A árvore e o homem. No grande Reino da... Weslley Marcelo Massako...
A árvore e o homem.
No grande Reino da Utopia, havia uma árvore que nascera no meio de um deserto e que, apesar de todas as adversidades, crescera até se tornar, magicamente, falante e sábia. A árvore atraía a admiração de muitas pessoas, e várias delas iam ouvi-la em busca de conselhos.
A árvore tornou-se um fenômeno: era cultuada, protegida, consultada e admirada. Amada por todos os cidadãos do Reino da Utopia, exceto por um. Havia um homem que não suportava mais ouvir falar dela e que, em seus pensamentos mais sombrios, desejava vê-la destruída. Afinal, considerava-se superior à árvore; para ele, era inadmissível que um vegetal compreendesse as questões humanas. Contudo, como ela era extremamente protegida, entendeu que a única forma de acabar com a sua fama seria destruindo as suas ideias. Como não adiantaria jogar palavras ao vento, pois ninguém lhe daria ouvidos, resolveu marcar uma audiência com a árvore para, enfim, debater com ela.
O homem preparou-se para o debate. Leu, pesquisou e instruiu-se de todas as formas. Em seu íntimo, já se julgava possuidor de todo o conhecimento necessário para superar a árvore. Então, o encontro aconteceu.
Diante dela, o homem pôde finalmente contemplá-la ao vivo. Era frondosa, com raízes firmes e folhagens de uma coloração tão viva que se destacavam naquela paisagem árida. Pássaros faziam ninhos em seus galhos, e animais, por vezes, descansavam à sua sombra.
Embora tivesse ficado admirado, o homem não permitiu que a contemplação lhe tirasse o foco: destruir as ideias daquela árvore.
De modo educado, com uma voz que parecia um assovio passando por entre as folhas, a árvore cumprimentou o homem.
- Bom dia!
- Não tão bom, mas espero que melhore até o entardecer! — respondeu o homem.
- Mas o dia já está bom — replicou a árvore.
Fez-se um breve silêncio. Então, o homem encheu o peito de coragem e perguntou:
Como você pode afirmar que o dia já está bom, se, em todas as partes do reino, há pessoas sofrendo as piores dores e existem mazelas por toda parte? Essa afirmação de que o dia já está bom não seria desumana para com aqueles que sofrem?
A árvore ouviu o comentário do homem e, após alguns segundos, respondeu:
Homem! O dia sempre está, e sempre estará, bom. Todos os dias, este universo produz, dentro de sua maravilhosa engenharia, o dia e a noite, presenteando-nos com ambos. Esse é o bem maior. As mazelas e os sofrimentos pelos quais afirmas que os homens passam são apenas condições humanas que, surgidas no presente ou no passado, refletem-se e, quiçá, ecoarão no futuro. Independentemente de as mazelas serem causa ou consequência, evitáveis ou inevitáveis, contraídas ou desenvolvidas, aos olhos do universo o dia e a noite permanecerão impassíveis. O homem pode, apesar das suas dores, sorrir e agradecer, assim como pode sofrer e maldizer; mas o dia continuará sendo dia, e a noite continuará sendo noite. Diante da grandiosidade com que o universo se apresenta aos nossos olhos, as demais situações, sejam de fortuna ou de infortúnio, tornam-se pequenas. É por isso, e por tudo que está além disso, que devemos ser gratos.
O homem pensou e respondeu:
Você misturou a engenharia universal à engenharia humana e usou a grandiosidade da criação para fazer o homem se prostrar. Colocou-nos como seres que devem ser gratos pelas ingratidões recebidas, e não como parte desse universo. Apresentou-nos como meros “abrigados” que precisam agradecer pelo teto sobre a cabeça, e não como seres criados pelo próprio universo, capazes de desfrutar de toda a criação. Mas você é apenas uma árvore. Como pode conhecer os sentimentos humanos? Como pode, ao mesmo tempo, equiparar e diminuir a criação universal?
Homem! As respostas às tuas indagações estão nas tuas próprias afirmações. Pensa. Dizes que somos criados pelo mesmo universo e que fazemos parte da mesma criação, e não estás errado. Mas, ao dizer que somos parte de um todo, reconheces que uma parcela desse universo está em nós; não podes, porém, afirmar que o possuímos por completo. O universo nos contém e, em parte, também está contido em nós. Somos parte dessa matéria universal que dá forma e vida a tudo. Assim, embora nossas formações sejam classificadas de maneiras diferentes — afinal, tu pertences ao reino animal, e eu, ao vegetal —, ao final, nossa matéria será absorvida por este planeta, que também está contido no universo.
Quanto aos sentimentos que colocas em discussão, seria pequeno dizer que, assim como não posso compreender plenamente os sentimentos humanos, tu também não serias capaz de compreender o sentimento de uma árvore. Para que minha resposta não seja pequena nem vulgar, afirmo-te que os sentimentos pertencem aos animais e, de modo semelhante, a todas as coisas vivas. São formas diferentes de sentir, mas ainda assim existentes. Se o humano precisa sentir-se vivo para perceber e desenvolver sentimentos, entenda que todas as coisas vivas passam por algum processo semelhante. As formas, os resultados e as expressões são diferentes, mas o processo permanece. Posso não compreender nem decifrar a complexidade dos sentimentos humanos, mas garanto que também não consegues decifrar a simplicidade dos meus.
O homem refletiu e disse:
Então afirmas que os seres humanos são superiores em sentimentos e, consequentemente, mais complexos do que um vegetal? Se assim afirmas, hás de concordar que somos superiores. E, se somos superiores, não precisamos nos curvar diante de qualquer ser menos evoluído. Se discordares da minha visão, irás contra tua própria afirmação, pois disseste que, embora sejamos parte deste universo, nós, os seres animais, somos mais desenvolvidos e complexos.
Homem! Há verdade no que dizes, dentro da tua própria verdade. Os homens possuem verdades que ultrapassam a própria razão. Suas vontades e crenças, seus desejos e paixões, sacrificam qualquer lógica que possa ser adotada em favor das próprias convicções. A verdade nem sempre importa ao homem; o que importa é estar certo. E essa é uma das correntes que aprisionam um homem ao outro. Afinal, o homem é senhor do homem.
Sentindo-se ofendido, o homem elevou a voz:
Árvore! Afirmas que o homem é escravo do homem? Dizes que não temos liberdade nem livre-arbítrio? E tu, enraizada, não podes contemplar a beleza deste mundo; presa ao solo, viverás nessa condição até o fim. Quando chegares ao teu fim, quem sabe serás transformada em um móvel ou até em lenha para a fogueira! Quem és tu, limitada como és, para nos julgar?
A árvore permaneceu em silêncio, e o silêncio incomodou o homem. Passados alguns minutos, ela respondeu em tom quase melancólico:
Tu disseste mal aquilo que interpretaste bem. Sim, em minha condição de árvore, estou presa a este solo, mas essa é minha condição natural, e eu a aceito. Desenvolvi raízes profundas e firmei-me nesta terra, de onde retiro os nutrientes necessários à sobrevivência. Essa é minha condição como vegetal; outra condição não seria natural. Contudo, condição e imposição não se confundem. É minha condição ser árvore, mas pode ser-me imposto tornar-me móvel ou lenha para a fogueira, como disseste. Ainda assim, não deixarei de ser a árvore que sou; será algo imposto a mim. Serei, quem sabe, um belo móvel que um dia foi árvore, mas nunca o contrário.
No entanto, observo que tu, homem, como indivíduo, crês ser livre, mas vives em uma sociedade de rótulos e regras, na qual predomina um superficialismo barato, sustentando uma estrutura frágil como um castelo de cartas. Vives sob regras impostas desde o nascimento e ainda dizes ser livre. Foste doutrinado e ensinado sobre o que comer, beber, vestir, falar e acreditar, enquanto afirmas aos quatro ventos que és dono de ti mesmo.
És livre para fazer tuas escolhas, mas escravo das próprias escolhas que te fazem livre. Tuas raízes são diferentes das minhas e talvez sejam ainda mais profundas. Se o homem é livre dentro de uma liberdade determinada por outro homem, então escravo és. És escravo da própria vida. Em minha condição de árvore, só posso ver até onde meus olhos alcançam; o homem, embora consiga enxergar além das estrelas, muitas vezes não consegue ver sequer os próprios semelhantes. Humanos classificando humanos, humanos rotulando humanos. Pergunto: isso é humanidade? Se me disseres que não, onde se encontram os homens que não agem assim? Eu estou presa ao solo, e o homem, preso aos próprios conceitos. O solo é o meu carcereiro. E qual é o carcereiro do homem?
Naquele momento, o homem silenciou.
Pensa. Reflete!
Paz e bem!
Graça, graça, graça!
Massako
