A HUMANIDADE MORRE EM SILÊNCIO O bar... Paulo H Salah Ad din...
A HUMANIDADE MORRE EM SILÊNCIO
O bar estava quase vazio naquela quarta-feira.
Aquele tipo de noite em que até os bêbados pareciam cansados de suas próprias histórias.
Havia duas mesas ocupadas. Um homem sozinho perto da janela, mexendo no celular como se esperasse uma mensagem que nunca chegaria. No balcão, três sujeitos discutiam futebol, política e o mundo inteiro com a mesma certeza de quem nunca precisou consertar nada do que destruiu.
A televisão estava ligada sem som alto.
Era mais um noticiário.
Mais uma guerra.
Mais uma cidade destruída.
Mais uma fotografia de pessoas correndo com aquilo que conseguiram salvar da própria vida.
Ninguém levantou a cabeça.
Até que alguém comentou:
— O problema é que esse povo também procura confusão.
Foi dito com a tranquilidade de quem pede outra cerveja.
Outro respondeu:
— Cada um tem o governo que merece.
E todos continuaram bebendo.
Essa é uma das coisas mais estranhas que aprendi depois de certa idade.
O ser humano consegue assistir ao sofrimento de alguém enquanto termina o jantar.
Consegue condenar uma vítima que nunca conheceu.
Consegue transformar uma tragédia em opinião antes mesmo de tentar entender o que aconteceu.
A cidade não fede por causa do esgoto.
Isso seria simples demais.
A cidade fede quando a consciência começa a apodrecer sem fazer barulho.
Depois dos sessenta, você percebe algumas coisas.
Não porque ficou mais sábio.
Mas porque perdeu algumas ilusões.
O espelho começa a cobrar dívidas antigas.
Amigos viram fotografias.
Conversas que pareciam eternas acabam guardadas em algum lugar da memória.
Os cães que acompanhavam seus dias ficam apenas em lembranças.
Os lugares onde você gastou noites inteiras desaparecem, substituídos por farmácias, bancos e lojas iguais a todas as outras.
A vida continua.
Essa talvez seja a maior crueldade dela.
Ela não diminui o passo porque alguém foi embora.
O mundo amanhece no horário marcado.
O café continua quente.
Os boletos continuam chegando.
E nenhuma ausência parece grande o suficiente para interromper a rotina.
Mas naquela noite, olhando aquelas pessoas no bar, pensei que o problema nunca foram apenas os monstros.
Eles são poucos.
O problema sempre foi a multidão de pessoas comuns que olha para tudo e diz:
“Não é comigo.”
Essa frase já construiu mais tragédias do que muitos exércitos.
Porque a violência raramente começa com alguém puxando um gatilho.
Às vezes começa com alguém escolhendo não olhar.
A indiferença é confortável.
Ela senta na poltrona.
Liga a televisão.
Passa o dedo pela tela.
Olha uma criança ferida durante três segundos e depois procura um vídeo engraçado para esquecer.
Não porque seja cruel.
Pior.
Porque aprendeu a não sentir.
A alma não desaparece de uma vez.
Ela vai enferrujando.
Primeiro você deixa de sentir a dor do desconhecido.
Depois do velho abandonado.
Depois da mulher agredida.
Depois da criança que nasceu no lugar errado do mundo.
Até que um dia você percebe que também não sente mais a própria dor.
E chama isso de maturidade.
Como se ficar vazio fosse uma forma de crescer.
Passei muitos anos em bares.
Vi muita gente quebrada.
E aprendi uma coisa estranha.
Alguns bêbados eram mais honestos do que muitos homens respeitáveis.
Pelo menos eles sabiam que estavam perdidos.
Os outros escondiam a própria podridão atrás de roupas caras, frases bonitas e discursos sobre valores.
A verdadeira humanidade nunca apareceu quando alguém falou sobre bondade.
Apareceu quando a dor de um desconhecido tirou seu sono.
Quando uma notícia estragou seu café.
Quando você percebeu que aquela fotografia distante não era sobre “eles”.
Era sobre nós.
Porque essa é a parte que ninguém gosta de aceitar.
Nunca existiram eles.
Sempre fomos nós.
E quando essa verdade aparece, as desculpas acabam.
Não é mais a culpa do governo.
Não é mais a culpa de uma ideologia.
Não é mais a culpa do destino.
Sobra você.
Apenas você.
E uma escolha simples que quase todo mundo tenta evitar:
importar-se.
Não para parecer uma pessoa melhor.
Não para ganhar recompensa.
Não para contar aos outros que possui um coração.
Importar-se porque, no dia em que a dor do outro deixar de atravessar você, talvez continue andando pelas ruas, pagando contas e conversando normalmente...
Mas alguma coisa essencial já terá morrido.
E ninguém perceberá.
Porque a humanidade, diferente do corpo, não morre de uma vez.
Ela morre em silêncio.
