A Ilusão de Ser Livre O ser humano... Silasoliveira13
A Ilusão de Ser Livre
O ser humano pensa que é livre.
E talvez essa seja uma das ilusões mais elegantes que inventamos para suportar a vida.
Acordamos quando queremos desde que o relógio permita.
Trabalhamos onde escolhemos desde que alguém aceite nossa escolha.
Compramos uma casa e chamamos de nossa, mas continuamos pagando para mantê-la, protegê-la e modificá-la dentro de regras que não escrevemos.
Compramos um carro, mas para conduzi-lo precisamos de licença, registro, impostos, seguro e estradas governadas por leis.
Carregamos no bolso um pequeno universo chamado celular e, enquanto acreditamos possuir o mundo na palma da mão, deixamos pelo caminho rastros de onde estivemos, do que procuramos, do que compramos e até daquilo que desejamos.
Então, onde começa a liberdade?
Talvez tenhamos confundido liberdade com possibilidade.
Somos livres para escolher, mas quase nunca somos livres das consequências da escolha.
Somos livres para partir, mas existem fronteiras.
Livres para falar, mas existem responsabilidades.
Livres para possuir, mas existem obrigações.
Livres para sonhar e talvez seja justamente aí que nenhum sistema consiga nos alcançar completamente.
Porque a verdadeira prisão nem sempre possui grades.
Às vezes ela vem disfarçada de rotina.
De necessidade.
De medo.
De dívida.
De hábito.
De uma vida inteira obedecendo sem perguntar por quê.
E talvez a liberdade também não seja viver sem regras. Uma sociedade sem limites pode transformar a liberdade de um na violência contra o outro. O grande dilema humano é muito mais profundo: quanto de nossa liberdade entregamos para conseguirmos viver juntos e quanto entregamos simplesmente porque nos acostumamos a obedecer?
Nascemos dentro de um mundo que já estava pronto.
As fronteiras já estavam desenhadas.
As leis já estavam escritas.
O dinheiro já tinha valor.
O relógio já determinava as horas.
A propriedade já tinha dono.
E alguém já havia decidido que segunda-feira era dia de trabalhar.
Entramos no palco depois que a peça começou e passamos boa parte da existência seguindo um roteiro que não escrevemos.
Mas existe uma liberdade que começa exatamente quando percebemos isso.
É a liberdade da consciência.
Aquela pequena rebelião silenciosa de perguntar:
Por quê? Para quê? Quem decidiu? Precisa realmente ser assim?
Talvez o homem absolutamente livre nunca tenha existido.
Talvez liberdade não seja romper todas as correntes, porque algumas delas são necessárias para que possamos viver uns com os outros.
Mas existe uma diferença imensa entre aceitar conscientemente um limite e passar a vida inteira sem perceber que ele existe.
No fim, talvez ser livre não seja viver sem sistema, sem lei ou sem obrigação.
Talvez ser livre seja algo mais difícil:
conhecer as paredes que nos cercam e, ainda assim, conservar dentro de nós uma porta que ninguém tenha o direito de fechar.
