesse acabado de descobrir que segunda-feira não era um acidente. O trânsito avançava lentamente. Dentro dos carros havia pequenas peças da humanidade. Um motorista cantava. Outro parecia discutir com alguém. Uma mulher olhava fixamente para frente. Um homem ria. Um casal estava no mesmo carro, mas não parecia estar no mesmo lugar. Ela gesticulava. Ele respondia. Ambos olhavam para os lados, para a frente, para os semáforos, para os outros carros. Menos um para o outro. Talvez fosse amor moderno. Ou apenas dois desconhecidos pagando prestações juntos. Um carro passou com crianças no banco traseiro. Gritavam, riam, brigavam por alguma coisa que provavelmente seria esquecida antes do próximo semáforo. Olhei para elas e pensei que talvez aquela fosse a última fase realmente honesta da vida. Crianças ainda não aprenderam a fingir que estão bem. Se estão felizes, fazem barulho. Se estão irritadas, fazem mais barulho. Depois crescemos. Aprendemos a sorrir quando queremos mandar alguém para o inferno. Aprendemos a dizer “está tudo bem” quando nada está. Aprendemos a chamar de maturidade aquilo que muitas vezes é apenas desistência. A televisão continuava oferecendo respostas. Na tela, alguém falava sobre mudanças. “Você precisa se transformar.” Outra pessoa explicava que nunca é tarde para recomeçar. Eu olhei para as duas xícaras vazias. É fácil falar em recomeços quando não se precisa carregar aquilo que ficou para trás. As pessoas gostam da ideia de mudança porque ela parece limpa. Só esquecem que mudar também significa perder versões antigas de nós mesmos. Algumas foram embora porque morreram. Outras porque nunca existiram de verdade. Foram apenas personagens que aprendemos a representar para sermos aceitos. Talvez ser dono de si seja justamente parar de representar. Não significa descobrir uma grande verdade escondida dentro da alma. Isso parece coisa de programa de televisão. Talvez seja algo bem menos interessante. Saber do que você gosta. Saber do que não suporta mais. Admitir que algumas pessoas não fazem falta. Reconhecer que alguns sonhos eram apenas vaidade. Aceitar que você mudou sem precisar pedir desculpas. E principalmente entender que ninguém virá entregar o manual que esqueceram de colocar junto com você quando nasceu. A televisão continuava ligada. O trânsito continuava lento. O casal continuava discutindo sem se olhar. As crianças continuavam gritando no banco traseiro. As pessoas continuavam caminhando para algum lugar. Todos pareciam saber exatamente o que estavam fazendo. Talvez fosse apenas aparência. Talvez todos estivessem tão perdidos quanto eu. A diferença é que alguns aprenderam a disfarçar melhor. Peguei a xícara fria e tomei o último gole. Estava horrível. Não reclamei. Algumas coisas na vida ficam frias porque demoramos demais para decidir se ainda as queremos. Paguei a conta. Levantei. As televisões continuaram ensinando o mundo a viver. E o mundo continuou sem aprender. Fiquei alguns segundos parado na calçada, vendo aquela gente passar. Então percebi uma coisa desagradável. Talvez o problema nunca tenha sido não saber quem somos. Talvez seja saber e não gostar muito do que encontramos. É mais fácil deixar alguém dizer quem devemos ser. Dá menos trabalho. E enquanto pensamos nisso, o café esfria, o trânsito continua, os carros passam, as crianças crescem e a vida, indiferente, não espera ninguém terminar de se encontrar

Domingo de primavera. Depois de uma semana enterrado num escritório e de algumas noites oferecendo meu fígado aos deuses baratos dos bares, resolvi sair para tirar o mofo da alma. O sol fazia um trabalho honesto. Não prometia felicidade. Apenas lembrava que a pele ainda era capaz de sentir alguma coisa.
O parque estava cheio de gente satisfeita consigo mesma. Dá para reconhecer esse tipo à distância. Carregam diplomas como soldados carregam medalhas. Aprenderam meia dúzia de palavras elegantes, descobriram uma profissão rentável e passaram a acreditar que o universo inteiro cabe dentro do currículo. Falavam de carreira, mercado, investimentos, produtividade. Nunca da morte. Nunca do medo. Nunca daquele silêncio que aparece às três da manhã e pergunta se tudo isso valeu a pena. Talvez porque certas perguntas não caibam em salas de reunião.
Sempre achei curioso que uma pessoa possa estudar durante vinte anos e ainda não saber conversar sobre a única matéria obrigatória para todos: a condição de estar vivo.
Mas havia outros. Sempre há.
Não fazem alarde. Não precisam parecer inteligentes porque vivem ocupados demais tentando compreender. Olham para uma árvore e enxergam mais do que sombra. Olham para um velho e veem o próprio futuro. Olham para uma criança correndo e lembram que um dia também acreditaram que o mundo era infinito.
São pessoas perigosas para qualquer sociedade construída sobre distrações. Pensam na morte sem desespero, porque entendem que ela dá valor às manhãs. Pensam no amor sem transformá-lo em mercadoria. Desconfiam das respostas prontas e das certezas vendidas em palestras motivacionais.
E o mais bonito é que não vivem presos nessas profundezas.
São capazes de rir de uma piada idiota até faltar o ar. Sentam para tomar um café sem pressa. Observam a chuva escorrendo pela janela como quem assiste a um concerto. Fazem pequenas loucuras só para lembrar ao coração que ele ainda não virou uma máquina de bater ponto.
A maioria das pessoas escolhe um dos extremos. Ou vive afogada nas banalidades do cotidiano, anestesiada por contas, status e compromissos. Ou se perde em labirintos filosóficos até esquecer o sabor de uma tarde de domingo.
Talvez a sabedoria esteja justamente no meio do caminho.
Ter coragem suficiente para olhar o abismo sem desviar os olhos, mas também humildade para sorrir quando uma criança cai na grama e levanta rindo. Pensar na eternidade enquanto o café ainda solta fumaça. Conversar sobre a morte e, logo depois, admirar um pôr do sol como se fosse o primeiro.
Quando deixei o parque, percebi que os homens mais interessantes nunca foram os que tinham todas as respostas.
Foram aqueles que carregavam perguntas demais e, apesar disso, ainda encontravam tempo para brindar a vida, rir de si mesmos e sentir o calor manso de um domingo de primavera sobre o rosto.
No fim, talvez seja isso que nos salve. Não os diplomas, não as certezas, não as biografias cuidadosamente polidas para impressionar desconhecidos. O que nos salva é conservar a estranha capacidade de habitar dois mundos ao mesmo tempo: o das perguntas que jamais serão respondidas e o das pequenas alegrias que jamais deveriam ser subestimadas. Contemplar o infinito sem deixar de notar o aroma do café, o riso espontâneo de uma criança, a sombra fresca de uma árvore ou o dourado silencioso do fim da tarde. Porque a vida nunca foi apenas um enigma a ser resolvido. Ela também é um instante para ser sentido antes que desapareça.

A INDIFERENÇA TAMBÉM DEIXA MARCAS


A chuva fazia aquele trabalho sujo de sempre: cair sobre todo mundo sem perguntar quem merecia.
Eu estava no bar, diante da vidraça embaçada, com um copo que já tinha perdido a graça fazia algum tempo.
O bar estava cheio.
Gente falando alto, rindo de coisas que provavelmente não teriam graça no dia seguinte. Gente reclamando do preço da cerveja, do governo, do chefe, da vida, do casamento, do trânsito.
A vida humana em seu estado mais sofisticado: reclamar de pequenas merdas enquanto outras pessoas desaparecem a poucos metros.
Foi então que eu o vi.
Caminhava devagar.
Muito devagar.
Como se cada passo precisasse ser negociado com o corpo.
Um bastão em uma das mãos.
Uma trouxa enorme pendurada nas costas.
Aquele tipo de bagagem que não parece carregar roupas.
Parece carregar anos.
Ele levou a mão ao rosto.
Não sei se chorava.
Talvez estivesse apenas cansado.
Talvez tivesse vergonha.
Talvez estivesse protegendo os olhos da chuva.
Ou talvez estivesse tentando esconder de si mesmo o espetáculo miserável de continuar vivo.
E ninguém parou.
Ninguém.
Alguns passaram por ele com aquela pressa característica de quem tem compromissos importantes.
Um homem esbarrou em seu ombro.
Nem olhou para trás.
Uma mulher desviou como se tivesse encontrado uma poça.
Outro simplesmente continuou andando.
A cidade possui uma técnica admirável para isso.
Ela transforma pessoas em obstáculos.
Depois transforma obstáculos em paisagem.
E, finalmente, transforma paisagem em nada.
Fiquei olhando.
E comecei a me perguntar quando foi que aprendemos a não nos importar.
Talvez tenha começado cedo.
Quando descobrimos que sentir demais dói.
Então construímos pequenas paredes.
Depois paredes maiores.
Depois uma casa inteira dentro da cabeça.
Chamamos aquilo de maturidade.
Chamamos de experiência.
Chamamos de inteligência emocional.
Na verdade, muitas vezes é apenas medo com uma boa roupa.
A gente aprende a olhar sem ver.
A ouvir sem escutar.
A passar por alguém sofrendo e dizer:
Não é problema meu.
É uma frase eficiente.
Curta.
Prática.
Quase elegante.
Serve para tudo.
Para o mendigo.
Para o velho.
Para o vizinho.
Para a criança.
Para o amigo.
Para o planeta.
Para a própria consciência.
Não é problema meu.
E assim vamos ficando especialistas em não pertencer a nada.
A tragédia é que ninguém nos avisou que, quando você se separa suficientemente dos outros, começa também a se separar de si mesmo.
Porque aquele homem ali não era somente aquele homem.
Era uma possibilidade.
Uma versão futura.
Uma lembrança de alguma coisa que poderíamos ter sido.
Ou simplesmente alguém que teve menos sorte.
E essa é a parte que incomoda.
Porque é fácil desprezar aquilo que acreditamos estar muito distante.
Mas e se não estiver?
E se a diferença entre aquele homem e o sujeito sentado aqui no bar for apenas uma sequência de acidentes?
Uma doença.
Um abandono.
Uma dívida.
Uma perda.
Uma velhice que chegou sem pedir licença.
Uma mão que ninguém segurou quando ainda havia tempo.
É aí que a coisa fica desagradável.
Porque começa a desaparecer a confortável fronteira entre eu e ele.
Nós gostamos de acreditar que somos indivíduos separados.
Eu tenho minha vida.
Ele tem a dele.
Eu tenho meus problemas.
Ele tem os dele.
Uma pequena matemática moral para justificar nossa covardia.
Mas existe uma coisa incômoda chamada humanidade.
E ela não respeita nossos muros.
Ela passa por dentro deles.
O homem continuava caminhando.
A chuva continuava caindo.
A motocicleta continuava estacionada.
As pessoas continuavam indo para algum lugar.
E eu continuava atrás do vidro.
Isso também me incomodava.
Porque observar o sofrimento não nos torna melhores.
Às vezes apenas nos torna espectadores mais sofisticados.
Você pode escrever sobre a fome e continuar jantando tranquilamente.
Pode falar sobre compaixão e não oferecer um minuto a ninguém.
Pode publicar frases bonitas sobre humanidade enquanto passa por uma pessoa caída na calçada olhando para o celular.
A consciência é uma coisa estranha.
Ela permite que você se sinta culpado sem precisar mudar absolutamente nada.
Talvez essa seja uma das maiores fraudes que inventamos.
Sentir não basta.
Pensar não basta.
Indignar-se não basta.
A compaixão que não atravessa o corpo e chega às mãos é apenas uma emoção bem-comportada.
E talvez seja disso que este homem esteja nos lembrando.
Não com palavras.
Não com discursos.
Não com nenhuma bandeira.
Apenas com aquele corpo cansado.
Aquele bastão.
Aquela trouxa.
Aquela mão cobrindo o rosto.
Ele não precisa saber que está nos ensinando alguma coisa.
Talvez nem queira.
Talvez só queira chegar a algum lugar.
E existe uma brutalidade nisso.
Ele está tentando chegar.
Nós também.
A diferença é que alguns carregam uma mochila.
Outros carregam apartamentos, carros, diplomas, investimentos, fotografias de família, rancores, traumas, vaidades, fracassos e uma quantidade absurda de medo.
Todos carregamos alguma coisa.
A questão é o que fazemos quando percebemos que outra pessoa não consegue mais carregar a dela.
Viramos o rosto?
Aceleramos o passo?
Ou paramos?
Talvez seja esse o ensaio mais simples para recuperar alguma coisa que perdemos.
Parar.
Olhar.
Reconhecer.
Cuidar.
Não porque somos santos.
Não porque precisamos salvar o mundo.
Mas porque, antes de todas essas teorias sobre sucesso, liberdade, mérito e individualidade, existe uma coisa muito mais antiga dentro de nós.
A necessidade de cuidar.
Ela está lá.
Debaixo do cinismo.
Debaixo do orgulho.
Debaixo das cicatrizes.
Debaixo dessa couraça ridícula que construímos para não sofrer.
Você foi feito para cuidar.
E eu sei que isso soa ingênuo.
Num mundo que transforma gentileza em fraqueza, parece até uma piada.
Mas talvez a verdadeira fraqueza seja justamente o contrário.
Passar por alguém quebrado e precisar fingir que não viu.
Porque para não sentir a dor dos outros você precisa amputar alguma coisa dentro de si.
E amputações emocionais também deixam cicatrizes.
O homem desapareceu na chuva.
O bar continuou cheio.
Pedi outra cerveja.
Não porque tivesse esquecido o que vi.
Mas porque ainda não sabia o que fazer com aquilo.
Talvez começar seja exatamente isso:
não esquecer.
Não deixar que aquela imagem vire apenas mais uma fotografia entre milhares.
Não permitir que a dor de alguém se torne paisagem.
Talvez a mudança comece antes da ação.
Comece no instante em que você se recusa a olhar para o outro como um estranho.
Porque, no fim, somos todos passageiros da mesma coisa.
E a cidade continuará esbarrando em nós.
A chuva continuará caindo.
Os bares continuarão cheios.
As pessoas continuarão com pressa.
E algum homem continuará caminhando devagar, carregando nas costas tudo aquilo que ninguém quis carregar com ele.
A pergunta não é se podemos salvar aquele homem.
Talvez não possamos.
A pergunta é outra.
O que ainda existe dentro de nós quando vemos alguém sofrendo e escolhemos não nos importar?
Talvez seja aí que a humanidade comece.
Ou termine.
Depende do que você fizer depois de olhar.

O Reflexo Também Tem Uma Arma


A vidraça estava ali como todas as vidraças do mundo: limpa o bastante para fingir que era transparente e suja o bastante para esconder alguma coisa.
Parei diante dela.
Não porque quisesse me olhar.
Ninguém para diante de uma vidraça para se olhar. Isso é coisa de gente satisfeita, vendedor de roupa, sujeito que acabou de ganhar um emprego ou alguém que ainda acredita que o rosto tem alguma coisa a dizer.
Eu só estava passando.
Foi o reflexo que me fez parar.
Primeiro apareceu a minha silhueta.
Depois o rosto.
Depois alguma coisa que não combinava comigo.
A iluminação era ruim, o vidro tinha marcas, riscos, manchas e aquela sujeira fina que a cidade deposita sobre tudo como se cobrasse aluguel. Meu reflexo estava quebrado em vários pedaços.
O rosto num lugar.
O ombro em outro.
Um olho ligeiramente acima do outro.
A boca cortada por uma rachadura.
Parecia uma fotografia de família depois de uma discussão.
Fiquei olhando.
O reflexo também.
Aquilo começou a me irritar.
Não havia nada de especial em uma imagem quebrada. A cidade estava cheia delas. Pessoas quebradas também. Algumas usavam terno. Outras tinham diploma. Algumas tinham filhos. Outras tinham planos para o fim de semana.
A diferença é que as pessoas conseguem esconder melhor as rachaduras.
A vidraça não.
Ela não tinha autoestima.
Era uma vantagem.
Cheguei mais perto.
Foi então que percebi.
O reflexo não estava exatamente repetindo meus movimentos.
Minha cabeça inclinou um pouco.
A imagem demorou.
Um segundo.
Talvez menos.
O suficiente.
Pisquei.
Ele não.
Aquilo seria engraçado se não fosse tão desagradável.
Dei um passo para trás.
O reflexo continuou perto.
Foi aí que tive a impressão de que ele estava apontando alguma coisa para mim.
Não uma arma de verdade.
Seria mais simples se fosse.
Uma arma resolve a discussão.
O reflexo parecia apontar a própria verdade.
E isso é muito pior.
Fiquei olhando para aquele rosto dividido em pedaços.
Um rosto que eu conhecia.
Ou achava que conhecia.
Havia coisas ali que eu não lembrava de ter colocado.
Cansaço.
Rancor.
Pequenas derrotas cuidadosamente arquivadas.
Algumas pessoas que eu dizia ter esquecido.
Algumas decisões que eu chamava de necessidade porque covardia é uma palavra feia demais para certas ocasiões.
E havia também aquele velho sujeito que passava a vida dizendo que estava tudo bem.
O mentiroso profissional.
Eu.
O reflexo parecia saber.
Isso me incomodou.
A gente passa anos aperfeiçoando versões aceitáveis de si mesmo.
Aprende quando sorrir.
Quando apertar a mão.
Quando dizer “vamos ver”.
Quando dizer “não foi nada”.
Quando dizer “eu já superei”.
É um treinamento longo.
Quase uma carreira.
E então uma vidraça qualquer vem e estraga tudo.
Não há salário que pague isso.
Tentei olhar para o outro lado.
Uma rua.
Um carro.
Uma mulher atravessando.
Um cachorro urinando num poste.
A vida continuava oferecendo suas pequenas distrações.
O mundo é muito eficiente nisso.
Quando você começa a pensar demais, ele manda um cachorro mijar num poste.
Olhei para o cachorro.
Funcionou por três segundos.
Depois meu canto de olho voltou para a vidraça.
O reflexo continuava lá.
Esperando.
Não parecia zangado.
Isso seria fácil.
Parecia apenas decepcionado.
E não há nada mais ofensivo do que a decepção de alguém que não precisa dizer nada.
Fiquei imaginando quantas vezes eu havia passado diante daquela mesma superfície sem perceber.
Talvez todas as pessoas façam isso.
Talvez a cidade inteira seja construída de vidraças.
Portas de vidro.
Janelas.
Espelhos.
Telas de celulares.
Vitrines.
Carros estacionados.
Tudo refletindo alguma coisa.
Tudo devolvendo nossa cara em prestações.
E talvez seja por isso que ninguém olhe direito.
É mais confortável enxergar o preço de uma televisão na vitrine do que enxergar a própria expressão sobre ela.
Mais fácil admirar um carro do que perguntar quem está dirigindo.
Mais fácil procurar alguém bonito do outro lado do vidro do que descobrir quem está deste lado.
Afastei-me.
Desta vez o reflexo acompanhou.
Normal.
Finalmente.
Talvez eu tivesse imaginado tudo.
É uma explicação bastante útil.
A imaginação é o advogado de defesa dos culpados.
Fui embora.
Andei alguns metros.
Então olhei novamente.
Só pelo canto dos olhos.
Ele ainda estava lá.
Pequeno agora.
Fragmentado.
Quase irreconhecível.
Mas ainda apontando aquela coisa para mim.
A verdade.
Continuei andando.
Não olhei para trás.
Pelo menos não diretamente.
Porque algumas verdades não precisam que você as encare.
Elas sabem esperar.
E, quando você pensa que escapou, aparecem refletidas no vidro de um carro, numa janela escura, na tela apagada do telefone.
E ficam ali.
Sem disparar.
Sem gritar.
Sem pedir explicações.
Só apontando.
Até você descobrir que o sujeito do outro lado da vidraça não estava tentando matar você.
Estava apenas tentando impedir que você continuasse mentindo.