*O Uniforme da Virtude* O jornal... Paulo H Salah Ad din...
*O Uniforme da Virtude*
O jornal apareceu no meu jardim numa manhã em que eu não estava esperando por notícias.
Não era assinante. Nunca fui muito chegado a jornais, principalmente depois que descobri que as tragédias do mundo chegavam mais rápido pela internet e as mentiras continuavam chegando no mesmo ritmo.
Peguei o jornal pela ponta, como quem recolhe alguma coisa suspeita.
Levei para a varanda.
Sentei na cadeira velha e coloquei os pés sobre o parapeito. O gato estava deitado no degrau. Olhou para mim. Miou.
Parecia perguntar:
— Você vai realmente ler isso?
Não respondi.
Ele se espreguiçou, virou de costas e foi cuidar de assuntos mais importantes. Provavelmente dormir.
Abri o jornal.
Na primeira página havia um cidadão sorrindo.
Era um dos homens que ocupavam um dos cargos eletivos daquela nova cidade. O sorriso tinha aquela medida exata que os fotógrafos gostam. Nem alegria demais, nem preocupação demais. Apenas o suficiente para parecer humano.
Ao lado da fotografia, um título falava sobre dignidade humana.
Li.
O homem defendia respeito, inclusão, empatia, tolerância e todas aquelas palavras que hoje aparecem juntas com a mesma facilidade com que antigamente se escrevia “atenciosamente” no fim de uma carta.
Continuei lendo.
Não havia nada errado com o que ele dizia.
Esse era justamente o problema.
O sujeito tinha aprendido a dizer tudo certo.
Fiquei alguns minutos olhando para o papel.
Pensei que talvez eu estivesse ficando velho demais para certas coisas. Talvez o problema fosse comigo. Talvez fosse apenas implicância de um homem que já viu muita gente falar bonito antes de fazer alguma coisa feia.
Mas então lembrei que tratar alguém com respeito nunca foi o problema.
O problema começa quando a virtude vira uniforme e a consciência passa a usar crachá.
Parei de ler.
O gato voltou.
Sentou ao meu lado.
Olhou para o jornal.
Depois olhou para mim.
— É — eu disse. — Também achei estranho.
Voltei ao texto.
O homem falava sobre uma sociedade mais humana. Era uma boa ideia. Quase bonita.
Só que eu conhecia aquele tipo de discurso.
A cidade continuava cheia de gente que passava por moradores de rua sem enxergá-los. Velhos continuavam conversando sozinhos dentro de apartamentos silenciosos. Crianças aprendiam cedo que certas coisas eram vendidas antes mesmo de serem compreendidas.
E nós continuávamos medindo pessoas.
Pelo salário.
Pela aparência.
Pelos seguidores.
Pela utilidade.
Pela capacidade de nos servir.
Depois chamávamos aquilo de sociedade civilizada.
Talvez fosse por isso que a expressão “politicamente correto” tivesse adquirido tanta importância.
Não porque respeito fosse ruim.
Respeito é necessário.
O problema é quando a palavra passa a substituir o comportamento.
Trocaram a ética pela etiqueta.
É mais fácil.
Etiqueta exige apenas que você saiba onde colocar o garfo.
Ética exige que você saiba onde colocar a própria crueldade.
E isso dá trabalho.
Continuei lendo.
O político falava sobre empatia.
Eu pensei em quantas pessoas conhecia que publicavam frases sobre empatia e não conseguiam ouvir cinco minutos de alguém que discordasse delas.
Era uma coisa curiosa.
A crueldade havia aprendido gramática.
A hipocrisia descobrira o vocabulário da inclusão.
A mentira tinha feito faculdade.
E eu não estava completamente fora disso.
Foi aí que a leitura começou a ficar desagradável.
Porque é fácil apontar o dedo para o sujeito da fotografia.
Mais difícil é olhar para a própria mão.
Eu também já fui injusto.
Já tratei pessoas como inconvenientes porque estavam atrapalhando meu dia.
Já concordei com alguém em público e pensei o contrário em silêncio.
Já me calei diante de uma covardia porque falar custaria alguma coisa.
Já fui educado quando deveria ter sido honesto.
E talvez essa seja uma das formas mais discretas da hipocrisia.
Não mentir para os outros.
Mentir para si mesmo com boas maneiras.
Fechei o jornal.
Fiquei olhando para o jardim.
O gato tinha encontrado uma sombra e dormia dentro dela.
Ele não precisava escrever sobre dignidade.
Não precisava defender ninguém.
Não precisava publicar uma frase bonita.
Se alguém o incomodasse, ele simplesmente iria embora.
Talvez houvesse alguma sabedoria nisso.
A verdadeira decência nunca precisou de cartilha.
Ela aparece quando ninguém está olhando.
Quando você poderia humilhar alguém e decide não fazê-lo.
Quando poderia esmagar e prefere não usar a força.
Quando discorda sem precisar transformar o outro em inimigo.
Quando ninguém está fotografando.
Quando não existe plateia.
Quando não existe recompensa.
Talvez seja aí que começa o caráter.
Todo o resto pode ser teatro.
E o teatro sempre foi um esconderijo confortável para quem tem medo de ser visto sem maquiagem.
Voltei a abrir o jornal.
A fotografia continuava ali.
O sorriso também.
Pensei que talvez o homem da fotografia acreditasse sinceramente no que havia escrito.
Isso também me incomodou.
Porque seria mais fácil se ele fosse apenas um canalha.
Mas ninguém é apenas uma coisa.
Nem eu.
Nem ele.
Nem o sujeito que fala sobre moral enquanto pisa no outro.
Talvez o maior escândalo do nosso tempo não seja a existência de pessoas ruins.
Elas sempre existiram.
O problema é outro.
Aprendemos a vestir a roupa da virtude.
Aprendemos quais palavras provocam aplausos.
Aprendemos quais indignações rendem aprovação.
Aprendemos a parecer bons.
E, em algum momento, esquecemos de perguntar se ainda somos.
Olhei novamente para o gato.
Ele abriu um olho.
— Você tem alguma opinião sobre isso?
Ele fechou o olho.
Justo.
Talvez a humanidade pudesse aprender alguma coisa com os animais.
Eles não costumam fingir que são melhores do que são.
Nós fazemos o contrário.
Construímos discursos para esconder nossos dentes.
Chamamos isso de civilização.
Chamamos de progresso.
Chamamos de consciência.
Às vezes, talvez seja apenas medo de admitir que continuamos sendo animais assustados, egoístas e famintos por aprovação.
A diferença é que agora sabemos escrever sobre isso.
E escrever bem sobre humanidade não torna ninguém humano.
Fechei o jornal de vez.
Coloquei-o sobre a mesa.
O gato continuava dormindo.
Fiquei ali, olhando para ele e pensando que talvez eu tivesse passado a manhã inteira procurando hipocrisia nos outros para não precisar encontrá-la em mim.
Essa foi a parte que mais me incomodou.
Porque a consciência também sabe usar uniforme.
E, quando quer, sabe até sorrir para a fotografia.
