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A Felicidade possĂ­vel

SĂł quem estĂĄ disposto a perder tem o direito de ganhar. SĂł o maduro Ă© capaz da renĂșncia. E sĂł quem renuncia aceita provar o gosto da verdade, seja ela qual for.

O que estå sempre por trås dos nossos dramas, desencontros e trambolhÔes existenciais é a representação simbólica ou alegórica do impulso do ser humano para o amadurecimento.
A forma de amadurecer Ă© viver. Viver Ă© seguir impulsos atĂ© perceber, sentir, saber ou intuir a tendĂȘncia de equilĂ­brio que estĂĄ na raiz deles (impulsos). A pessoa Ă© impelida para a aventura ou peripĂ©cia, como forma de se machucar para aprender, de cair para saber levantar-se e aprender a andar. É um determinismo biolĂłgico: para amadurecer hĂĄ que viver (sofrer) as machucadelas da aventura e da peripĂ©cia existencial.

A solução de toda situação de impasse só se då quando uma das partes aceita perder ou aceita renunciar (e perder ou renunciar não é igual, mas é muito parecido; é da mesma natureza). Sem haver quem aceite perder ou renunciar, jamais haverå o encontro com a verdade de cada relação. E muitas vezes a verdade de cada relação pode estar na impossibilidade, por mais atração que exista. Como pode estar na possibilidade conflitiva, o que é sempre difícil de aceitar.

SĂł a renĂșncia no tempo certo devolve as pessoas a elas mesmas e sĂł assim elas amadurecem e se preparam para os verdadeiros encontros do amor, da vida e da morte. SĂł quem estĂĄ disposto a perder consegue as vitĂłrias legĂ­timas.

Amadurecer acaba por se relacionar com a renĂșncia, nĂŁo no sentido restrito da palavra (renĂșncia como abandono), porĂ©m no lato (renĂșncia da onipotĂȘncia e das formas possessivas do viver).

Viver Ă© renunciar porque viver Ă© optar e optar Ă© renunciar.

Renunciar Ă  onipotĂȘncia e Ă s hipĂłteses de felicidade completa, plenitude etc Ă© tudo o que se aprende na vida, mas atĂ© se descobrir que a vida se constrĂłi aos poucos, sobre os erros, sobre as renĂșncias, trocando o sonho e as ilusĂ”es pela construção do possĂ­vel e do necessĂĄrio, o ser humano muito erra e se embaraça, esbarra, agride, Ă© agredido.
Eis a felicidade possível: compreender que construir a vida é renunciar a pedaços da felicidade para não renunciar ao sonho da felicidade.

SĂł ligue se tiver vontade, sĂł venha se quiser me ver.
Mentir Ă© pura vaidade, de quem precisa se esconder.

Nando Reis

Nota: Trecho da letra da mĂșsica "Luz Antiga"

Eu sĂł trabalho com achados e perdidos.

Clarice Lispector
Água viva. Rio de Janeiro: Rocco. 1998.

A Palavra

JĂĄ nĂŁo quero dicionĂĄrios
consultados em vĂŁo.
Quero sĂł a palavra
que nunca estarĂĄ neles
nem se pode inventar.
Que resumiria o mundo
e o substituiria.
Mais sol do que o sol,
dentro da qual vivĂȘssemos
todos em comunhĂŁo,
mudos,
saboreando-a.

Carlos Drummond de Andrade
ANDRADE, C. D. A PaixĂŁo Medida, J. Olympio, 1983

Cuidado! A vida é pra valer.E não se engane não, tem uma só. Duas mesmo que é bom, ninguém vai me dizer que tem sem provar muito bem provado, com certidão passada em cartório do céu, e assinada embaixo: Deus! e com firma reconhecida.
A vida nĂŁo Ă© de brincadeira, amigo.

Vinicius de Moraes

Nota: Trecho adaptado da mĂșsica "Samba da bĂȘnção", composta por Vinicius de Moraes e Baden Powell.

...Mais

E me dĂĄ uma saudade irracional de vocĂȘ. Uma vontade de chegar perto, de sĂł chegar perto, te olhar sem dizer nada, talvez recitar livros, quem sabe sĂł olhar estrelas
 dizer que te considero – pode ser por mais um mĂȘs, por mais um ano, ou quem sabe por uma vida – e que hoje, sĂł por hoje ou a partir de hoje (de ontem, de sempre e de nunca), Ă© sincero.

O costume de cair endurece o corpo, ter chegado ao chĂŁo, sĂł por si, jĂĄ Ă© um alĂ­vio.

José Saramago
Ensaio sobre a cegueira. Lisboa: Editorial Caminho. 1995

Eu só queria alguém pra vencer comigo esses dias terrivelmente chatos.

Sempre sei, realmente. Só o que eu quis, todo o tempo, o que eu pelejei para achar, era uma coisa só - a inteira - cujo significado e vislumbrado dela eu vejo que sempre tive. A que era: que existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada uma pessoa viver - e essa pauta cada um tem - mas a gente mesmo, no comum, não sabe encontrar; como é que, sozinho, por si, alguém ia poder encontrar e saber?

Gastei todas as minhas mentiras na paixĂŁo. Gastei todas as minhas verdades no amor. O que sobrou sou eu.

Saudades, sĂł portugueses
Conseguem senti-las bem
Porque tĂȘm essa palavra
Para dizer que as tĂȘm.

Fernando Pessoa
PESSOA, F. Quadras ao Gosto Popular. Lisboa: Ática. 1965. (6ÂȘ ed., 1973). P. 110

SEM MARGEM A DÚVIDAS

Se vocĂȘ ainda mantĂ©m
A intenção moral-visual
De sĂł encarar homens de bem
Segue este meu conselho:
Sai da rua,
Vai pra casa,
Tranca a porta
E quebra o espelho.

Não quero alguém que morra de amor por mim... Só preciso de alguém que viva por mim, que queira estar junto de mim, me abraçando. Não exijo que esse alguém me ame como eu o amo, quero apenas que me ame, não me importando com que intensidade....Não tenho a pretensão de que todas as pessoas que gosto, gostem de mim... Nem que eu faça a falta que elas me fazem, o importante pra mim é saber que eu, em algum momento, fui insubstituível... E que esse momento serå inesquecível... Só quero que meu sentimento seja valorizado... Quero, um dia, poder dizer às pessoas que nada foi em vão... que o amor existe, que vale a pena se doar às amizades, que a vida é bela, sim, e que eu sempre dei o melhor de mim... e que valeu a pena

Adriana Britto

Nota: Trecho adaptado de um poema muitas vezes atribuĂ­do, de forma errĂŽnea, a Mario Quintana.

Ainda que tivesse que ficar sĂł, nĂŁo trocaria a minha liberdade de pensar por um trono.

Recuso-me a ficar triste. Quem não tiver medo de ficar alegre e experimentar uma só vez sequer a alegria doida e profunda terá o melhor de nossa verdade. Eu estou – apesar de tudo oh apesar de tudo – estou sendo alegre neste instante-já que passa se eu não fixá-lo com palavras. Estou sendo alegre neste mesmo instante porque me recuso a ser vencida: então eu amo. Como resposta.

Clarice Lispector
Água viva. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

Eu não amo ninguém, parece incrível
Não amo ninguém
E Ă© sĂł amor que eu respiro.

Muitas pessoas estĂŁo ocupadas sĂł para disfarçar a ansiedade; seu ativismo Ă© um modo de fugir de si mesmas. Elas obtĂȘm um pseudo e temporĂĄrio senso de vivacidade correndo de um lado para o outro, como se estivessem realizando algo sĂł pelo fato de se movimentarem, ou como se estarem ocupadas fosse uma prova de sua importĂąncia.

Estou sĂł e sonho saudade.
E como é branca de graça
A paisagem que nĂŁo sei,
Vista de trås da vidraça
Do lar que nunca terei!

O estado nada mais é que um "grande bando de ladrÔes", uma måfia. Só que muito maior, mais opressiva e mais perigosa.

A PONTE PARA O SEMPRE

Pensamos que, Ă s vezes, nĂŁo restou um sĂł dragĂŁo.

NĂŁo hĂĄ mais qualquer bravo cavaleiro, nem uma Ășnica princesaa passear por florestas encantadas.

Pensamos,, às vezes, que a nossa era estå além das fronteiras, além das aventuras. Que o destino jå passou do horizonte e se foi para sempre.

É um prazer estar enganado.

Princesas e cavaleiros, encantamentos e dragÔes, mistério e aventura... não existem apenas aqui e agora, mas também continuam a ser tudo o que jå existiu nesse mundo.

Em nosso sĂ©culo, sĂł mudaram de roupagem. As aparĂȘncias se tornaram tĂŁo insidiosas que as princesas e cavaleiros podem se esconder uns dos outros, podem se esconder atĂ© de si mesmos.

Contudo, os mestres da realidade ainda nos encontram, em sonhos,
para nos dizerem que nunca perdemos o escudo de que precisamos contra os dragÔes; que uma descarga de fogo azul nos envolve agora, a fim de que possamos mudar o mundo como desejarmos.

A intuição sussurra a verdade!
NĂŁo somos poeira, somos magia!
Feche os olhos e siga sua intuição.