Textos sobre Mulher e Homem

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FORJA DA HUMANIDADE

Quantos Gênesis serão precisos para ensinar ao homem o valor da própria criação?

Quantas auroras deverão nascer sobre mares recém-formados, quantas sementes romperão a terra, quantas vidas serão sopradas pelo fôlego da esperança?

Um Gênesis não bastou.

Erguemos cidades, mas também muralhas. Criamos ferramentas, mas também correntes. Descobrimos estrelas, mas ainda tropeçamos na sombra dos próprios passos.

Vieram dilúvios, vieram desertos, vieram profetas, vieram cruzes, vieram lições escritas em pedra, sangue e memória.

Ainda assim, o homem insiste em reinventar o erro com a mesma criatividade com que reinventa o progresso.

Quantos Gênesis serão precisos?

Talvez um para cada guerra. Talvez um para cada preconceito. Talvez um para cada criança que nasce acreditando num mundo melhor e encontra um mundo inacabado.

Mas a criação não desistiu.

A cada nascimento, um novo capítulo é escrito. A cada gesto de bondade, uma luz acende nas primeiras páginas do amanhã.

Porque a verdadeira forja não acontece no fogo das estrelas, nem no coração dos vulcões.

Acontece dentro do homem.

É ali que o ferro da ignorância enfrenta o martelo da experiência. É ali que a consciência é aquecida pela verdade até transformar-se em sabedoria.

Talvez não sejam necessários novos Gênesis.

Talvez seja necessário que a humanidade finalmente leia o primeiro.

E compreenda que a criação ainda não terminou.

Ela continua sendo escrita em cada escolha, em cada encontro, em cada geração.

Pois a maior obra do universo não foi a criação do mundo.

É a lenta e interminável Forja da Humanidade.

CABRA-MARCHO


Sou cabra-macho do Sertão,
Homem de fé e fundamento,
Não meço força na aparência,
Mas no valor do sentimento.
Pois quem carrega honra no peito
Segue firme em qualquer vento.


Aprendi com meu velho pai
A palavra nunca quebrar,
Respeitar os mais antigos,
Trabalhar sem reclamar.
Porque o homem vale mais
Pelo que faz que pelo falar.


Sou filho que guarda o nome
Como tesouro e tradição,
Carrego raízes profundas
Plantadas no coração.
Feitas da mesma madeira
Da família e da educação.


Sou pai que ensina no exemplo,
Sem precisar levantar a voz,
Mostrando que o bom caminho
Se constrói dentro de nós.
E que o amor de um verdadeiro pai
É um laço que nunca se desfaz.


Sou amigo nas horas difíceis,
Companheiro de caminhada,
Daqueles que estendem a mão
Sem esperar receber nada.
Pois amizade verdadeira
É riqueza abençoada.


Carrego valores antigos
Que o tempo não conseguiu levar:
Honestidade, respeito e coragem,
Virtudes para cultivar.
São tesouros que não enferrujam
Nem o mundo pode comprar.


Sou raiz pivotante no solo,
Que ninguém consegue enxergar,
Mas sustenta toda a árvore
Quando o vento quer derrubar.
Pois a força que dura na vida
Vem de dentro para lutar.


Não vivo de fama ou riqueza,
Nem de aparência e posição,
Minha maior fortaleza
É ter paz no coração.
E saber que minha consciência
Não me acusa em oração.


Tenho somente um temor
Que guardo com devoção:
Desagradar ao Deus Altíssimo,
Fonte da minha salvação.
Pois homem que teme a Deus
Nunca perde a direção.


Se a luta aperta o caminho,
Se a seca castiga o chão,
Eu me ajoelho primeiro
E entrego tudo em oração.
Porque a vitória do homem
Nasce da fé e da ação.


Cabra-macho de verdade
Não é quem vive a se exaltar,
Mas quem protege sua família,
Sabe servir e respeitar.
Quem honra pai, mãe e amigos
E não foge de trabalhar.


Assim sigo minha jornada,
Sem orgulho e sem vaidade,
Com Deus na frente dos passos,
Com amor e dignidade.
Pois ser homem é ter caráter,
E viver com honestidade.

RIQUEZA DE POBRE

Na riqueza do homem simples
há tesouro sem cifrão;
mora dentro do abraço,
da amizade e do pão.
Quem reparte o que possui
nunca sofre de ilusão.

Riqueza de pobre, quando os ricos descobrem,
sabem quem são os verdadeiros ricos.

Vizinho era quase irmão,
porta aberta o dia inteiro;
um chamava, o outro vinha,
sem convite, sem roteiro.
Na tristeza dividia,
na alegria era o primeiro.

Riqueza de pobre, quando os ricos descobrem,
sabem quem são os verdadeiros ricos.

As brincadeiras de rua
eram festa sem dinheiro:
bola de meia, pião,
pipa cortando o terreiro;
cada riso da infância
valia um mundo inteiro.

Riqueza de pobre, quando os ricos descobrem,
sabem quem são os verdadeiros ricos.

Na panela, o bom cuscuz,
feijão quente e macaxeira,
tira-gosto no alpendre,
café forte na chaleira;
quem comia repartindo
nunca viveu na canseira.

Riqueza de pobre, quando os ricos descobrem,
sabem quem são os verdadeiros ricos.

O contrato era na fala,
aperto firme na mão;
a palavra tinha peso
feito pedra no sertão.
Quem mentisse por ganância
perdia toda razão.

Riqueza de pobre, quando os ricos descobrem,
sabem quem são os verdadeiros ricos.

Compadre era um parente
escolhido pelo amor;
comadre era confiança,
respeito, estima e valor.
Na aflição eram escudo,
na bonança, flor em flor.

Riqueza de pobre, quando os ricos descobrem,
sabem quem são os verdadeiros ricos.

A bênção aos mais velhos
era lei de cada dia;
o ancião era biblioteca
de coragem e sabedoria.
Quem ouvia seus conselhos
colhia paz e alegria.

Riqueza de pobre, quando os ricos descobrem,
sabem quem são os verdadeiros ricos.

Banho bom era na chuva
ou no rio a mergulhar;
cada gota era brinquedo,
cada canto um festejar.
A natureza ensinava
sem jamais cobrar vintém.

Riqueza de pobre, quando os ricos descobrem,
sabem quem são os verdadeiros ricos.

Nas férias, a casa do tio
era um reino encantador;
rede armada no terreiro,
história contada com amor.
Cada primo era um tesouro,
cada abraço, uma flor.

Riqueza de pobre, quando os ricos descobrem,
sabem quem são os verdadeiros ricos.

O futebol na campina
era Copa do lugar;
gol marcado no chinelo,
sem juiz pra apitar.
Quem perdia dava risada,
logo queria jogar.

Riqueza de pobre, quando os ricos descobrem,
sabem quem são os verdadeiros ricos.

Tinha fofoca de esquina,
mas sem ódio ou traição;
mentira sem maldade,
vaidade sem ostentação;
valentia sem braveza,
respeitando cada irmão.

Riqueza de pobre, quando os ricos descobrem,
sabem quem são os verdadeiros ricos.

A fé morava na alma,
na novena e na oração;
Deus entrava pela porta
e habitava o coração.
Quem possuía esperança
nunca viveu na solidão.

Riqueza de pobre, quando os ricos descobrem,
sabem quem são os verdadeiros ricos.

Hoje muitos têm de tudo,
mas lhes falta o essencial;
compram ouro e compram luxo,
sem riqueza espiritual.
O pobre guarda no peito
o tesouro mais real.

Riqueza de pobre, quando os ricos descobrem,
sabem quem são os verdadeiros ricos.

Que não morra essa herança
da mais sábia natureza:
ser humilde, ser honesto,
cultivar a gentileza.
Pois a alma vale mais
do que qualquer riqueza.

Riqueza de pobre, quando os ricos descobrem,
sabem quem são os verdadeiros ricos.

SEU ÚNICO DEUS!
Antes da vida e dos tempos
que fiz para girar o mundo
daquilo que o homem pensa
mas quase nada entende.
Cientistas, estudiosos, religiosos
Debatem e se confrontam
com suas teorias e cálculos
até certa parte plausível
somente para determinar
aquilo que já é revelado.
Antes de tudo "EU SOU"
para mesmo confundir
e mesmo para desafiar.
A cruz e o sangue do calvário
bem antes do crucificado
para redenção dos pecados
e da obediência capaz
de toda transformação.
Antes da vida e dos tempos
venho afirmar novamente
que bem no fundo já sabem
que EU SOU O SEU ÚNICO E ETERNO DEUS!

AUTOR - JOÃO BATISTA BARBOSA

Certo dia, ouvi um homem dizer:
— Seria mais fácil destruir todas essas pessoas ruins. O mundo seria diferente.
Olhei e pensei com calma... Então respondi:
— Posso explicar...
Imagine um saco de sementes preso sobre uma carroça vagante. O saco está com um pequeno furo. Ao longo da viagem, as sementes caem: algumas em bom solo, outras em solo ruim. Algumas deram frutos, outras não. Mas isso não significa que elas deram trabalho; elas estão lá, talvez porque ninguém as observou cair e crescer no lugar errado.
Felizmente, o acaso é derivado de uma ação que gera consequências futuras, que devem ser sanadas. Talvez alguém ruim tenha que morrer por sua invalidez de mudança, mas, no aspecto primordial de sua conduta, ao ser observada, ela nunca esteve naquele lugar; apenas foi enraizada em viver no próprio campo onde cresceu.
Mas não importa o erro. Eu observo as curvas dos acasos e suas consequências, não as pessoas e seus erros.
Até no mais ímpio há um resquício de entendimento.

A evolução natural do homem é voltar a ser criança em sua velhice:
- Ter uma rotina com hábitos saudáveis.
- Focar no desenvolvimento do corpo e da mente.
- Ter alguém que trabalhe para você, o seu próprio dinheiro.
- Não se envolver com pessoas ou questões polêmicas, viver sem maldade no coração e sem a ilusão da ganância.

Bode bom não berra
Homem forte aguenta
Líder é quem menos erra
Chefe ruim afugenta

Na hora da dificuldade
O joio do trigo se separa
O bom da vida é amizade
Juntos, um ao outro se ampara

Experiência de vida se acumula
Se preparar para a vida necessário
A saída com calma se formula
Para terminar, feliz aniversário!

INVOLUÇÃO HUMANA

Creio na involução do homem,
de um deus a um verme,
e não na evolução progressiva
do macaco ao homem,
do instinto à razão
o macaco é muito bom
para dar origem ao homem atual.

no início era a semelhança de Deus,
depois, anjos caídos,
para habitar corpos de nefilins
coabitaram com mulheres mortais
geraram filhos híbridos,
filhos que espalharam a violência
e a miséria humana sobre a terra.

regredindo ainda estamos, da luz eterna
para a escuridão perpétua.
logo seremos verme, e depois pó,
ao fim da involução
para o cerne do nada,
da inutilidade...

Os homens são como os animais, cada homem ou grupo se identifica e é atraído pelo cheiro que lhe é peculiar.

A que animal te assemelhas, a que grupo pertences?
Aos abutres, às hienas, "políticos e religiosos," sindicalistas, associações, agremiação e grupos afins, que vivem a comer carne podre de animais mortos?

Ou pertences ao grupo de espíritos criadores: Arquitetos, professores, construtores, artistas de toda sorte, poetas, escritores, fazedores do amanhã, às abelhas laboriosas da esperança?

Evan do Carmo

VIDA DE PASSARINHO

Pobre do homem que leva uma vida de passarinho. Apenas preocupado com seu deitar e com seu levantar, com seu cansaço e com seu descanso, que vive preocupado em produzir ou caçar como um animal, seu alimento diário, mas que nesta rotina enfadonha e neste trabalho de Sísifo, encontra algum sentido para continuar vivendo.

Que deidade perversa, como Hades, que libertou o homem para voltar a viver em busca da felicidade, representada pela mulher amada, ou como Zeus, que o puniu por enganar a morte mais uma vez, teria submetido o homem comum a tal sofrimento e vida inútil?

Os poetas, contudo, para fugir desta vida vã e deste trabalho de Sísifo, forjaram do nada a possibilidade da vida útil e criativa, inventaram a ilusão e a beleza do abstrato, o prazer eterno nos braços da musa, e a ideia de imortalidade, para no final da vida breve invejar os passarinhos, que não sonham com recompensas metafisicas nem têm delírios de eternidades.

Evan do Carmo

Morte do Artista

Quando morre um homem,
a vida segue no sangue,
à sombra das gerações,
na memória que existe,
na existência suprimida,
no eco da lembrança que persiste.

Quando morre um artista,
seu corpo é palavra,
acorde metafísico,
sua ausência,
presença indomável.

E no silêncio do século
sua alma repousa
até que outra mão desperte o imponderável.

Sua obra vira fogo,
matéria inextinguível,
atravessa o tempo,
se faz eternidade.

Às vezes é bom cancelar algum compromisso,
relaxar a gravata, dar folga ao ofício.
Ser um homem comum,
que não raro se passa por outro
neste teatro do absurdo,
como personagem de um drama fictício.


Às vezes é bom calar a voz,
segurar a pressa, suspender o vício.
Ficar sozinho, sem ser solitário,
num pacto mudo como um sacrifício.


Às vezes é bom cancelar algum compromisso,
relaxar a gravata, dar folga ao ofício.


Andar nas nuvens, dançar na chuva
e aprender o caminho do vento.
Saber que tudo passa
e que a vida cobra o tempo esquecido
no porão da memória.

Ser Nordestino


Do sol de Apolo, minha força emana
Sou mais que um homem, alma soberana
O meu espírito de Hélade mortal
Resiste a tudo, nunca se dobra ao mal


Eu sou nordeste, a força que não finda
A minha fé é a minha pátria linda
Um povo guerreiro a todo ano,
Cavaleiro celeste do divino,
É forte, é valente, é nordestino!


Somos poeira do cosmos,
Faísca que se faz luz,
Num sopro, Deus nos fez um,
Imagem que nos conduz.
Na fé, tudo é possível,
No sol que é causticante,
Nada para essa armada,
Invencível e constante!


Eu sou nordeste, a força que não finda
A minha fé é a minha pátria linda
Um povo guerreiro a todo ano,
Cavaleiro celeste do divino,
É forte, é valente, é nordestino!⁠

Sabe, eu nunca fui homem de promessas vazias. Olhando para trás, reconheço que houve tropeços e algumas palavras que o vento levou antes que eu pudesse cumpri-las. Mas a promessa principal — aquela de te amar e caminhar ao seu lado sob o "céu — foi a âncora que me manteve firme. O sol pode até ter inveja da nossa história, porque ele se põe todas as noites, mas o que sinto por você nunca conheceu a escuridão.
Lembro-me de cada detalhe daquele dia: o perfume da terra seca, o calor da tarde e a forma como o seu cabelo se soltou quando você caiu em meus braços. Foi ali, entre o ouro da cevada e o brilho do seu olhar, que eu entendi que o paraíso não era um lugar distante, mas qualquer espaço onde você estivesse.
Os anos passaram rápido demais, não é? Como um suspiro. Hoje, observo as crianças correndo com aquela energia inesgotável e vejo nelas o mesmo reflexo do verão que ainda vive em nós. Nossos corpos podem não ter mais a mesma pressa de antes, mas nossos passos ainda ecoam o mesmo ritmo. Quando o vento balança as espigas agora, ele não traz apenas poeira, ele traz a prova de que sobrevivemos, de que construímos algo real.
Obrigado por ter ficado, mesmo quando o céu escureceu. Obrigado por ser o meu porto e o meu amor. Enquanto houver vento soprando do oeste e enquanto houver esse ouro no final de cada tarde, eu estarei lembrando de cada segundo nosso. E, nos dias que ainda nos restam, não importa quantos sejam, eu te faço uma última e definitiva promessa:
Nós caminharemos, hoje e sempre, nos campos de ouro.
Com todo o meu amor e minha vida,
Aquele que sempre caminhará ao seu lado.

Dizem que a sabedoria reside na cautela, que o homem prudente guarda seu coração como um tesouro trancado, esperando o momento exato — ou a segurança plena — para revelá-lo. Se isso for verdade, então confesso, com toda a honestidade do meu peito, que sou o mais tolo dos homens.
​Tentei erguer barreiras, tentei seguir o ritmo lento que o mundo sugere, mas há forças que ignoram qualquer esforço humano. Assim como o rio não pede permissão para correr em direção ao mar, meu caminho parece ter sido traçado para desaguar em você. Não é uma escolha racional; é uma inevitabilidade.
​Eu me vejo diante de você sem armaduras. Se entregar-se assim for um erro, que seja o meu mais belo pecado. Não quero apenas caminhar ao seu lado; quero que você segure minha mão e, com ela, aceite tudo o que sou, meus dias e meus sonhos. Minha vida inteira parece fazer mais sentido se estiver em suas mãos.
​Não consigo evitar. E, para ser sincero, não quero. Algumas coisas simplesmente estão destinadas a acontecer, e amar você é a minha certeza mais bonita.

A Arte da Necrofagia


O homem já não caça.


Habita corredores de luz artificial,
onde cadáveres repousam
sob o brilho estéril das vitrines.


Não há grito.
Não há perseguição.
Não há olhos fitando olhos
antes do fim.


A morte lhe chega limpa.


Lavada em conservantes,
selada a vácuo,
temperada com ervas
para que a consciência
não reconheça o odor da ruína.


E então mastiga.


Mastiga distraído,
enquanto conversa sobre o tempo,
sobre dinheiro,
sobre a próxima manhã.


Como se não houvesse um corpo
silenciosamente desfeito
entre seus dentes.


Há um necrófago refinado
sentado à mesa da civilização.


Usa perfume,
traja linho,
ergue taças em celebração
sobre túmulos invisíveis.


Especializou-se na arte
de consumir a morte
sem precisar contemplá-la.


Porque o homem moderno
não suporta o peso daquilo que devora.


Por isso cobre o cadáver com molhos,
renomeia músculos como iguarias,
transforma vísceras em tradição
e sangue em mercado.


O abutre, ao menos,
desce faminto sobre a carne exposta
e não profana a verdade do apodrecimento.


Mas o homem…
o homem embalsama a própria cegueira
e, com requinte, a serve quente no jantar.

O Aparente Fracasso do Homem Espiritual


Por que me fizeste sentir tão fundo,
Se tudo o que toco se vai?
Carrego nos olhos o mundo,
Mas dentro… só há o jamais.


Fui verso jogado ao vazio,
Fui fogo querendo calor.
Fui rio pedindo abrigo,
Mas só recebi desamor.


Falei com o alto silêncio,
E ele me ouviu sem falar.
Toquei no tempo que escoa,
Mas ele não quis parar.


De que vale saber o caminho,
Se o passo me pesa demais?
De que vale ver o destino,
Se ele sangra em sinais?


Quis tanto amar sem medida,
Mas o peito virou prisão.
Hoje sou sombra ferida
De uma antiga canção.


E mesmo sangrando no escuro,
Há algo maior que o reverso.
Não estou só, nem perdido:
Eu habito no seio da Mãe do Universo.






Há um buraco no peito da humanidade.
Uma fome que não se sacia.
Uma sede que não é de água,
nem de pão,
nem de toque.


É um vazio estranho,
íntimo,
incômodo —
mas também familiar.


Tentamos preenchê-lo com coisas:
compras, conquistas, curtidas.
Enchemos de distrações,
de ruídos,
de excessos.


Mas quanto mais colocamos,
mais ele se abre.


Porque não é um vazio de falta...
É um vazio de excesso.
Excesso de mentiras.
Excesso de ausências.
Excesso de vida vivida pra fora,
pra parecer,
pra performar.


O vazio que nos habita
não se preenche com ter,
nem com ser alguém aos olhos do mundo.


Ele se aquieta quando lembramos…
que somos mais do que a casca.
Mais do que o nome, o cargo, o corpo.


Ele se rende
quando a gente para,
se escuta,
e deixa espaço
pra aquilo que não tem nome —
mas sempre esteve aqui.


E só atravessa…
quem tem coragem de não fugir mais de si.


É no centro desse vazio
que mora a porta.

Pra dentro.
Pra casa.


Pra Fonte.

AOS PSIQUIATRAS A PROCURA DE FAMA E APROVAÇÃO - A VOZ QUE NÃO CABE NO MANUAL


Quando um homem normal escreve sobre o autismo, dizem que é ciência.
Quando um autista escreve sobre o homem normal ou sua própria experiência, dizem que é delírio.


O primeiro ganha aplausos, o segundo ganha silêncio e às vezes, diagnóstico para pertencer ao circo imaginário.


Parece que o mundo só aceita a diferença quando ela vem traduzida no idioma da maioria?


Mas há coisas que só quem vive pode dizer. E o que se vive, não se explica, se revela, não se inventa ou distorce para próprio benéficio.


Talvez seja isso que tanto assuste,
ver a lucidez onde esperavam loucura,
ou encontrar humanidade onde só enxergavam um caso clínico?


Enquanto isso, seguimos escrevendo,
não para provar que existimos,
mas para lembrar que pensar diferente
também é uma forma de poesia.


Lembre da hora da morte, daqui não se leva nem o corpo, muito menos a fantasia.

Soneto “Meus pais”

Alonso e Eunice (em memória)



Seu Alonso, meu pai conselheiro

Homem trabalhador, conhecido por “Meus Amigos”

Ajuda a todos, chama-os de queridos

Sustentou os filhos com o suor de pedreiro.



Dona Eunice, minha mãe educadora

Mulher persistente, intitulada “Minha Amada”

Orientou a tantos, pela educação foi obstinada

Sustentou os filhos com a função de professora.



Ele, eterno “vizinho”, sereno, flamenguista animado

Da família Tavares, cresceu no Acai do Lago Grande

Pai amável, tio carinhoso, esposo apaixonado.



Ela, eterna “diretora”, resiliente, franciscana empenhada

Da família Ferreira, cresceu no Atumã de Alenquer

Mãe incansável, tia inspiradora, esposa dedicada.



Santarém - Pará, 26/08/25.

O Homem que Sobrou de Todos os Homens

Antes de mim
já havia o silêncio.

Depois,
alguém acendeu uma luz
e chamou aquilo de nascimento.

Não me perguntaram
se eu queria estar aqui.

Deram-me um corpo,
um nome,
um punhado de ossos
e uma consciência inquieta
demais para caber dentro deles.

Passei a infância
aprendendo o tamanho das coisas.

O quintal parecia infinito.
O céu não terminava.
O tempo não tinha pressa.

Eu ainda não sabia
que um dia os relógios
começariam a devorar pessoas.

Nem que homens adultos
acordariam cedo
para vender seus dias
em troca de dinheiro
com o qual comprariam
mais alguns dias.

Eu ainda não sabia
que crescer seria
descobrir lentamente
que quase tudo aquilo
que chamávamos de escolha
já vinha com preço.

Então cresci.

E o corpo cresceu comigo.

Mas dentro dele
continuava aquele menino
batendo nas paredes
de uma casa que não sabia
ser sua.

Foi quando comecei
a desmontar o universo.

Procurei Deus
atrás das estrelas.

Depois procurei estrelas
dentro dos átomos.

Procurei respostas
na matéria,

e encontrei vazio.

Procurei vazio,

e encontrei movimento.

Procurei movimento,

e encontrei caos.

Procurei o caos,

e encontrei a mim.

Talvez tenha sido aí
que tudo começou a dar errado.

Porque descobrir a própria consciência
é uma forma sofisticada
de perder a inocência.

Depois que percebemos
que estamos vivos,

não conseguimos mais
fingir que não estamos.

E eu pensei demais.

Pensei até o pensamento
ficar pesado.

Pensei até transformar
a própria cabeça
em um quarto sem janela.

Houve noites
em que o silêncio
tinha mais presença
que qualquer pessoa.

O mundo dormia.

Eu não.

Eu contava as rachaduras
do teto
como quem procura
uma saída no mapa de uma prisão.

Às vezes queria desaparecer.

Não como quem deseja um fim,

mas como quem deseja
que alguém apague
uma palavra escrita errada
antes que a página inteira
seja condenada por ela.

Queria ser menos eu.

Depois descobri
que era impossível.

Então tentei ser outra coisa.

Fui raiva.

Fui veneno.

Fui punho.

Fui grito.

Fui a palavra que ninguém queria ouvir
na mesa onde todos fingiam
que estava tudo bem.

Olhei para o mundo
e achei que ele merecia
ser destruído.

Depois olhei melhor
e percebi:

eu também fazia parte dele.

Essa foi uma descoberta pior.

Porque é fácil odiar monstros
quando acreditamos não possuir dentes.

Mais difícil é perceber
que às vezes o monstro
mora no espelho
e paga suas próprias contas.

Ainda assim, lutei.

Contra homens.

Contra ideias.

Contra sistemas.

Contra deuses.

Contra o destino.

Contra mim.

E por algum tempo
confundi liberdade
com não pertencer a nada.

Que erro.

A liberdade não é ausência de correntes.

É saber quais delas
você aceita carregar.

Então veio o amor.

E eu, que desconfiava
de quase tudo,

acreditei.

Que ironia.

Passei anos procurando
uma prova de que a vida tinha sentido

e bastou alguém
olhar para mim
como se eu tivesse.

O amor não me salvou.

Nenhum amor salva.

Ele apenas mostrou
que havia coisas
pelas quais valia a pena
continuar lutando.

E isso foi suficiente.

Depois vieram as perdas.

Porque toda coisa que amamos
carrega consigo
a possibilidade de nos ferir.

Aprendi tarde
que algumas pessoas
não ficam.

Algumas são passagem.

Algumas são cicatriz.

Algumas são casa
e algumas são incêndio.

E algumas conseguem ser
as duas coisas.

Continuei andando.

Não por coragem.

Por insistência.

Há uma diferença.

Coragem olha para o abismo
e decide saltar ou não.

Insistência simplesmente
acorda no dia seguinte.

Eu acordei muitas vezes.

Algumas sem vontade.

Algumas sem esperança.

Algumas sem saber
o que fazer comigo.

Mas acordei.

E um dia percebi
que havia outras pessoas
acordando por minha causa.

Foi então que o homem
que queria desaparecer
começou a compreender
o peso de permanecer.

Já não era apenas meu corpo.

Já não era apenas minha vida.

Havia mãos pequenas
que ainda não entendiam
a palavra futuro,

mas já eram capazes
de mudar o meu.

Foi nesse instante
que o tempo deixou de ser inimigo.

Ele passou a ser herança.

E compreendi algo
que nenhuma equação
havia conseguido me ensinar:

nós não somos apenas
aquilo que lembramos.

Somos também
aquilo que ensinamos
sem perceber.

Somos a frase que alguém repete
anos depois.

O gesto que alguém reproduz.

A coragem que alguém encontra
porque um dia viu a nossa.

Somos aquilo que permanece
quando o nome já não está
na boca de ninguém.

Talvez seja essa
a única forma humana
de eternidade.

Não durar.

Continuar.

Hoje ainda tenho perguntas.

Muitas.

Algumas envelheceram comigo.

Outras nasceram ontem.

Ainda desconfio de Deus.

Ainda desconfio dos homens.

Ainda desconfio de mim.

A diferença é que já não preciso
resolver todos os mistérios
para apreciar o fato
de estar dentro deles.

Já não preciso compreender
o universo inteiro
para amar alguém
nesta pequena parte dele.

Já não preciso vencer
todas as batalhas
para reconhecer
que sobrevivi a algumas.

E já não quero apagar
nenhuma versão de mim.

O menino.

O revoltado.

O apaixonado.

O bêbado de pensamentos.

O homem perdido.

O homem arrogante.

O homem quebrado.

O homem que achou
que não haveria amanhã.

Todos eles continuam aqui.

Não como fantasmas.

Como fundação.

Eu sou o erro
que aprendeu com o erro.

A ferida
que aprendeu a fechar
sem esquecer onde doeu.

A pergunta
que desistiu de exigir resposta.

O caos
que encontrou uma maneira
de não destruir tudo.

A matéria
que, por algum acidente absurdo,
aprendeu a amar.

E talvez seja isso
que mais me assuste:

depois de passar tanto tempo
querendo descobrir
o que existe depois da vida,

eu finalmente comecei
a prestar atenção
no que existe dentro dela.

Um café quente.

Uma madrugada.

Uma discussão.

Um abraço.

Uma criança dormindo.

Uma fotografia antiga.

Um erro que ainda dói.

Uma gargalhada inesperada.

Uma pessoa dizendo
“fica”.

O sol entrando pela janela
sem pedir licença.

A vida.

Essa coisa estranha
que nunca explicou
por que me escolheu.

E que, ainda assim,
eu escolhi de volta.

Quando meu corpo finalmente cansar,

quando a matéria
voltar a ser matéria,

quando meu nome for apenas
uma palavra antiga
em alguma boca distante,

não quero que digam
que fui um homem sem respostas.

Eu fui pior.

Fui um homem cheio delas.

Tive respostas demais
para perguntas erradas.

Passei metade da vida
tentando descobrir
como escapar do labirinto.

A outra metade
aprendendo a construir
janelas dentro dele.

E se algum dia
alguém encontrar minhas palavras,

não procure nelas
um homem pronto.

Não existe.

Procure um homem
tentando.

Porque foi isso
que eu fiz.

Tentei.

Tentei entender.

Tentei amar.

Tentei odiar.

Tentei fugir.

Tentei ficar.

Tentei ser pai.

Tentei ser filho.

Tentei ser homem
antes mesmo de descobrir
o que isso significava.

Tentei transformar dor
em alguma coisa que não fosse desperdício.

Às vezes consegui.

Às vezes não.

Mas escrevi.

E talvez escrever tenha sido
a maneira mais honesta
que encontrei
de deixar sangue no papel
sem precisar morrer por ele.

Agora olho para trás.

Há muitos homens
espalhados pela estrada.

Todos têm meu rosto.

Nenhum é exatamente eu.

Eu sou o intervalo
entre eles.

O espaço invisível
onde um termina
e outro começa.

Sou o menino
que ainda olha para o céu.

O homem
que ainda pergunta.

O pai
que já sabe que amanhã chegará.

E o velho
que ainda não conheço.

Talvez um dia
eu finalmente compreenda
por que nasci.

Talvez não.

Mas já não tenho tanta pressa.

Tenho coisas para fazer.

Tenho pessoas para amar.

Tenho erros para corrigir.

Tenho histórias para contar.

Tenho amanhã.

E, pela primeira vez,

isso não parece pouco.

Parece infinito.

Porque agora eu sei:

não é preciso vencer a morte.

Basta não deixar
que ela seja a última coisa
a dizer quem fomos.

Então, quando chegar minha vez,

que o universo faça comigo
o que sempre fez com tudo:

me desmonte.

Quebre meus átomos.

Espalhe minha matéria.

Devolva meu corpo
ao chão.

Não me importo.

Porque antes disso
eu terei sido muitas coisas.

E algumas delas
terão ficado.

Num filho.

Num abraço.

Numa lembrança.

Numa cicatriz.

Num riso.

Numa página.

E talvez,
em algum lugar,

um homem que nunca conhecerei
leia estas palavras
e perceba que não está sozinho.

Então tudo terá valido a pena.

Não porque eu descobri
o sentido da vida.

Mas porque, no fim,

eu finalmente descobri
que o sentido não estava esperando
por mim em lugar algum.

Eu estava construindo.

Enquanto caía.

Enquanto amava.

Enquanto errava.

Enquanto envelhecia.

Enquanto escrevia.

E entre todos os homens
que eu fui,

entre todos os homens
que ainda posso ser,

há somente um
que permanece.

Não o primeiro.

Não o último.

Mas aquele que escolheu
continuar.

Eu.