*VOCÊ NÃO É A CASA* Naquela noite o... Paulo H Salah Ad din...

*VOCÊ NÃO É A CASA*


Naquela noite o bar estava quase vazio. Duas mesas ocupadas, um sujeito dormindo sobre o próprio copo e eu, no balcão, fingindo que ainda havia alguma coisa para esperar. O dono tinha colocado uma moeda no jukebox e a música saía baixa, um pouco torta, como se até ela soubesse que não valia a pena se esforçar demais.


Eu estava olhando para a garrafa quando vi a fotografia.


Uma mulher de vestido branco, descalça, subindo uma escadaria destruída.


Fiquei algum tempo olhando aquilo.


Não sei por quê.


Talvez porque havia alguma coisa familiar naquela escada.


Os tijolos estavam expostos. O reboco tinha caído em pedaços. Havia entulho nos degraus. A casa parecia ter sido abandonada depois de uma briga longa demais. Daquelas em que ninguém lembra mais quem começou e todos saem perdendo.


Ela subia.


De costas.


Não dava para saber quem era. Nem precisava.


O que importava era que ainda estava subindo.


Pedi outra dose.


O homem do meu lado olhou para a fotografia e disse:


— Lugar perigoso.


Eu disse que sim.


Mas não era a escada que me preocupava.


Era reconhecer a casa.


A gente passa uma parte da vida construindo paredes. Trabalho. Família. Amigos. Algumas mulheres. Hábitos. Pequenas certezas. Vai colocando coisa dentro e chamando aquilo de vida.


Depois começam as rachaduras.


Primeiro ninguém percebe.


Uma porta que já não fecha direito. Um joelho que reclama. Um nome que você esquece. Uma pessoa que antes ligava e agora não liga mais. Um amigo que morreu e deixou uma cadeira vazia que ninguém tem coragem de ocupar.


Depois vem o resto.


A casa começa a perder pedaços.


Aos sessenta e poucos anos, eu já não tenho a mesma disposição para fingir que não vejo.


O corpo diminui um pouco.


A paciência também.


A gente começa a carregar menos coisas porque percebe que carregar tudo nunca foi sinal de força. Às vezes era só medo de deixar alguma coisa para trás.


Olhei novamente para a mulher.


O vestido branco destoava daquela destruição toda.


Aquilo me incomodou.


Talvez porque eu tivesse passado tempo demais acreditando que era preciso estar inteiro para continuar.


Não é.


Você pode estar cansado e continuar.


Pode ter perdido gente e continuar.


Pode olhar para trás e descobrir que boa parte daquilo que chamava de futuro já virou entulho.


E continuar.


A escada estava quebrada, mas ainda era uma escada.


Isso bastava.


A mulher levantava um pouco o vestido para não tropeçar. Não havia heroísmo naquilo. Nenhuma grande lição. Ela simplesmente precisava subir.


Foi quando entendi uma coisa que demorei décadas para entender.


Eu não sou a casa.


Passei muito tempo confundindo as duas coisas.


Achei que cada perda arrancava um pedaço de mim. Que cada fracasso derrubava uma parede. Que cada despedida me deixava mais perto do fim.


Talvez não.


Talvez algumas coisas apenas precisem cair.


Há construções que só continuam de pé porque ninguém teve coragem de abandoná-las.


A música terminou.


O dono do bar não colocou outra.


Ficamos alguns segundos ouvindo o silêncio das garrafas, dos copos, da rua quase vazia.


Paguei a conta e saí.


Na calçada, o ar estava frio.


Não me senti renovado. Não houve epifania. Minha vida continuava com os mesmos problemas e algumas contas novas.


Mas, naquela noite, eu tinha uma pequena diferença.


Eu sabia que a ruína não era necessariamente o fim.


Às vezes era só o lugar onde a gente finalmente percebe que não precisa morar para sempre.


E então sobe.


Mesmo descalço.


Mesmo tarde.


Mesmo sem saber exatamente o que existe no andar de cima.


Sobe porque ficar parado dentro dos próprios escombros também é uma escolha.


E eu já tinha passado tempo demais escolhendo errado.