Coleção pessoal de PaulHBenz

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*EU ME QUERO DE VOLTA*


Saí de casa sem saber para onde ia. Não era exatamente uma viagem. Viagem pressupõe algum compromisso com a chegada. Eu só queria andar.


Peguei a moto cedo, antes que a cidade começasse a cobrar de mim as coisas que eu já não sabia se queria pagar. Uma mochila pequena, pouca roupa, documentos, algum dinheiro e aquela sensação conhecida de que talvez, se eu ficasse longe o bastante, certas coisas dentro da cabeça perdessem o endereço.


A estrada de serra estava quase vazia.


Subi sem pressa. Curva depois de curva. Pinheiros, barrancos, casas isoladas, pequenas vendas onde ainda se podia tomar café sem alguém perguntar se você queria açúcar. Em alguns lugares, o mundo parecia ter esquecido de atualizar a paisagem.


Eu gostava disso.


Talvez porque passei boa parte da vida fazendo exatamente o contrário.


Atualizando.


Mudando de emprego. De cidade. De mulher. De opinião. De planos. Trocando certezas velhas por certezas novas, como quem troca uma camisa suja e acredita que ficou limpo.


Quando somos jovens, ninguém nos explica direito o tamanho da brincadeira.


Dizem para estudar.


Trabalhar.


Construir.


Casar, talvez.


Ter filhos.


Comprar uma casa.


Ser alguém.


A gente acredita.


Depois descobre que existe uma diferença enorme entre cumprir o figurino e caber dentro dele.


Eu cumpri algumas partes.


Outras fiz pela metade.


E algumas fiz tão bem que quase consegui destruir a pessoa que deveria ter sido.


Foi só muito depois que percebi isso.


Na juventude, eu achava que as decepções eram acidentes de percurso. Uma mulher que não ficou. Um amigo que virou estranho. Um projeto que morreu antes de nascer. Uma porta que não abriu. Um sonho que parecia grande demais para o quarto onde eu dormia.


A gente sofre.


Depois chama aquilo de experiência.


É uma maneira elegante de não admitir que não entendeu nada.


Continuei subindo.


Em determinado ponto, parei a moto num acostamento. Havia uma venda pequena, dessas que parecem ter sobrevivido por teimosia. Pedi café. O homem atrás do balcão devia ter mais ou menos a minha idade. Talvez um pouco mais.


Ele não tinha pressa.


Fiquei olhando enquanto ele limpava o balcão com um pano que provavelmente já tinha visto dias melhores.


Pensei em quantas pessoas eu havia observado durante a vida.


Homens cansados.


Mulheres que desistiram de certas coisas sem anunciar.


Gente que bebia todos os dias.


Gente que trabalhava todos os dias.


Gente que dizia estar feliz com a convicção de quem precisava convencer a si mesmo.


Eu costumava olhar para essas pessoas de fora.


Agora começo a reconhecê-las por dentro.


Essa talvez seja uma das partes menos agradáveis de envelhecer.


Você começa a encontrar nos outros os mesmos defeitos que passou anos condenando.


O homem que você julgava acomodado.


Você.


A mulher que você achava que tinha desistido.


Você.


O sujeito que dizia não esperar mais nada da vida.


Você.


É uma espécie de justiça tardia.


A vida não manda boleto.


Manda espelho.


Voltei para a estrada.


Desci a serra em direção ao litoral. O ar mudou primeiro. Depois a paisagem. A estrada se abriu e o mar apareceu entre uma curva e outra.


Parei.


Fiquei olhando.


Não senti nenhuma revelação.


Ainda bem.


Tenho desconfiança de revelações.


Quase sempre elas duram até o próximo problema.


O que senti foi uma coisa mais simples.


Cansaço.


Um cansaço antigo.


Não do corpo. O corpo estava funcionando.


Era outro.


O cansaço de carregar perguntas que aprenderam a se reproduzir.


Quando somos jovens, procuramos respostas.


Depois de algum tempo, percebemos que algumas respostas apenas criam perguntas melhores.


E algumas perguntas não querem resposta.


Querem companhia.


Segui pela estrada litorânea.


Pequenos lugarejos apareciam e desapareciam. Uma igreja. Uma praça. Dois cachorros dormindo na sombra. Um bar aberto numa quarta-feira à tarde. Um velho sentado numa cadeira de plástico olhando para lugar nenhum.


Talvez ele soubesse alguma coisa.


Talvez não.


Essa é outra mentira da idade.


A gente imagina que quem chegou mais longe sabe mais.


Nem sempre.


Às vezes só chegou mais longe.


Foi então que lembrei de algumas coisas que eu tinha deixado para trás.


Não pessoas exatamente.


Momentos.


A adolescência.


Aquele período estranho em que a vida ainda não tinha apresentado a conta.


Eu sinto falta de coisas que, na época, pareciam insignificantes.


Uma rua.


Um quarto.


Uma conversa idiota.


Uma música tocando num rádio ruim.


Uma tarde sem obrigação.


A sensação de que ainda havia muito tempo.


É curioso.


Quando temos tempo, queremos futuro.


Quando o futuro já está parcialmente ocupado pelo passado, começamos a querer de volta algumas tardes.


Não quero voltar a ser adolescente.


Isso seria uma estupidez.


Quero apenas recuperar alguma coisa daquele sujeito que acreditava que a vida podia ser diferente.


Não necessariamente melhor.


Diferente.


Talvez seja isso que eu tenha perdido.


Não a juventude.


A capacidade de acreditar antes de exigir garantias.


Passei anos tentando viver de acordo com aquilo que parecia correto.


E algumas coisas corretas fizeram estragos.


Essa talvez seja uma das coisas que ainda não compreendi.


Como alguém pode fazer tudo conforme o figurino e, mesmo assim, terminar diante de uma vida que não reconhece?


Você trabalha.


Paga contas.


Cumpre compromissos.


Evita escândalos.


Engole algumas vontades.


Adia outras.


Diz “depois”.


Diz “agora não”.


Diz “é o melhor”.


E, quando percebe, existe uma distância entre aquilo que você construiu e aquilo que você era.


Não houve uma explosão.


Não houve música triste.


Ninguém percebeu.


Foi acontecendo.


Depois que sangra, seca.


O problema é que a pele fica diferente.


Talvez algumas coisas tenham morrido em mim em dias que eu achei que tinha apenas perdido.


Uma relação.


Uma amizade.


Uma possibilidade.


Uma versão de mim.


Aquilo não me matou.


Mas algo naquele dia morreu em mim.


Demorei para entender.


Ou talvez ainda não tenha entendido.


A diferença entre amadurecer e se acostumar é uma das perguntas que continuam me perseguindo.


Porque existe gente madura.


E existe gente apenas cansada.


Existe gente tranquila.


E existe gente que desistiu de discutir com a própria vida.


Existe gente que aprendeu a viver.


E existe gente que aprendeu a não reclamar.


Às vezes eu não sei em qual grupo estou.


Talvez nos dois.


Continuei rodando.


O vento batia no capacete e levava embora qualquer possibilidade de pensamento organizado.


Foi bom.


Minha cabeça sempre foi um lugar pouco recomendável.


Sou de carne, osso e uma confusão de pensamentos.


Nunca fui exatamente uma pessoa simples.


Durante muito tempo achei que isso fosse um defeito.


Hoje já não sei.


Talvez a simplicidade seja apenas uma forma eficiente de esconder aquilo que não conseguimos compreender.


Eu sempre vou ser uma confusão.


Não digo isso com orgulho.


Também não digo com vergonha.


É apenas um diagnóstico sem médico.


No fim da tarde, parei perto de uma praia pequena.


Não havia quase ninguém.


Tirei o capacete e sentei num banco.


O mar fazia aquele trabalho antigo de ir e voltar sem precisar justificar nada.


Pensei que talvez eu tivesse passado tempo demais tentando resolver a minha vida.


Talvez a amnésia resolvesse o problema.


Esquecer algumas coisas.


Esquecer algumas pessoas.


Esquecer certas versões de mim.


Mas logo percebi que seria inútil.


Porque não é o passado que continua nos perseguindo.


Somos nós que continuamos voltando até ele.


Voltei para a moto.


Ainda não sabia para onde iria dormir.


Também não sabia o que faria no dia seguinte.


Pela primeira vez em muito tempo, isso não pareceu uma ameaça.


Talvez porque eu tenha finalmente entendido que planejar tudo não me protegeu de nada.


Tudo correu como eu não planejei.


E, apesar disso, cheguei até aqui.


Não é uma vitória.


Também não é uma derrota.


É apenas o lugar onde estou.


A estrada continuava pela costa.


Eu podia seguir.


Podia parar.


Podia voltar.


Não havia placa dizendo qual das três opções seria a mais correta.


Ainda bem.


Passei anos demais obedecendo placas.


Naquela noite, enquanto o céu escurecia sobre o mar, pensei numa frase que não parecia minha, embora viesse de dentro:


eu me quero de volta.


Não o homem que fui.


Isso seria impossível.


Quero de volta alguma coisa que existia antes de eu começar a negociar comigo mesmo.


Antes de transformar desejo em obrigação.


Antes de confundir responsabilidade com abandono.


Antes de aprender a dizer “é assim mesmo”.


Talvez viver seja justamente isso.


Perder algumas versões de si.


Encontrar outras.


E, de vez em quando, reconhecer uma antiga no acostamento.


Parar.


Olhar.


Não tentar trazê-la de volta.


Apenas agradecer.


Depois subir na moto e continuar.


Porque existir é pouco.


É preciso viver.


Mesmo sem saber exatamente como.


Mesmo carregando perguntas.


Mesmo fazendo errado.


Mesmo descobrindo tarde demais que algumas respostas não estavam na estrada, na cidade, nas pessoas ou nos lugares para onde fugimos.


Estavam naquilo que a gente evitou olhar enquanto ainda tinha tempo.


O motor pegou na primeira tentativa.


Pus o capacete.


Acelerei.


Vamos, vida.


Me surpreenda.


Dessa vez eu não vou exigir que você faça sentido.

*VOCÊ NÃO É A CASA*


Naquela noite o bar estava quase vazio. Duas mesas ocupadas, um sujeito dormindo sobre o próprio copo e eu, no balcão, fingindo que ainda havia alguma coisa para esperar. O dono tinha colocado uma moeda no jukebox e a música saía baixa, um pouco torta, como se até ela soubesse que não valia a pena se esforçar demais.


Eu estava olhando para a garrafa quando vi a fotografia.


Uma mulher de vestido branco, descalça, subindo uma escadaria destruída.


Fiquei algum tempo olhando aquilo.


Não sei por quê.


Talvez porque havia alguma coisa familiar naquela escada.


Os tijolos estavam expostos. O reboco tinha caído em pedaços. Havia entulho nos degraus. A casa parecia ter sido abandonada depois de uma briga longa demais. Daquelas em que ninguém lembra mais quem começou e todos saem perdendo.


Ela subia.


De costas.


Não dava para saber quem era. Nem precisava.


O que importava era que ainda estava subindo.


Pedi outra dose.


O homem do meu lado olhou para a fotografia e disse:


— Lugar perigoso.


Eu disse que sim.


Mas não era a escada que me preocupava.


Era reconhecer a casa.


A gente passa uma parte da vida construindo paredes. Trabalho. Família. Amigos. Algumas mulheres. Hábitos. Pequenas certezas. Vai colocando coisa dentro e chamando aquilo de vida.


Depois começam as rachaduras.


Primeiro ninguém percebe.


Uma porta que já não fecha direito. Um joelho que reclama. Um nome que você esquece. Uma pessoa que antes ligava e agora não liga mais. Um amigo que morreu e deixou uma cadeira vazia que ninguém tem coragem de ocupar.


Depois vem o resto.


A casa começa a perder pedaços.


Aos sessenta e poucos anos, eu já não tenho a mesma disposição para fingir que não vejo.


O corpo diminui um pouco.


A paciência também.


A gente começa a carregar menos coisas porque percebe que carregar tudo nunca foi sinal de força. Às vezes era só medo de deixar alguma coisa para trás.


Olhei novamente para a mulher.


O vestido branco destoava daquela destruição toda.


Aquilo me incomodou.


Talvez porque eu tivesse passado tempo demais acreditando que era preciso estar inteiro para continuar.


Não é.


Você pode estar cansado e continuar.


Pode ter perdido gente e continuar.


Pode olhar para trás e descobrir que boa parte daquilo que chamava de futuro já virou entulho.


E continuar.


A escada estava quebrada, mas ainda era uma escada.


Isso bastava.


A mulher levantava um pouco o vestido para não tropeçar. Não havia heroísmo naquilo. Nenhuma grande lição. Ela simplesmente precisava subir.


Foi quando entendi uma coisa que demorei décadas para entender.


Eu não sou a casa.


Passei muito tempo confundindo as duas coisas.


Achei que cada perda arrancava um pedaço de mim. Que cada fracasso derrubava uma parede. Que cada despedida me deixava mais perto do fim.


Talvez não.


Talvez algumas coisas apenas precisem cair.


Há construções que só continuam de pé porque ninguém teve coragem de abandoná-las.


A música terminou.


O dono do bar não colocou outra.


Ficamos alguns segundos ouvindo o silêncio das garrafas, dos copos, da rua quase vazia.


Paguei a conta e saí.


Na calçada, o ar estava frio.


Não me senti renovado. Não houve epifania. Minha vida continuava com os mesmos problemas e algumas contas novas.


Mas, naquela noite, eu tinha uma pequena diferença.


Eu sabia que a ruína não era necessariamente o fim.


Às vezes era só o lugar onde a gente finalmente percebe que não precisa morar para sempre.


E então sobe.


Mesmo descalço.


Mesmo tarde.


Mesmo sem saber exatamente o que existe no andar de cima.


Sobe porque ficar parado dentro dos próprios escombros também é uma escolha.


E eu já tinha passado tempo demais escolhendo errado.

*O RELÓGIO QUE VOLTOU A ANDAR*
A chuva começou antes do almoço e, por algum motivo, resolveu ficar.
Não era uma chuva forte. Era pior. Daquelas que molham a cidade por horas sem produzir nenhum acontecimento digno de nota. O céu baixo, as janelas fechadas, o frio entrando pelas frestas. Um dia feito para não sair de casa.
Meu bourbon tinha acabado na noite anterior.
Considerei sair para comprar outra garrafa. Cheguei a procurar as chaves. Depois olhei pela janela e achei que morrer de frio por uma garrafa de bourbon seria uma maneira muito idiota de continuar vivo.
Deixei as chaves sobre a mesa.
Foi quando a energia acabou.
A casa ficou quieta de uma maneira diferente. A geladeira parou, o computador apagou, o relógio da cozinha perdeu os números vermelhos. Até a chuva pareceu mais próxima.
Acendi uma vela.
O cheiro da parafina tomou conta da sala quase imediatamente. Nunca entendi por que velas têm cheiro de coisa velha. Talvez porque geralmente só as acendemos quando alguma coisa deu errado.
O gato apareceu no corredor, olhou para a vela e depois para mim.
— Não fui eu.
Ele ficou me olhando mais alguns segundos.
Talvez estivesse tentando decidir se acreditava.
Ou talvez estivesse apenas esperando a hora da comida.
Abri uma das caixas empilhadas no armário.
Eu vinha adiando aquilo havia meses. Dentro havia documentos antigos, fotografias, recibos, cartas, cartões de visita de gente que provavelmente já tinha mudado de telefone três vezes ou morrido. Era impressionante a quantidade de papel necessária para provar que uma pessoa existiu.
Comecei pelos documentos.
Certidões.
Contratos.
Papéis de bancos que já nem existem.
Depois encontrei fotografias.
Uma delas me pegou desprevenido.
Eu estava mais jovem, numa praia que não reconheci de imediato. Havia outras pessoas na fotografia. Algumas eu lembrava. Outras não.
Fiquei olhando meu próprio rosto durante um tempo.
Não gostei muito do sujeito.
Parecia confiante.
Isso me incomodou.
Eu não me lembrava de ter sido tão confiante.
Talvez eu apenas tivesse aprendido a posar.
Continuei remexendo na caixa.
Encontrei um relógio de pulso.
Eu o reconheci.
Era meu.
Coloquei-o sobre a mesa.
O relógio estava parado havia anos. A pulseira estava ressecada e o vidro tinha um risco atravessando o mostrador.
Aproximei-o do ouvido.
Nada.
Era estranho escutar o silêncio de um relógio.
Pensei em quantas coisas param sem que ninguém perceba.
Depois achei a velha chave de dar corda.
Ainda estava junto dele.
Dei algumas voltas.
O ponteiro dos segundos começou a andar.
Tic.
Tic.
Tic.
O gato levantou a cabeça.
Olhou para o relógio.
Depois voltou a deitar.
Eu ri sozinho.
Aquele animal tinha um talento irritante para não se impressionar com as coisas certas.
Fiquei sentado no chão, cercado por fotografias e papéis.
Foi aí que percebi que eu tinha passado boa parte da vida tentando guardar provas de que certas coisas aconteceram.
Fotografias para lembrar de pessoas.
Documentos para provar acontecimentos.
Cartas para conservar frases que alguém havia escrito quando ainda queria que eu as conservasse.
Como se a memória fosse uma repartição pública e, sem carimbo, nada tivesse validade.
Peguei uma fotografia.
Naquela época eu ainda achava que tinha tempo.
Não muito.
Mas algum.
É uma diferença importante.
A gente não percebe quando passa a contar a vida de outro jeito. Primeiro pensa em anos. Depois começa a pensar em coisas que ainda dá para fazer. Depois em coisas que talvez não valha mais a pena fazer.
E então surgem os pequenos acordos.
Não vou hoje.
Amanhã eu vejo.
Depois eu compro.
Depois eu telefono.
Depois eu arrumo.
Depois eu saio.
Depois.
Essa palavra tem uma capacidade impressionante de ocupar uma vida inteira.
O relógio continuava fazendo seu trabalho sobre a mesa.
Eu não.
Pelo menos naquele momento.
Eu estava sentado no chão de uma sala fria, com fome, sem bourbon, ouvindo a chuva e um relógio que eu tinha esquecido que existia.
O gato levantou, atravessou a sala e parou diante da janela.
Ficou ali olhando a chuva.
Pensei que talvez ele soubesse alguma coisa sobre permanecer.
Logo depois percebi que aquilo era apenas mais uma das minhas maneiras de transformar um gato em personagem da minha cabeça.
Ele provavelmente estava olhando um pássaro.
Ou querendo sair.
Ou pensando em comida.
Talvez não estivesse pensando em nada.
Essa última hipótese me pareceu bastante ofensiva.
E útil.
Voltei às fotografias.
Uma delas tinha uma dobra no meio.
Passei o dedo sobre ela, tentando alisá-la.
Não adiantou.
Deixei assim.
Durante muito tempo achei que continuar fosse uma espécie de vitória.
Hoje não sei.
Também não sei se é esperança.
Nunca fui muito bom com essa palavra.
Às vezes continuar é apenas aquilo que acontece quando você ainda não parou.
Você acorda porque o corpo acorda.
Faz café porque sempre fez.
Atende o telefone porque ele tocou.
Paga uma conta porque alguém inventou a conta.
Alimenta o gato porque, aparentemente, o gato não está disposto a participar das suas crises existenciais.
E isso vai formando uma espécie de rotina sem discurso.
Talvez seja pouco.
Naquele dia, foi o que eu tinha.
A energia voltou no começo da noite.
A geladeira ligou.
O computador acendeu.
O relógio da cozinha voltou aos números vermelhos.
A casa recuperou seus pequenos ruídos.
Eu poderia ter ligado a televisão.
Não liguei.
Fiquei ouvindo o relógio de pulso.
Tic.
Tic.
Tic.
O gato dormia no sofá.
Guardei os documentos de volta na caixa.
As fotografias, não.
Deixei algumas sobre a mesa.
Não por nostalgia.
Ou pelo menos foi isso que disse a mim mesmo.
Depois fui até a cozinha.
Abri a torneira.
Bebi água.
Não era bourbon.
Mas era água.
Voltei para a sala.
O relógio continuava andando.
Dessa vez não o tirei do ouvido.
Fiquei apenas escutando.
E, naquela noite, pela primeira vez em algum tempo, não tive pressa nenhuma de fazê-lo parar.

*NINGUÉM ESTAVA OLHANDO*
Naquela tarde eu estava na varanda tentando lembrar por que tinha ido até ali.


Isso acontece mais do que eu gostaria.


Às vezes saio da cozinha com alguma coisa na cabeça e, quando chego à varanda, a coisa desaparece. Fico parado com o copo na mão, olhando o jardim, como se a resposta pudesse ter ficado para trás no corredor.


O jardim vai até o passeio público. Não há muro. Nunca coloquei.


A árvore cresceu torta para um lado e ocupa quase toda a sombra da varanda. O gato gosta de ficar ali embaixo. Naquele dia estava deitado sobre a terra, com as patas recolhidas e os olhos fechados.


Eu tinha um cigarro aceso.


Não lembrava por que tinha ido fumar.


Isso me pareceu mais importante do que deveria.


Sentei.


Na mesa havia uma caixa de fósforos vazia. Peguei, virei entre os dedos e tentei lembrar quando tinha sido usada pela última vez.


Não consegui.


Deixei de volta.


O gato abriu um olho.


— Também não sabe?


Ele fechou o olho novamente.


Talvez estivesse dormindo.


Talvez apenas não tivesse interesse na conversa.


Eu respeitei.


Passei muito tempo acreditando que precisava entender algumas coisas antes que fosse tarde. Não sei exatamente quando comecei com isso. Talvez depois dos quarenta. Talvez antes. A memória tem esse defeito conveniente de reorganizar os fatos para que pareçam ter acontecido quando a gente estava pronto para entendê-los.


Eu não estava.


Ainda não estou.


Lembrei de uma frase que escrevi muitos anos atrás. Não sei onde está o papel. Talvez tenha jogado fora. Talvez esteja dentro de algum livro. Eu costumava guardar essas coisas.


Escrevi que era um rascunho de um plano que o tempo havia esquecido de executar.


Na época, achei que tinha descoberto alguma coisa sobre mim.


Hoje penso que talvez estivesse apenas cansado.


Mas a frase ficou.


Algumas frases fazem isso.


A gente escreve para se livrar delas e acaba passando anos carregando-as.


Levantei para buscar mais uísque.


Na cozinha, fiquei alguns segundos diante do armário sem saber o que estava fazendo ali.


Voltei para a varanda com a garrafa.


O gato tinha mudado de posição.


Só isso.


Eu tinha envelhecido alguns anos desde aquela frase e o gato continuava mudando de posição.


Talvez fosse esse o problema.


Eu sempre quis que o tempo produzisse alguma conclusão.


Ele não produziu.


Produziu contas, fotografias, algumas cicatrizes, nomes que já não significam muita coisa e uma coleção de decisões que, vistas de longe, parecem ter sido tomadas por homens diferentes.


Talvez tenham sido.


Ou talvez eu só goste de pensar assim porque é mais fácil atribuir meus erros a versões anteriores de mim mesmo.


Um homem de vinte anos.


Um homem de trinta.


Outro aos quarenta.


Todos com o mesmo nome.


Nenhum deles me pediu autorização.


Uma mulher passou pelo passeio empurrando uma bicicleta. Olhou para o jardim.


Eu tive a impressão de que olhou para mim.


Ela continuou.


Durante alguns segundos fiquei esperando que voltasse o rosto.


Não voltou.


Foi quando percebi uma coisa que deveria ter percebido muito antes: quase ninguém está olhando.


Passei anos me comportando como se houvesse uma plateia.


Como se cada escolha minha estivesse sendo registrada.


Como se fosse necessário chegar a algum lugar com uma história coerente para apresentar no fim.


Mas não havia plateia.


Havia apenas o passeio, a árvore, a rua e uma mulher que provavelmente já tinha esquecido a varanda antes de chegar à esquina.


O gato levantou.


Caminhou até a borda do jardim.


Parou.


Olhou para o outro lado da rua.


Eu fiquei esperando que ele fizesse alguma coisa.


Ele não fez.


Depois entrou em casa.


Fiquei sozinho.


Pensei novamente naquela frase antiga.


Rascunho.


Plano.


Tempo.


Eu tinha passado tantos anos tentando descobrir qual era a versão definitiva de mim que talvez não tivesse percebido o óbvio: eu continuava escrevendo rascunhos porque não queria assinar a versão final.


Não sei se isso é covardia.


Talvez seja.


Também pode ser apenas hábito.


Acendi outro cigarro.


Fiquei olhando a fumaça desaparecer antes de chegar à árvore.


Pensei nas coisas que deixei pela metade.


Algumas por falta de coragem.


Outras porque perderam o sentido.


Outras simplesmente porque eu era jovem demais para perceber que certas portas fecham sem fazer barulho.


Ainda havia uma parte de mim que insistia em voltar a essas portas.


Não para entrar.


Só para verificar se continuavam fechadas.


Achei isso ridículo.


Depois pensei que talvez fosse apenas humano.


O céu começou a escurecer.


A luz da varanda acendeu sozinha.


A caixa de fósforos continuava sobre a mesa.


Peguei-a novamente.


Dessa vez não tentei lembrar de onde vinha.


Coloquei no bolso.


O cigarro terminou.


Fiquei segurando o filtro entre os dedos por alguns segundos, como se esperasse alguma instrução.


Não veio.


Joguei no cinzeiro.


Eu poderia ter ido para dentro.


Não fui.


Talvez ainda esperasse alguma coisa.


Não sei o quê.


Uma resposta.


Uma lembrança.


Uma vontade antiga.


Uma prova de que todo aquele tempo tinha servido para alguma coisa.


Nada aconteceu.


E talvez tenha sido justamente isso que me fez ficar ali.


Sem resolver.


Sem concluir.


Sem transformar a tarde em uma explicação.


A rua continuou.


A árvore continuou.


Dentro da casa, ouvi o gato derrubar alguma coisa.


Fui ver.


Era apenas um copo vazio no chão.


Peguei o copo.


O gato já estava no corredor, indo embora.


Fiquei olhando.


Depois apaguei a luz da varanda.


A casa ficou escura por alguns segundos antes que meus olhos se acostumassem.


E eu percebi que ainda havia coisas em mim que não tinham terminado.


Mas, pela primeira vez, não tive pressa de terminá-las.

*O Uniforme da Virtude*


O jornal apareceu no meu jardim numa manhã em que eu não estava esperando por notícias.


Não era assinante. Nunca fui muito chegado a jornais, principalmente depois que descobri que as tragédias do mundo chegavam mais rápido pela internet e as mentiras continuavam chegando no mesmo ritmo.


Peguei o jornal pela ponta, como quem recolhe alguma coisa suspeita.


Levei para a varanda.


Sentei na cadeira velha e coloquei os pés sobre o parapeito. O gato estava deitado no degrau. Olhou para mim. Miou.


Parecia perguntar:


— Você vai realmente ler isso?


Não respondi.


Ele se espreguiçou, virou de costas e foi cuidar de assuntos mais importantes. Provavelmente dormir.


Abri o jornal.


Na primeira página havia um cidadão sorrindo.


Era um dos homens que ocupavam um dos cargos eletivos daquela nova cidade. O sorriso tinha aquela medida exata que os fotógrafos gostam. Nem alegria demais, nem preocupação demais. Apenas o suficiente para parecer humano.


Ao lado da fotografia, um título falava sobre dignidade humana.


Li.


O homem defendia respeito, inclusão, empatia, tolerância e todas aquelas palavras que hoje aparecem juntas com a mesma facilidade com que antigamente se escrevia “atenciosamente” no fim de uma carta.


Continuei lendo.


Não havia nada errado com o que ele dizia.


Esse era justamente o problema.


O sujeito tinha aprendido a dizer tudo certo.


Fiquei alguns minutos olhando para o papel.


Pensei que talvez eu estivesse ficando velho demais para certas coisas. Talvez o problema fosse comigo. Talvez fosse apenas implicância de um homem que já viu muita gente falar bonito antes de fazer alguma coisa feia.


Mas então lembrei que tratar alguém com respeito nunca foi o problema.


O problema começa quando a virtude vira uniforme e a consciência passa a usar crachá.


Parei de ler.


O gato voltou.


Sentou ao meu lado.


Olhou para o jornal.


Depois olhou para mim.


— É — eu disse. — Também achei estranho.


Voltei ao texto.


O homem falava sobre uma sociedade mais humana. Era uma boa ideia. Quase bonita.


Só que eu conhecia aquele tipo de discurso.


A cidade continuava cheia de gente que passava por moradores de rua sem enxergá-los. Velhos continuavam conversando sozinhos dentro de apartamentos silenciosos. Crianças aprendiam cedo que certas coisas eram vendidas antes mesmo de serem compreendidas.


E nós continuávamos medindo pessoas.


Pelo salário.


Pela aparência.


Pelos seguidores.


Pela utilidade.


Pela capacidade de nos servir.


Depois chamávamos aquilo de sociedade civilizada.


Talvez fosse por isso que a expressão “politicamente correto” tivesse adquirido tanta importância.


Não porque respeito fosse ruim.


Respeito é necessário.


O problema é quando a palavra passa a substituir o comportamento.


Trocaram a ética pela etiqueta.


É mais fácil.


Etiqueta exige apenas que você saiba onde colocar o garfo.


Ética exige que você saiba onde colocar a própria crueldade.


E isso dá trabalho.


Continuei lendo.


O político falava sobre empatia.


Eu pensei em quantas pessoas conhecia que publicavam frases sobre empatia e não conseguiam ouvir cinco minutos de alguém que discordasse delas.


Era uma coisa curiosa.


A crueldade havia aprendido gramática.


A hipocrisia descobrira o vocabulário da inclusão.


A mentira tinha feito faculdade.


E eu não estava completamente fora disso.


Foi aí que a leitura começou a ficar desagradável.


Porque é fácil apontar o dedo para o sujeito da fotografia.


Mais difícil é olhar para a própria mão.


Eu também já fui injusto.


Já tratei pessoas como inconvenientes porque estavam atrapalhando meu dia.


Já concordei com alguém em público e pensei o contrário em silêncio.


Já me calei diante de uma covardia porque falar custaria alguma coisa.


Já fui educado quando deveria ter sido honesto.


E talvez essa seja uma das formas mais discretas da hipocrisia.


Não mentir para os outros.


Mentir para si mesmo com boas maneiras.


Fechei o jornal.


Fiquei olhando para o jardim.


O gato tinha encontrado uma sombra e dormia dentro dela.


Ele não precisava escrever sobre dignidade.


Não precisava defender ninguém.


Não precisava publicar uma frase bonita.


Se alguém o incomodasse, ele simplesmente iria embora.


Talvez houvesse alguma sabedoria nisso.


A verdadeira decência nunca precisou de cartilha.


Ela aparece quando ninguém está olhando.


Quando você poderia humilhar alguém e decide não fazê-lo.


Quando poderia esmagar e prefere não usar a força.


Quando discorda sem precisar transformar o outro em inimigo.


Quando ninguém está fotografando.


Quando não existe plateia.


Quando não existe recompensa.


Talvez seja aí que começa o caráter.


Todo o resto pode ser teatro.


E o teatro sempre foi um esconderijo confortável para quem tem medo de ser visto sem maquiagem.


Voltei a abrir o jornal.


A fotografia continuava ali.


O sorriso também.


Pensei que talvez o homem da fotografia acreditasse sinceramente no que havia escrito.


Isso também me incomodou.


Porque seria mais fácil se ele fosse apenas um canalha.


Mas ninguém é apenas uma coisa.


Nem eu.


Nem ele.


Nem o sujeito que fala sobre moral enquanto pisa no outro.


Talvez o maior escândalo do nosso tempo não seja a existência de pessoas ruins.


Elas sempre existiram.


O problema é outro.


Aprendemos a vestir a roupa da virtude.


Aprendemos quais palavras provocam aplausos.


Aprendemos quais indignações rendem aprovação.


Aprendemos a parecer bons.


E, em algum momento, esquecemos de perguntar se ainda somos.


Olhei novamente para o gato.


Ele abriu um olho.


— Você tem alguma opinião sobre isso?


Ele fechou o olho.


Justo.


Talvez a humanidade pudesse aprender alguma coisa com os animais.


Eles não costumam fingir que são melhores do que são.


Nós fazemos o contrário.


Construímos discursos para esconder nossos dentes.


Chamamos isso de civilização.


Chamamos de progresso.


Chamamos de consciência.


Às vezes, talvez seja apenas medo de admitir que continuamos sendo animais assustados, egoístas e famintos por aprovação.


A diferença é que agora sabemos escrever sobre isso.


E escrever bem sobre humanidade não torna ninguém humano.


Fechei o jornal de vez.


Coloquei-o sobre a mesa.


O gato continuava dormindo.


Fiquei ali, olhando para ele e pensando que talvez eu tivesse passado a manhã inteira procurando hipocrisia nos outros para não precisar encontrá-la em mim.


Essa foi a parte que mais me incomodou.


Porque a consciência também sabe usar uniforme.


E, quando quer, sabe até sorrir para a fotografia.

*ANTES QUE ALGUÉM ENTRE*


Entrei no bar porque ainda era cedo demais para voltar para casa e tarde demais para fingir que tinha alguma coisa importante para fazer.


O garçom me reconheceu.


Depois de certa idade, ser reconhecido num bar não é exatamente uma conquista. Significa apenas que você esteve ali vezes demais.


Sentei no canto de sempre.


Pedi bourbon.


O primeiro gole resolveu algumas questões que eu não tinha intenção de discutir naquela noite.


Peguei o celular.


Não sei por quê.


Talvez por hábito.


Talvez por tédio.


Talvez porque, depois de certa idade, qualquer tela iluminada pareça uma promessa de companhia.


Havia aplicativos abertos.


Alguns deles eu nem lembrava por que tinha instalado.


Não eram necessariamente aplicativos de namoro.


Pelo menos era isso que eu dizia a mim mesmo.


Curiosidade também é uma palavra bastante útil.


Passei o dedo pela tela.


Rostos.


Mulheres novas, balzaquianas, maduras.


Pessoas sorrindo diante de praias, restaurantes, cachorros, academias e lugares onde provavelmente nunca tinham estado tão felizes quanto pareciam estar na fotografia.


Algumas apresentavam a si mesmas como se estivessem concorrendo a uma vaga.


Outras apresentavam uma lista.


Não fumante.


Não bebe.


Não aceita determinada posição política.


Não quer alguém com filhos.


Não quer alguém sem filhos.


Altura mínima.


Renda mínima.


Distância máxima.


Personalidade compatível.


Signo compatível.


Vida resolvida.


Passado aceitável.


Pouco passado, de preferência.


Comecei a achar aquilo curioso.


Não exatamente engraçado.


Curioso.


As pessoas pareciam estar procurando alguém depois de verificar cuidadosamente se ninguém entraria.


Era uma espécie de alfândega sentimental.


Documentos em ordem.


Bagagem declarada.


Nenhuma mercadoria proibida.


Continuei olhando.


A lista era maior que algumas biografias.


E talvez fosse justamente esse o problema.


Ninguém mais precisava conhecer alguém.


Bastava verificar se a pessoa atendia aos requisitos.


Como se estivesse comprando um carro usado.


Quilometragem emocional.


Opcionais.


Defeitos ocultos.


Manual de instruções.


Garantia.


Pedi outro bourbon.


O garçom deixou o copo diante de mim.


Fiquei olhando o líquido por alguns segundos.


O bourbon tem essa qualidade.


Não resolve nada.


Mas melhora a aparência dos problemas.


Voltei ao celular.


A tecnologia prometeu aproximar as pessoas.


Entregou um catálogo.


Milhões de rostos ao alcance do dedo e uma quantidade cada vez maior de razões para não tocar em nenhum deles.


Passei para outro perfil.


Não gostei da fotografia.


Passei.


Outro.


Não gostei da descrição.


Passei.


Outro.


Alguma coisa me incomodou.


Passei.


Parei.


Voltei.


Não sei por quê.


Continuei.


Foi aí que percebi que eu também estava fazendo aquilo.


Essa foi a parte desagradável.


É fácil observar a estupidez dos outros quando você não precisa olhar para as próprias mãos.


Eu também tinha critérios.


Só não os chamava de critérios.


Chamava de experiência.


Depois de certa idade, a gente aprende a dar nomes respeitáveis às próprias defesas.


Não quero drama.


Pode significar: já fui ferido.


Não quero alguém complicado.


Pode significar: não tenho mais paciência para descobrir outra pessoa.


Quero alguém maduro.


Pode significar: quero alguém que não me obrigue a mudar.


Quero alguém resolvido.


Essa era uma das melhores.


Como se eu mesmo estivesse resolvido.


Como se tivesse passado décadas acumulando erros apenas para chegar a algum ponto em que pudesse preencher um formulário dizendo:


pronto.


Agora estou funcionando corretamente.


Bebi.


Olhei para o bar.


Duas pessoas conversavam numa mesa próxima.


Não pareciam interessantes.


Depois pensei que talvez eu não tivesse dado a elas tempo suficiente para serem.


Esse pensamento me incomodou.


Eu queria conhecer pessoas ou apenas encontrar versões antecipadas delas?


Talvez fosse a segunda opção.


Uma pessoa antecipada é muito mais confortável.


Você sabe o que ela pensa.


Sabe o que ela gosta.


Sabe o que ela não tolera.


Sabe o que procura.


Sabe o que rejeita.


Tudo antes de ela abrir a boca.


Uma pessoa real é outra coisa.


Chega atrasada.


Tem mau humor.


Fala demais.


Fala pouco.


Ri na hora errada.


Tem uma opinião absurda.


Muda de opinião.


Fuma quando você odeia cigarro.


Bebe quando você prometeu que não queria mais bêbados por perto.


Vota no sujeito que você considera um idiota.


Escuta a música que você não suporta.


Tem cicatrizes que não aparecem na fotografia.


E, às vezes, é gentil.


Isso complica tudo.


É fácil rejeitar uma categoria.


Mais difícil rejeitar alguém que está sentado diante de você.


Principalmente quando essa pessoa não corresponde àquilo que você imaginou.


Fiquei olhando para o meu copo.


Talvez fosse por isso que as listas existissem.


Elas davam a sensação de controle.


Se eu estabelecer critérios suficientes, pensei, posso impedir que alguém errado entre.


O problema é que ninguém consegue estabelecer critérios suficientes.


Sempre existe alguma coisa que ficou de fora.


Um hábito.


Uma lembrança.


Uma maneira de falar.


Uma família.


Uma história anterior à sua.


Alguma coisa que não estava na fotografia.


E então você descobre que não estava escolhendo apenas quem poderia entrar.


Estava tentando decidir antecipadamente o que teria permissão para acontecer depois que alguém entrasse.


Essa parte eu não gostei.


Porque já não era mais sobre os aplicativos.


Era sobre mim.


Passei anos aprendendo a viver sozinho.


Isso tem vantagens.


Você sabe onde estão as coisas.


Sabe o que comprar.


Sabe a hora em que prefere ficar quieto.


Não precisa explicar por que chegou tarde.


Não precisa negociar o volume da televisão.


Não precisa perguntar se alguém se importa com a música.


A casa vai adquirindo o formato de quem mora nela.


E, depois de algum tempo, qualquer outra pessoa parece uma mudança de móveis.


Talvez fosse exagero.


Talvez não.


Eu já tinha me acostumado demais com o meu próprio espaço.


A ideia de alguém ocupando uma parte dele parecia boa enquanto permanecia abstrata.


Quando se aproximava da realidade, começava a parecer trabalho.


Voltei ao aplicativo.


Outro rosto.


Outro.


Outro.


O dedo continuava trabalhando.


Era quase um reflexo.


A cabeça justificava.


O dedo decidia.


E eu nem sabia exatamente o que estava procurando.


Talvez nada.


Talvez alguém.


Talvez apenas a sensação de que ainda poderia encontrar alguém.


Existe uma diferença.


A esperança pode ser mantida durante anos quando não precisa enfrentar a realidade.


A pessoa real, não.


A pessoa real exige presença.


E presença é uma coisa inconveniente.


Ela não pode ser filtrada.


Não pode ser editada.


Não pode ser devolvida depois de sete dias.


Uma pessoa real traz uma vida inteira que começou antes de você.


Traz antigos amores.


Família.


Medos.


Hábitos.


Erros.


Desejos.


Contradições.


Algumas coisas que você vai gostar.


Outras que vai detestar.


E algumas que, para seu azar, vão obrigá-lo a reconsiderar aquilo que você jurou nunca aceitar.


Pode ser alguém que vota diferente.


Pode fumar.


Pode beber.


Pode acreditar em alguma coisa que você considera absurda.


Pode ter uma história que não combina com a sua.


Pode rir de coisas que você não acha engraçadas.


Pode ser exatamente o tipo de pessoa que você teria eliminado no segundo movimento do dedo.


E ainda assim pode acontecer alguma coisa.


Esse é o problema.


Pode acontecer alguma coisa.


O algoritmo prefere outra coisa.


Prefere que você continue procurando.


A próxima pode ser melhor.


Mais bonita.


Mais inteligente.


Mais compatível.


Mais interessante.


Mais próxima.


Mais perfeita.


A próxima está sempre disponível.


A esperança fica um perfil adiante.


Mais um movimento.


Mais uma noite.


Mais um bourbon.


Mais uma promessa silenciosa de que amanhã talvez seja diferente.


Amanhã chega.


A lista continua.


Enquanto isso, as pessoas envelhecem.


As rugas chegam sem pedir licença.


Os bares fecham.


Os amigos desaparecem.


Alguns morrem.


Os discos riscam.


As fotografias ficam antigas.


O bourbon acaba.


E nós continuamos escolhendo.


Eu também.


Talvez essa fosse a parte que mais me incomodava.


Eu podia rir das listas dos outros porque elas pareciam absurdas.


Mas tinha uma lista minha.


Talvez não estivesse escrita em lugar nenhum.


Era pior assim.


Estava na cabeça.


Altura.


Hábitos.


Jeito de falar.


Passado.


Problemas.


Opiniões.


Tudo aquilo que eu dizia não querer.


Tudo aquilo que eu achava que já tinha idade suficiente para não precisar suportar.


Como se envelhecer desse ao homem algum direito especial de exigir uma vida sem inconvenientes.


Não dá.


Só dá mais experiência em reconhecer alguns deles.


Terminei o bourbon.


Fiquei olhando o copo vazio.


Pensei que talvez o problema nunca tivesse sido encontrar alguém.


Talvez fosse aceitar que alguém real sempre traria alguma coisa que eu não tinha pedido.


Uma opinião.


Uma lembrança.


Um medo.


Uma diferença.


Um defeito.


Uma necessidade.


Uma história anterior à minha.


Conhecer alguém significava entrar numa história que começou sem você.


Não havia como editar os capítulos anteriores.


Não havia como selecionar apenas as partes convenientes.


Não havia botão para remover aquilo que incomodasse.


Uma pessoa real não vinha com manual.


Nem certificado de compatibilidade.


Nem garantia contra abandono.


Era justamente isso que tornava tudo tão difícil.


Pedi a conta.


O garçom trouxe.


Guardei o celular no bolso.


Não porque tivesse aprendido alguma grande lição.


Não aprendi.


Apenas fiquei cansado de transformar desconhecidos em candidatos.


E depois reclamar que ninguém me conhecia.


O bar estava quase vazio.


Fiquei sentado mais alguns segundos.


Pensei nas pessoas que eu tinha descartado naquela tela.


Depois pensei nas que talvez tivessem me descartado.


A ideia não era agradável.


Talvez algumas tivessem razão.


Talvez outras não.


Nunca saberia.


Essa é uma das coisas que a gente perde quando decide cedo demais.


A possibilidade de descobrir.


Levantei.


Saí do bar.


O celular continuava no bolso.


Não o abri.


Não porque tivesse desistido de encontrar alguém.


Nem porque tivesse finalmente compreendido o amor.


Não tinha compreendido nada disso.


Apenas comecei a desconfiar de uma coisa.


Talvez eu não estivesse procurando alguém que coubesse na minha vida.


Talvez estivesse procurando alguém que não mexesse nela.


E isso era diferente.


Continuei andando.


Passei anos organizando a casa.


Escolhendo os móveis.


Definindo as regras.


Decidindo quem poderia entrar.


No fim, a casa estava impecável.


E vazia.


Parei por um instante.


Pensei que talvez fosse melhor assim.


Depois pensei que essa frase também parecia uma defesa.


Sorri sozinho.


Era um progresso pequeno.


Ou apenas outro truque da minha cabeça.


Não importava.


Continuei andando.


O bar ficou para trás.


O celular permaneceu no bolso.


Eu ainda não sabia se queria encontrar alguém.


Também não sabia se queria continuar sozinho.


Pela primeira vez, porém, percebi que talvez tivesse passado tempo demais tentando resolver essa dúvida antes que qualquer pessoa tivesse a oportunidade de aparecer.


E talvez fosse esse o problema.


Eu queria saber quem entraria antes de abrir a porta.


Isso me pareceu uma exigência razoável durante muito tempo.


Naquela noite, já não pareceu tanto.


Não porque eu tivesse descoberto alguma resposta.


Só porque, pela primeira vez, a possibilidade de não saber não me pareceu uma ameaça.


Continuei andando.


O resto podia esperar.

*O Campo Que Ficou em Branco*


Fui preencher um formulário porque aparentemente ainda existem coisas que precisam ser comprovadas por escrito.


Nome.


Preenchi.


Idade.


Preenchi também.


Profissão.


Essa demorou um pouco mais.


Não porque eu não tivesse profissão. Tinha. O problema era explicar o que ela significava depois de tantos anos fazendo a mesma coisa. Algumas palavras ficam velhas antes da gente.


Endereço.


Coloquei.


Estado civil.


Também.


Até ali, eu ainda era uma pessoa perfeitamente administrável.


Então apareceu a pergunta.


Quem é você?


Fiquei olhando para aquilo.


Era só uma linha.


Uma linha comprida, esperando uma resposta curta.


O mundo gosta dessas coisas. Coloca uma caixa embaixo de uma pergunta enorme e espera que a gente caiba ali dentro.


Peguei a caneta.


Não escrevi.


Olhei novamente para a pergunta.


Quem é você?


Pensei no meu nome. Não era.


Pensei na minha profissão. Também não.


Pensei na idade. Aquilo era apenas a quantidade de vezes que a Terra tinha girado enquanto eu tentava entender alguma coisa.


Pensei nos documentos.


Os documentos sabiam mais sobre mim do que algumas pessoas que conviveram comigo por anos.


Sabiam onde eu morava.


Sabiam quando nasci.


Sabiam números, datas, assinaturas.


Mas nenhum deles sabia o que eu fazia quando ficava sozinho.


Nenhum sabia das coisas que eu não dizia.


Nenhum sabia quantas versões de mim já tinham morrido sem cerimônia.


Foi então que percebi o problema.


Eu conseguia preencher todos os campos que me pediam uma informação.


Só não conseguia preencher aquele que pedia uma definição.


Talvez porque definir seja uma forma educada de reduzir.


Passei a vida fazendo isso.


Escolhendo palavras para caber em lugares pequenos.


Homem.


Profissional.


Pai.


Amigo.


Filho.


Responsável.


Culpado.


Inocente.


Cada palavra servia por algum tempo.


Depois ficava apertada.


A gente cresce por dentro e continua usando o mesmo contorno.


É uma espécie de prisão sem grades. Ninguém precisa nos trancar. Basta nos dar um nome e esperar que permaneçamos fiéis a ele.


Olhei novamente para a folha.


O campo continuava vazio.


Pensei que talvez fosse isso que mais incomodasse.


Não o fato de eu não saber quem era.


Mas a possibilidade de já ter acreditado, durante anos, que sabia.


Existe uma diferença.


A primeira é ignorância.


A segunda é arrogância.


O telefone vibrou sobre a mesa.


Uma mensagem qualquer.


Alguém perguntava se eu já tinha terminado.


Respondi que sim.


Era mentira.


Eu ainda estava diante daquela pergunta.


O curioso é que a mentira saiu com facilidade.


Talvez eu tivesse passado tanto tempo respondendo ao que esperavam de mim que já nem precisava pensar.


O mundo oferece formulários para quase tudo.


Para nascer.


Para morrer.


Para trabalhar.


Para comprar.


Para vender.


Para existir.


Só não oferece um para aquilo que acontece no intervalo.


E é justamente ali que a coisa complica.


Porque a mente não respeita formulário.


Ela continua.


Lembra de uma coisa enquanto esquece outra.


Deseja o que condena.


Condena aquilo que deseja.


Muda de opinião depois de jurar que nunca mudaria.


A gente chama isso de contradição.


Talvez seja apenas vida sem edição.


Pensei em uma caixa de fósforos que estava sobre a mesa.


Vazia.


Uma caixa pequena.


Quase ridícula.


Ainda assim, cabiam ali dentro uma noite inteira, um cigarro, uma conversa antiga, uma mulher que eu não via há anos, um homem que eu tinha sido e não queria mais encontrar.


Era estranho.


O infinito não precisava de espaço.


Precisava apenas de memória.


Foi quando entendi outra coisa.


Talvez eu não fosse uma resposta.


Talvez fosse o rascunho.


Um rascunho que insistia em sobreviver às próprias correções.


Já tentei apagar partes de mim.


Algumas funcionaram.


Outras ficaram como aquelas marcas de borracha que continuam aparecendo quando a luz bate de lado.


Há coisas que a gente não supera.


Apenas aprende a colocar em lugares onde não tropeça nelas todos os dias.


Terminei de preencher o formulário.


Deixei a caneta sobre a mesa.


O funcionário pegou a folha e conferiu os campos.


Nome.


Certo.


Idade.


Certo.


Profissão.


Certo.


Endereço.


Certo.


Chegou ao último.


Parou.


Olhou para mim.


— E aqui?


Olhei para a linha vazia.


Por alguns segundos, pensei em escrever qualquer coisa.


Seria mais fácil.


Homem cansado.


Sobrevivente.


Idiota.


Contraditório.


Em construção.


Nada disso parecia suficiente.


Então devolvi a folha.


— Pode deixar em branco.


Ele me olhou como quem não entende por que alguém recusaria uma oportunidade tão simples de mentir.


Pegou a caneta.


Passou um risco sobre o campo.


E pronto.


Mais um problema resolvido.


Saí dali pensando que talvez essa fosse a única resposta honesta que eu tinha encontrado em anos.


Não saber.


Não terminar.


Não caber.


Ser aquele ponto onde a pergunta continua existindo depois que todas as respostas já perderam a validade.


Talvez decifrar-se não seja descobrir uma fórmula.


Talvez seja aceitar que algumas partes de nós foram feitas para permanecer ilegíveis.


Cheguei em casa.


O gato estava no corredor.


Olhou para mim.


Não perguntou meu nome.


Não quis saber minha profissão.


Não precisava de documento.


Apenas me olhou por alguns segundos e foi embora.


Achei uma atitude bastante sensata.


Fiquei sozinho.


A casa estava silenciosa.


Na mesa, havia outra caixa de fósforos.


Dessa vez, ainda cheia.


Peguei uma.


Acendi.


Por alguns segundos, a chama iluminou meu rosto.


Olhei para ela.


Depois apaguei.


O rosto voltou a ser apenas um rosto.


E, pela primeira vez naquele dia, não senti necessidade de descobrir quem estava ali.

Chega de Margens

A chaleira começou a gritar antes de mim.

Fiquei olhando para ela no fogão, esperando que alguém tomasse alguma providência. Ninguém tomou. A casa continuou quieta. O gato estava sentado no corredor, olhando para mim com aquela expressão de quem já descobriu que os humanos fazem muito barulho para resolver coisas simples.

Desliguei o fogo.

Passei café.

Era uma manhã comum. Dessas que não prometem nada e, por isso mesmo, costumam ser mais honestas.

Sentei à mesa.

O gato veio até a porta da cozinha, parou e ficou me olhando. Não pediu comida. Não pediu carinho. Apenas ficou ali. Talvez estivesse esperando alguma coisa. Talvez não. Gatos têm a vantagem de não precisarem explicar a própria presença.

Eu devia ter aprendido isso antes.

Olhei para minhas mãos.

A idade estava ali.

Não como número. Número é coisa de formulário. A idade aparece nas pequenas coisas. Na maneira como o corpo levanta da cadeira. Na demora para encontrar uma posição confortável. No joelho que reclama sem ter sido consultado. No espelho, principalmente.

O corpo começa a diminuir.

É uma espécie de ironia.

Passamos metade da vida tentando ocupar espaço e a outra metade descobrindo que o corpo já não pretende colaborar.

Mas alguma coisa acontece nesse mesmo período.

A cabeça começa a fazer o movimento contrário.

Ela aumenta.

Não sei se isso acontece com todo mundo. Talvez não. Algumas pessoas envelhecem apenas. Continuam obedecendo às mesmas regras, repetindo as mesmas opiniões e chamando isso de experiência.

Eu também fiz isso durante muito tempo.

Aprendi a ser aceitável.

É uma habilidade bastante valorizada.

Você aprende a medir as palavras. A esconder certas vontades. A escolher o que dizer e, principalmente, o que não dizer. Aprende a ser fácil de carregar. Fácil de entender. Fácil de amar.

É cansativo.

E ninguém entrega um certificado quando você termina.

Apenas esperam que continue.

O mundo gosta de gente previsível.

Hoje existe uma palavra nova para isso. Várias, na verdade. Há sempre alguém na internet explicando como devemos viver, envelhecer, pensar, comer, vestir, desejar e até fracassar. Os antigos chamavam isso de conselho. Agora tem nome em inglês, câmera frontal e milhares de seguidores.

Talvez eu esteja velho demais para isso.

Ou finalmente velho o suficiente.

O gato atravessou a cozinha.

Passou por mim sem qualquer cerimônia e subiu na cadeira ao lado.

Ficou olhando para a mesa.

Não parecia preocupado com a opinião de ninguém.

Pensei que talvez houvesse alguma coisa a aprender com aquele animal.

Não era a independência.

Era a ausência de necessidade de justificá-la.

Foi aí que comecei a entender uma coisa que demorei décadas para entender.

Eu passei muito tempo vivendo nas margens da minha própria vida.

Não completamente fora dela.

Isso seria fácil de perceber.

Eu estava dentro.

Trabalhava, fazia planos, cumpria obrigações, amava algumas pessoas, suportava outras. Ri quando era conveniente. Fiquei calado quando era necessário. Fiz o que precisava ser feito.

Mas havia sempre uma parte de mim sentada um pouco mais distante.

Observando.

Esperando.

Pedindo licença.

Talvez esse tenha sido o meu maior erro.

Pedir licença para existir.

Não estou falando de fazer tudo o que dá na cabeça. Isso é apenas outra forma de imaturidade.

Estou falando de não precisar transformar cada escolha em uma defesa.

De não precisar explicar por que quero determinada vida.

De não precisar reduzir minhas opiniões para que alguém não se sinta ameaçado.

De não precisar esconder minhas contradições para parecer uma pessoa coerente.

Aos 62, 63, começa a ficar estranho continuar fazendo isso.

Há uma certa falta de sentido em passar tantos anos aprendendo quem você é e, depois, gastar o resto da vida tentando convencer os outros de que não é bem assim.

O espaço nunca foi o problema.

O problema era que eu insistia em caber.

E talvez o espaço fosse pequeno demais.

Essa conclusão demorou.

Porque admitir isso também significa olhar para trás.

E olhar para trás não é sempre bonito.

Há versões minhas que eu não gostaria de encontrar novamente.

Não porque fossem ruins.

Algumas eram apenas assustadas.

Outras queriam ser aceitas.

Algumas confundiam amizade com aprovação. Amor com concessão. Educação com silêncio.

Eu fui me ajustando.

Pouco a pouco.

Até quase esquecer que ajuste demais também deforma.

O curioso é que eu não quero voltar no tempo.

Não tenho esse interesse.

A juventude tem sido superestimada desde que inventaram os espelhos.

Não quero o corpo de antes.

Não quero repetir os erros com mais energia.

Quero outra coisa.

Quero a liberdade que existia antes de eu aprender a me diminuir.

Talvez seja por isso que envelhecer possa ser um retorno.

Não uma partida.

Um retorno.

Há uma criança escondida em algum lugar desse homem que passou décadas tentando parecer adulto. Não é uma criança inocente. Essa parte já morreu algumas vezes.

É apenas aquela que ainda não sabia que precisava caber.

O gato pulou da cadeira.

Foi até a janela.

Ficou ali, olhando a rua.

Pensei que talvez ele também estivesse cansado de mim.

Seria compreensível.

Terminei o café.

A casa continuava a mesma.

A mesa.

A chaleira.

A janela.

O gato.

Nada havia mudado.

Mas alguma coisa tinha mudado.

Não era uma revelação grandiosa. Não houve música. Nenhuma luz atravessou a cozinha no momento certo. A vida não costuma ter esse tipo de educação estética.

Foi apenas uma compreensão silenciosa.

Eu podia ocupar espaço.

Sem tirar nada de ninguém.

Podia querer mais.

Sem precisar chamar isso de ambição.

Podia não querer certas coisas.

Sem precisar inventar desculpas.

Podia envelhecer sem transformar a idade em pedido de desculpas.

O corpo talvez encolhesse.

A consciência não precisava acompanhar.

Talvez fosse esse o acordo possível com o tempo.

Ele leva algumas coisas.

Eu paro de entregar outras.

Olhei novamente para o gato.

Ele continuava na janela.

Não parecia impressionado.

Ainda bem.

Talvez fosse melhor assim.

Aos 62, 63, não estou me tornando alguém novo.

Estou apenas deixando de me afastar de quem sempre fui.

Isso muda muita coisa.

Porque crescer, nessa idade, já não significa subir.

Às vezes significa ocupar.

Ocupar a própria cadeira.

A própria casa.

A própria cabeça.

A própria vida.

Sem pedir licença.

Sem pedir desculpas.

Sem precisar ser compreendido por quem passou a vida inteira confortável dentro da mesma moldura.

Talvez seja isso que ainda estou aprendendo.

Que posso viver uma vida que me caiba.

E que, se ela finalmente ficar grande demais para algumas pessoas, talvez o problema não esteja mais em mim.

Talvez seja apenas a velha margem chegando ao fim.

A chaleira estava fria.

O café também.

O gato continuava olhando pela janela.

E eu fiquei ali.

Sem pressa.

Pela primeira vez em muito tempo, não senti necessidade de diminuir nada.

Nem a voz.

Nem a vontade.

Nem o espaço.

Nem eu.

*O HOMEM QUE NÃO QUERIA SER PRESO*




Era final de tarde de domingo e minhas alegres visitas tinham partido.


A casa ficou com aquela aparência de lugar onde alguma coisa aconteceu, mas ninguém teve a educação de limpar depois. Havia copos sobre a mesa, brinquedos espalhados, migalhas no sofá e um cheiro de comida que já começava a perder a batalha para o cheiro de casa fechada.


Não me incomodei.


Algumas bagunças são provas de que a vida esteve ali.


O Sol decidiu Acompanhar as crianças e a chuva veio para o expediente.


O gato ficou.


Estava deitado na janela, olhando para a rua com a seriedade de quem aguardava uma decisão importante. As crianças tinham ido embora fazia pouco tempo e, aparentemente, aquilo tinha sido uma experiência marcante para ele.


Talvez tivesse descoberto que humanos pequenos são mais divertidos do que os grandes.


Ou talvez estivesse esperando que voltassem para continuar o serviço.


Eu sabia que não voltariam naquele dia.


Ele não.


Ficou olhando.


Quanto a mim, era apenas o outro morador da casa. Aquele que compra comida, abre a porta, limpa a caixa de areia e paga as contas.


Ele fazia um trabalho muito mais nobre.


Companhia.


Achei injusto.


Fui até a padaria.


Era uma dessas padarias de bairro que colocam algumas mesas na calçada e fingem que aquilo é uma extensão da sala de estar. Sentei do lado de fora. Dali dava para ver o parque, as árvores e os últimos pedaços de sol tentando atravessar os galhos.


O trânsito de domingo fazia pouco barulho.


Alguns carros passavam sem pressa. Pessoas caminhavam pelas calçadas. Um casal empurrava um carrinho de bebê. Um homem levava um cachorro que parecia mais interessado em qualquer coisa do que nele.


Era um bairro residencial. Não havia grandes lojas, vitrines iluminadas ou aquela necessidade permanente de convencer alguém a comprar alguma coisa de que não precisava.


O parque estava cansado.


Talvez eu também.


As árvores continuavam ali, mas tinham aquela aparência de coisa que sobrevive mais por hábito do que por vontade.


A natureza é muito mais honesta quando ninguém tenta fotografá-la.


Pedi um café.


Na mesa atrás da minha havia três mulheres.


Falavam alto o suficiente para dispensar qualquer esforço de escuta.


Conversavam sobre homens.


Pretendentes.


Ex-namorados.


Homens que sumiram.


Homens que apareceram demais.


Homens que não ligavam.


Homens que ligavam demais.


Uma delas dizia que precisava dar um jeito de prender um homem.


Falou aquilo com a naturalidade de quem estava discutindo uma receita.


As outras riram.


Depois começaram a trocar métodos.


Demonstrar menos interesse.


Depois demonstrar mais.


Fazer ciúmes.


Desaparecer por dois dias.


Voltar como se nada tivesse acontecido.


Não responder imediatamente.


Responder quando ele estivesse começando a desistir.


Fazer com que sentisse falta.


A velha engenharia do afeto.


Pensei que talvez o amor moderno fosse isso.


Um jogo de caça com aplicativos.


Uma espécie de pesca esportiva onde ninguém quer admitir que está segurando a vara.


Uma delas falou que homem gosta de quantidade.


Outra discordou.


Disse que o problema era encontrar um que prestasse.


Elas riram novamente.


Eu fiquei olhando para o café.


Já ouvi aquela história antes.


Em bares.


Quartos.


Mesas de restaurantes.


Às vezes falando de mim.


Às vezes falando de homens que eu conhecia.


Às vezes falando de homens que eu não conhecia e provavelmente não queria conhecer.


Ja houvi que sou um homem de muitas mulheres.


Talvez seja.


Ou talvez eu apenas tenha vivido tempo suficiente para descobrir que os rostos mudam muito mais rápido do que as cicatrizes.


As pessoas chegam.


Fazem barulho.


Deixam alguma coisa sobre a mesa.


Depois vão embora.


Algumas deixam perfume.


Outras deixam contas.


Quase todas deixam alguma história que você prefere não contar inteira.


Nunca fui muito bom em explicar isso.


A verdade é menos interessante do que parece.


Nunca procurei quantidade.


Só não sabia muito bem como procurar outra coisa.


Durante algum tempo, confundi desejo com companhia.


Depois confundi companhia com amor.


Mais tarde descobri que nenhuma das duas coisas servia para preencher uma casa vazia.


Eu queria abrigo.


Só isso.


Um lugar onde não precisasse estar em guarda o tempo inteiro.


E abrigo é uma coisa rara.


Principalmente entre pessoas que passaram a vida aprendendo a partir antes de aprender a ficar.


Talvez eu também tenha feito isso.


Talvez tenha chamado de liberdade aquilo que, em algumas ocasiões, era apenas medo de descobrir o que aconteceria se eu permanecesse.


As mulheres continuavam falando.


Uma delas dizia que o problema era deixar o homem confortável demais.


Eu quase ri.


Conforto virou ameaça.


Imagine isso.


Duas pessoas passam anos procurando alguém com quem possam descansar e, quando encontram, começam a desconfiar porque o outro parece confortável.


Talvez tenhamos aprendido a confundir paz com desinteresse.


Talvez o barulho seja mais fácil de reconhecer como paixão.


Eu já confundi.


Muitas vezes.


Conquistar alguém é fácil.


No começo tudo ajuda.


A novidade ajuda.


O desejo ajuda.


A mentira ajuda.


Até o silêncio parece interessante quando ainda existe mistério.


Depois chegam as contas.


As manias.


Os dias ruins.


O mau humor.


As doenças.


Os parentes.


As mensagens não respondidas.


A roupa jogada no lugar errado.


A mesma história contada pela terceira vez.


O silêncio que não tem nada de sexy.


É aí que começa o trabalho.


E é aí que muita gente vai embora.


Não porque deixou de amar.


Às vezes porque descobriu que amar dá trabalho.


A mulher da mesa atrás falou que ninguém deve deixar um homem completamente livre.


Pensei no gato.


Ele tinha liberdade para sair pela janela.


Não saía.


Tinha comida.


Tinha água.


Tinha um lugar quente para dormir.


E ainda assim ninguém havia colocado uma tela naquela janela.


Talvez fosse esse o segredo que os humanos complicaram.


Não quero possuir ninguém.


Posse é medo fantasiado de amor.


Se alguém ficar ao meu lado, quero que fique porque poderia ir embora.


Quero que a porta esteja aberta.


Quero saber que existe uma rua do outro lado.


Quero que a pessoa possa caminhar para qualquer lugar e, mesmo assim, em algum momento, decida voltar.


Isso é muito diferente de prender alguém.


Prender é fácil.


Até animais sabem fazer isso.


O difícil é ser escolhido quando ninguém é obrigado a escolher você.


Fiquei olhando para o parque.


O sol já tinha descido mais um pouco e a chuva escurecia as ruas.


As sombras das árvores, sob relâmpagos atravessavam a calçada.


Um homem passou empurrando uma bicicleta.


Uma senhora caminhava rapido com duas sacolas de mercado.


Do outro lado da rua, um menino corria atrás de uma bola enquanto alguém gritava seu nome.


A cidade fazia o que sempre faz no domingo.


Tentava parecer tranquila.


Mas havia qualquer coisa de cansado em tudo aquilo.


Talvez porque domingo seja o dia em que as pessoas percebem que segunda-feira existe.


Pedi outro café.


A mesa atrás de mim tinha ficado mais silenciosa.


Por alguns segundos.


Depois uma delas disse que o problema era encontrar alguém que soubesse ficar.


Dessa vez ninguém riu.


Achei curioso.


Talvez aquela fosse a única coisa verdadeira que tinham dito naquela tarde.


Ficar.


É uma palavra pequena.


Mas custa caro.


Eu não me apaixono pela perfeição.


Nunca me interessou.


A perfeição é uma mentira bem vestida.


Gosto de quem sangra.


De quem tropeça.


De quem já perdeu uma guerra e ainda aparece no dia seguinte com a cara amassada para tentar outra vez.


Talvez porque eu conheça esse tipo de gente.


Talvez porque eu seja esse tipo de gente.


Carrego ferrugem na alma.


Algumas rachaduras.


Há coisas que o tempo não consertou.


Apenas ensinou a esconder melhor.


Também erro.


Muito.


E talvez tenha demorado mais do que deveria para entender que continuar presente na vida de alguém pode ser mais difícil do que conquistá-la.


No começo, quase todo mundo sabe ficar.


Depois é que começam os problemas.


Quando o encanto diminui.


Quando o outro deixa de parecer uma descoberta e passa a parecer uma pessoa.


Com seus defeitos.


Suas manias.


Seus medos.


Sua história.


Seu mau humor.


É nesse momento que você descobre se estava apaixonado pela pessoa ou pela versão que inventou dela.


Eu já tive versões.


Algumas bastante convincentes.


Nenhuma durou muito.


A maturidade talvez seja justamente isso.


Parar de procurar alguém que nos faça sentir completos e começar a procurar alguém diante de quem não precisamos fingir que estamos.


Não ofereço salvação.


Não tenho.


Não ofereço uma vida sem problemas.


Seria propaganda enganosa.


Ofereço café.


Silêncio.


Alguma honestidade.


E a possibilidade de continuar aqui quando a novidade acabar.


A conta chegou.


Paguei.


Fiquei alguns minutos olhando o parque antes de levantar.


As mulheres ainda estavam ali.


Agora falavam de outra coisa.


Talvez de homens.


Talvez de outra maneira de prendê-los.


Não importava.


Peguei o caminho de casa.


Quando cheguei, a bagunça continuava exatamente onde eu havia deixado.


Os copos.


Os brinquedos.


As migalhas.


As marcas da visita.


O cheiro de comida.


O gato continuava na janela.


Olhou para mim como quem verifica se o funcionário responsável finalmente voltou ao posto.


Depois voltou a olhar para a rua.


As crianças ainda não tinham voltado.


Talvez estivesse decepcionado.


Talvez apenas gostasse de esperar.


Fiquei pensando nisso.


Esperar também é uma forma de liberdade.


Você não espera alguém porque foi obrigado.


Espera porque quer.


Talvez seja por isso que a maturidade muda a maneira como enxergamos o amor.


Quando somos jovens, queremos ser desejados.


Depois queremos ser escolhidos.


Mais tarde, talvez, queremos apenas encontrar alguém que conheça nossas partes ruins e ainda consiga sentar ao nosso lado sem precisar fingir que elas não existem.


Alguém que poderia ir embora.


E sabe disso.


Mas fica.


Não porque foi convencido.


Não porque foi preso.


Não porque tem medo da rua.


Fica porque, entre todos os lugares possíveis, escolheu aquela mesa.


E talvez seja isso que eu tenha procurado o tempo todo sem saber dar um nome.


Não muitas mulheres.


Não muitas histórias.


Não muitas conquistas.


Só algum lugar onde dois sobreviventes pudessem parar por alguns minutos.


Olhar um para o outro.


Sem algemas.


Sem promessas grandiosas.


Sem precisar provar nada.


A porta continua aberta.


A rua continua ali.


Cada um poderia ir.


Mas ninguém vai.


E, depois de tudo o que já aconteceu, depois de todas as pessoas que passaram, todas as que partiram e todas as que juraram ficar, existe uma frase que ainda vale alguma coisa.


Não precisa ser dita.


Basta que os dois saibam.


Ainda estou aqui.

A HUMANIDADE MORRE EM SILÊNCIO


O bar estava quase vazio naquela quarta-feira.


Aquele tipo de noite em que até os bêbados pareciam cansados de suas próprias histórias.


Havia duas mesas ocupadas. Um homem sozinho perto da janela, mexendo no celular como se esperasse uma mensagem que nunca chegaria. No balcão, três sujeitos discutiam futebol, política e o mundo inteiro com a mesma certeza de quem nunca precisou consertar nada do que destruiu.


A televisão estava ligada sem som alto.


Era mais um noticiário.


Mais uma guerra.


Mais uma cidade destruída.


Mais uma fotografia de pessoas correndo com aquilo que conseguiram salvar da própria vida.


Ninguém levantou a cabeça.


Até que alguém comentou:


— O problema é que esse povo também procura confusão.


Foi dito com a tranquilidade de quem pede outra cerveja.


Outro respondeu:


— Cada um tem o governo que merece.


E todos continuaram bebendo.


Essa é uma das coisas mais estranhas que aprendi depois de certa idade.


O ser humano consegue assistir ao sofrimento de alguém enquanto termina o jantar.


Consegue condenar uma vítima que nunca conheceu.


Consegue transformar uma tragédia em opinião antes mesmo de tentar entender o que aconteceu.


A cidade não fede por causa do esgoto.


Isso seria simples demais.


A cidade fede quando a consciência começa a apodrecer sem fazer barulho.


Depois dos sessenta, você percebe algumas coisas.


Não porque ficou mais sábio.


Mas porque perdeu algumas ilusões.


O espelho começa a cobrar dívidas antigas.


Amigos viram fotografias.


Conversas que pareciam eternas acabam guardadas em algum lugar da memória.


Os cães que acompanhavam seus dias ficam apenas em lembranças.


Os lugares onde você gastou noites inteiras desaparecem, substituídos por farmácias, bancos e lojas iguais a todas as outras.


A vida continua.


Essa talvez seja a maior crueldade dela.


Ela não diminui o passo porque alguém foi embora.


O mundo amanhece no horário marcado.


O café continua quente.


Os boletos continuam chegando.


E nenhuma ausência parece grande o suficiente para interromper a rotina.


Mas naquela noite, olhando aquelas pessoas no bar, pensei que o problema nunca foram apenas os monstros.


Eles são poucos.


O problema sempre foi a multidão de pessoas comuns que olha para tudo e diz:


“Não é comigo.”


Essa frase já construiu mais tragédias do que muitos exércitos.


Porque a violência raramente começa com alguém puxando um gatilho.


Às vezes começa com alguém escolhendo não olhar.


A indiferença é confortável.


Ela senta na poltrona.


Liga a televisão.


Passa o dedo pela tela.


Olha uma criança ferida durante três segundos e depois procura um vídeo engraçado para esquecer.


Não porque seja cruel.


Pior.


Porque aprendeu a não sentir.


A alma não desaparece de uma vez.


Ela vai enferrujando.


Primeiro você deixa de sentir a dor do desconhecido.


Depois do velho abandonado.


Depois da mulher agredida.


Depois da criança que nasceu no lugar errado do mundo.


Até que um dia você percebe que também não sente mais a própria dor.


E chama isso de maturidade.


Como se ficar vazio fosse uma forma de crescer.


Passei muitos anos em bares.


Vi muita gente quebrada.


E aprendi uma coisa estranha.


Alguns bêbados eram mais honestos do que muitos homens respeitáveis.


Pelo menos eles sabiam que estavam perdidos.


Os outros escondiam a própria podridão atrás de roupas caras, frases bonitas e discursos sobre valores.


A verdadeira humanidade nunca apareceu quando alguém falou sobre bondade.


Apareceu quando a dor de um desconhecido tirou seu sono.


Quando uma notícia estragou seu café.


Quando você percebeu que aquela fotografia distante não era sobre “eles”.


Era sobre nós.


Porque essa é a parte que ninguém gosta de aceitar.


Nunca existiram eles.


Sempre fomos nós.


E quando essa verdade aparece, as desculpas acabam.


Não é mais a culpa do governo.


Não é mais a culpa de uma ideologia.


Não é mais a culpa do destino.


Sobra você.


Apenas você.


E uma escolha simples que quase todo mundo tenta evitar:


importar-se.


Não para parecer uma pessoa melhor.


Não para ganhar recompensa.


Não para contar aos outros que possui um coração.


Importar-se porque, no dia em que a dor do outro deixar de atravessar você, talvez continue andando pelas ruas, pagando contas e conversando normalmente...


Mas alguma coisa essencial já terá morrido.


E ninguém perceberá.


Porque a humanidade, diferente do corpo, não morre de uma vez.


Ela morre em silêncio.

*O CÉU E O INFERNO FUNCIONAM EM HORÁRIO COMERCIAL*


A sexta-feira chegou ao bar como sempre chegava.
Cheia.
Gente demais tentando parecer feliz por algumas horas. Homens soltando risadas mais altas do que sentiam. Mulheres olhando para o celular enquanto fingiam prestar atenção na conversa. Garrafas sendo abertas como se dentro delas existisse alguma resposta que a semana inteira não conseguiu entregar.
O bar estava lotado.
A música vinha baixa demais para criar clima e alta demais para permitir uma conversa honesta. No fundo, um cantor sozinho brigava com um violão velho e com uma canção que parecia ter envelhecido junto com as pessoas que ainda lembravam dela.
A fumaça dos cigarros subia devagar entre as lâmpadas amareladas. Copos vazios ocupavam as mesas como pequenos relatórios de derrotas particulares.
Eu estava no centro do balcão já que o canto estava ocupado.
O lugar onde ninguém pergunta muito e onde o barman já aprendeu que meu silêncio não precisa de explicação.
Eu gosto desse lugar.
Não porque seja confortável.
Mas porque ninguém espera nada de você quando está sentado diante de um balcão.
Foi quando chegaram os quatro.
Dois casais.
Sentaram perto demais de mim, a mesa atrás de meu banco, porque o bar estava cheio. Não era amizade. Não era interesse. Era apenas falta de espaço.
Mas existe uma coisa curiosa sobre bares.
As pessoas entram pensando que vão beber apenas álcool.
Depois de algumas horas, começam a beber lembranças.
E algumas lembranças descem queimando mais do que qualquer bebida.
No começo, falavam baixo.
Falavam de coisas comuns.


Trabalho.
Viagens.
Conhecidos.
Até que alguém mencionou amor.
Não sei por que as pessoas gostam de falar sobre amor quando estão cansadas dele.
Talvez porque seja mais fácil discutir aquilo que já não conseguem sentir.


A mulher começou dizendo que no começo era diferente.


Sempre começa assim.


“Antes era diferente.”


Essa frase aparece em quase todos os relacionamentos que estão morrendo.


Ela contou que, no início, ele mandava mensagens de madrugada.


Perguntava onde ela estava.


Queria saber como tinha sido o dia dela.


Escutava problemas que hoje ele considera reclamações.


Fazia planos.


Dizia que ela era diferente.


Ele ouviu sorrindo.


Aquele sorriso curto de quem já decidiu que o outro está exagerando.


Depois falou:


— Você está romantizando tudo.


Foi uma frase simples.


Mas algumas frases simples carregam uma crueldade silenciosa.


Ela continuou.


Disse que depois vieram as contas.


O trabalho.


O cansaço.


A televisão.


O celular.


A rotina.


Aquela velha máquina que transforma pessoas apaixonadas em colegas de apartamento.


Ele respondeu que era assim mesmo.


Que ninguém consegue viver de declarações.


Que a vida real não era filme.


Que depois de alguns anos ninguém fica perguntando todos os dias como foi o dia de alguém.


Talvez ele estivesse certo.


Talvez ela também.


O problema é que muitas vezes duas pessoas podem estar certas e ainda assim conseguirem destruir alguma coisa.


Eu continuei bebendo.


Não porque não tivesse opinião.


Tenho opiniões demais.


Esse sempre foi um dos meus problemas.


Fiquei olhando para os dois e pensando em como algumas histórias terminam muito antes de alguém admitir o fim.


O amor raramente morre com uma grande tragédia.


Ele não faz barulho.


Não chama testemunhas.


Não deixa um corpo no chão.


Ele vai desaparecendo aos poucos.


Primeiro vem uma conversa que fica para amanhã.


Depois um abraço que fica para depois.


Depois um beijo que vira hábito.


Depois o silêncio.


Até que um dia duas pessoas acordam na mesma cama e percebem que estão dividindo apenas o colchão.


O resto cada uma carrega sozinha.


O outro casal tentou mudar de assunto.


Não conseguiu.


Quando quatro pessoas bebem o suficiente, sempre aparece alguma verdade guardada.


Vieram acusações antigas.


Pequenas feridas acumuladas.


Coisas que ficaram anos esperando uma oportunidade para sair.


E sexta-feira à noite, em um bar cheio, costuma ser uma excelente oportunidade.


Fiquei pensando naquela velha busca humana pelo Céu.


Essa necessidade de acreditar que existe algum lugar onde tudo finalmente fará sentido.


Talvez exista.


Talvez não.


Nunca tive muita certeza sobre essas coisas.


Mas olhando para aquela mesa, percebi uma coisa:


Talvez o Céu e o Inferno não sejam lugares para onde vamos.


Talvez sejam lugares que construímos enquanto estamos aqui.


O Céu aparece em coisas pequenas.


Quando alguém escuta de verdade.


Quando alguém fica mesmo tendo motivos para ir embora.


Quando alguém pede desculpas sem colocar uma defesa depois da frase.


Quando alguém ama sem transformar carinho em moeda de troca.


Parece pouco.


Mas quase tudo que importa na vida parece pouco antes de desaparecer.


O problema é que nós transformamos amor em contrato.


Eu faço isso por você.


Então você me deve aquilo.


Eu trabalhei.


Então tenho direito ao meu silêncio.


Eu pago as contas.


Então não preciso prestar atenção.


Eu fiquei.


Então você me pertence.


Talvez seja aí que começa o erro.


Porque amar alguém não deveria significar possuir alguém.


Mas nós gostamos de possuir.


Casas.


Objetos.


Memórias.


Pessoas.


Até sentimentos antigos nós tentamos prender.


Depois ficamos surpresos quando alguém tenta respirar longe daquilo que chamamos de amor.


O homem daquela mesa dizia que aquilo era exagero.


Talvez fosse.


Mas existe uma coisa ainda mais triste:


fingir que uma relação continua viva apenas porque duas pessoas ainda dividem o mesmo endereço.


Existem casamentos que continuam apenas porque terminar parece mais difícil do que continuar sofrendo.


Existem pessoas que passam vinte anos juntas e já não sabem mais quem está deitado ao lado.


E existem encontros de uma hora que conseguem lembrar alguém de que ainda está vivo.


O Inferno talvez não seja fogo.


Nem demônio.


Nem castigo.


Talvez seja olhar para alguém que um dia significou tudo e perceber que você ajudou a construir a distância entre vocês.


Tijolo por tijolo.


Com orgulho.


Com silêncio.


Com pequenas crueldades justificadas.


Até que a parede ficou alta demais.


Depois você senta diante dela e pergunta por que ninguém mais consegue chegar perto.


O ódio funciona do mesmo jeito.


Começa pequeno.


Uma mágoa.


Uma palavra.


Uma injustiça.


Depois cresce.


Você começa a separar o mundo.


Os bons.


Os maus.


Os que merecem.


Os que não merecem.


Até que o coração vira uma repartição pública.


Entrada proibida.


Documentos exigidos.


Atendimento somente com agendamento.


O curioso é que quase ninguém percebe quando chega ao Inferno.


Porque ele não parece Inferno.


Ele parece rotina.


As pessoas continuam trabalhando.


Pagando contas.


Postando fotos felizes.


Comprando presentes.


Dizendo “eu te amo”.


Tudo funcionando normalmente.


Talvez seja por isso que ele seja tão eficiente.


O Inferno não precisa de fogo.


Basta parecer normal.


Olhei novamente para aquela mesa.


Ela chorava.


Ele olhava o celular.


Aquilo me pareceu mais violento do que uma discussão.


Porque a raiva ainda reconhece o outro.


O desprezo não.


O desprezo apaga.


O cantor começou outra música.


Ninguém percebeu.


O barman recolheu copos.


A fumaça continuou subindo.


A sexta-feira continuou acontecendo.


O mundo não para quando alguém está destruindo outra pessoa por dentro.


Essa é uma das coisas mais duras sobre estar vivo.


Você pode estar quebrando alguém.


E do lado de fora alguém continua servindo cerveja.


Terminei minha bebida.


Fiquei alguns segundos olhando para aquela cena.


Não sabia quem estava certo.


Talvez ninguém.


Talvez os dois.


Mas pensei que todos nós recebemos pequenas escolhas todos os dias.


Abrir uma porta.


Ou construir uma parede.


Perdoar.


Ou guardar uma dívida emocional.


Amar.


Ou negociar.


O Céu talvez não seja tão distante quanto imaginamos.


Talvez ele apareça quando deixamos de tratar pessoas como propriedades.


E o Inferno talvez já esteja funcionando quando precisamos destruir alguém para provar que estamos certos.


No fim, quase ninguém perde uma guerra contra o outro.


Perde contra aquilo que se tornou.


Saí do bar.


A música ficou para trás.


As vozes ficaram para trás.


A sexta-feira continuou cheia.


Como sempre.


E pensei que talvez o Céu e o Inferno realmente funcionem em horário comercial.


Não precisam de julgamento final.


Não precisam de grandes sinais.


Às vezes basta olhar para quem está ao nosso lado.


Se ainda conseguimos amar sem cobrar pagamento, talvez por alguns minutos tenhamos encontrado o Céu.


Se precisamos odiar para continuar existindo, talvez já tenhamos chegado ao outro lugar.


E o pior de tudo:


não precisamos morrer para descobrir.


Basta continuar vivendo exatamente como estamos.

*Aquilo que o tempo não consegue levar.*


O bar tinha apenas três mesas ocupadas. Um casal discutia em voz baixa no canto, um homem dormia abraçado ao copo como se aquilo fosse uma espécie de documento de identidade, e eu estava no lugar de sempre, perto do balcão, ouvindo uma música antiga sair do junkbox com aquele som cansado de quem também já viveu mais do que deveria.
O dono do bar limpava um copo que nunca parecia ficar limpo. Talvez fosse uma mania. Talvez fosse uma forma de passar o tempo sem precisar pensar nele.
Pedi outra dose.
Não porque precisava beber. Isso seria uma explicação simples demais. Às vezes a gente não procura o álcool. Procura um intervalo. Um lugar onde ninguém pergunte quem você se tornou depois de tantos anos tentando ser alguém.
Fiquei olhando aquelas pessoas espalhadas pelo salão e pensei que todo bar é uma pequena sala de espera.
Cada mesa tem alguém negociando consigo mesmo.
Tem gente tentando esquecer uma conversa que nunca teve coragem de iniciar. Tem gente comemorando uma vitória que já perdeu o sentido. Tem gente rindo alto apenas para não ouvir o próprio silêncio.
Eu conheço bem esse tipo de gente.
Conheço porque já sentei em todas essas cadeiras.
Existe uma despedida que acontece sem barulho. Ela não chega anunciada. Não leva malas. Não deixa bilhete em cima da mesa.
Ela apenas começa a diminuir alguma coisa dentro da gente.
Um dia você percebe que já não ri como antes. Que alguns sonhos perderam a força. Que aquela vontade quase irresponsável de mudar tudo foi substituída por uma lista de desculpas bem organizadas.
É assim que a vida costuma vencer.
Não destruindo.
Adaptando.


Ela não precisa arrancar sua coragem. Basta oferecer conforto suficiente para que você mesmo entregue.
A tragédia não está nos cabelos brancos, nas rugas ou nos anos acumulados.
A tragédia é quando alguém olha para dentro e percebe que virou exatamente aquilo que prometeu nunca ser.
Uma pessoa aceitável.
Uma pessoa que aprendeu a engolir a própria indignação para manter a mesa organizada, o emprego seguro e a fotografia da família sem rachaduras.
Aos poucos, a tempestade vira previsão do tempo.
E depois a culpa vai para os anos.
Como se o calendário tivesse assinado os contratos por nós.
Mas a verdade é menos bonita.
Foram pequenas escolhas. Pequenas desistências. Pequenas covardias guardadas como se fossem maturidade.
O homem do canto pediu mais uma bebida. O casal foi embora sem se despedir. A música mudou no junkbox.
Eu continuei ali.
Pensando que talvez o maior perigo da vida não seja perder tudo.
Talvez seja conservar tudo e perder a si mesmo no processo.
Porque o tempo realmente leva algumas coisas.
Leva a juventude.
Leva a força.
Leva o corpo devagar, sem pedir permissão.
Mas existe uma parte que ele não consegue tocar.
A parte que ainda deseja.
A parte que ainda se revolta.
A parte que ainda é capaz de errar por vontade própria.
Essa parte não morre com o tempo.
Morre quando a gente abandona.
Então eu levantei o copo, não como uma celebração, mas como um aviso para mim mesmo.
Ainda havia alguma coisa ali.
Alguma coisa imperfeita.


Alguma coisa que não tinha aceitado completamente a derrota.
E talvez seja isso que mantém alguns de nós de pé.
Não a esperança.
A esperança é uma palavra muito bonita para uma noite tão cansada.
Talvez seja apenas a recusa silenciosa de entregar tudo.
Porque no fim das contas, o tempo leva apenas o corpo.
O resto...somos nós que deixamos para trás.

*O GATO, OS MORTOS E A ÚLTIMA PÁGINA*
A sala estava do jeito que eu havia deixado.
Não era exatamente bagunça. Bagunça pressupõe algum critério. Aquilo era apenas o resultado de anos deixando as coisas para depois.
Havia caixas de livros encostadas na parede desde a última mudança. Algumas ainda fechadas. Outras abertas. Uma delas tinha o canto rasgado e deixava escapar algumas lombadas, como se os livros estivessem tentando fugir.
No canto da sala havia uma vitrola do final dos anos setenta. Pesada, de madeira escura, com a tampa transparente já marcada pelo tempo. Ao lado dela, uma coleção de vinis que eu vinha carregando de uma casa para outra havia mais tempo do que gostaria de admitir.
Um disco girava.
Eu não estava prestando muita atenção à música.
Talvez fosse esse o motivo de ela ainda estar tocando.
A música servia melhor quando não exigia nada da gente.
Na mesa havia uma xícara de café com whisky irlandês.
Não era um hábito.
Era uma negociação.
O café me mantinha acordado.
O whisky fazia parecer menos estúpido o fato de eu estar acordado.
A televisão permanecia ligada.
Passava um filme antigo.
Muito antigo.
Um daqueles filmes em que as pessoas ainda tinham tempo para ficar em silêncio antes de dizer alguma coisa importante.
Eu gostava disso.
Hoje ninguém tem tempo para silêncio.
Há mensagens.


Notificações.
Contas.
Reuniões.
Senhas.
Aplicativos.
Até a tristeza precisa ser rápida.
Talvez por isso eu ainda gostasse dos livros.
Eles não têm pressa.
Podem deixar um homem sofrer por quatrocentas páginas sem pedir que ele melhore no capítulo seguinte.
Fiquei olhando para as caixas.
Uma delas estava aberta.
Eu não lembrava de ter deixado daquele jeito.
Aproximei-me.
Havia um romance.
Um livro de história.
Um drama.
Um livro que eu tinha comprado e não lembrava por quê.
E outro que eu lembrava perfeitamente por que tinha comprado, mas já não sabia por que ainda conservava.
Foi aí que percebi uma coisa desagradável.
Os livros sobrevivem aos motivos pelos quais foram comprados.
Talvez as pessoas também.
Fiquei algum tempo parado diante daquela caixa.
Depois puxei um dos livros.
A poeira subiu.
E minha memória resolveu trabalhar.
O que foi uma péssima ideia.
Frida Kahlo apareceu primeiro.
Não como retrato.
Como ferida.
Frida.


Ferida.
Uma palavra puxando outra.
Sal.
Salitre.
Saudade.
Uma palavra quase igual a outra, mas com uma letra de diferença.
É curioso como uma letra pode mudar uma vida.
Pensei naquilo e comecei a lembrar de outras coisas.
Pimenta do campo.
Sertão.
Terra seca.
Estrada.
Distância.
Não sei por que certas palavras ficam guardadas enquanto outras desaparecem.
Talvez a memória não seja um arquivo.
Talvez seja um bêbado escolhendo o que levar para casa.
Peguei outro livro.
Jonas.
O Leviatã.
Um homem dentro de um peixe.
Fiquei olhando para a página.
Um homem entra dentro de um peixe e sai de lá com uma missão.
Eu entro dentro de mim mesmo e saio com azia.
Fechei o livro.
Depois pensei em Moisés.
A arca.
Os animais.
Dois de cada.
Ou sete.
A memória não sabe mais.


Ela altera as coisas para poder continuar funcionando.
Pandora apareceu depois.
Sempre a caixa.
Os homens gostam de caixas.
Guardam documentos.
Fotografias.
Cartas.
Remédios.
Armas.
Livros.
Coisas que não querem esquecer.
Coisas que não conseguem jogar fora.
Às vezes guardam mortos.
Eu olhei para as caixas espalhadas pela sala.
Foi quando percebi que talvez tivesse feito a mesma coisa.
Passei anos guardando pessoas dentro de objetos.
Uma fotografia.
Um livro.
Uma música.
Uma rua.
Um cheiro.
Um disco.
Meu pai apareceu assim.
Não numa fotografia.
Num pensamento.
Estava entre os mortos da minha memória como se nunca tivesse saído de lá.
Isso me incomodou.
Não porque eu não quisesse lembrar.
Mas porque algumas lembranças não pedem licença.
Elas simplesmente entram.
E sentam.


Peguei outro livro.
Hamlet.
Depois Hamnet.
A palavra ficou na minha cabeça.
Hamnet.
O menino que morreu cedo demais.
Um nome pequeno para uma ausência enorme.
Pensei nele durante algum tempo.
Talvez todos nós sejamos um pouco Hamnet.
Filhos de alguma coisa que não conseguimos terminar.
Pais de alguma coisa que não conseguimos salvar.
Ou apenas homens que chegaram tarde demais para algumas coisas.
A garganta apertou.
Eu bebi o café.
Ainda estava quente.
O whisky já tinha desaparecido.
Foi então que percebi que eu estava cansado.
Não fisicamente.
Era outro tipo de cansaço.
Aquele que aparece quando a pessoa começa a perceber que passou boa parte da vida tentando compreender coisas que não foram feitas para serem compreendidas.
Peguei outro livro.
Odisseu.
Hades.
Agamenon.
Tirésias.
Os mortos conversando com os vivos.
Aquilo me pareceu familiar.
Meu pai continuava ali.
Não dizia nada.
Talvez soubesse que eu já tinha perguntado demais.


Olhei para ele dentro da minha cabeça.
Queria dizer alguma coisa.
Não disse.
Há conversas que só funcionam depois que uma das pessoas morre.
Talvez porque finalmente desapareça a expectativa de resposta.
Sentei novamente.
A música continuava girando na vitrola.
A agulha fazia aquele ruído pequeno entre uma passagem e outra.
Era um som antigo.
Um som de coisa que ainda precisava de matéria para existir.
Hoje apertamos um botão e a música aparece.
Naquela vitrola, era preciso colocar o disco.
Levantar a tampa.
Baixar a agulha.
Esperar.
Talvez a espera também tenha sido uma tecnologia que perdemos.
A televisão mostrava o filme.
Um homem falava.
Uma mulher chorava.
O homem parecia culpado.
As pessoas daqueles filmes tinham uma quantidade impressionante de tempo para sofrer.
Nós não.
Hoje precisamos sofrer entre uma reunião e outra.
A vida moderna não eliminou a dor.
Apenas organizou a agenda dela.
Ri sozinho.
Foi então que pensei na Casa Verde.
Machado de Assis.
Bacamarte.
A razão tentando medir a loucura.
O homem que decidiu descobrir quem era louco e acabou colocando quase todo mundo dentro da instituição.


Talvez a diferença entre loucura e normalidade seja apenas uma questão de votação.
Alguns recebem diagnóstico.
Outros recebem cargo.
Alguns falam sozinhos.
Outros têm microfone.
A loucura não desapareceu.
Aprendeu a usar gravata.
Olhei para os livros.
Eu já não sabia se estava lendo ou apenas lembrando.
Napoleão apareceu.
Depois Alexandre.
Depois César.
Depois Jesus.
Depois Moisés.
Depois Pandora.
Depois meu pai.
Tudo misturado.
A história inteira parecia ter entrado naquela sala sem pedir autorização.
O problema dos mortos é esse.
Eles não precisam de espaço físico.
Cabem todos dentro de uma cabeça.
Fui até a janela.
Lá fora havia uma noite tranquila.
A casa estava cercada por aquele silêncio de bairro que aparece quando as pessoas finalmente fecham as portas e param de fingir que têm algum controle sobre a própria vida.
Olhei para o céu.
Pensei em Deus.
Nunca tive muita sorte com essa questão.
Há homens que encontram Deus numa igreja.
Outros encontram numa doença.
Alguns encontram no fundo de uma garrafa.


Eu sempre encontrei perguntas.
Talvez Deus seja apenas o nome que damos ao que não conseguimos suportar não compreender.
Voltei para a sala.
O gato entrou pela porta.
Sem cerimônia.
Não perguntou o que eu estava fazendo.
Não perguntou por que havia livros espalhados.
Não quis saber quem era Hamlet.
Passou pela vitrola.
Cheirou uma caixa.
Ignorou um livro.
Parou diante de mim.
Olhou.
Depois continuou andando.
Aquilo me pareceu uma atitude muito inteligente.
Um gato não precisa saber quem foi Napoleão.
Não precisa saber quantos animais entraram na arca.
Não precisa resolver o problema de Deus.
Não precisa compreender a morte.
Precisa de comida.
Água.
Um lugar razoavelmente quente.
E talvez alguma paz.
Nós complicamos tudo.
Inventamos religiões.
Filosofias.
Sistemas.
Teorias.
Construímos universidades para tentar explicar aquilo que um gato resolve dormindo.
Fui até a cozinha.


Coloquei comida no prato.
Chamei.
Ele apareceu.
Comeu.
Sem agradecer.
Como deve ser.
Depois desapareceu.
Procurei pela casa.
Encontrei-o na minha cama.
Já havia tomado posse.
Não discuti.
Naquela altura da vida, eu já tinha perdido discussões mais importantes.
Apaguei a luz.
A sala ficou escura.
A vitrola continuava girando.
A música havia terminado.
O disco permanecia dando voltas.
Fui até ela e desliguei.
O silêncio entrou no lugar da música.
Foi então que tudo pareceu voltar para o lugar.
Os livros voltaram a ser livros.
As caixas voltaram a ser caixas.
Os mortos voltaram para dentro das páginas.
Frida voltou para sua ferida.
Jonas para o Leviatã.
Odisseu para o Hades.
Hamlet para sua dúvida.
Hamnet para sua morte.
Fabiano para a seca.
Severino para sua cova.
Bacamarte para a Casa Verde.


Meu pai voltou para onde quer que os mortos permaneçam quando ninguém está pensando neles.
E eu fiquei ali.
Sentado.
Um homem numa sala.
Nada mais.
Pensei que talvez essa fosse a parte que mais incomodava.
Passamos a vida tentando ser alguma coisa.
Inteligente.
Forte.
Bom.
Importante.
Amado.
Lembrado.
No fim, continuamos sendo apenas um corpo sentado numa sala escura, esperando a próxima coisa acontecer.
O gato se aproximou.
Deitou-se ao meu lado.
Senti a respiração dele.
Regular.
Pequena.
Sem preocupação alguma com o destino da humanidade.
Não perguntou quantos anos eu tinha.
Não quis saber o que eu havia feito da minha vida.
Não perguntou se eu acreditava em Deus.
Não quis saber se eu estava louco.
Não perguntou se eu tinha amado o suficiente.
Apenas ficou.
Foi aí que percebi uma coisa.
Talvez eu tivesse passado tempo demais procurando respostas em homens mortos.
Nos livros.
Nas religiões.


Na filosofia.
Na memória.
E talvez a resposta estivesse naquela coisa simples que eu sempre considerei pequena demais para ser levada a sério.
Uma presença.
Alguém ficando.
Não para resolver.
Não para explicar.
Apenas para não ir embora naquele instante.
Fiquei olhando para o teto.
Pensei que talvez esse fosse o nosso maior erro.
Queremos a resposta inteira.
O livro inteiro.
A história inteira.
Queremos saber o começo antes de começar e o fim antes de continuar.
Queremos compreender o amor antes de amar.
Queremos compreender a morte antes de morrer.
Queremos saber para onde estamos indo antes de dar o próximo passo.
Talvez não exista essa informação.
Talvez exista apenas a próxima página.
O próximo gole.
A próxima noite.
O próximo corpo ao nosso lado.
Senti o gato se aproximar mais.
Fechei os olhos.
Por alguns segundos, não havia Napoleão.
Não havia Moisés.
Não havia Pandora.
Não havia César.
Não havia Jesus.
Não havia Hamlet.


Não havia meu pai.
Não havia Casa Verde.
Não havia Sertão.
Não havia Hades.
Não havia Deus.
Havia apenas o quarto.
O gato.
Meu corpo.
E o silêncio.
Dessa vez, o silêncio não pareceu vazio.
Pareceu suficiente.
Talvez seja isso que a velhice ensina quando finalmente perde a paciência com as próprias perguntas.
Nem tudo precisa de resposta.
Algumas coisas precisam apenas de companhia.
O gato respirava ao meu lado.
A casa permanecia quieta.
As caixas continuavam esperando.
Os livros continuavam fechados.
A vitrola estava parada.
E eu pensei que talvez a última página não fosse o fim.
Talvez fosse apenas o lugar onde finalmente paramos de escrever perguntas.
Então dormi.
Sem descobrir o nome da tristeza.
Sem descobrir o nome de Deus.
Sem descobrir o que seria de mim.
Mas com um gato ao lado.
Para uma vida inteira, talvez isso seja pouco.
Ou talvez seja exatamente o bastante.

*O FOGUETE QUE FICOU NO QUINTAL*


O sábado amanheceu com aquele sol que parece ter preferência pelos sábados.


Durante a semana ele se esconde atrás de nuvens, prédios, compromissos e caras fechadas. No sábado, resolve aparecer. Como se também tivesse direito a descansar.


Eu estava na varanda quando ouvi o primeiro grito.


Depois outro.


Depois uma discussão sobre quem tinha pegado o brinquedo de quem.


As crianças tinham chegado.


Meus filhos, meus netos, suas vozes, suas provocações e aquela capacidade irritante de transformar qualquer cinco minutos de silêncio em uma guerra civil de pequenas proporções.


A casa ficou diferente.


O gato também percebeu.


Era talvez sua primeira experiência com crianças. No começo ficou parado, olhando para aqueles pequenos seres correndo pela sala como quem observa uma espécie desconhecida. Depois descobriram o gato.


Em menos de dez minutos ele já estava sendo disputado.


Um queria pegar.


Outro queria fazer carinho.


Outro dizia que era dele.


O gato olhava para mim com uma expressão que parecia perguntar por que eu tinha permitido aquela invasão.


Não fiz nada.


Algumas coisas precisam ser vividas até o fim.


Inclusive a paciência de um gato.


Na cozinha, as crianças descobriram a torta.


Uma delas desapareceu.


Depois outra parte.


Quando percebi, havia apenas algumas migalhas e uma espécie de silêncio constrangido entre os pratos.


Teria que encomendar mais duas.


Talvez três.


Na sala, atacaram a estante.


Mexeram nos livros.


Puxaram alguns.


Empilharam outros.


Os livros que ainda estavam nas caixas abertas foram parar no chão.


Fizeram castelos.


Muralhas.


Fortalezas.


Durante alguns minutos, aquela pilha de livros que eu passei anos tentando conservar em ordem parecia ter encontrado uma função muito mais honesta.


Servia para brincar.


No pátio, havia três balanços presos às duas árvores.


Nunca tinham parecido um playground.


Naquele sábado, pareciam.


Havia caixas de madeira, pedaços de tábua, coisas esquecidas na garagem.


Então meu neto olhou para um tambor velho e decidiu que aquilo era um foguete.


Um foguete.


Fiquei olhando para ele.


Ele não precisava de tecnologia.


Não precisava de combustível.


Não precisava de autorização da NASA.


Precisava apenas de um tambor velho, algumas tábuas e uma noite estrelada.


E então me lembrei de uma coisa que eu havia esquecido.


Eu também já quis ir para o espaço.


Houve um tempo em que eu acreditava que pisaria num foguete.


Não porque entendesse de ciência.


Porque toda criança precisa inventar um céu onde a vida pareça valer a pena.


O foguete nunca foi um veículo.


Era uma mentira bonita.


Daquelas que a gente conta para si mesmo antes de descobrir que o mundo costuma distribuir mais boletos do que milagres.


Depois vieram os quarenta.


A idade em que o espelho deixa de fazer gentilezas.


Foi quando percebi que nenhum foguete pisou no quintal daquela casa.


O que chegou foram contas.


Responsabilidades.


Cansaço.


Algumas mulheres que passaram como chuva de verão.


Amigos que aprenderam a sorrir para fotografias enquanto enterravam silenciosamente a própria fome de existir.


Eu ainda procurava alguma coisa.


Não sabia exatamente o quê.


Chamava de sentido porque qualquer palavra menor pareceria covardia.


Aos quarenta ainda existe uma certa arrogância.


A gente acredita que está atrasado, mas que ainda dá tempo.


Aos sessenta e dois, a conta fica diferente.


Não dói apenas o corpo.


Doem também as expectativas que sobreviveram tempo demais.


Os dias começam a parecer copos vazios esperando uma bebida que ninguém serve.


Não é exatamente tristeza.


É um cansaço antigo.


Uma coisa que dorme no peito e acorda antes da gente.


Às vezes olho para uma folha caindo de uma árvore e tenho vontade de colocá-la de volta no galho.


É um impulso ridículo.


Mas compreensível.


Porque a gente passa boa parte da vida tentando devolver as coisas ao lugar.


Um casamento ao começo.


Uma amizade ao primeiro abraço.


Um pai à juventude.


Um amor ao instante anterior à despedida.


Só existe um problema.


Folhas não voltam.


Pessoas também não.


E o tempo é o sujeito mais mal-educado que conheço.


Ele não pede licença.


Não negocia.


Não aceita pagamento parcelado.


Enquanto isso, o mundo continua vendendo a mesma velha mentira.


Todo mundo merece um dia melhor.


É bonito dizer isso.


O problema é que ninguém ensina o caminho.


Ensinaram-me a trabalhar.


A competir.


A produzir.


A acumular.


A parecer bem.


Ninguém ensinou a existir.


Talvez por isso tanta gente tenha aprendido a construir uma vida que parece ótima por fora e não serve para morar por dentro.


Basta abrir qualquer tela.


Casas perfeitas.


Viagens perfeitas.


Corpos perfeitos.


Casamentos perfeitos.


Famílias sorrindo diante de uma paisagem que provavelmente alguém levou vinte minutos para escolher.


A vida virou vitrine.


E ninguém quer aparecer com a mercadoria quebrada.


Eu olho para antigos amigos.


Alguns parecem ter vencido.


Casas maiores.


Carros melhores.


Viagens.


Fotografias.


Sorrisos impecáveis.


Mas já não acredito muito nessa luz.


Existe um sol artificial iluminando a terra da normalização.


É uma luz forte.


Só não aquece.


Ali, o verbo ser foi lentamente assassinado pelo verbo ter.


As pessoas compram identidades em prestações.


Vendem a própria autenticidade em troca de aprovação.


Sorriem como quem cumpre expediente.


Abraçam como quem assina contrato.


A empatia virou artigo de luxo.


A delicadeza passou a parecer fraqueza.


A verdade tornou-se inconveniente.


E talvez seja por isso que eu viva dentro de uma espécie de bolha.


De um lado, o mundo do faz de conta.


Do outro, o mundo real que quase ninguém parece querer habitar.


Eu ainda acredito em coisas que parecem ter ficado velhas.


Palavra.


Lealdade.


Silêncio.


Afeto.


Presença.


Acredito que uma pessoa pode sentar ao lado da outra sem precisar fotografar o momento.


Acredito que carinho não precisa de testemunhas.


Acredito que uma amizade não deveria depender de utilidade.


Talvez eu esteja errado.


Aos sessenta e dois, já aprendi que estar errado é uma das poucas coisas que ainda podemos fazer de graça.


Durante muitos anos procurei minha rainha da beleza.


Não a mulher das revistas.


Essa desaparece quando a maquiagem encontra a primeira lágrima.


Eu procurava outra coisa.


Uma beleza sentimental.


Uma mulher cuja inteligência soubesse abraçar sem tocar.


Que pudesse permanecer em silêncio sem transformar o silêncio em distância.


Alguém cuja alma não estivesse à venda por curtidas, status ou conveniências.


Ainda procuro.


Talvez ela também esteja perdida em algum balcão de bar.


Talvez esteja cansada.


Talvez tenha desistido.


Talvez tenha encontrado alguém.


A vida não costuma prestar contas.


Naquela tarde, porém, havia outras coisas acontecendo.


Meu neto continuava construindo o foguete.


Pegou uma caixa.


Depois uma tábua.


Depois o tambor.


Pediu ajuda para amarrar uma coisa na outra.


Disse que precisava ficar pronto antes da noite.


Queria olhar as estrelas de dentro dele.


Eu ajudei.


Não porque acreditasse que aquilo fosse realmente um foguete.


Mas porque, naquele momento, percebi que talvez eu tivesse passado tempo demais tentando provar que os foguetes não existiam.


Talvez essa seja uma das doenças da idade.


A gente descobre como o mundo funciona e começa a desprezar quem ainda acredita que ele pode funcionar de outra maneira.


Olhei para aquelas crianças correndo pelo pátio.


O gato fugindo de um lado para outro.


Os livros espalhados.


As migalhas da torta.


As caixas.


As tábuas.


O tambor.


A casa completamente fora do lugar.


E, pela primeira vez em muito tempo, aquilo não me incomodou.


Talvez porque o caos deles tivesse alguma coisa que o meu mundo organizado perdeu.


Vida.


Não a vida vendida nas fotografias.


A outra.


A que grita.


Que suja.


Que derruba.


Que quebra.


Que pergunta.


Que inventa foguetes com um tambor velho.


Fiquei pensando que talvez envelhecer seja descobrir que o mundo nunca prometeu salvação.


O foguete não veio.


Aos quarenta, eu descobri.


Aos sessenta e dois, aceitei.


Mas naquele sábado alguma coisa mudou.


Porque o foguete não precisava mais ser meu.


Ele estava ali.


No quintal.


Construído pelas mãos pequenas de quem ainda não sabia que o mundo cobra caro pelos sonhos.


E talvez seja isso que eu queira para eles.


Que demorem muito para descobrir.


Que tenham coragem de olhar para as estrelas sem perguntar quanto custa.


Que não confundam sucesso com felicidade.


Que não entreguem a própria autenticidade em troca de aplausos.


Que saibam amar sem transformar o amor em vitrine.


Que tenham amigos capazes de permanecer quando não houver fotografia.


Que aprendam a sentir a dor sem fazer dela uma identidade.


Que não tenham vergonha da delicadeza.


Que não deixem ninguém convencer que possuir é mais importante do que ser.


E, principalmente, que vivam.


De verdade.


Porque talvez a grande tragédia não seja envelhecer.


Talvez seja chegar aos sessenta e dois, olhar para trás e perceber que passamos a vida inteira tentando parecer vivos.


Naquela noite, meu neto entrou no tambor.


Olhou para o céu.


Perguntou se eu achava que dava para chegar até as estrelas.


Eu olhei para ele.


Depois olhei para o foguete improvisado.


E disse que sim. Olhe bem para o infinito, feche os olhos e demore um pouco. Abra, feche e demore. Isso irá fotografar o céu. Depois, ligue a inguinação e voe.


Ele sorriu.


Foi um sorriso verdadeiro.


Sem câmera.


Sem postagem.


Sem filtro.


E foi provavelmente a coisa mais verdadeira que vi naquele sábado.


Fiquei na varanda enquanto as crianças brincavam.


O sol já tinha ido embora.


As estrelas começaram a aparecer.


E, por alguns minutos, eu não pensei nos quarenta.


Nem nos sessenta e dois.


Nem nas coisas que não voltam.


Nem nos amigos que se perderam.


Nem nas mulheres que foram embora.


Nem nos boletos.


Nem nesse mundo que aprendeu a vender felicidade em prestações.


Fiquei apenas ali.


Ouvindo meus netos.


E percebi uma coisa que talvez eu tenha levado sessenta e dois anos para entender:


alguns foguetes não foram feitos para sair do chão.


Foram feitos para nos lembrar de olhar para cima.


E talvez seja isso que importa.


Não chegar às estrelas.


Mas não perder a capacidade de procurá-las.

*O QUARTZO E O BASALTO*


*SiO₂*


O primeiro número apareceu na tela antes que alguém terminasse o café.


Era uma reunião de escritório.


Daquelas que começam com uma apresentação cheia de gráficos e terminam com alguém dizendo que precisamos melhorar os indicadores.


No meio, vieram os números.


Depois as queixas.


Depois mais números.


Perguntas.


Repreguntas.


Questões que não tinham sido pontuadas direito e deixaram dúvidas em alguns.


Era só ter explicado antes.


Mas isso seria esperar demais de uma reunião.


Alguns perguntaram.


Outros ficaram quietos.


Era mais seguro.


A sala era bonita. Cara. Vidros por todos os lados. Mesa grande. Ar-condicionado. Uma tela enorme na parede.


O nome da empresa também era bonito.


Dava a impressão de que ali se fabricavam soluções.


Nomes assim são úteis.


Fazem parecer que existe alguma coisa acontecendo.


Eu olhava para a tela e pensava que talvez existisse.


Mas não.


Existiam números.


E pessoas tentando fazer os números parecerem importantes.


Foi aí que uma coisa começou a me incomodar.


Não eram as cobranças.


Cobrança faz parte do trabalho.


Todo mundo cobra alguém.


E quase sempre existe alguém cobrando quem está cobrando.


É uma cadeia alimentar.


Só que, naquela sala, havia uma combinação que me incomodava.


Número e ser vivo.


Caso 1847.


Protocolo 3921.


Atendimento concluído.


Meta atingida.


Parece simples.


Só que o número não acorda de madrugada.


O número não perde o emprego.


O número não tem uma mãe doente.


Não fica olhando para o teto tentando descobrir como vai pagar uma conta.


Não sente vergonha.


Não sente medo.


Não se arrepende.


O número não sabe que existe.


O sujeito atrás dele sabe.


E essa diferença parecia não caber naquela sala.


Precisamos dos números.


Eu sei.


Seria idiota dizer o contrário.


É preciso registrar.


Classificar.


Medir.


Organizar.


Sem isso, ninguém sabe quantos entraram, quantos saíram, quantos foram atendidos.


O problema começa quando o número deixa de ser ferramenta.


Quando passa a ser o objetivo.


Quando a pessoa deixa de ser alguém que precisa de uma solução e vira apenas mais um caso atendido.


Atendido.


Essa palavra me incomodou.


Atendido não significa resolvido.


Uma ligação é atendida.


Um telefone é atendido.


Uma torneira pode ser atendida.


Uma pessoa também.


Mas uma pessoa não é uma torneira.


Embora, naquela sala, às vezes parecesse.


As pessoas que queriam os números estavam longe.


Não em quilômetros.


Em outra coisa.


Talvez nunca tivessem visto um daqueles rostos.


Talvez tivessem visto.


Depois de algum tempo, isso não faz muita diferença.


Um rosto vira estatística quando você precisa justificar uma meta.


E o mais engraçado era que essas pessoas também estavam sendo pressionadas.


Por quem?


Por gente que queria solução.


Aí estava a piada.


Queriam solução.


Cobravam números.


Queriam mais casos assistidos.


Mais atendimentos.


Mais produtividade.


Mais eficiência.


Mais indicadores.


E, no final, mais números.


Poucas soluções.


A máquina estava funcionando perfeitamente.


Só não estava resolvendo nada.


Foi quando pensei no quartzo.


Não porque eu entendesse de geologia.


Não entendia.


Mas algumas coisas aparecem na cabeça quando você está cansado de ouvir a mesma conversa.


O quartzo é comum.


Está por toda parte.


A matéria-prima não tem nada de especial.


Talvez nós também sejamos assim.


Gostamos de acreditar que somos únicos.


É uma necessidade humana.


Ajuda a suportar a própria existência.


Dizemos que somos diferentes.


Que temos nossa história.


Nosso jeito.


Nossos problemas.


Mas a matéria-prima é quase sempre a mesma.


Medo.


Desejo.


Raiva.


Solidão.


Vergonha.


Esperança.


Vontade de ser reconhecido.


Todo mundo carrega alguma coisa disso.


O que muda é a formação.


E então pensei no basalto.


Na minha cabeça, ele era o mundo.


A pressão.


O lugar.


A família.


O trabalho.


As perdas.


Os fracassos.


As humilhações pequenas.


As pessoas que ficaram.


As que foram embora.


As que deveriam ter ficado.


Tudo aquilo que chega de fora e, depois de algum tempo, deixa de parecer de fora.


O basalto não fica simplesmente ao redor.


Ele entra.


Deixa marcas.


Algumas ficam tanto tempo que começamos a chamá-las de personalidade.


Foi aí que percebi que talvez a reunião tivesse alguma coisa a ver com isso.


O sistema também entra na gente.


Começa pedindo um número.


Depois pede uma meta.


Depois um resultado.


Depois uma justificativa.


Quando você percebe, está falando como a planilha.


Usando as mesmas palavras.


Pensando nos mesmos números.


Medindo pessoas pelo que pode ser contado.


Talvez fosse isso que me incomodava.


O mundo nos forma.


O sistema nos classifica.


E nós confundimos as duas coisas.


Uma coisa deixa marcas.


A outra coloca etiquetas.


Uma participa daquilo que nos tornamos.


A outra quer saber onde nos colocar.


É mais fácil assim.


Cargo.


Função.


Resultado.


Histórico.


Currículo.


Nome.


Número.


Tudo cabe numa planilha.


Menos a parte que interessa.


A planilha não quer saber quem você era antes.


Não pergunta o que fizeram com você.


Não pergunta o que você fez consigo mesmo.


Quer uma célula preenchida.


E nós preenchemos.


Porque é mais fácil.


Talvez seja essa a parte mais miserável.


Nós mesmos ajudamos a desaparecer.


Depois reclamamos que ninguém nos enxerga.


É uma piada ruim.


Mas também não dá para jogar o basalto fora.


Essa é a parte desagradável.


Se eu arrancar tudo o que me formou, o que sobra?


Não sei.


Talvez uma pedra.


Talvez nada.


Durante muito tempo pensei que identidade fosse encontrar alguma coisa escondida dentro de nós.


O verdadeiro eu.


Uma espécie de núcleo intacto.


Hoje acho isso bonito demais para ser verdade.


O que existe em mim antes do mundo?


Não sei.


O que o mundo colocou em mim?


Isso eu sei.


Algumas coisas eu aceitei.


Outras eu recusei.


Algumas tentei arrancar.


Não consegui.


Outras entraram tão fundo que passaram a parecer minhas.


É difícil separar.


Talvez não seja para separar.


O basalto me feriu.


Também me deu contorno.


Não agradeço pelo que doeu.


Não sou tão idiota.


Mas reconheço as marcas.


Existe uma diferença.


Talvez identidade seja isso.


Não uma coisa pura.


Não uma essência esperando ser descoberta.


Uma disputa.


O que sou.


O que fizeram de mim.


O que aceitei.


O que recusei.


E o que ainda consigo fazer com tudo isso.


Foi quando pensei novamente no homem dentro do protocolo.


Talvez fosse esse o problema.


O protocolo não era o homem.


O número não era o homem.


Mas, depois de algum tempo, todos começaram a agir como se fosse.


E fazemos isso fora do escritório também.


Transformamos alguém em um erro.


Em uma dívida.


Em um cargo.


Em um passado.


Em uma aparência.


Em uma opinião.


Depois esquecemos o resto.


É mais confortável.


Um ser humano inteiro dá trabalho.


Um número não.


Saí da reunião com a sensação de que havíamos contado tudo.


Menos o que importava.


Os números estavam corretos.


As planilhas fechavam.


Os indicadores provavelmente seriam apresentados como bons.


No dia seguinte, tudo estaria ali novamente.


As metas.


Os protocolos.


As cobranças.


Os gráficos.


As pessoas.


Ou o que sobrasse delas depois dos gráficos.


Fiquei pensando no quartzo.


No basalto.


No número.


Talvez os três tivessem mais em comum do que eu gostaria.


O quartzo não escolheu onde nasceu.


Nós também não.


O basalto participou da formação.


O mundo também.


O número veio depois.


Esse, pelo menos, deveria ser apenas uma ferramenta.


Mas talvez a pior coisa não seja virar número.


Talvez seja começar a acreditar que somos um.


E aí fica difícil saber onde termina o que somos e começa aquilo que colocaram em nós.


Talvez seja isso que chamamos de identidade.


Não saber exatamente quem somos.


Mas ainda conseguir perceber quando estão tentando nos transformar em outra coisa.


Somos quartzo.


Somos basalto.


Somos a pressão.


Somos as marcas.


E, às vezes, somos também o idiota que olha para tudo isso e tenta entender.


Saí da sala.


Ninguém perguntou pelo homem dentro do protocolo.


Também não esperava que perguntassem.


Afinal, a reunião tinha terminado.


E o indicador precisava fechar.

*A REVOLUÇÃO DOS CANSADOS* - Naquela manhã, ele caminhava para o escritório sob um céu baixo e cinzento, desses que parecem ter desistido antes mesmo de o dia começar. A cidade estava suja. Havia lixo acumulado junto às calçadas, restos de papel molhado, garrafas vazias e a fumaça dos fogos ainda suspensa no ar. De algum lugar vinha o grito dos prós. Do outro lado da rua, os contras respondiam. Todos tinham uma opinião. Todos pareciam ter uma certeza. Ele apenas continuava andando.

Durante anos, tinha acreditado que precisava convencer alguém de alguma coisa. O patrão de que trabalhava demais. A família de que fazia o possível. Os amigos de que estava bem. O mundo de que ainda era útil. Era um trabalho cansativo. Talvez mais cansativo do que o próprio trabalho.

Com o tempo, começou a perder alguns talentos. Primeiro, o talento de discutir. Depois, o de explicar. Por fim, perdeu o hábito de parecer indignado. Descobriu que a indignação permanente era apenas outra forma de cansaço, e que quase todo mundo estava cansado demais para admitir isso.

Passou diante de um bar ainda com as portas meio abertas. Lá dentro, algumas mesas sujas, cadeiras tortas e homens olhando para copos como se esperassem deles alguma resposta. Havia fumaça no ar e silêncio entre uma frase e outra. O lugar tinha a aparência honesta das coisas que já não prometem nada.

Ele parou por alguns segundos diante da porta. Pensou em entrar. Não entrou. Ainda precisava bater ponto.

Na rua, alguém gritava sobre liberdade. Outro gritava contra. Um terceiro filmava tudo com o telefone. Mais adiante, um cartaz anunciava um futuro melhor. Estava colado sobre uma parede coberta de mofo. Ele achou aquilo particularmente engraçado.

A cidade continuava fabricando heróis. Heróis de ocasião. Mártires de fim de semana. Revolucionários que falavam alto até a hora em que precisavam voltar para casa porque havia reunião na segunda-feira.

Ele já tinha visto aquilo antes.

As guerras eram travadas por homens que quase nunca apertavam o gatilho. As virtudes eram defendidas por gente que não abriria mão do próprio conforto nem por quinze minutos. E os grandes discursos serviam, muitas vezes, para esconder uma coisa muito simples: ninguém fazia a menor ideia do que estava fazendo aqui.

Talvez fosse isso que mais o incomodasse.

Não a mentira. A necessidade de fingir que ela não existia.

Continuou caminhando. Um caminhão passou e levantou água suja da sarjeta. Molhou sua calça. Ele não reclamou. Havia coisas piores.

Pensou nas bandeiras que já tinha carregado. Algumas tinham mudado de dono. Outras tinham mudado de cor. Algumas continuavam sendo erguidas pelas mesmas pessoas que, anos antes, juravam combatê-las. A política tinha esse talento extraordinário de transformar convicções em mercadoria.

Ele estava cansado.

Não apenas do trabalho. Não apenas das pessoas. Estava cansado da obrigação de se importar com tudo.

Talvez fosse uma espécie de revolução.

Parar de explicar.

Parar de justificar.

Parar de correr atrás da cenoura enquanto alguém segura o chicote.

Ele queria uma mesa de bar. Uma cerveja gelada. Uma mulher inteligente rindo do seu cinismo. Uma motocicleta velha esperando na calçada. Quilômetros sem destino. Nada grandioso. Nada que precisasse ser fotografado, publicado ou transformado em opinião.

O escritório aparecia no fim da avenida.

As janelas refletiam o céu cinzento. Gente entrava apressada. Gente saía fumando. Gente carregava pastas, problemas, boletos e pequenas ambições cuidadosamente embaladas.

Ele olhou para o prédio.

Por um instante, teve vontade de simplesmente virar as costas.

Não virou.

Ainda não.

Mas alguma coisa dentro dele já tinha ido embora fazia tempo.

Talvez liberdade não fosse fugir.

Talvez fosse apenas chegar ao ponto em que já não se precisa provar nada.

Ela não chegava montada num cavalo branco. Não havia música. Não havia aplausos. Não havia discurso.

Às vezes aparecia numa manhã miserável, diante de um escritório qualquer, com olheiras, o bolso quase vazio e uma paz estranha no peito.

Para quem olhava de fora, aquilo parecia derrota.

Ele sabia que podia ser.

Mas também desconfiava de outra coisa.

Talvez a derrota fosse passar a vida inteira tentando parecer vencedor.

E talvez, depois de tantos anos, a verdadeira revolução começasse exatamente ali.

Quando um homem cansado olhava para o mundo, dava de ombros e dizia, sem raiva e sem heroísmo:

— Hoje, não.

Depois entrava no escritório.

Porque até a liberdade, às vezes, precisa bater o ponto.

E ninguém precisava saber que, por dentro, ele já tinha ido embora.

*O QUE A RAIZ SABE*

Às duas da madrugada eu acordei com aquela sensação desagradável de quem não tinha dormido direito, apenas tinha perdido algumas horas. Fiquei olhando para o teto. O quarto estava escuro. O silêncio não era exatamente silêncio. Havia um carro passando longe, um motor qualquer insistindo em existir, e os grilos fazendo seu trabalho de sempre, como se a madrugada ainda tivesse alguma importância.

O gato estava ao lado da minha cabeça. Ficou me olhando por alguns segundos. Depois levantou uma das patas e colocou-a sobre a minha testa. Talvez fosse carinho. Talvez fosse um aviso. Talvez estivesse apenas tentando me mandar de volta para onde eu deveria estar.

Não funcionou.

Levantei.

Fui até a varanda e acendi um charuto. Eu já sabia que o sono não voltaria. Quando a cabeça decide andar pela casa às duas da manhã, não existe travesseiro capaz de fazê-la parar.

O gato veio atrás.

Parou na porta da varanda e ficou me olhando. Parecia querer dizer: volte para a cama, homem. Você já tem idade suficiente para saber que pensar depois da meia-noite nunca termina bem.

Ignorei.

Fiquei ali, fumando, ouvindo os grilos cantarem na boêmia da madrugada e alguns veículos atravessarem a distância. A cidade dormia. Ou fingia.

Comecei a pensar nas imagens que a gente carrega.

Não nas fotografias.

Nas outras.

Aquelas que ficam dentro da cabeça.

A imagem de quem fomos. A imagem de quem deveríamos ter sido. A imagem que alguém criou de nós e que, por alguma razão estúpida, decidimos acreditar.

Talvez uma parte da nossa desgraça venha daí.

Passamos anos tentando caber numa fotografia que já não existe.

Olhei para a fumaça do charuto.

A fumaça desaparecia.

Pensei que nós também fazemos isso.

Só que demoramos mais.

A gente passa a vida tentando ser reconhecido. Quer aplauso. Quer aprovação. Quer que alguém diga que valeu a pena. E quando isso não acontece, começamos a acreditar que fomos derrotados.

Mas talvez não exista derrota.

Talvez exista apenas a necessidade de encontrar um lugar onde ninguém esteja distribuindo medalhas.

Um pedaço de chão.

Qualquer um.

Mesmo escondido.

Porque às vezes tudo o que você precisa é parar de disputar o lugar onde os outros foram coroados.

Fincar os pés em outro lugar.

E ficar.

Pensei também naquilo que nos alimenta quando tudo dá errado.

Não estou falando de grandes discursos.

Às vezes é uma lembrança da mãe.

Um café.

Um abraço que aconteceu há vinte anos.

Uma conversa idiota que, por algum motivo, ainda mora na memória.

É estranho como a vida consegue nos manter vivos com coisas pequenas enquanto o mundo inteiro insiste em vender soluções enormes.

Talvez sobreviver seja isso.

Aprender novamente o tamanho das coisas.

Uma respiração.

Um copo d’água.

Um cigarro.

Um gato colocando a pata na sua testa às duas da manhã.

Não parece muito.

Mas, quando tudo desaba, quase nada parece muito.

E ainda assim é o suficiente para atravessar mais uma noite.

A graça também não é gentil o tempo inteiro.

Essa é outra mentira que contamos para nós mesmos.

Às vezes a vida acolhe.

Às vezes ela bate.

Às vezes ela simplesmente passa por cima.

Há coisas que não se resolvem com frases bonitas. Há perdas que não ensinam nada. Há abandonos que não escondem nenhuma lição. Há pessoas que vão embora e deixam apenas um espaço vazio onde antes havia rotina.

E você fica olhando para aquilo.

Esperando alguma explicação.

Ela não vem.

Então você aprende a respirar sem ela.

Foi aí que pensei nas chances.

Elas raramente chegam em horário conveniente.

Quase nunca batem na porta.

Algumas aparecem quando você está cansado, quebrado, desconfiado, com o coração fechado e uma lista enorme de motivos para dizer não.

E talvez esse seja o problema.

A gente espera estar inteiro para começar de novo.

Só que ninguém está inteiro.

Não depois de certa idade.

Depois de algumas perdas, algumas traições, alguns funerais e algumas noites mal dormidas, você descobre que inteiro é uma palavra para quem ainda não prestou atenção.

O que resta é o que interessa.

Aquela parte que sobreviveu.

É dali que você tira alguma coisa.

Não porque a dor seja bonita.

Dor não é bonita.

Dor é dor.

Mas às vezes ela deixa alguma coisa escondida.

Uma habilidade.

Uma lucidez.

Uma coragem que você não sabia que tinha.

Um tipo de ouro ordinário, desses que não servem para comprar nada, mas servem para lembrar que você ainda está aqui.

O problema é que também carregamos nossas próprias imagens como condenados.

Repetimos insultos antigos.

Vozes de pessoas que já foram embora.

Frases ditas por quem nunca nos conheceu de verdade.

Você é isso.

Você não consegue.

Você nunca vai mudar.

Você não é suficiente.

E, depois de algum tempo, nem sabemos mais quem disse.

Somos nós.

A voz foi incorporada.

Virou morador.

E continuamos pagando aluguel para ela.

Talvez seja preciso expulsar algumas imagens.

Não esquecer.

Expulsar.

Porque aquilo que você repete todos os dias acaba parecendo verdade.

E algumas verdades são apenas feridas com boa memória.

O charuto estava quase no fim.

O gato continuava na porta.

Agora parecia menos paciente.

Olhei para ele e pensei que os animais talvez tenham entendido alguma coisa que nós complicamos demais.

Eles não ficam tentando justificar a existência.

Eles dormem quando têm sono.

Comem quando têm fome.

Vão embora quando querem.

E, quando gostam de você, simplesmente ficam.

Nós transformamos tudo em contrato.

Até o afeto.

Até a saudade.

Até o abandono.

Quando alguém parte, queremos explicações.

Quando alguém fica, queremos garantias.

Quando tudo termina, queremos saber por quê.

Mas o rio não explica por que seca.

Ele apenas seca.

E talvez algumas pessoas sejam assim.

Elas atravessam a nossa vida, deixam alguma coisa, levam outra e desaparecem.

Não é justo.

Nunca foi.

Então chega a hora de quebrar.

Não necessariamente por fraqueza.

Às vezes quebrar é a única maneira de deixar alguma coisa ir embora.

A gente segura tanto que começa a confundir apego com amor.

Não é a mesma coisa.

Amor sabe partir.

Apego exige cadáveres.

Fiquei olhando para a rua vazia.

Pensei no medo de esperar.

A espera é cruel.

Ela coloca você diante de si mesmo sem distração.

Sem barulho.

Sem pessoas.

Sem a próxima novidade.

E talvez seja justamente ali que estejam os tesouros que ninguém encontra porque ninguém suporta ficar tempo suficiente no escuro.

A gente foge.

Liga a televisão.

Abre o celular.

Procura alguém.

Procura qualquer coisa.

Tudo para não ficar sozinho com a própria cabeça.

Eu também fiz isso.

Muitas vezes.

Talvez ainda faça.

Mas naquela madrugada eu estava ali.

Sem fugir.

E percebi uma coisa desagradável.

A vida não estava me devendo nada.

Nem explicações.

Nem reparações.

Nem um final bonito.

Ela simplesmente continuava.

O mundo continuaria girando depois de mim.

Os grilos continuariam cantando.

Os carros continuariam passando.

Alguém estaria beijando alguém.

Alguém estaria chorando.

Alguém estaria nascendo.

Alguém estaria morrendo.

E nada disso pediria minha autorização.

Talvez maturidade seja aceitar essa humilhação.

Você não é o centro.

Nunca foi.

Mas isso não significa que sua vida não tenha valor.

Significa apenas que você precisa parar de esperar que o mundo confirme isso.

A Terra continua.

Ela parece cansada.

Mas continua.

E talvez ainda queira ser tocada.

Não com discursos.

Com presença.

Com verdade.

Com coragem para sentir novamente aquilo que você passou anos tentando anestesiar.

Inclusive a partida.

Porque todo recomeço cobra alguma coisa.

Às vezes cobra uma pessoa.

Às vezes uma versão antiga de você.

Às vezes uma esperança que já estava morta e você ainda carregava como se fosse viva.

Eu terminei o charuto.

O gato continuava olhando.

Talvez fosse hora de voltar.

Talvez não.

Fiquei mais alguns minutos.

Pensei nas raízes.

Elas não são bonitas.

Ficam enterradas.

Ninguém fotografa uma raiz.

Ninguém elogia uma raiz.

Ela trabalha no escuro.

Aguenta a terra.

Encontra água onde parece não existir nada.

E, se tiver sorte, algum dia aparece uma flor.

Talvez seja isso que nos resta.

Não tentar parecer flor o tempo inteiro.

Aceitar a raiz.

Aceitar o escuro.

Aceitar a parte de nós que ninguém vê e que talvez nem nós mesmos gostemos muito.

Porque pode ser justamente ali que alguma coisa esteja começando.

Não uma versão melhor.

Não uma versão perfeita.

Apenas uma versão verdadeira.

Olhei novamente para o gato.

Ele virou e voltou para a cama.

Sem discurso.

Sem terapia.

Sem conclusão.

Fui atrás.

A madrugada continuava lá fora.

E, pela primeira vez naquela noite, não precisei que ela me dissesse nada.

Eu já tinha entendido.

Algumas coisas precisam morrer.

Algumas precisam ser deixadas.

Algumas precisam ser perdoadas.

E algumas precisam permanecer enterradas.

Não para desaparecer.

Mas para criar raiz.

Porque, no fim, talvez reescrever a própria vida não seja começar do zero.

É olhar para o que sobrou.

Parar de mentir sobre isso.

E decidir, mesmo com medo, que ainda dá para plantar alguma coisa.

*O BAR ONDE AS ALMAS BEBEM* - O bar nunca fechava.
Porque o bar era o mundo.
Os balcões eram estradas polidas pelos cotovelos de homens que aprenderam a negociar a própria alma antes mesmo de aprenderem a pronunciá-la. Ali ninguém chegava para beber. Chegava para esquecer o nome daquilo que um dia acreditou ser.
O barman nunca servia bebidas.
Servia sentenças.
Seu rosto era o meu, alguns fracassos mais velho. Seus olhos não julgavam. Apenas devolviam a imagem de um homem que descobriu cedo demais que a consciência é o único carrasco que jamais dorme.
Sentava-me diante dele como quem comparece ao próprio julgamento.
Não havia defesa.
Ao meu redor, os copos tilintavam como sinos de um funeral interminável. As vozes enchiam o ambiente, mas nenhuma dizia coisa alguma. Eram ruídos produzidos por almas que confundiram existência com sobrevivência e passaram a chamar adaptação de virtude.
As cadeiras vazias pesavam mais do que as ocupadas.
Porque a ausência também possui corpo.
Ela senta ao nosso lado, acende um cigarro invisível e nos acompanha até o último gole.
Acendi meu charuto.
A fumaça subiu lentamente, desenhando pensamentos que jamais encontrariam repouso. Não era fumaça.
Eram ideias recusando o cemitério.
Flutuavam acima da minha cabeça como corvos circulando um campo onde Deus esqueceu de aparecer. Algumas morriam antes de ganhar forma. Outras retornavam para devorar aquilo que eu ainda chamava de esperança.
O barman serviu o whisky.
Não veio da garrafa.
Veio dos grãos espalhados pelo caminho. Da terra pisada por desconhecidos. Das derrotas herdadas de homens que nunca conheci. Das lágrimas que não eram minhas, mas que fermentaram dentro de mim até perderem o gosto de sal e adquirirem o gosto amargo da lucidez.
Bebi devagar.
Cada gole era um verso.
Cada verso era uma hemorragia que aprendera a sangrar para dentro.
Foi então que compreendi a maior mentira já aceita pelos frequentadores daquele lugar.
Não haviam destruído os valores.
Apenas mudaram seus nomes.
A covardia vestiu a roupa da prudência.
A indiferença passou a ser maturidade.
O egoísmo ganhou o perfume da liberdade.
A mentira tornou-se diplomacia.
A rendição foi chamada de paz. E a consciência... essa foi trancada no porão para que ninguém precisasse ouvir seus gritos durante o jantar.
Todos brindavam.
Não à vida.
Mas ao alívio de não precisarem mais distinguir o certo do conveniente.
É mais fácil dormir quando se assassina o espelho.
Olhei novamente para o barman.
Ele sorriu com uma tristeza antiga.
Como quem sabe que nenhum homem sai dali melhor do que entrou. Apenas mais consciente da própria escuridão.
E talvez seja esse o verdadeiro inferno.
Não o fogo.
Nem os demônios.
Mas caminhar entre milhões de pessoas e descobrir que a maioria já não vendeu a alma.
Descobrir que sequer acredita possuir uma.
Apaguei o charuto.
As últimas espirais desapareceram no teto como desaparecem as civilizações: não quando deixam de respirar, mas quando deixam de reconhecer o peso da verdade.
Deixei o copo vazio sobre o balcão.
O barman nada disse.
Também não era necessário.
Há silêncios que escrevem poemas com mais sangue do que qualquer homem conseguiria suportar

*Era outra noite no pub*

Eu ainda estava procurando um lugar que parecesse menos falso que os outros. Não necessariamente um lugar bonito. Beleza demais sempre me deixou desconfiado. Eu queria apenas um lugar onde ninguém precisasse fingir tanto.

Ela era uma das inúmeras profissionais que frequentavam o escritório. Já havíamos conversado algumas vezes. Coisas de trabalho. Horários. Processos. Café ruim. Aquele tipo de conversa que mantém duas pessoas civilizadas e completamente desconhecidas.

Naquela noite resolvemos sair.

Conhecer um pub.

Talvez conhecer um ao outro.

O segundo sempre dá mais trabalho.

Sentamos, pedimos alguma coisa e começamos pelo roteiro habitual dos primeiros encontros. Trabalho. Filmes. Música. Viagens. Relacionamentos. Pequenas biografias cuidadosamente editadas para não assustar ninguém.

As pessoas fazem isso.

Entregam uma versão resumida de si mesmas.

Como se fossem currículos emocionais.

Depois de algum tempo, a conversa cansou de ser educada.

Foi quando ela começou a falar de coisas que não cabiam no escritório.

Disse que crescera sentindo a falta de amor do pai. Não a falta física. A outra. A pior. Aquela em que o sujeito está presente, respira na mesma casa, ocupa a mesma cadeira e ainda assim parece ter feito um acordo com a própria ausência.

Depois veio o casamento.

Falido desde o começo.

Algumas relações não terminam. Apenas continuam mortas por falta de coragem dos vivos.

E havia o relacionamento mais recente.

Abuso emocional.

Ela não precisou usar muitas palavras.

Certas coisas aparecem no jeito como alguém segura o copo.

No intervalo antes de responder.

Na maneira de rir quando conta alguma coisa que ainda dói.

Eu ouvi.

Não porque soubesse o que dizer.

Eu quase nunca sei.

Também não acredito nessa obrigação moderna de oferecer uma frase bonita para cada ferida. Às vezes a melhor coisa que alguém pode fazer é não transformar a dor do outro em palestra.

Então fiquei ali.

Ouvindo.

Ao redor, o pub fazia seu trabalho habitual.

Gente bebendo para esquecer que precisava voltar para casa.

Casais se olhando como quem verifica se ainda existe alguma coisa ali.

Homens falando alto para parecerem importantes.

Mulheres rindo de coisas que provavelmente não tinham graça.

Garçons carregando copos.

Garrafas alinhadas.

Luzes baixas.

Música suficiente para impedir que o silêncio dissesse alguma coisa.

Era um lugar razoavelmente decadente.

Gostei.

A decadência, pelo menos, não costuma mentir.

Observei os rostos.

Todo mundo parecia estar tentando parecer alguma coisa.

Feliz.

Interessante.

Desejável.

Bem resolvido.

As imagens estavam por toda parte.

Nas paredes.

Nos copos.

Nas roupas.

Nas fotografias.

Nos telefones sobre as mesas.

Cada um carregava uma pequena propaganda de si mesmo.

Era curioso.

A espécie humana inventou espelhos e depois passou a acreditar neles.

Talvez seja por isso que eu goste tanto de observar pessoas quando elas não sabem que estão sendo observadas.

É quando a propaganda falha.

É quando aparece o sujeito.

Ou o que restou dele.

Ela continuou falando.

Eu continuei ouvindo.

Em algum momento percebi que aquela noite já não era sobre conhecer um pub.

Era sobre conhecer alguém além da pele.

E isso é perigoso.

A pele é uma excelente embalagem.

Esconde defeitos.

Esconde medos.

Esconde abandono.

Esconde pais ausentes.

Casamentos mortos.

Relacionamentos que transformaram carinho em controle.

Esconde quase tudo.

Até que alguém decide falar.

Então a embalagem começa a rasgar.

E você descobre que ninguém é exatamente aquilo que parece.

Nem eu.

Posso parecer um humano,
mas no fundo sou apenas notas inexoráveis,
hinos desconcertantes ao nascer do sol e muito silêncio
uma noção boba
um suspiro
uma emoção arrogante
eternidade em cativeiro, perpetuação irrepreensível
curvas, não uma única linha reta
uma contradição
uma contração tola, mas necessária
uma abstração
uma piada interna
uma risadinha sóbria
um enigma.

Talvez todos sejamos.

A diferença é que alguns aprenderam a esconder melhor.

Eu não tenho muita paciência para isso.

Nunca tive.

Talvez porque, depois de certa idade, você perceba que passar a vida inteira construindo uma imagem de si mesmo é uma maneira bastante sofisticada de morrer antes da hora.

Você começa tentando ser alguém.

Depois tenta parecer alguém.

Depois passa a defender essa aparência.

E, quando percebe, já não sabe mais onde termina o personagem e começa o sujeito.

Ela falava sobre o passado.

Eu pensava no meu.

Não havia muita diferença entre nós nesse ponto.

As histórias mudam.

A falta permanece.

Cada pessoa encontra uma maneira diferente de carregar aquilo que não recebeu.

Alguns bebem.

Alguns trabalham demais.

Alguns colecionam amantes.

Alguns colecionam dinheiro.

Alguns colecionam diplomas.

Alguns fazem discursos sobre felicidade.

Outros simplesmente ficam quietos.

Eu prefiro o silêncio.

Ele pelo menos não exige explicação.

Ficamos ali por algumas horas.

Duas pessoas tentando descobrir se havia alguma coisa além das apresentações.

Talvez houvesse.

Talvez não.

Não importa tanto.

Há encontros que não precisam terminar em romance para terem alguma importância.

Às vezes basta alguém enxergar você por alguns minutos sem pedir que você seja diferente.

Isso já é quase uma espécie de milagre.

Mas eu desconfio de milagres.

Eles costumam cobrar juros.

Quando saímos do pub, a noite continuava exatamente como antes.

A cidade não tinha aprendido nada.

As pessoas também não.

Os carros passavam.

As luzes continuavam acesas.

Alguém ria do outro lado da rua.

Alguém provavelmente chorava em algum apartamento.

Alguém estava começando um casamento.

Outro estava terminando.

Alguém dizia “eu te amo” sem saber o que aquilo significava.

Outro dizia “vai ficar tudo bem” sabendo perfeitamente que não ficaria.

E eu pensei que talvez essa fosse a grande piada.

A gente passa a vida procurando uma linha reta.

Não existe.

Existem curvas.

Desvios.

Contrações.

Recaídas.

Pequenos momentos de lucidez entre longos períodos de estupidez.

E, no meio disso tudo, chamamos a coisa de vida.

Talvez seja isso.

Uma contradição tentando respirar.

Uma emoção arrogante fingindo ter respostas.

Uma abstração andando por aí com documentos, contas, lembranças e alguma esperança mal escondida no bolso.

Uma piada interna que ninguém explicou.

Uma risadinha sóbria diante do absurdo.

Um enigma.

E talvez a parte mais amarga seja descobrir que não existe solução.

Só continuação.

A eternidade em cativeiro.

A perpetuação irrepreensível.

Você acorda.

Trabalha.

Ama mal.

É amado mal.

Perdoa quando consegue.

Machuca quando não consegue.

Bebe alguma coisa.

Escuta alguém contar uma história.

Conta a sua.

E segue.

Não porque encontrou sentido.

Mas porque, por alguma razão estúpida, ainda não acabou.

Talvez sejamos apenas isso.

Notas inexoráveis.

Alguns acordes desconcertantes ao nascer do sol.

Muito silêncio.

E uma vontade quase ridícula de continuar, mesmo sabendo que, no fim, ninguém saberá exatamente o que fomos.

Talvez nem nós.

E é aí que começa o verdadeiro problema.

Quando você finalmente fica sozinho, sem o pub, sem as imagens, sem os outros, sem a roupa social, sem a profissão, sem a história que conta sobre si mesmo, sem ninguém para confirmar que você existe...

quem sobra?

Talvez aquele seja o único encontro que realmente importa.

O resto é apenas barulho.

E talvez eu ainda esteja procurando um pub onde possa me encontrar.

*O LUGAR ONDE A POESIA NÃO SERVIA PARA NADA*

Eu era novo na cidade e ainda não tinha escolhido um lugar para beber. Toda cidade exige isso de você. Um lugar onde entrar sozinho não pareça uma declaração de fracasso. Um balcão onde ninguém pergunte seu nome. Uma mesa onde você possa ficar olhando para o copo como se houvesse alguma resposta lá dentro.

Encontrei o pub perto de um parque.

Era pequeno. Bucólico demais para o meu gosto, mas não o suficiente para me fazer ir embora. Havia árvores antigas do lado de fora, bancos de madeira e uma iluminação amarela que fazia tudo parecer mais importante do que realmente era.

Dentro, havia estantes cheias de livros, quadros de artistas locais e alguns instrumentos musicais pendurados nas paredes. Um pequeno tablado, quase no mesmo nível do chão, servia para música, debates literários e noites de poesia.

Pedi uma bebida e sentei no canto do balcão.

Era um bom lugar para observar.

E observar é uma das poucas coisas que ainda consigo fazer sem estragar tudo.

Uma mulher subiu ao pequeno tablado.

Trazia algumas folhas na mão.

Começou a declamar.

Não era uma poesia bonita.

Ainda bem.

Falava de solidão, de perdas, de um homem que foi embora, de uma mãe que nunca soube abraçar, de noites em que o telefone não toca e de manhãs em que ninguém tem coragem de admitir que gostaria de não ter acordado.

Falava de gente.

Isso já era uma coisa bastante desagradável para algumas pessoas.

No canto próximo ao balcão havia um grupo de homens e mulheres que parecia ter escolhido aquele lugar por engano. Tinham roupas boas, relógios caros e aquele tipo de conversa que costuma começar com dinheiro e terminar em dinheiro.

Um deles riu.

Outro disse que aquilo era deprimente.

Uma mulher comentou que poesia não servia para nada.

O homem do relógio concordou.

— Poesia não paga conta.

Era uma frase perfeita.

Curta.

Prática.

Estúpida.

Eles riram.

Eu bebi.

A mulher continuou.

E, enquanto ela falava, comecei a pensar que talvez aquela fosse a pergunta errada.

Para que serve a poesia?

A pergunta parecia razoável até você perceber que existe uma doença escondida nela.

A necessidade de que tudo tenha utilidade.

Se alguma coisa não produz dinheiro, produtividade ou resultado, passa a ser considerada inútil.

Uma árvore precisa dar fruto.

Um homem precisa produzir.

Uma mulher precisa vencer.

Um filho precisa ter futuro.

Uma casa precisa valorizar.

Um livro precisa ensinar.

Uma conversa precisa gerar alguma coisa.

Até o descanso precisa servir para recuperar alguém para o trabalho do dia seguinte.

Tudo precisa servir.

Talvez fosse por isso que aquela mulher incomodava tanto.

Ela estava ali fazendo uma coisa que não servia para nada.

Ou, pelo menos, não servia para aquilo que eles entendiam como vida.

Ela não estava vendendo nada.

Não estava aumentando patrimônio.

Não estava melhorando o currículo.

Não estava produzindo uma estatística.

Estava apenas dizendo alguma coisa que doía.

E talvez fosse justamente aí que estivesse a resistência.

A poesia não consertava o mundo.

Não pagava aluguel.

Não trocava o óleo do carro.

Não diminuía a fila do supermercado.

Não impedia que um idiota fosse eleito presidente de alguma coisa.

Mas resistia.

Resistia à ideia de que o ser humano pudesse ser reduzido ao que possui, ao que produz e ao que consegue provar.

Ela funcionava como metáfora daquilo que dá sentido à existência.

Não porque tivesse respostas.

Mas porque fazia perguntas que ninguém conseguia transformar em dinheiro.

Quem sou eu?

O que perdi?

Quem amei?

Quem ainda me ama?

Por que continuo aqui?

Perguntas inconvenientes.

Nenhuma delas cabe numa planilha.

O grupo continuava rindo.

O homem do relógio começou a falar do carro novo.

A mulher ao lado dele mostrou fotografias de uma viagem.

Outro falou sobre investimentos.

Tinham muito.

Era evidente.

Talvez tivessem tudo.

E foi justamente isso que me incomodou.

Pareciam ter passado tanto tempo acumulando coisas que esqueceram de acumular alguma experiência que não pudesse ser fotografada.

Talvez confundissem ter com ser.

Eu não podia julgá-los.

Também tinha passado boa parte da vida fazendo coisas que não sabia se queria fazer.

Trabalhando.

Pagando.

Cumprindo.

Esperando.

Adiando.

A diferença talvez fosse apenas o tipo de mentira que cada um contava para continuar funcionando.

A mulher terminou o poema.

Algumas pessoas aplaudiram.

Poucas.

Ela agradeceu e desceu.

Passou perto de mim.

Por um instante, olhou para o meu copo.

Depois para mim.

Não disse nada.

Talvez não precisasse.

Pedi outra bebida.

Depois outra.

A noite avançou.

O grupo foi embora.

Um deles saiu falando ao telefone sobre uma reunião às oito da manhã.

A poesia havia terminado.

O dinheiro continuava funcionando.

O mundo tinha sobrevivido a mais uma noite.

Paguei a conta e saí.

O parque estava quase vazio.

Comecei a caminhar para casa.

A cidade parecia diferente sem as pessoas falando.

Os prédios eram apenas prédios.

As lojas estavam fechadas.

As vitrines continuavam iluminadas para ninguém.

Passei por um carro importado estacionado na rua.

Pensei no homem do relógio.

Ele provavelmente chegaria em casa, colocaria as chaves sobre uma mesa cara e dormiria numa cama confortável.

Talvez fosse feliz.

Eu não sabia.

E esse era o problema.

Ninguém sabe.

Passamos a vida tentando construir uma resposta com coisas que podem ser medidas.

Salário.

Cargo.

Casa.

Carro.

Viagens.

Seguidores.

Objetos.

Conquistas.

E, no fim, quando tudo isso fica em silêncio, sobra uma pergunta que não pode ser respondida por extrato bancário.

Você viveu?

Ou apenas funcionou?

Continuei andando.

Pensei novamente na mulher do pub.

Talvez poesia fosse isso.

Não um luxo.

Não uma distração para quem não tem problemas.

Mas uma espécie de resistência contra a vida automática.

Um pequeno defeito na máquina.

A recusa em aceitar que nascer, trabalhar, pagar contas, envelhecer e morrer seja uma biografia suficiente.

Talvez um poema seja apenas alguém dizendo: eu estive aqui.

Eu senti isso.

Eu perdi aquilo.

Eu amei alguém.

Eu tive medo.

Eu não entendi.

Mas estive aqui.

E talvez fosse isso que aquelas pessoas não compreendessem.

A poesia não precisava salvar ninguém.

Bastava impedir que alguém se transformasse completamente naquilo que o mundo queria que ele fosse.

Cheguei em casa.

Abri a porta.

Acendi a luz.

Meu gato apareceu no corredor.

Olhou para mim com aquela expressão de quem estava profundamente decepcionado com a minha pontualidade e com a espécie humana em geral.

Tinha fome.

Claro que tinha.

Coloquei comida no prato.

Ele comeu.

Depois passou pela minha perna e desapareceu.

Fiquei alguns segundos parado no meio da sala.

A casa estava silenciosa.

Não havia aplausos.

Não havia relógios caros.

Não havia gente discutindo patrimônio.

Não havia ninguém perguntando quanto eu ganhava ou o que eu possuía.

Havia apenas um gato, uma garrafa pela metade e eu.

E foi ali que entendi uma coisa bastante simples.

Talvez a poesia não sirva para nada.

Talvez nunca tenha servido.

Talvez esse seja justamente o seu valor.

Porque algumas coisas precisam existir sem prestar contas.

Uma música.

Um beijo.

Uma conversa inútil às três da manhã.

Um homem bebendo sozinho.

Uma mulher lendo seus versos para meia dúzia de desconhecidos.

Um gato esperando alguém voltar para casa.

Nada disso aumenta o patrimônio.

Nada disso melhora a produtividade.

Nada disso aparece no currículo.

Mas, quando tudo o que pode ser comprado, medido e contabilizado finalmente perde importância, são essas coisas que permanecem.

Fiquei olhando para o gato.

Ele me olhou de volta.

Nenhum dos dois tinha uma resposta.

Pela primeira vez naquela noite, isso não pareceu um problema.

Talvez viver seja justamente continuar fazendo coisas que não servem para nada e que, por alguma razão, fazem a existência valer alguma coisa.

Talvez seja por isso que ainda escrevemos.

Por isso que ainda ouvimos música.

Por isso que ainda amamos mesmo depois de descobrir que amar não oferece nenhuma garantia.

A poesia não existe para tornar a vida mais útil.

Existe para impedir que a vida se torne apenas útil.

E naquela noite, sozinho em casa, com um gato faminto andando pela sala e a cidade inteira funcionando do lado de fora, percebi que talvez essa fosse a única forma de resistência que ainda me interessava.

Continuar vivo.

Mas não apenas funcionando.