Abismo
Quem escolhe lançar pedras,
cava o abismo do próprio coração.
Mas quem estende as mãos,
abre caminhos de compaixão.
As pedras não constroem,
elas ferem, destroem, afastam.
Mas mãos estendidas levantam,
curam, unem e restauram.
Não perca tempo com o covo; quem vive de intriga cava o próprio abismo. Foque no Pai, porque só o Céu recompensa caráter.
ALMA NA JANELA
A cada suspiro, o sangue respinga no abismo de dor onde se encarcerou, tinge de flores rubras a cortina, lúgubre saudade na própria sina. Ouve risos vãos de vultos, por estar só, que rodopiam em zumbidos, formando um nó. Debruça-se à janela, escura como breu, até que o anjo surja e a leve para o céu.
Lu Lena
O POUSO RASANTE DO SER
(Diálogos entre o cosmos e o abismo de si)
O meu “eu” atrelou-se à Terra e minha forma etérea decolou em uma viagem astral. Vi-me em uma linda nave espacial. Avistei viajores do tempo e o incomensurável arco-íris no cosmos. Então, encontrei a Deusa Ísis, que me disse:
— Vieste buscar o tesouro? Não o encontrarás aqui, pois ele está incrustado nas encostas mais íngremes do teu subconsciente.
Atrelagem em pouso rasante. Um sonho que desperta!
Lu Lena / 2026
Nem toda dor vira arte,
nem todo peito sabe lapidar;
mas quem encara o próprio abismo
aprende a se reinventar.
O abismo é um local escuro que nos faz refletir sobre a importância das pequenas coisas, quando não podemos alterar uma situação é porque ela está sendo utilizada para nos transformar.
Entre a lei escrita e a vida concreta há um abismo onde a ética urbana deveria construir pontes — mas frequentemente apenas observa o vazio.
O impossível é a montanha que desafia o peito, um grito contra o abismo, a prova crua da coragem que não se rende.
Transformar dor em combustível é alquimia selvagem, a chama que nasce do abismo, a vida que renasce incendiada pelo próprio sofrimento.
Meu rastro na solidão foi a bússola que te trouxe até mim. Nenhuma sombra, nenhum abismo deteve os passos do teu amor. Tu vieste sem cansaço, somente com propósito.
No fim, o que resta são rotinas que nos salvam do abismo. Rituais simples, um café, uma carta, um olhar, fazem ponte. Construo essas pontes com mãos gastas e coração atento. Elas não garantem paz eterna, mas oferecem travessia. E atravesso, sabendo que, por ora, já é suficiente.
O amor não é um teorema a ser decifrado, mas um abismo a ser saltado, a tentativa de aprisioná-lo na grade da razão é o ácido corrosivo que desfaz a sua
mágica em pó.
Cuidado para não confundir a profundidade com a pena. O abismo não é apenas o teatro da tragédia, é também a câmara fria que gesta a pérola mais rara, a descida é a rota iniciática para a extração do seu tesouro mais íntimo.
