Juliano Lamounier Rossi
"A arte jamais se confunde com o crime; é o próprio crime que, por vezes, assume os contornos da arte."
"A lei é expressão normativa do Estado, enquanto a moralidade reside no foro íntimo da consciência — e nem sempre caminham lado a lado."
Estrangeiro em Minha Própria Terra
Sou brasileiro de nascimento,
mas estrangeiro por inclinação;
caminho entre vozes familiares
e nelas não encontro habitação.
Não me seduzem as celebrações ruidosas,
nem o fervor das multidões em festa;
há em meu espírito um silêncio antigo
que à algazarra sempre se manifesta.
Não busco abrigo em bares iluminados,
nem encanto nas noites de ocasião;
vejo taças erguidas ao instante efêmero,
enquanto procuro sentido e reflexão.
As tradições que muitos exaltam
não despertam em mim admiração;
parecem-me frágeis como névoa dispersa,
incapazes de prender meu coração.
Onde outros encontram alegria,
encontro apenas breve distração;
onde celebram costumes e símbolos,
percebo distância e contemplação.
Talvez o erro não esteja na terra,
nem no povo, nem na canção;
talvez eu seja apenas um viajante
em perpétua busca de outra visão.
E assim prossigo, só e pensativo,
entre a pertença e a negação;
brasileiro pelo acaso do destino,
mas cidadão da inquietação.
A Herança do Silêncio
Nasci entre multidões,
todavia jamais encontrei morada.
As vozes entrelaçavam-se em incessante rumor,
mas nenhuma aspirava ao peso das ideias.
Celebravam efêmeros esplendores,
como se o transitório bastasse à existência;
enquanto a contemplação, a filosofia
e a memória das civilizações
definhavam na penumbra do esquecimento.
Percorri incontáveis caminhos
em busca de um destino compartilhado,
sedento pelo mistério das origens,
pela arquitetura do pensamento,
pela grandeza que transcende o instante.
Encontrei apenas superfícies.
Sorrisos sem permanência.
Palavras sem substância.
Encontros destituídos de comunhão.
Descobri, então,
que a mais severa das solidões
não floresce na ausência de companhia.
Ela habita a convivência
quando nenhum destino
alcança a profundidade do outro.
Minha morada converteu-se em refúgio.
A cidade tornou-se território estranho.
E até o vínculo consanguíneo
passou a recordar um antigo monumento:
permanece erguido,
mas há muito deixou de ser habitado.
À mesa, os corpos persistem;
os afetos, contudo, dissipam-se
na sucessão das horas indiferentes.
Cada qual encerra-se
na fortaleza invisível de si mesmo,
onde nenhuma palavra atravessa os muros
e nenhum silêncio encontra tradução.
Compreendi, por fim,
que o verdadeiro exílio
não se mede em léguas,
nem se escreve nos mapas.
Ele principia
quando o destino já não encontra
outro destino capaz de partilhar
a mesma reverência pelo conhecimento,
pela beleza,
pela reflexão
e pelo infinito.
Desde então, caminho.
Não à procura de um lugar,
pois os lugares pertencem ao mundo.
Procuro um destino
no qual o pensamento
não seja estrangeiro.
E enquanto ele não se revela,
permaneço habitando
a mais vasta das distâncias:
aquela que separa
dois destinos incapazes
de reconhecer-se.
Principalmente em regiões interioranas de estados mais conservadores, muitos pais educam seus filhos com base em interpretações equivocadas ou informações imprecisas sobre as leis, acreditando agir em benefício deles. No entanto, essa conduta pode, na prática, restringir direitos, comprometer a vida social e econômica e impor limitações e punições desnecessárias.
Estado de Suspensão
Pareço ter nascido em coma,
entre o despertar e o esquecimento,
como quem abre os olhos
sem jamais alcançar a vigília.
Tudo anuncia um princípio,
como a aurora que promete eternidade,
mas, antes que o primeiro passo encontre o chão,
o caminho já se dissolveu.
As sementes ensaiam romper a terra,
contudo, fenecem antes da primavera.
Os horizontes acenam com abundância,
e recuam no instante em que me aproximo.
Nada se concretiza.
As formas apenas simulam permanência.
O futuro veste-se de certeza,
para despir-se em um único piscar de olhos.
Coleciono começos
como quem herda ruínas.
Cada esperança ergue um edifício,
e cada instante o reduz ao pó.
Talvez a vida seja apenas
uma arquitetura de miragens,
onde tudo parece prestes a existir,
mas escolhe permanecer possibilidade.
E sigo...
não entre vitórias ou fracassos,
mas entre o quase e o jamais,
como alguém condenado
a contemplar o nascimento das coisas
sem nunca assistir ao seu florescer.
Você importa?
Eu importo?
Quem importa?
Por que devemos importar?
Somos nomes escritos na fumaça,
Promessas levadas pelo vento.
Cada certeza muda de lado,
Quando o tempo muda o argumento.
Você procura um lugar no espelho,
Eu procuro um espelho no lugar.
Talvez a resposta nunca exista,
Ou apenas tenha medo de falar.
Se tudo passa...
O que permanece?
Se tudo pesa...
Quem é que merece?
Você importa?
Eu importo?
Quem importa no final?
Por que devemos importar,
Se o mundo gira sem pedir permissão?
Você importa?
Eu importo?
Ou só importa acreditar?
Talvez ninguém importe para todos...
Mas alguém sempre importa para alguém.
A multidão escolhe seus heróis,
Depois esquece seus próprios nomes.
Constrói castelos sobre aplausos,
E ruínas sobre os homens.
Cada vitória perde o brilho,
Cada derrota muda de cor.
Talvez o fracasso seja liberdade,
E o sucesso, outro tipo de prisão.
Quem mede o valor de uma vida?
Quem escreve a última palavra?
Quem separa o eterno do instante?
Quem responde quando o silêncio fala?
Você importa?
Eu importo?
Quem importa quando a luz se apaga?
Por que devemos importar,
Se até as estrelas um dia se calam?
Você importa?
Eu importo?
Talvez a pergunta esteja errada.
Porque, no fim,
Quem procura tanto por importância
Talvez nunca descubra o sentido de existir.
Você importa?
Eu importo?
Quem importa?
Por que devemos importar?
...Ou será que apenas existimos?
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Essa é a Minha Mãe
Minha mãe nasceu no regime machista,
onde o silêncio era educação,
onde mulher aprendia cedo
que obedecer também era obrigação.
Ela cresceu ouvindo que homem manda,
que mulher deve compreender,
que certas portas não eram para ela,
e que questionar era aprender a perder.
Hoje ela cultiva o machismo,
não porque inventou suas raízes,
mas porque algumas correntes antigas
parecem familiares demais para serem vistas.
A visão dela é machista,
e talvez ela nem perceba.
Carrega dentro dos próprios olhos
a mesma prisão que um dia a cercou.
O feminismo nunca existiu na vida dela,
não como escolha, não como caminho.
Talvez porque, quando ela era jovem,
ninguém lhe mostrou que havia outro destino.
Talvez ela nunca tenha conhecido o feminismo.
Talvez nunca tenha precisado desse nome.
Talvez tenha apenas aprendido a sobreviver
com as regras que lhe deram.
Não uma vilã.
Não uma santa.
Apenas uma mulher moldada pelo seu tempo,
que carregou o passado para dentro do presente.
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A Guerra Que Eu Não Sabia Que Existia
Eu fui leigo sobre o machismo e o feminismo
por muito tempo.
Não por negar,
mas simplesmente por não saber.
Para mim, o feminismo era algo superficial,
uma palavra distante,
quase resumida à igualdade salarial,
ao direito de receber o mesmo
pelo mesmo trabalho.
Eu não enxergava o que existia por baixo das palavras.
Na minha cabeça,
homens eram homens,
mulheres eram mulheres,
e ambos simplesmente viviam.
Eu cresci acreditando que os dois caminhos eram normais.
Não havia guerra dentro de mim,
não havia bandeira,
não havia lado.
Eu não acordava pensando em machismo.
Não acordava pensando em feminismo.
Eu apenas acordava.
Minha socialização não parecia carregar ideologias.
Eu conversava, trabalhava, brincava, amava,
sem imaginar que determinados comportamentos
poderiam carregar séculos de história.
Nada parecia mudar meu comportamento.
Eu não pensava:
“isso é masculino”
ou
“isso é feminino”.
Eu simplesmente fazia.
E talvez essa tenha sido a minha maior ignorância:
acreditar que aquilo que parecia natural
era necessariamente neutro.
Eu não sabia que existiam guerras sociais
acontecendo enquanto eu vivia.
Guerras feitas de palavras,
de comportamentos,
de expectativas,
de culpas herdadas
e de feridas que eu sequer conhecia.
Eu caminhava no meio do campo de batalha
sem saber que havia uma batalha.
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Jesus Cristo foi um homem de grande conhecimento e sabedoria, dignos de um rei, mas foi perseguido e condenado por um crime considerado hediondo. Em razão disso, passou a conviver com os plebeus e a sofrer as consequências de sua condição e do meio em que estava inserido.
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A Mentira do Coletivo
A infelicidade não reside,
necessariamente, na árdua convivência em busca do coletivo, nem se dissolve no isolamento voluntário daqueles que recusam o convívio.
Há, em todo meio, em toda sociedade,
quem habite uma realidade imaginada,
erguendo, dentro da própria mente,
palácios onde apenas existem ruínas.
Alguns sorriem para o mundo
porque assim lhes ordena a própria fantasia; transformam o cárcere em morada, e a ilusão, em uma espécie de liberdade.
Não raro, a mente constrói seus próprios deuses, suas verdades, seus caminhos e certezas, e o indivíduo, prisioneiro de tais invenções,
confunde a paz aparente com felicidade.
Enquanto isso, outro contempla o mesmo cenário sem o véu que suaviza suas imperfeições.
Vê o vazio onde outros encontram sentido, percebe a contradição onde outros encontram ordem.
E talvez esteja aí o paradoxo mais cruel:
há quem sofra por viver dentro da própria mente, e há quem sofra por permanecer lúcido dentro de um mundo que prefere a ilusão.
Não é o coletivo que condena,
nem o isolamento que absolve.
O sofrimento, muitas vezes, nasce
da distância entre aquilo que somos
e aquilo que necessitamos acreditar que somos.
Assim, entre a realidade e a fantasia,
caminha o homem em sua eterna contradição: uns felizes por não enxergarem o abismo,
outros infelizes justamente por enxergá-lo.
E talvez a verdadeira solidão
não seja estar entre os homens,
mas estar entre eles
sem conseguir habitar a mesma mentira.
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Não há, em uma estrutura política republicana, um indivíduo que represente, por si só, toda a nação. Cada indivíduo pertence a determinado Estado e está inserido em um contexto social específico.
Portanto, a política deve ser compreendida como um instrumento de administração destinado a organizar a sociedade e promover o benefício da população. O problema surge quando as pessoas confundem o meio social com a administração política.
A sociedade é constituída pelos indivíduos e pelos diferentes meios nos quais estão inseridos; a política, por sua vez, é apenas o mecanismo administrativo utilizado para conduzir os interesses coletivos e atender às necessidades da população.
A sexualidade, quando transformada em estímulo constante e exposta sem maturidade, pode banalizar o desejo e influenciar negativamente a formação do indivíduo, levando-o a enxergar o outro de maneira superficial ou vulgar. A inocência, por sua vez, representa uma fase em que valores como respeito, limites e dignidade podem ser construídos antes que os impulsos assumam protagonismo. O problema, portanto, não está na sexualidade em si, mas na sua banalização e na ausência de maturidade para compreendê-la.
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A arte e a música brasileira produzidas a partir da década de 1980, especialmente o rock e o metal, carregavam consigo marcas profundas da resistência e da indignação contra os anos de repressão impostos pela ditadura. A fúria presente nas letras, nos instrumentos e nas atitudes não era apenas estética: representava a necessidade de uma geração de recuperar a liberdade de expressão e confrontar uma sociedade que havia sido silenciada.
O rock e o metal tornaram-se, portanto, manifestações de inconformismo social e político. Eram vozes que transformavam revolta em arte, questionando autoridades, costumes e estruturas sociais. Mais do que simples entretenimento, aquela produção artística refletia o desejo coletivo de romper com o medo e recuperar o direito de pensar, criticar e existir livremente.
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A cultura, muitas vezes, parece funcionar como uma espécie de terapia coletiva para as inquietações humanas. Cada indivíduo procura, nos hábitos, nos grupos e nos comportamentos sociais, formas de lidar com seus próprios conflitos, carências e contradições.
Há os que encontram conforto na intensidade emocional, tornando-se excessivamente afetivos, melosos ou ciumentos; outros buscam na agitação, nas relações passageiras e na intensidade dos prazeres uma forma de escapar do vazio. Existem ainda aqueles que se refugiam no isolamento, na reflexão e na intelectualidade, transformando a distância social em um mecanismo de proteção ou compreensão do mundo.
Talvez a sociedade não seja formada por pessoas plenamente equilibradas, mas por diferentes maneiras de administrar a própria desordem interior. A cultura, nesse sentido, não apenas expressa quem somos: ela também se torna o espaço onde cada indivíduo encontra uma forma socialmente aceita de conviver com aquilo que carrega dentro de si.
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O mundo é feito de figurinos: cada indivíduo veste uma aparência, um comportamento e um discurso conforme o palco em que deseja ser aceito. Há quem se cubra de virtudes, quem exiba poder, quem finja indiferença e quem transforme a própria identidade em espetáculo. Poucos, porém, têm coragem de permanecer sem máscaras.
A sociedade frequentemente não pergunta quem você é, mas qual personagem você consegue sustentar?
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Nasci em uma época em que o feminismo ampliava a liberdade e transformava os costumes, inclusive na forma de se relacionar. Na adolescência, conheci o “ficar” e passei a enxergá-lo como uma etapa natural da conquista, acreditando que fazia parte da experiência de qualquer indivíduo.
Somente na vida adulta compreendi que aquilo que eu considerava normal era apenas uma construção social do meu tempo. Existem pessoas que valorizam relações mais livres e outras que preservam princípios conservadores.
Talvez amadurecer seja justamente compreender que o que aprendemos como normal para nós não necessariamente é normal para todos — e que diferentes escolhas podem coexistir, desde que haja respeito pelos limites e valores de cada indivíduo.
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Quem criou a humanidade?
Em certo sentido, a própria humanidade.
Foi a ciência que nos afastou da simples condição de sobrevivência e nos conduziu à civilização.
Sem conhecimento, seríamos apenas criaturas guiadas pelo instinto.
Talvez a maior criação do ser humano tenha sido justamente a capacidade de compreender a si mesmo e transformar o mundo ao seu redor.
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Cheguei a um ponto da vida em que comecei a questionar a própria utilidade da cultura. Não porque o conhecimento tenha perdido seu valor, mas porque percebi que saber mais nem sempre significa viver melhor. A cultura amplia a consciência, mas também revela a dimensão da ignorância, da hipocrisia e das contradições humanas. Talvez o verdadeiro desencanto esteja justamente nisso: quanto mais compreendemos o mundo, menos ilusões nos restam sobre ele.
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O conservadorismo não transforma ninguém em uma pessoa melhor, tampouco impede alguém de ser desprezível. É apenas uma conduta, um conjunto de valores e princípios adotados diante da vida. O caráter, porém, revela-se nas atitudes — e não no rótulo ideológico que alguém escolhe carregar.
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Todo indivíduo nasce inserido em uma ordem que o antecede: o Estado. Antes mesmo de compreender sua existência, já está submetido a leis, instituições, costumes e normas que delimitam sua liberdade e orientam sua convivência. Assim, nascer não significa apenas iniciar uma vida, mas também ingressar em uma estrutura social previamente estabelecida.
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A indignação costuma culpar candidatos e partidos, mas o problema é mais profundo: um sistema que permite e recompensa determinadas condutas acaba reproduzindo os mesmos vícios. Não basta trocar os jogadores quando as regras do jogo continuam as mesmas.
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A sexualização presente em parte da cultura brasileira, amplificada pela mídia e pela internet, revela a crescente mercantilização do corpo e da intimidade. Quando a sexualidade se transforma em instrumento de exposição, audiência e consumo, a cultura passa a reproduzir uma lógica que se aproxima da prostituição: o corpo convertido em mercadoria e o desejo em valor econômico.
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