*A REVOLUÇÃO DOS CANSADOS* - Naquela... Paulo H Salah Ad din
*A REVOLUÇÃO DOS CANSADOS* - Naquela manhã, ele caminhava para o escritório sob um céu baixo e cinzento, desses que parecem ter desistido antes mesmo de o dia começar. A cidade estava suja. Havia lixo acumulado junto às calçadas, restos de papel molhado, garrafas vazias e a fumaça dos fogos ainda suspensa no ar. De algum lugar vinha o grito dos prós. Do outro lado da rua, os contras respondiam. Todos tinham uma opinião. Todos pareciam ter uma certeza. Ele apenas continuava andando.
Durante anos, tinha acreditado que precisava convencer alguém de alguma coisa. O patrão de que trabalhava demais. A família de que fazia o possível. Os amigos de que estava bem. O mundo de que ainda era útil. Era um trabalho cansativo. Talvez mais cansativo do que o próprio trabalho.
Com o tempo, começou a perder alguns talentos. Primeiro, o talento de discutir. Depois, o de explicar. Por fim, perdeu o hábito de parecer indignado. Descobriu que a indignação permanente era apenas outra forma de cansaço, e que quase todo mundo estava cansado demais para admitir isso.
Passou diante de um bar ainda com as portas meio abertas. Lá dentro, algumas mesas sujas, cadeiras tortas e homens olhando para copos como se esperassem deles alguma resposta. Havia fumaça no ar e silêncio entre uma frase e outra. O lugar tinha a aparência honesta das coisas que já não prometem nada.
Ele parou por alguns segundos diante da porta. Pensou em entrar. Não entrou. Ainda precisava bater ponto.
Na rua, alguém gritava sobre liberdade. Outro gritava contra. Um terceiro filmava tudo com o telefone. Mais adiante, um cartaz anunciava um futuro melhor. Estava colado sobre uma parede coberta de mofo. Ele achou aquilo particularmente engraçado.
A cidade continuava fabricando heróis. Heróis de ocasião. Mártires de fim de semana. Revolucionários que falavam alto até a hora em que precisavam voltar para casa porque havia reunião na segunda-feira.
Ele já tinha visto aquilo antes.
As guerras eram travadas por homens que quase nunca apertavam o gatilho. As virtudes eram defendidas por gente que não abriria mão do próprio conforto nem por quinze minutos. E os grandes discursos serviam, muitas vezes, para esconder uma coisa muito simples: ninguém fazia a menor ideia do que estava fazendo aqui.
Talvez fosse isso que mais o incomodasse.
Não a mentira. A necessidade de fingir que ela não existia.
Continuou caminhando. Um caminhão passou e levantou água suja da sarjeta. Molhou sua calça. Ele não reclamou. Havia coisas piores.
Pensou nas bandeiras que já tinha carregado. Algumas tinham mudado de dono. Outras tinham mudado de cor. Algumas continuavam sendo erguidas pelas mesmas pessoas que, anos antes, juravam combatê-las. A política tinha esse talento extraordinário de transformar convicções em mercadoria.
Ele estava cansado.
Não apenas do trabalho. Não apenas das pessoas. Estava cansado da obrigação de se importar com tudo.
Talvez fosse uma espécie de revolução.
Parar de explicar.
Parar de justificar.
Parar de correr atrás da cenoura enquanto alguém segura o chicote.
Ele queria uma mesa de bar. Uma cerveja gelada. Uma mulher inteligente rindo do seu cinismo. Uma motocicleta velha esperando na calçada. Quilômetros sem destino. Nada grandioso. Nada que precisasse ser fotografado, publicado ou transformado em opinião.
O escritório aparecia no fim da avenida.
As janelas refletiam o céu cinzento. Gente entrava apressada. Gente saía fumando. Gente carregava pastas, problemas, boletos e pequenas ambições cuidadosamente embaladas.
Ele olhou para o prédio.
Por um instante, teve vontade de simplesmente virar as costas.
Não virou.
Ainda não.
Mas alguma coisa dentro dele já tinha ido embora fazia tempo.
Talvez liberdade não fosse fugir.
Talvez fosse apenas chegar ao ponto em que já não se precisa provar nada.
Ela não chegava montada num cavalo branco. Não havia música. Não havia aplausos. Não havia discurso.
Às vezes aparecia numa manhã miserável, diante de um escritório qualquer, com olheiras, o bolso quase vazio e uma paz estranha no peito.
Para quem olhava de fora, aquilo parecia derrota.
Ele sabia que podia ser.
Mas também desconfiava de outra coisa.
Talvez a derrota fosse passar a vida inteira tentando parecer vencedor.
E talvez, depois de tantos anos, a verdadeira revolução começasse exatamente ali.
Quando um homem cansado olhava para o mundo, dava de ombros e dizia, sem raiva e sem heroísmo:
— Hoje, não.
Depois entrava no escritório.
Porque até a liberdade, às vezes, precisa bater o ponto.
E ninguém precisava saber que, por dentro, ele já tinha ido embora.
