A Arte da Necrofagia O homem já não... Danyyel Elan
A Arte da Necrofagia
O homem já não caça.
Habita corredores de luz artificial,
onde cadáveres repousam
sob o brilho estéril das vitrines.
Não há grito.
Não há perseguição.
Não há olhos fitando olhos
antes do fim.
A morte lhe chega limpa.
Lavada em conservantes,
selada a vácuo,
temperada com ervas
para que a consciência
não reconheça o odor da ruína.
E então mastiga.
Mastiga distraído,
enquanto conversa sobre o tempo,
sobre dinheiro,
sobre a próxima manhã.
Como se não houvesse um corpo
silenciosamente desfeito
entre seus dentes.
Há um necrófago refinado
sentado à mesa da civilização.
Usa perfume,
traja linho,
ergue taças em celebração
sobre túmulos invisíveis.
Especializou-se na arte
de consumir a morte
sem precisar contemplá-la.
Porque o homem moderno
não suporta o peso daquilo que devora.
Por isso cobre o cadáver com molhos,
renomeia músculos como iguarias,
transforma vísceras em tradição
e sangue em mercado.
O abutre, ao menos,
desce faminto sobre a carne exposta
e não profana a verdade do apodrecimento.
Mas o homem…
o homem embalsama a própria cegueira
e, com requinte, a serve quente no jantar.
