*O Campo Que Ficou em Branco* Fui... Paulo H Salah Ad din...

*O Campo Que Ficou em Branco*


Fui preencher um formulário porque aparentemente ainda existem coisas que precisam ser comprovadas por escrito.


Nome.


Preenchi.


Idade.


Preenchi também.


Profissão.


Essa demorou um pouco mais.


Não porque eu não tivesse profissão. Tinha. O problema era explicar o que ela significava depois de tantos anos fazendo a mesma coisa. Algumas palavras ficam velhas antes da gente.


Endereço.


Coloquei.


Estado civil.


Também.


Até ali, eu ainda era uma pessoa perfeitamente administrável.


Então apareceu a pergunta.


Quem é você?


Fiquei olhando para aquilo.


Era só uma linha.


Uma linha comprida, esperando uma resposta curta.


O mundo gosta dessas coisas. Coloca uma caixa embaixo de uma pergunta enorme e espera que a gente caiba ali dentro.


Peguei a caneta.


Não escrevi.


Olhei novamente para a pergunta.


Quem é você?


Pensei no meu nome. Não era.


Pensei na minha profissão. Também não.


Pensei na idade. Aquilo era apenas a quantidade de vezes que a Terra tinha girado enquanto eu tentava entender alguma coisa.


Pensei nos documentos.


Os documentos sabiam mais sobre mim do que algumas pessoas que conviveram comigo por anos.


Sabiam onde eu morava.


Sabiam quando nasci.


Sabiam números, datas, assinaturas.


Mas nenhum deles sabia o que eu fazia quando ficava sozinho.


Nenhum sabia das coisas que eu não dizia.


Nenhum sabia quantas versões de mim já tinham morrido sem cerimônia.


Foi então que percebi o problema.


Eu conseguia preencher todos os campos que me pediam uma informação.


Só não conseguia preencher aquele que pedia uma definição.


Talvez porque definir seja uma forma educada de reduzir.


Passei a vida fazendo isso.


Escolhendo palavras para caber em lugares pequenos.


Homem.


Profissional.


Pai.


Amigo.


Filho.


Responsável.


Culpado.


Inocente.


Cada palavra servia por algum tempo.


Depois ficava apertada.


A gente cresce por dentro e continua usando o mesmo contorno.


É uma espécie de prisão sem grades. Ninguém precisa nos trancar. Basta nos dar um nome e esperar que permaneçamos fiéis a ele.


Olhei novamente para a folha.


O campo continuava vazio.


Pensei que talvez fosse isso que mais incomodasse.


Não o fato de eu não saber quem era.


Mas a possibilidade de já ter acreditado, durante anos, que sabia.


Existe uma diferença.


A primeira é ignorância.


A segunda é arrogância.


O telefone vibrou sobre a mesa.


Uma mensagem qualquer.


Alguém perguntava se eu já tinha terminado.


Respondi que sim.


Era mentira.


Eu ainda estava diante daquela pergunta.


O curioso é que a mentira saiu com facilidade.


Talvez eu tivesse passado tanto tempo respondendo ao que esperavam de mim que já nem precisava pensar.


O mundo oferece formulários para quase tudo.


Para nascer.


Para morrer.


Para trabalhar.


Para comprar.


Para vender.


Para existir.


Só não oferece um para aquilo que acontece no intervalo.


E é justamente ali que a coisa complica.


Porque a mente não respeita formulário.


Ela continua.


Lembra de uma coisa enquanto esquece outra.


Deseja o que condena.


Condena aquilo que deseja.


Muda de opinião depois de jurar que nunca mudaria.


A gente chama isso de contradição.


Talvez seja apenas vida sem edição.


Pensei em uma caixa de fósforos que estava sobre a mesa.


Vazia.


Uma caixa pequena.


Quase ridícula.


Ainda assim, cabiam ali dentro uma noite inteira, um cigarro, uma conversa antiga, uma mulher que eu não via há anos, um homem que eu tinha sido e não queria mais encontrar.


Era estranho.


O infinito não precisava de espaço.


Precisava apenas de memória.


Foi quando entendi outra coisa.


Talvez eu não fosse uma resposta.


Talvez fosse o rascunho.


Um rascunho que insistia em sobreviver às próprias correções.


Já tentei apagar partes de mim.


Algumas funcionaram.


Outras ficaram como aquelas marcas de borracha que continuam aparecendo quando a luz bate de lado.


Há coisas que a gente não supera.


Apenas aprende a colocar em lugares onde não tropeça nelas todos os dias.


Terminei de preencher o formulário.


Deixei a caneta sobre a mesa.


O funcionário pegou a folha e conferiu os campos.


Nome.


Certo.


Idade.


Certo.


Profissão.


Certo.


Endereço.


Certo.


Chegou ao último.


Parou.


Olhou para mim.


— E aqui?


Olhei para a linha vazia.


Por alguns segundos, pensei em escrever qualquer coisa.


Seria mais fácil.


Homem cansado.


Sobrevivente.


Idiota.


Contraditório.


Em construção.


Nada disso parecia suficiente.


Então devolvi a folha.


— Pode deixar em branco.


Ele me olhou como quem não entende por que alguém recusaria uma oportunidade tão simples de mentir.


Pegou a caneta.


Passou um risco sobre o campo.


E pronto.


Mais um problema resolvido.


Saí dali pensando que talvez essa fosse a única resposta honesta que eu tinha encontrado em anos.


Não saber.


Não terminar.


Não caber.


Ser aquele ponto onde a pergunta continua existindo depois que todas as respostas já perderam a validade.


Talvez decifrar-se não seja descobrir uma fórmula.


Talvez seja aceitar que algumas partes de nós foram feitas para permanecer ilegíveis.


Cheguei em casa.


O gato estava no corredor.


Olhou para mim.


Não perguntou meu nome.


Não quis saber minha profissão.


Não precisava de documento.


Apenas me olhou por alguns segundos e foi embora.


Achei uma atitude bastante sensata.


Fiquei sozinho.


A casa estava silenciosa.


Na mesa, havia outra caixa de fósforos.


Dessa vez, ainda cheia.


Peguei uma.


Acendi.


Por alguns segundos, a chama iluminou meu rosto.


Olhei para ela.


Depois apaguei.


O rosto voltou a ser apenas um rosto.


E, pela primeira vez naquele dia, não senti necessidade de descobrir quem estava ali.