Retórica
"A farsa se veste de retórica para governar os ingênuos. A integridade, contudo, dispensa o espetáculo; ela foca na clareza dos fatos e na verdade dos propósitos."
A fé com otimismo nunca será uma
retórica vazia, ela é a sintonia que sempre intercede em qualquer antagonismo.
A generalização é uma ferramenta retórica útil. O problema é a totalização. Um bom aforismo, por vezes, usa a generalização, mesmo correndo o risco de soar como uma sentença totalizante. Para dar à luz boas frases, é preciso coragem.
"Uma frase não se torna profunda por soar inteligente. Profundidade começa onde a retórica já não consegue esconder a falta de conteúdo."
Prefiro aos atos às palavras. Prefiro as ações às dicções, pois com o domínio da arte da retórica posso fazê-la acreditar que a amo, mesmo odiando, ou convencê-la que a odeio, mesmo lhe amando.
DA ÁGORA AO ALGORITMO: RETÓRICA PERSUASIVA E O FLAGELO DAS REPUTAÇÕES.
A linguagem persuasiva tem seu pedestal no século 21. Ela tem a retórica com várias caixinhas, distribui cancelamento gratuito. Todavia, não é algo novo: reis, rainhas, presidentes e pessoas comuns passaram e irão passar por este flagelo mental, tendo reputações atingidas.
A retórica como arte da persuasão sempre existiu para mobilizar emoções, simplificar narrativas e construir ou destruir reputações. Na Grécia Antiga, os sofistas ensinavam técnicas para convencer multidões, muitas vezes priorizando o verossímil e o efeito prático sobre a verdade absoluta. Platão os criticava duramente por manipular opiniões sem compromisso com a essência das coisas (nos diálogos *Górgias* e *Fedro*). Aristóteles, por sua vez, sistematizou a disciplina de forma mais equilibrada em sua *Retórica*, definindo-a como “a faculdade de descobrir, em cada caso, os meios de persuasão disponíveis”. Ele separou a retórica da dialética (busca pura da verdade) e identificou os três pilares fundamentais que ainda hoje orientam a análise persuasiva: *ethos* (credibilidade e caráter do orador), *pathos* (apelo às emoções do auditório) e *logos* (razão, argumentos lógicos e evidências).
A retórica antiga era essencialmente; oral, praticada na ágora, nos tribunais e nas assembleias políticas. O orador enfrentava um auditório presente, concreto e limitado. A entrega (gestos, tom de voz, presença física) era crucial, e havia espaço para réplica imediata. O objetivo ideal era a adesão racional e emocional a favor do bem comum, embora abusos sofísticos fossem comuns.
Retórica Antiga × Retórica Moderna: diferenças, continuidades e evolução
A retórica não morreu com a modernidade — ela se transformou. No século XX, Chaïm Perelman e Lucie Olbrechts-Tyteca resgataram e atualizaram a tradição clássica com a "Nova Retórica" (Tratado da Argumentação, 1958). Eles expandiram o conceito de persuasão para além do discurso oral, enfatizando a “adesão do auditório” em qualquer contexto argumentativo.
No contexto; digital do século 21, a retórica ganha escala, velocidade e complexidade inéditas:
- Meios e formatos: De oral para multimodal (texto, imagem, vídeo curto, meme, stories, algoritmos). A presença física deu lugar à “presença virtual” e à edição cuidadosa.
- Escala e velocidade: Um argumento (ou ataque) pode alcançar milhões em minutos, sem filtro de auditório físico. Algoritmos das redes sociais privilegiam *pathos extremo* (indignação, raiva, empatia rápida) porque gera mais engajamento do que um logos equilibrado.
- Accountability e anonimato: Qualquer pessoa pode participar da persuasão ou do “cancelamento”, mas com menor responsabilidade pessoal. O *ethos* torna-se frágil e volátil — construído ou destruído por snippets fora de contexto ou narrativas emocionais simplificadas.
- Continuidades claras**: Os três pilares aristotélicos permanecem centrais (ethos, pathos e logos).
- Diferenças principais: A antiga era mais contida pelo contexto cívico e pela possibilidade de debate direto. A moderna é mais democratizada, mas também mais manipuladora em potencial, pois ignora contexto profundo, favorece o emocional imediato e opera em bolhas algorítmicas.
Em resumo: a retórica antiga era uma arte ensinada com responsabilidade cívica (mesmo com abusos). A moderna é uma força amplificada pela tecnologia — mais rápida, acessível e poderosa, capaz de distribuir “cancelamento gratuito” em massa, mas também de expor injustiças que antes ficavam ocultas.
Ao longo da história, reis e rainhas também sofreram esse flagelo. Um exemplo clássico é o caso de Maria Antonieta, rainha da França na época da Revolução. A ela é atribuída a famosa frase “Que comam brioches” (Qu’ils mangent de la brioche), como se, ao saber que o povo não tinha pão, ela tivesse respondido com indiferença luxuosa. Na verdade, não há registro histórico confiável de que ela tenha dito essas palavras. A frase aparece primeiro nas *Confissões* de Jean-Jacques Rousseau, quando Maria Antonieta ainda era criança. Anos depois, foi usada como propaganda revolucionária para destruir sua imagem e despertar indignação popular. Mesmo sendo uma lenda, a narrativa emocional simples funcionou como arma retórica poderosa — um lembrete de como uma história bem contada pode superar os fatos.
No século 21, o fenômeno assume contornos partidários, com narrativas seletivas, trechos fora de contexto ou amplificados que atingem reputações antes mesmo de provas concretas.
Como podemos seguir em frente?
O cancelamento é uma forma moderna de ostracismo coletivo, muitas vezes ineficaz para mudanças reais e duradouras. Ele promove medo, autocensura e polarização. Para navegar nesse ambiente com mais resiliência:
1. Não dê poder excessivo ao tribunal da internet — Ignore o barulho inicial e responda com fatos quando necessário.
2. Seja honesto, consistente e contextual — Use ethos forte e logos claro para evitar distorções.
3. Quando errar, admita com humildade e ações concretas — Evite desculpas vagas.
4. Construa reputação resiliente — Foque em contribuições reais, valores claros e diálogos fora das bolhas.
5. Use a retórica com responsabilidade — Prefira verdade + empatia em vez de manipulação emocional pura. Evite “cancelar de volta”.
6. Mantenha perspectiva histórica** — A retórica sempre foi neutra. O antídoto está em priorizar razão sobre emoção coletiva e contexto sobre trechos isolados.
No final, a linguagem persuasiva é neutra. Quem segue com integridade (mesmo imperfeita) tende a resistir melhor ao flagelo.
Leituras recomendadas
- Aristóteles — Retórica
- Platão — Górgias e Fedro
- Chaïm Perelman — Tratado da Argumentação
- Jon Ronson — Humilhado
- Greg Lukianoff & Jonathan Haidt — The Coddling of the American Mind e The Canceling of the American Mind
Ysrael Soler
#DaÁgoraAoAlgoritmo #CulturaDoCancelamento #RetóricaPersuasiva #CancelamentoDigital #LiberdadeDeExpressão #PensamentoCritico #ÉticaDaPalavra
Um post de uma collab que consta um histórico, uma crítica e uma pergunta retórica não pode ser interpretado como fake news.
A omissão é a retórica silenciosa pela qual uma verdade pode ser preservada enquanto seu sentido é cuidadosamente deformado.
"A retórica não deve conhecer como as coisas são
em si mesmas, mas descobrir algum mecanismo
persuasivo de modo a parecer, aos ignorantes,
conhecer mais do que aquele que
tem conhecimento".
Platão
.Em termos simples, essa passagem significa que a
retórica (a arte da persuasão por meio de palavras,
ou seja, o conjunto de técnicas para organizar ideias
e convencer um público) é a arte de parecer sábio
para quem não entende do assunto, sem precisar
conhecer a verdade sobre o que se fala.
Por mais loquaz que seja, a retórica utiliza a simplicidade como uma de suas premissas fundamentais.
Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve. A eternidade tem as suas pêndulas; nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios. Há de dobrar o gozo aos bem-aventurados do céu conhecer a soma dos tormentos que já terão padecido no inferno os seus inimigos; assim também a quantidade das delícias que terão gozado no céu os seus desafetos aumentará as dores aos condenados do inferno. Este outro suplício escapou ao divino Dane; mas eu não estou aqui para emendar poetas. Estou para contar que, ao cabo de um tempo não marcado, agarrei-me definitivamente aos cabelos de Capitou, mas então com as mãos, e disse-lhe, – para dizer alguma cousa, – que era capaz de os pentear, se quisesse.
As pessoas que exortam outras de forma bruta
Por razões absolutas
Sem direito a retórica
Simplesmente porquê não sabem
E não amadureceram
Para lidar com as diferenças
Por ter medo do que foge ao seu entendimento
E que confundem sua razão
gerando sempre um tormento
Sempre Hove antagonismo entre a retórica e a realidade, nestes termos que nos preocupamos e encatemos com a realidade e não pelas palavras aliciantes".
Arnaldo Chinemero
"Poética, Retórica, Dialética e Analítica são quatro tipos de discurso, de pensamento discursivo, portanto também os nomes das ciências e técnicas respectivas. 'Estética' é o estudo de um universal abstrato, o 'Belo', e não de um tipo de discurso. Trocar Poética pela Estética é apenas um desejo arbitrário que destrói a coerência lógica da classificação aristotélica. Qualquer principiante tem a obrigação de perceber isso à primeira vista."
"[O império da retórica] começa naquele dia em que o primeiro retórico apostou na eficácia persuasiva do primeiro símile: 'Sereis como deuses…'. Não há como deixar de reconhecer um eco distante dessa proposta no momento em que o homem de marketing vem nos oferecer o livre mercado das idéias como uma proteção contra a 'tirania da verdade'. Pois toda idéia que não se submeta de bom grado a essa 'tirania' não vale nada: é pura retórica."
Entender a insistência retórica
do erro da pessoa
é o conteúdo necessário para a
sobrevivência do relacionamento.
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