*O QUARTZO E O BASALTO* *SiO₂* O... Paulo H Salah Ad din...

*O QUARTZO E O BASALTO*


*SiO₂*


O primeiro número apareceu na tela antes que alguém terminasse o café.


Era uma reunião de escritório.


Daquelas que começam com uma apresentação cheia de gráficos e terminam com alguém dizendo que precisamos melhorar os indicadores.


No meio, vieram os números.


Depois as queixas.


Depois mais números.


Perguntas.


Repreguntas.


Questões que não tinham sido pontuadas direito e deixaram dúvidas em alguns.


Era só ter explicado antes.


Mas isso seria esperar demais de uma reunião.


Alguns perguntaram.


Outros ficaram quietos.


Era mais seguro.


A sala era bonita. Cara. Vidros por todos os lados. Mesa grande. Ar-condicionado. Uma tela enorme na parede.


O nome da empresa também era bonito.


Dava a impressão de que ali se fabricavam soluções.


Nomes assim são úteis.


Fazem parecer que existe alguma coisa acontecendo.


Eu olhava para a tela e pensava que talvez existisse.


Mas não.


Existiam números.


E pessoas tentando fazer os números parecerem importantes.


Foi aí que uma coisa começou a me incomodar.


Não eram as cobranças.


Cobrança faz parte do trabalho.


Todo mundo cobra alguém.


E quase sempre existe alguém cobrando quem está cobrando.


É uma cadeia alimentar.


Só que, naquela sala, havia uma combinação que me incomodava.


Número e ser vivo.


Caso 1847.


Protocolo 3921.


Atendimento concluído.


Meta atingida.


Parece simples.


Só que o número não acorda de madrugada.


O número não perde o emprego.


O número não tem uma mãe doente.


Não fica olhando para o teto tentando descobrir como vai pagar uma conta.


Não sente vergonha.


Não sente medo.


Não se arrepende.


O número não sabe que existe.


O sujeito atrás dele sabe.


E essa diferença parecia não caber naquela sala.


Precisamos dos números.


Eu sei.


Seria idiota dizer o contrário.


É preciso registrar.


Classificar.


Medir.


Organizar.


Sem isso, ninguém sabe quantos entraram, quantos saíram, quantos foram atendidos.


O problema começa quando o número deixa de ser ferramenta.


Quando passa a ser o objetivo.


Quando a pessoa deixa de ser alguém que precisa de uma solução e vira apenas mais um caso atendido.


Atendido.


Essa palavra me incomodou.


Atendido não significa resolvido.


Uma ligação é atendida.


Um telefone é atendido.


Uma torneira pode ser atendida.


Uma pessoa também.


Mas uma pessoa não é uma torneira.


Embora, naquela sala, às vezes parecesse.


As pessoas que queriam os números estavam longe.


Não em quilômetros.


Em outra coisa.


Talvez nunca tivessem visto um daqueles rostos.


Talvez tivessem visto.


Depois de algum tempo, isso não faz muita diferença.


Um rosto vira estatística quando você precisa justificar uma meta.


E o mais engraçado era que essas pessoas também estavam sendo pressionadas.


Por quem?


Por gente que queria solução.


Aí estava a piada.


Queriam solução.


Cobravam números.


Queriam mais casos assistidos.


Mais atendimentos.


Mais produtividade.


Mais eficiência.


Mais indicadores.


E, no final, mais números.


Poucas soluções.


A máquina estava funcionando perfeitamente.


Só não estava resolvendo nada.


Foi quando pensei no quartzo.


Não porque eu entendesse de geologia.


Não entendia.


Mas algumas coisas aparecem na cabeça quando você está cansado de ouvir a mesma conversa.


O quartzo é comum.


Está por toda parte.


A matéria-prima não tem nada de especial.


Talvez nós também sejamos assim.


Gostamos de acreditar que somos únicos.


É uma necessidade humana.


Ajuda a suportar a própria existência.


Dizemos que somos diferentes.


Que temos nossa história.


Nosso jeito.


Nossos problemas.


Mas a matéria-prima é quase sempre a mesma.


Medo.


Desejo.


Raiva.


Solidão.


Vergonha.


Esperança.


Vontade de ser reconhecido.


Todo mundo carrega alguma coisa disso.


O que muda é a formação.


E então pensei no basalto.


Na minha cabeça, ele era o mundo.


A pressão.


O lugar.


A família.


O trabalho.


As perdas.


Os fracassos.


As humilhações pequenas.


As pessoas que ficaram.


As que foram embora.


As que deveriam ter ficado.


Tudo aquilo que chega de fora e, depois de algum tempo, deixa de parecer de fora.


O basalto não fica simplesmente ao redor.


Ele entra.


Deixa marcas.


Algumas ficam tanto tempo que começamos a chamá-las de personalidade.


Foi aí que percebi que talvez a reunião tivesse alguma coisa a ver com isso.


O sistema também entra na gente.


Começa pedindo um número.


Depois pede uma meta.


Depois um resultado.


Depois uma justificativa.


Quando você percebe, está falando como a planilha.


Usando as mesmas palavras.


Pensando nos mesmos números.


Medindo pessoas pelo que pode ser contado.


Talvez fosse isso que me incomodava.


O mundo nos forma.


O sistema nos classifica.


E nós confundimos as duas coisas.


Uma coisa deixa marcas.


A outra coloca etiquetas.


Uma participa daquilo que nos tornamos.


A outra quer saber onde nos colocar.


É mais fácil assim.


Cargo.


Função.


Resultado.


Histórico.


Currículo.


Nome.


Número.


Tudo cabe numa planilha.


Menos a parte que interessa.


A planilha não quer saber quem você era antes.


Não pergunta o que fizeram com você.


Não pergunta o que você fez consigo mesmo.


Quer uma célula preenchida.


E nós preenchemos.


Porque é mais fácil.


Talvez seja essa a parte mais miserável.


Nós mesmos ajudamos a desaparecer.


Depois reclamamos que ninguém nos enxerga.


É uma piada ruim.


Mas também não dá para jogar o basalto fora.


Essa é a parte desagradável.


Se eu arrancar tudo o que me formou, o que sobra?


Não sei.


Talvez uma pedra.


Talvez nada.


Durante muito tempo pensei que identidade fosse encontrar alguma coisa escondida dentro de nós.


O verdadeiro eu.


Uma espécie de núcleo intacto.


Hoje acho isso bonito demais para ser verdade.


O que existe em mim antes do mundo?


Não sei.


O que o mundo colocou em mim?


Isso eu sei.


Algumas coisas eu aceitei.


Outras eu recusei.


Algumas tentei arrancar.


Não consegui.


Outras entraram tão fundo que passaram a parecer minhas.


É difícil separar.


Talvez não seja para separar.


O basalto me feriu.


Também me deu contorno.


Não agradeço pelo que doeu.


Não sou tão idiota.


Mas reconheço as marcas.


Existe uma diferença.


Talvez identidade seja isso.


Não uma coisa pura.


Não uma essência esperando ser descoberta.


Uma disputa.


O que sou.


O que fizeram de mim.


O que aceitei.


O que recusei.


E o que ainda consigo fazer com tudo isso.


Foi quando pensei novamente no homem dentro do protocolo.


Talvez fosse esse o problema.


O protocolo não era o homem.


O número não era o homem.


Mas, depois de algum tempo, todos começaram a agir como se fosse.


E fazemos isso fora do escritório também.


Transformamos alguém em um erro.


Em uma dívida.


Em um cargo.


Em um passado.


Em uma aparência.


Em uma opinião.


Depois esquecemos o resto.


É mais confortável.


Um ser humano inteiro dá trabalho.


Um número não.


Saí da reunião com a sensação de que havíamos contado tudo.


Menos o que importava.


Os números estavam corretos.


As planilhas fechavam.


Os indicadores provavelmente seriam apresentados como bons.


No dia seguinte, tudo estaria ali novamente.


As metas.


Os protocolos.


As cobranças.


Os gráficos.


As pessoas.


Ou o que sobrasse delas depois dos gráficos.


Fiquei pensando no quartzo.


No basalto.


No número.


Talvez os três tivessem mais em comum do que eu gostaria.


O quartzo não escolheu onde nasceu.


Nós também não.


O basalto participou da formação.


O mundo também.


O número veio depois.


Esse, pelo menos, deveria ser apenas uma ferramenta.


Mas talvez a pior coisa não seja virar número.


Talvez seja começar a acreditar que somos um.


E aí fica difícil saber onde termina o que somos e começa aquilo que colocaram em nós.


Talvez seja isso que chamamos de identidade.


Não saber exatamente quem somos.


Mas ainda conseguir perceber quando estão tentando nos transformar em outra coisa.


Somos quartzo.


Somos basalto.


Somos a pressão.


Somos as marcas.


E, às vezes, somos também o idiota que olha para tudo isso e tenta entender.


Saí da sala.


Ninguém perguntou pelo homem dentro do protocolo.


Também não esperava que perguntassem.


Afinal, a reunião tinha terminado.


E o indicador precisava fechar.