*NINGUÉM ESTAVA OLHANDO* Naquela tarde... Paulo H Salah Ad din...

*NINGUÉM ESTAVA OLHANDO*
Naquela tarde eu estava na varanda tentando lembrar por que tinha ido até ali.


Isso acontece mais do que eu gostaria.


Às vezes saio da cozinha com alguma coisa na cabeça e, quando chego à varanda, a coisa desaparece. Fico parado com o copo na mão, olhando o jardim, como se a resposta pudesse ter ficado para trás no corredor.


O jardim vai até o passeio público. Não há muro. Nunca coloquei.


A árvore cresceu torta para um lado e ocupa quase toda a sombra da varanda. O gato gosta de ficar ali embaixo. Naquele dia estava deitado sobre a terra, com as patas recolhidas e os olhos fechados.


Eu tinha um cigarro aceso.


Não lembrava por que tinha ido fumar.


Isso me pareceu mais importante do que deveria.


Sentei.


Na mesa havia uma caixa de fósforos vazia. Peguei, virei entre os dedos e tentei lembrar quando tinha sido usada pela última vez.


Não consegui.


Deixei de volta.


O gato abriu um olho.


— Também não sabe?


Ele fechou o olho novamente.


Talvez estivesse dormindo.


Talvez apenas não tivesse interesse na conversa.


Eu respeitei.


Passei muito tempo acreditando que precisava entender algumas coisas antes que fosse tarde. Não sei exatamente quando comecei com isso. Talvez depois dos quarenta. Talvez antes. A memória tem esse defeito conveniente de reorganizar os fatos para que pareçam ter acontecido quando a gente estava pronto para entendê-los.


Eu não estava.


Ainda não estou.


Lembrei de uma frase que escrevi muitos anos atrás. Não sei onde está o papel. Talvez tenha jogado fora. Talvez esteja dentro de algum livro. Eu costumava guardar essas coisas.


Escrevi que era um rascunho de um plano que o tempo havia esquecido de executar.


Na época, achei que tinha descoberto alguma coisa sobre mim.


Hoje penso que talvez estivesse apenas cansado.


Mas a frase ficou.


Algumas frases fazem isso.


A gente escreve para se livrar delas e acaba passando anos carregando-as.


Levantei para buscar mais uísque.


Na cozinha, fiquei alguns segundos diante do armário sem saber o que estava fazendo ali.


Voltei para a varanda com a garrafa.


O gato tinha mudado de posição.


Só isso.


Eu tinha envelhecido alguns anos desde aquela frase e o gato continuava mudando de posição.


Talvez fosse esse o problema.


Eu sempre quis que o tempo produzisse alguma conclusão.


Ele não produziu.


Produziu contas, fotografias, algumas cicatrizes, nomes que já não significam muita coisa e uma coleção de decisões que, vistas de longe, parecem ter sido tomadas por homens diferentes.


Talvez tenham sido.


Ou talvez eu só goste de pensar assim porque é mais fácil atribuir meus erros a versões anteriores de mim mesmo.


Um homem de vinte anos.


Um homem de trinta.


Outro aos quarenta.


Todos com o mesmo nome.


Nenhum deles me pediu autorização.


Uma mulher passou pelo passeio empurrando uma bicicleta. Olhou para o jardim.


Eu tive a impressão de que olhou para mim.


Ela continuou.


Durante alguns segundos fiquei esperando que voltasse o rosto.


Não voltou.


Foi quando percebi uma coisa que deveria ter percebido muito antes: quase ninguém está olhando.


Passei anos me comportando como se houvesse uma plateia.


Como se cada escolha minha estivesse sendo registrada.


Como se fosse necessário chegar a algum lugar com uma história coerente para apresentar no fim.


Mas não havia plateia.


Havia apenas o passeio, a árvore, a rua e uma mulher que provavelmente já tinha esquecido a varanda antes de chegar à esquina.


O gato levantou.


Caminhou até a borda do jardim.


Parou.


Olhou para o outro lado da rua.


Eu fiquei esperando que ele fizesse alguma coisa.


Ele não fez.


Depois entrou em casa.


Fiquei sozinho.


Pensei novamente naquela frase antiga.


Rascunho.


Plano.


Tempo.


Eu tinha passado tantos anos tentando descobrir qual era a versão definitiva de mim que talvez não tivesse percebido o óbvio: eu continuava escrevendo rascunhos porque não queria assinar a versão final.


Não sei se isso é covardia.


Talvez seja.


Também pode ser apenas hábito.


Acendi outro cigarro.


Fiquei olhando a fumaça desaparecer antes de chegar à árvore.


Pensei nas coisas que deixei pela metade.


Algumas por falta de coragem.


Outras porque perderam o sentido.


Outras simplesmente porque eu era jovem demais para perceber que certas portas fecham sem fazer barulho.


Ainda havia uma parte de mim que insistia em voltar a essas portas.


Não para entrar.


Só para verificar se continuavam fechadas.


Achei isso ridículo.


Depois pensei que talvez fosse apenas humano.


O céu começou a escurecer.


A luz da varanda acendeu sozinha.


A caixa de fósforos continuava sobre a mesa.


Peguei-a novamente.


Dessa vez não tentei lembrar de onde vinha.


Coloquei no bolso.


O cigarro terminou.


Fiquei segurando o filtro entre os dedos por alguns segundos, como se esperasse alguma instrução.


Não veio.


Joguei no cinzeiro.


Eu poderia ter ido para dentro.


Não fui.


Talvez ainda esperasse alguma coisa.


Não sei o quê.


Uma resposta.


Uma lembrança.


Uma vontade antiga.


Uma prova de que todo aquele tempo tinha servido para alguma coisa.


Nada aconteceu.


E talvez tenha sido justamente isso que me fez ficar ali.


Sem resolver.


Sem concluir.


Sem transformar a tarde em uma explicação.


A rua continuou.


A árvore continuou.


Dentro da casa, ouvi o gato derrubar alguma coisa.


Fui ver.


Era apenas um copo vazio no chão.


Peguei o copo.


O gato já estava no corredor, indo embora.


Fiquei olhando.


Depois apaguei a luz da varanda.


A casa ficou escura por alguns segundos antes que meus olhos se acostumassem.


E eu percebi que ainda havia coisas em mim que não tinham terminado.


Mas, pela primeira vez, não tive pressa de terminá-las.