Abismo
''O Cataclismo Iminente''
No abismo interno ou mar infinito,
São várias emoções misturadas,
Fazendo-nos ficar sobrecarregados e aflitos,
Um colapso iminente, como uma bomba-relógio.
Se permanece no mesmo lugar,
Até um momento explodir,
Gerando uma catástrofe enorme.
E mesmo reconstruindo os edifícios,
A população afetada,
Ainda terá sido a afetada,
E a nada que possamos fazer,
Que mude isso.
Mas podemos ao menos,
Reconstruir com mais cuidado,
E ficarmos sempre preparado,
Se acaso vier um abalo sísmico.
Tua presença se tornou coisa rara.
Tão perto o passo, tão distante o peito,
No frio abismo desse amor desfeito.
Queres do afeto os louros e as delícias,
As convenientes, cálidas carícias.
Porém, do amor recusas o tributo,
Calando a voz num silêncio astuto.
A tela fecha, a queixa vem tão pronta:
"A vida pesa e a fadiga aponta".
Mas cinco instantes para um doce aviso
Parecem-te a ruína e o prejuízo.
Gozar do bem sem ter a obrigação,
É a lei covarde do teu coração.
Onde o diálogo falta e a alma cala,
O desinteresse ecoa pela sala.
Se o nosso laço exige tal cansaço,
E preferes a fuga e o embaraço,
Recolho o meu afeto e a esperança,
Pois onde não há troca, a alma cansa.
A falsidade se encontra atrás de um sorriso, a beira de um abismo, e no âmago do dissimulado.
(021114)
A Caligrafia do Abismo
Nesse mundo de incerteza, sou um poeta.
Meu caderno é a vida escrevendo o tempo,
onde o meu próprio abismo se deita
e se confessa ao papel.
Em linhas tortas escrevo,
procurando a mais perfeita caligrafia.
Mas a perfeição é um espelho quebrado
que nenhum poeta consegue juntar.
Basta-me o verso que foi rascunhado
na urgência febril de não sufocar.
Amanhã o calvário retoma o seu curso,
e a vida me pede outra vez sacrifício.
Não busco o aplauso de nenhum discurso,
só a paz de quem vence o próprio hospício.
—Rodrigues BFK
E se eu escrevo o que sinto, é que a palavra tem o condão de me retirar do abismo em que por vezes me encontro...
Quando as águas silenciarem a fúria do abismo e a luz despir a ilusão da forma, a beleza deixará de ser guerra para se tornar o eco eterno do próprio enigma.
Reno Fioraso
Eu sou um homem de cordas. Sei amarrar, sei segurar, sei salvar, sei puxar alguém do abismo.
Mas ela não queria ser salva do abismo. Ela queria que eu saltasse com ela.
E eu não sei saltar para o vazio.
Eu faço café, faço amor, faço planos. Porque o plano é a corda. O amor é a corda. O café é a corda. Eu me seguro em tudo o que faço para não sentir o que não sei nomear.
Ela me olha com uns olhos que pedem a coisa que não tem corda. A coisa que não tem segurança. A coisa que me desamarra. E eu tenho medo de me desamarrar, porque se eu me desamarrar, quem vai segurar o mundo?
Mas o que eu não conto a ela, e que me dói, é que o mundo, para ela, já está caindo. E eu só finjo que seguro.
Porque o que ela quer, o que ela quer é que eu seja a queda. Que eu despenque com ela. Que eu grite no vazio com ela.
Mas eu não sei gritar. Eu aprendi a engolir o grito. A transformar o grito em músculo, em ação, em estrada.
Ela quer o meu nome inteiro. E eu só sei dar o meu sobrenome. Ela quer o meu coração aberto. E eu só sei dar a minha mão fechada.
Ela diz que estou longe quando estou perto. E ela tem razão. A minha distância não é física. É a distância de um homem que aprendeu que olhar para dentro é olhar para a morte.
E eu estou com medo de morrer enquanto ainda estou vivo.
... coisas sobre Ele e Ela
A verdade é como uma ponte de cipó suspensa sobre o abismo do tempo — onde a margem que deixamos para trás é a única que fingimos conhecer.
Reno Fioraso
O Preço da Travessia
O amor é um convite ao abismo,
um passo no escuro onde o chão não se vê.
O medo é o muro, o cinza mecanismo,
a trava na porta que impede o "você".
É o risco de ser, por inteiro, espelho,
de dar ao outro a chave do que guardei no fundo.
É ver o castelo, por mais que ele seja belo,
correr o perigo de se tornar pó, num segundo.
Quem teme a entrega, prefere a margem,
onde a água é mansa e o sol sempre brilha.
Mas a vida se perde em tanta paisagem,
se a gente não entra na própria trilha.
Amar é ceder o controle da maré,
deixar que o outro navegue o que é meu.
E o medo que sinto, de pé, quase em fé,
é o preço que pago por ser quem sou eu.
É o medo de, enfim, ser compreendido,
e, no fim da viagem, não ser mais um perdido
A razão ilumina o caminho. O Primevo ilumina o abismo. E, quase sempre, é o abismo que decide a direção dos passos antes que a razão lhes atribua um destino.
Nós meus pensamentos eu viajo, entro em um abismo profundo, viro refém dos meus pensamentos, um prisioneiro ao meio de tanta imaginação.
Sozinha,
calada,
em meu próprio abismo,
te vi.
Não precisou de toques,
não precisou de sentir.
Quem me dera,
quem me dera te tocar,
sentir seu cheiro entrar em meus pulmões,
sentir teu calor.
A solidão não abraça —
ela te despedaça até destruir.
Corrói a alma,
te cansa até não sobrar nada.
Mas ao te encontrar,
senti que a luz viria.
E agora?
Quem me dera,
quem me dera ouvir sua voz como música,
ver seu sorriso como uma pintura cara…
Se a solidão vencer,
procure sua luz.
Não se afogue na incerteza.
Todos temos nossa luz —
eu sou a sua?
pois você é o meu.
"Quando você se torna o seu próprio refúgio, a partida dos outros deixa de ser um abismo e passa a ser apenas uma constatação. Se faço falta para alguém, a vida responde no tempo dela. Mas enquanto esse tempo não chega, minha missão é garantir que eu nunca mais faça falta para mim mesmo."
— Ginho Peralta
O medo provocador é o labirinto de catarse cinzelado pelo abismo, que não busca a nossa queda, mas nos força a queimar as próprias sombras para decifrar o enigma da força.
Reno Fioraso
