*O CÉU E O INFERNO FUNCIONAM EM... Paulo H Salah Ad din...
*O CÉU E O INFERNO FUNCIONAM EM HORÁRIO COMERCIAL*
A sexta-feira chegou ao bar como sempre chegava.
Cheia.
Gente demais tentando parecer feliz por algumas horas. Homens soltando risadas mais altas do que sentiam. Mulheres olhando para o celular enquanto fingiam prestar atenção na conversa. Garrafas sendo abertas como se dentro delas existisse alguma resposta que a semana inteira não conseguiu entregar.
O bar estava lotado.
A música vinha baixa demais para criar clima e alta demais para permitir uma conversa honesta. No fundo, um cantor sozinho brigava com um violão velho e com uma canção que parecia ter envelhecido junto com as pessoas que ainda lembravam dela.
A fumaça dos cigarros subia devagar entre as lâmpadas amareladas. Copos vazios ocupavam as mesas como pequenos relatórios de derrotas particulares.
Eu estava no centro do balcão já que o canto estava ocupado.
O lugar onde ninguém pergunta muito e onde o barman já aprendeu que meu silêncio não precisa de explicação.
Eu gosto desse lugar.
Não porque seja confortável.
Mas porque ninguém espera nada de você quando está sentado diante de um balcão.
Foi quando chegaram os quatro.
Dois casais.
Sentaram perto demais de mim, a mesa atrás de meu banco, porque o bar estava cheio. Não era amizade. Não era interesse. Era apenas falta de espaço.
Mas existe uma coisa curiosa sobre bares.
As pessoas entram pensando que vão beber apenas álcool.
Depois de algumas horas, começam a beber lembranças.
E algumas lembranças descem queimando mais do que qualquer bebida.
No começo, falavam baixo.
Falavam de coisas comuns.
Trabalho.
Viagens.
Conhecidos.
Até que alguém mencionou amor.
Não sei por que as pessoas gostam de falar sobre amor quando estão cansadas dele.
Talvez porque seja mais fácil discutir aquilo que já não conseguem sentir.
A mulher começou dizendo que no começo era diferente.
Sempre começa assim.
“Antes era diferente.”
Essa frase aparece em quase todos os relacionamentos que estão morrendo.
Ela contou que, no início, ele mandava mensagens de madrugada.
Perguntava onde ela estava.
Queria saber como tinha sido o dia dela.
Escutava problemas que hoje ele considera reclamações.
Fazia planos.
Dizia que ela era diferente.
Ele ouviu sorrindo.
Aquele sorriso curto de quem já decidiu que o outro está exagerando.
Depois falou:
— Você está romantizando tudo.
Foi uma frase simples.
Mas algumas frases simples carregam uma crueldade silenciosa.
Ela continuou.
Disse que depois vieram as contas.
O trabalho.
O cansaço.
A televisão.
O celular.
A rotina.
Aquela velha máquina que transforma pessoas apaixonadas em colegas de apartamento.
Ele respondeu que era assim mesmo.
Que ninguém consegue viver de declarações.
Que a vida real não era filme.
Que depois de alguns anos ninguém fica perguntando todos os dias como foi o dia de alguém.
Talvez ele estivesse certo.
Talvez ela também.
O problema é que muitas vezes duas pessoas podem estar certas e ainda assim conseguirem destruir alguma coisa.
Eu continuei bebendo.
Não porque não tivesse opinião.
Tenho opiniões demais.
Esse sempre foi um dos meus problemas.
Fiquei olhando para os dois e pensando em como algumas histórias terminam muito antes de alguém admitir o fim.
O amor raramente morre com uma grande tragédia.
Ele não faz barulho.
Não chama testemunhas.
Não deixa um corpo no chão.
Ele vai desaparecendo aos poucos.
Primeiro vem uma conversa que fica para amanhã.
Depois um abraço que fica para depois.
Depois um beijo que vira hábito.
Depois o silêncio.
Até que um dia duas pessoas acordam na mesma cama e percebem que estão dividindo apenas o colchão.
O resto cada uma carrega sozinha.
O outro casal tentou mudar de assunto.
Não conseguiu.
Quando quatro pessoas bebem o suficiente, sempre aparece alguma verdade guardada.
Vieram acusações antigas.
Pequenas feridas acumuladas.
Coisas que ficaram anos esperando uma oportunidade para sair.
E sexta-feira à noite, em um bar cheio, costuma ser uma excelente oportunidade.
Fiquei pensando naquela velha busca humana pelo Céu.
Essa necessidade de acreditar que existe algum lugar onde tudo finalmente fará sentido.
Talvez exista.
Talvez não.
Nunca tive muita certeza sobre essas coisas.
Mas olhando para aquela mesa, percebi uma coisa:
Talvez o Céu e o Inferno não sejam lugares para onde vamos.
Talvez sejam lugares que construímos enquanto estamos aqui.
O Céu aparece em coisas pequenas.
Quando alguém escuta de verdade.
Quando alguém fica mesmo tendo motivos para ir embora.
Quando alguém pede desculpas sem colocar uma defesa depois da frase.
Quando alguém ama sem transformar carinho em moeda de troca.
Parece pouco.
Mas quase tudo que importa na vida parece pouco antes de desaparecer.
O problema é que nós transformamos amor em contrato.
Eu faço isso por você.
Então você me deve aquilo.
Eu trabalhei.
Então tenho direito ao meu silêncio.
Eu pago as contas.
Então não preciso prestar atenção.
Eu fiquei.
Então você me pertence.
Talvez seja aí que começa o erro.
Porque amar alguém não deveria significar possuir alguém.
Mas nós gostamos de possuir.
Casas.
Objetos.
Memórias.
Pessoas.
Até sentimentos antigos nós tentamos prender.
Depois ficamos surpresos quando alguém tenta respirar longe daquilo que chamamos de amor.
O homem daquela mesa dizia que aquilo era exagero.
Talvez fosse.
Mas existe uma coisa ainda mais triste:
fingir que uma relação continua viva apenas porque duas pessoas ainda dividem o mesmo endereço.
Existem casamentos que continuam apenas porque terminar parece mais difícil do que continuar sofrendo.
Existem pessoas que passam vinte anos juntas e já não sabem mais quem está deitado ao lado.
E existem encontros de uma hora que conseguem lembrar alguém de que ainda está vivo.
O Inferno talvez não seja fogo.
Nem demônio.
Nem castigo.
Talvez seja olhar para alguém que um dia significou tudo e perceber que você ajudou a construir a distância entre vocês.
Tijolo por tijolo.
Com orgulho.
Com silêncio.
Com pequenas crueldades justificadas.
Até que a parede ficou alta demais.
Depois você senta diante dela e pergunta por que ninguém mais consegue chegar perto.
O ódio funciona do mesmo jeito.
Começa pequeno.
Uma mágoa.
Uma palavra.
Uma injustiça.
Depois cresce.
Você começa a separar o mundo.
Os bons.
Os maus.
Os que merecem.
Os que não merecem.
Até que o coração vira uma repartição pública.
Entrada proibida.
Documentos exigidos.
Atendimento somente com agendamento.
O curioso é que quase ninguém percebe quando chega ao Inferno.
Porque ele não parece Inferno.
Ele parece rotina.
As pessoas continuam trabalhando.
Pagando contas.
Postando fotos felizes.
Comprando presentes.
Dizendo “eu te amo”.
Tudo funcionando normalmente.
Talvez seja por isso que ele seja tão eficiente.
O Inferno não precisa de fogo.
Basta parecer normal.
Olhei novamente para aquela mesa.
Ela chorava.
Ele olhava o celular.
Aquilo me pareceu mais violento do que uma discussão.
Porque a raiva ainda reconhece o outro.
O desprezo não.
O desprezo apaga.
O cantor começou outra música.
Ninguém percebeu.
O barman recolheu copos.
A fumaça continuou subindo.
A sexta-feira continuou acontecendo.
O mundo não para quando alguém está destruindo outra pessoa por dentro.
Essa é uma das coisas mais duras sobre estar vivo.
Você pode estar quebrando alguém.
E do lado de fora alguém continua servindo cerveja.
Terminei minha bebida.
Fiquei alguns segundos olhando para aquela cena.
Não sabia quem estava certo.
Talvez ninguém.
Talvez os dois.
Mas pensei que todos nós recebemos pequenas escolhas todos os dias.
Abrir uma porta.
Ou construir uma parede.
Perdoar.
Ou guardar uma dívida emocional.
Amar.
Ou negociar.
O Céu talvez não seja tão distante quanto imaginamos.
Talvez ele apareça quando deixamos de tratar pessoas como propriedades.
E o Inferno talvez já esteja funcionando quando precisamos destruir alguém para provar que estamos certos.
No fim, quase ninguém perde uma guerra contra o outro.
Perde contra aquilo que se tornou.
Saí do bar.
A música ficou para trás.
As vozes ficaram para trás.
A sexta-feira continuou cheia.
Como sempre.
E pensei que talvez o Céu e o Inferno realmente funcionem em horário comercial.
Não precisam de julgamento final.
Não precisam de grandes sinais.
Às vezes basta olhar para quem está ao nosso lado.
Se ainda conseguimos amar sem cobrar pagamento, talvez por alguns minutos tenhamos encontrado o Céu.
Se precisamos odiar para continuar existindo, talvez já tenhamos chegado ao outro lugar.
E o pior de tudo:
não precisamos morrer para descobrir.
Basta continuar vivendo exatamente como estamos.
