Olho
Às vezes eu olho para a beira da minha cama e imagino que ali está sentada olhando para mim a figura da morte.
Durante o dia ela me acompanha em tudo que eu faço como uma sombra.
Eu entro na piscina e a água gelada e o céu azul acima de mim me lembram como é bom estar viva, mas lá no horizonte onde o sol lentamente se deita eu vejo a figura dela... Sorrindo sem pressa de me buscar.
Tento manter a minha consciência o mais desperta possível. Não quero ser surpreendida pela morte, pelo contrário, quando ela chegar eu estarei pronta, vestida e limpa de corpo e alma, sem medo nenhum, porque eu trabalhei o meu eu e a minha consciência para me unir ao Todo.
Deixar esse mundo não significará uma coisa dolorosa para mim. Será a oportunidade de rever todos os meus gatos e isso é o que me conforta e alegra.
Quando olho o infinito que existe em você… lembro que o infinito também mora em mim.
Sua alma toca a minha de um jeito que o mundo não consegue explicar.
Ela cura sem prometer.
Abraça sem prender.
Transborda sem pedir nada em troca.
Talvez porque sejamos feitos da mesma essência…
Folhas da mesma árvore.
Raízes da mesma vida.
Pó da mesma criação.
E, diante dessa conexão, meu coração apenas sussurra: amém.
Porque reconhecer você em mim…
é, finalmente, reconhecer a mim mesma em você.
No fim, talvez o amor mais verdadeiro seja aquele que desperta a consciência de que nunca estivemos separados.
Canarinho.
Olho por onde ele vai voando...Cantando baixinho, ressabiado, as vezes sozinho, as vezes acompanhado. Sua beleza encanta, solto, alegre, pousa e levanta... Um músico pequenino enviado por Deus, canoro com nota natural, satisfaz ouvidos meus, vem faz o seu espetáculo, vai embora e diz adeus.
Haverá dias em que precisaremos sentar e olhar olho a olho e dizer um ao outro coisas que, diante da plateia, não poderão ser ditas.
Quando olho a vida usando meus versos para entender os sentimentos intensos deparo-me com a infinidade de uma paixão em chamas.
Em minhas prudências me espedaço para que você me dê atenção.
Honra, dignidade e fidelidade transbordam meu coração de seguranças nos sentimentos direcionados a ti.
Quero segurar minhas mãos dentro de você
Eu quero tomar fôlego, é verdade
Eu olho para você e nada vejo
Eu olho pra você para ver a verdade
Por isso, quando olho para você, não vejo perfeição,
vejo aquilo que torna a vida mais bonita.
Vejo seus detalhes, seus medos e seus sonhos,
e amo até aquilo que você insiste em esconder,
porque foi em você que meu coração aprendeu a ver.
“Procuro alguém que me olhe como eu olho para o cardápio de uma boa pizzaria: com fome e sem pressa.”
“Procuro alguém que me olhe como eu olho para o cardápio de uma boa pizzaria — sabendo que qualquer escolha vai me deixar feliz.”
“Procuro alguém que me olhe como eu olho para o cardápio de uma boa pizzaria: emocionado e incapaz de decidir.”
Fragmentos de mim
me olho e não me reconheço,
mas ainda sinto, ainda escrevo.
a dor insiste,
mas eu aprendi a dançar no meio dela,
mesmo com tudo do avesso.
Cheguei num ponto em que a fala alheia
bate e não fica, passa e vagueia.
Olho, escuto, deixo ir,
não me moldo pra caber em ti.
Aprendi que silêncio também é proteção,
que nem toda guerra merece reação.
Se custa minha paz, não vale insistir.
Nada vale a pena se for pra me partir.
Ela sempre foi movimento.
Casa girando em torno dela.
Mão que fazia, boca que orientava, olho que via tudo.
Era dessas mulheres que acordam antes do sol
e dormem depois da vida.
Sabia onde estava cada coisa.
Cada conta.
Cada remédio.
Cada problema.
Ela era memória viva da família.
Era calendário, era agenda, era conselho.
E agora…
O tempo resolveu brincar ao contrário.
O nome das coisas escapa.
Os rostos às vezes embaralham.
As histórias ficam pela metade.
Mas tem uma coisa que não foi embora:
a essência.
O jeito de segurar a mão.
O olhar que ainda procura cuidado.
A doçura que aparece em lampejos.
O Alzheimer não apaga quem ela foi.
Ele embaralha caminhos,
mas não destrói o que foi construído em décadas de força.
Existe uma inversão silenciosa:
quem foi porto vira mar aberto.
Quem guiava agora precisa ser guiada.
E dói.
Dói porque a gente lembra de tudo.
E ela… às vezes não.
Mas amar alguém com Alzheimer é aprender outra língua.
É repetir sem irritação.
É contar a mesma história como se fosse a primeira vez.
É segurar firme quando o mundo dela fica confuso.
Ela continua sendo a minha mãe.
Mesmo quando não sabe dizer seu nome.
E talvez agora o papel seja meu:
ser memória por duas,
ser paciência por duas,
ser colo por duas.
O corpo pode esquecer.
Mas o amor não desaprende.
E isso, ninguém tira dela. Nem de mim.
Tanto tempo juntos que parece que ficamos, cada dia, mais parecidos um com o outro. Olho pra ela e é como se estivesse de frente a um espelho. Muito mais que isso é que nossos espíritos se fundiram e desapareceram portanto o “meu” e o “dela”, agora é o “nosso” espírito.
Obrigado SENHOR por ter-nos selados para a eternidade.
Ney Paula B.
