Abismo
A fome empurra o caçador à beira do abismo,
onde o risco dança com a necessidade.
Seus passos não são feitos só de coragem,
mas de urgência —
de quem não pode voltar de mãos vazias.
Do outro lado, a caça pressente o vento,
lê no silêncio o sinal da ameaça.
Carrega nos olhos o instinto antigo,
o chamado bruto da sobrevivência.
Não é fraqueza fugir —
é sabedoria guardar o próprio sopro de vida.
E nesse encontro invisível,
não existe vilão nem herói.
Apenas a lei crua da existência,
onde um precisa viver…
e o outro luta para continuar sendo.
Talvez a vida seja isso:
um equilíbrio inquieto,
entre a fome que nos move
e o medo que nos protege.
A maré subiu. O homem agora é a onda e o abismo. E vocês deverão ser, a espuma nos tímpanos deles.
Rosário Bissueque
Protegemo-nos tanto pela tecnologia que, muitas vezes, já não percebemos o abismo de insensibilidade e desconexão emocional que se alarga entre nós.
Distraídos com a paisagem, as escolhas não parecem importantes; mas, quando o abismo chega, o desvio pode já ter ficado para trás.
A ti toda a honra e toda a glória!
Imperador deste mundo!
Senhor do abismo!
Portador da luz e da treva!
A escuridão primordial!
O brilho que ecoa no infinito!
- Marcela Lobato
Sem ti, eu não respiro
Sufoco sem respostas
Vivo à beira do abismo
E vejo que na vida não há brilho
Sem sentir, não sinto nada
Como um robô, uma máquina
Sem razão pra existência
Sendo só dor e cansaço
Eu te amo há muitas vidas
Queria viver naquela noite
Onde há quase 8 anos
Seria o maior dos paraísos
Se há um céu após esta vida
Qualquer espécie de paraíso
Que eu viva nessa lembrança
Da melhor noite de toda a minha vida.
- Marcela Lobato
Carta II — O Calabouço: O mergulho no abismo
Após aquele grande evento no tribunal da desgraça, eis que, por decisão comum — dos lordes e dos plebeus — lançaram-me num calabouço onde a fome era silêncio; a sede, solidão; o sorriso, miséria; o sonho, pesadelo; e a moldura, um vazio.
Ali, a luz do sol não encontrava lugar para me oferecer claridade. Tudo era escuro naquele espaço, sem qualquer iluminação.
Crânios espalhados por todos os cantos da caverna pareciam dialogar com as campas, e nada se ouvia senão o sussurro dos espíritos que queriam roubar-me a alma. Um monte de ossos amontoados formava uma grande muralha, cercando o calabouço para que nenhum prisioneiro pudesse escapar.
Alimentava-me de ratos, pois negavam-me comida; e não tinha como nem onde cozê-los, porque não havia fogo nem cozinha.
A escuridão causava-me frio; a terra era feita de pedras com pontas afiadas, tão bruscas que partiam-me os ossos. Não conseguia dormir confortavelmente. A sede enxugava a saliva das minhas glândulas; a minha garganta tornara-se seca como o deserto. A língua já não conseguia provar o paladar, como se tivesse perdido tal faculdade.
E, se subsisti por tanto tempo, não foi por coragem, mas pela necessidade de fazer-vos chegar uma carta completa antes do meu último suspiro.
As minhas pernas paralisaram; eu não podia mover-me. Os meus olhos nada conseguiam enxergar senão o desespero que se espalhava na escuridão do tédio. Os meus ouvidos enclausuraram-se no grito do medo e na surdez do tempo.
As palavras desapareceram da minha boca como memórias de quem sofre de amnésia.
Abandonaram-me ali, e não lhes interessava a dimensão do meu sofrimento. No intuito de sobreviver, ingeria a minha própria urina para manter-me vivo. Pensei tratar-se de um pesadelo, mas nem sequer pude fingir delírio.
Cheguei a devorar os dedos das minhas próprias mãos para redigir-vos esta carta com sangue, pois não havia caneta tampouco tinta que eu pudesse usar.
Às vezes, a sociedade censura-nos por pensarmos e agirmos de modo diferente do que ela espera. E, na ânsia de garantir que todos cumpram o que dita, aqueles que a desafiam acabam por tornar-se vítimas.
É preciso morrer para voltar a viver; desfazer-se do que fomos para poder renascer. Não basta ser corajoso: para permanecer firme nas próprias ideologias, crenças e convicções, é preciso estar disposto a dar a própria vida.
Ali percebi que o pior cárcere não é o calabouço, mas a consciência de viver entre homens injustos.
Talvez ainda possamos construir um mundo em que a todos seja permitido falar sem sofrer perseguições ou censuras. Mas, enquanto os homens não aprenderem a conviver com pensamentos diferentes, a paz permanecerá impossível.
Eu tô num abismo,
num abismo frio e sem cor…
sem amor.
Amor… aquele que me prometeu amor,
onde foi parar o seu?
Se perdeu de mim
ou nunca foi meu?
Amor… palavra tão cheia,
hoje ecoa vazia,
bate nas paredes do peito
e volta… fria.
E eu fico aqui,
tentando entender
se o amor acabou…
ou nunca chegou a nascer.
"Quem vive para ofender os outros é um algoz de si mesmo, pois cava um abismo de solidão enquanto tenta derrubar o próximo."
"As drogas prometem o céu, mas entregam o abismo. Jesus não promete facilidade, mas entrega a vitória real e uma paz que o mundo não consegue entender."
E quando o fim chegar, onde não restar mais nada e tudo for jogado no grande abismo.
Onde o caos superou tudo e destruiu as pequenas chamas, restando somente o vazio.
Lá estarei de pé, resquícios do que fui, do que poderia ser, somente eu e meu eterno nada.
Na cachoeira do existencialismo,
Há ignorância no moralismo,
A humanidade se perde em abismo,
Inoperante é o egoísmo.
Na queda livre da busca do eu,
A mente dele se perdeu,
Dizem que ele enlouqueceu,
Essa é sua filosofia que morreu.
