Gabriela Denke

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Jardim de Pragas Antigas


Era uma quinta feira normal, fui pra escola como sempre, sentei-me em minha carteira e esperei a aula começar. Tudo estava ocorrendo normal como todos os dias, conversas sem pausa, professores pedindo por respeito e alunos que não fechavam a boca por nada. Até que chegou a aula de sociologia, a professora estava lecionando sobre cultura, e entre uma palavra e outra trouxe o exemplo do carnaval, uma cultura muito forte no Brasil. Quando que do nada percebi os diversos comentários horríveis: ‘O povo que vai pro carnaval deve ir pro inferno’, ‘esse povo da Bahia, que cultua a macumba, é do demônio’. Isso e muito mais foi o que alguns meninos falaram. O clima ficou pesado, senti como se tivesse caído uma tempestade em cima de mim, a umbanda faz parte de mim, e escutar aquilo colocou-me no tão temido inferno que eles acreditam.


Fiquei pensando naqueles meninos, esses atos não são de agora, remetem ao passado, são como ervas daninhas em um jardim florido, mas que apesar de destruir todos os diferentes à sua volta, tem raízes profundas, tão fundas que remetem ao descobrimento das terras que conhecemos hoje. São plantas tão bem estruturadas que não são mortas com qualquer veneno, a cada novo ser que nasce nesse jardim, ele é brutalmente infectado, fazendo-o proferir a mesma praga de seus antecessores. Aqueles que não são contaminados, sofrem com essa praga, combatem-na com toda a sua força, são pessoas que ainda acreditam na salvação desse canteiro. Esses novos seres que nascem, são os únicos que podem acabar com o padrão de contaminação, já que estas plantas jovens têm seus caules mais puros e se olhassem para outro lado, poderiam se agarrar em vegetações firmes, assim seriam livres dessas ervas daninhas.


O silêncio ecoava pelos corredores, era uma quietude que doía e ao mesmo tempo ardia na alma, tudo aquilo estava sem controle, nenhuma palavra vinha para acalmar aquela tempestade, e nem se quer uma tentativa de segurar aquelas pragas. Tudo estava já danificado, eu teria de ser forte, já que ninguém estava lá para arrancar as ervas daninhas. Mas mesmo que calassem-nas, não adiantava mais, raízes profundas não morrem com o corte do caule, devem ser tratadas em essência.


Quando bateu o sinal para finalmente ir para casa, fechei a mochila e fui caminhando para casa. O peso da mochila era gigante, o silêncio amedrontador da escola misturado com todas aquelas ervas daninhas ao meu redor, e aquela tempestade imensa em cima da minha cabeça. Refleti o caminho todo, não sou como eles, pensei, e é isso que importa. Enquanto mergulham em águas turbulentas, eu vivo a minha fé, e caminho por jardins límpidos. Claro, tenho muita vontade de curar suas pragas, mas não sou capaz, só eles próprios podem acabar com um padrão imposto em seu interior. Só sei de uma coisa, algum dia a própria terra em que estão plantadas, cobrará o preço, o inverno chega e só fica quem é verdadeiro e saudável por dentro.

FREQUÊNCIAS NÃO SINTONIZADAS



Se me perguntassem hoje se eu acredito em conexões reais, eu diria que depende muito, creio fielmente que o amor exista de forma verdadeira, mas a afinidade entre dois seres humanos, é algo quase que intangível pra mim. Sintonizar-se com a estação certa é tarefa difícil nos dias atuais, são diversas ondas eletromagnéticas pairando pelo ar. E como achar a frequência certa? Aí que mora uma das maiores questões da humanidade.




Reflito isso noite e dia, dentre tantas sintonias, nenhuma se encaixa na minha orquestra e isso dói demais. Dizem por aí que o problema está em mim, mas penso que não tem como gostar de uma música vazia, sem sentimentos, algo superficial como um leito de riacho seco. Minhas águas são profundas, só me encontro com oceanos vastos,e por isso me julgam por eu não me juntar com ninguém. Mas como? Se todas as estações de rádio já estão sintonizadas ou então são como chiados, não se ouve, nem sente nada. Olho ao meu redor e me decepciono cada vez mais, amores puramente biológicos, fascinados em uma casca que apodrece com o passar do tempo.




O pior de tudo isso, é quando o mundo cobra a conexão, se você não se calibrar a uma frequência, corre o risco de ficar flutuando no ar sozinho para sempre. Confesso que tenho medo disso, mas ao mesmo tempo sinto que carrego uma pressão enorme em cima da minha cabeça, preciso gostar de alguma sinfonia logo, se não a minha orquestra ficará incompleta. Da mesma forma que esse pensamento vem, outros também aparecem ,como: E se eu não precisasse daquela sinfonia? Meu concerto musical seria único, afinal tenho um grande desfiladeiro para seguir na jornada da vida, posso finalmente entrar em sintonia com 60 anos de idade. As pessoas do mundo atual, se precipitam em seus encontros e acabam no fundo do poço, por medo de serem julgadas, mas eu prefiro um rádio sem interferências e chiados chatos, mesmo que essa qualidade leve uma vida para vir à tona.




Conexões não nascem da noite pro dia, nem mesmo de uma mensagem de texto, sintonia é no olhar, é na fala, antes mesmo de qualquer contato físico, são como ondas de rádio, invisíveis porém sentidas. Elas só brotam, quando olhamos no olho de uma pessoa, e vemos a profundeza de seus mares, somente essas pessoas podem sentir essa sintonia. Só que para encontrar essas águas profundas, é como achar uma agulha em um palheiro, talvez não estejam em extinção, só presas em um mundo de frequências falsas, e sabe lá quando encontrarei minha confluência.

A PAZ EM VIVER


Hoje é quinta feira, acabo de almoçar e como de costume saí para correr. Estava em dúvida se iria correr na esteira da academia, ou em uma pista que tem no clube em que frequento. Dessa forma, como o dia estava maravilhoso, ensolarado e com uma brisa fresca, decidi correr na pista. Até parece que eu iria desperdiçar um cenário desses, para ficar trancada correndo sem sair do lugar, em uma academia lotada. Não sei explicar o porquê, mas naquela tarde eu precisava de um tempo comigo mesma, um espaço para esvaziar a cabeça. Chegando no local a paisagem era perfeita, somente eu, a natureza, e o som prazeroso dos passárinhos em minha volta.


Iniciei minha corrida, mas tinha algo diferente em mim, parecia flutuar, e comecei a prestar atenção em cada passo dado. O momento fluia calmamente, como um mar calmo em um dia mais ou menos quente, tudo estava diferente, a tempos não me sentia dessa forma, leve como uma pena. Na maioria das vezes, quando saio pra correr, estou no automático, sem mesmo perceber a beleza do esporte, contudo, essa vivencia me fez refletir sobre essa automatização. A harmonia da natureza diante de meus olhos, me fez soltar todo o peso que eu levava em minhas costas, somente aquele instante importava e nada mais passava em minha mente. De repente, uma sensação de plenitude tomou conta de meu ser, o ar que entrava e saia de meus pulmões, limpava todas as angústias, medos e tristezas que estavam presos em meu interior. Tudo entrou em perfeito equilíbrio, o tempo simplesmente parou de existir por alguns poucos minutos.


Mais tarde quando voltei pra casa, percebi que a paz se apresenta para nós em diversas ocasiões da vida, mas como vivemos em uma síndrome de robôs, automatizados toda hora, nossa percepção desses prazeres desaparece. A paz é simples, o viver bem é perceber os pequenos momentos de plenitude da existência humana, como sair para correr em um dia qualquer e liberar a negatividade, observar um pássaro cantando, contemplar a natureza, simplesmente viver cada fração de segundo, um de cada vez, sem sair se atropelando por aí. Com isso, a sensação de paz se faz necessária para cada ser humano que existe, sem isso a gente entra em pane. E para encontrá-la? Precisamos nos livrar dos inúmeros pensamentos de nossas mentes, e nem que seja por um minuto, observar com calma o universo de coisas lindas e ao mesmo tempo tão simples, acontecendo ao nosso redor. Sem dúvidas, esse é o jeito mais simples de encontrar a paz.

A CADEIRA DO DENTISTA



Quem nunca teve que ficar sentado em uma cadeira de dentista por horas? Pois bem, acho que todo mundo já teve uma cárie. Isso foi o que me ocorreu dias atrás. Lá estava eu, com a boca aberta, quase deslocando a mandíbula, olhando aterrorizada para o semblante nada agradável da dentista, que examinava meus dentes. Eu me sentia deveras angustiada. O medo corria em minhas veias, o suor começou a escorrer na minha testa e o nervosismo tomou conta de meu ser. Me parecia mais como uma tábua, de tão tenso que meu corpo ficara. Afinal, ninguém nesse mundo gosta de ir ao dentista, ou se sente bem em uma cadeira daquelas, só se a pessoa em questão, sofre de algum problema mental, pois esse lugar é um dos piores para se estar.




Nesse sentido, a ansiedade era enorme, mas a dentista nem sequer tinha encostado um dedo em minha boca; enquanto isso na minha mente acontecia uma batalha intensa. Quando avistei a agulha da anestesia, meu mundo desabou, queria sair correndo dali e nunca mais voltar. “A dor está próxima”, pensava eu, e de repente aquela coisa enorme e pontiaguda já estava fincada em mim. O pior de tudo isso, é que a minha cara de sofrimento tinha começado há uns vinte minutos atrás, antes mesmo de eu me sentar naquela cadeira sufocante. Ou seja, a minha “dor” já tinha começado há muito tempo, como algo meio inconsciente. Contudo, em um piscar de olhos, a terrível anestesia já tinha passado. Fiquei pasma! Como não senti dor alguma? Alguns minutos antes ela já existia, então o que aconteceu ali foi loucura.




Loucura? Eu não diria desse modo. Chegando em casa, pensei: meu medo era tão grande que na minha cabeça tudo seria horrível. Mas não foi bem assim. Era apenas meu cérebro criando futuros tenebrosos. A nossa mente é o que de mais poderoso nós temos, ela simplesmente inventa cenários terríveis, que provavelmente nunca ocorrerão. Desse modo, ela nos conduz a “sentir a dor antes da facada”, sentir medo de um momento fictício tornar se realidade, tudo isso impulsiona uma desordem imensa em nossos sistemas corpóreos. A mesma coisa se passa ao sonharmos com animais peçonhentos: no despertar noturno, achamos que nossa cama está cheia deles, sentimos cócegas por todo o corpo, mas, quando olhamos, nada tem embaixo das cobertas. O que quero dizer é que: não deixe sua mente te dominar, não morra antes do tiro, não sofra por antecedência, deixe para sentir a dor no instante em que ela se passa, isso se você chegar a senti-la.

O MUNDO DAS MELODIAS


Em um dia como outros, estou sentada em frente a um fogão a lenha, olhando a chuva cair delicadamente na grama através de uma janela, em um dia frio de inverno intenso. Além disso, estou escutando música, mais específicamente Michael Jackson, artista do qual estou obcecada há meses, parece até doença, mas isso não vem ao caso, já que eu amo suas músicas. Todos os dias ao acordar, é uma melodia diferente em minha mente, é tão bom, mas ao mesmo tempo incomoda um pouco. Mas afinal, o que seria de nós, seres humanos, sem a tão grandiosa música?


Dessa forma, fico pensando, quando escuto uma canção animada, como por exemplo Billie Jean - obviamente vou usar Michael Jackson como exemplo - eu fico muito feliz, por mais triste que esteja naquele momento. Tenho até que me segurar para não começar a dançar, principalmente quando estou em ambientes públicos. E quando toca uma música triste? Da vontade de chorar, parece que o mundo fica escuro, e você literalmente cai dentro de uma fossa, todos os pensamentos de tristeza possíveis vêm à tona. Ah, e não dá pra esquecer aquelas que são como chiclete, gruda na mente e para tirar é só substituindo por outra da mesma espécie.


Mas, as piores são aquelas que você nem sabe realmente o conteúdo. Geralmente são em outros idiomas, não consegue-se explicar por que um sentimento ruim nasce ao escutar aquilo, e é aí que mora o maior problema. As músicas de alguma forma conversam com nosso inconsciente, trazem para a superfície pensamentos esquecidos e guardados a sete chaves. A questão aqui é: por que tudo isso acontece? A música tem um poder exorbitante sobre qualquer pessoa, ela de fato consegue mudar quem somos, pra melhor, pra pior, enfim, de diversas maneiras. Acho difícil alguém normal não gostar de uma bela canção, ela exerce um papel fundamental em nossas vidas, dá cor ao mundo.


Com isso, ao escolher uma melodia todo cuidado é deveras pouco, já que muitas delas a gente escuta várias e várias vezes, e mesmo que pareçam inofensivas, elas irão de alguma forma nos influenciar, de acordo com o conteúdo de suas letras. Por isso, escuto Michael Jackson, são letras bonitas e que me dão vontade de viver e ser alguém melhor para mim e para o mundo, respeitando literalmente o que as canções dele dizem. E quando elas “grudam”, é melhor ainda, pois essa sensação vem a todo momento no meu dia, um sentimento de ânimo em meio ao caos da rotina. Por meio disso, acho que todo mundo deveria repensar o que ouve nos fones de ouvido, pode estar provocando uma construção, ou destruição interior, em parte, somos o que escutamos. Ao ouvir constantemente algo com letras fúteis e palavrões em meio a elas, é bem possível tornar-se uma pessoa parecida com o dizer da música. Não é uma simples melodia, é um mantra, e dizem por aí que: “o que entoamos vem até nós,” tomemos cuidado!

A HIPOCRISIA DO ESPORTE BRASILEIRO


A cada dia que passa eu me decepciono cada vez mais com a sociedade brasileira. Atualmente estamos em ano de copa do mundo, claro todo brasileiro vai à loucura, não vejo nada de errado nisso até certo ponto, acho muito bom inclusive, mas minha indignação não está diretamente relacionada a isso, mas sim a uma grande hipocrisia que vem acompanhada dessa excitação. O brasileiro simplesmente esquece que o país está virado de cabeça pra baixo em diversos sentidos, nos esporte, na saúde, na educação, enfim, se for de listar tudo daria para escrever um livro.




Nós, trabalhadores, acordamos cedo todos os dias, trabalhamos duro e no fim do mês recebemos nosso abençoado dinheiro, com muito suor e dedicação. Por outro lado, enquanto isso, os jogadores da seleção brasileira estão nadando em dinheiro, e tudo bem ganhar muito dinheiro, se eles realmente fossem apaixonados pelo esporte, dedicados e acima de tudo honrassem sua camisa. Mas tem um porém muito grande nessa história, a impressão que passam é que uma grande parcela deles - que fique bem claro que não estou generalizando - não amam o que fazem, entram em campo para se mostrar para os patrocínios. Boa parte de seu pensamento está no status que receberão, e em alguns casos, parece até um desfile de moda. Esqueceram há muito tempo a verdadeira essência do futebol, não conseguem fazer o mínimo que é jogar futebol decentemente, entregando o que o torcedor espera e merece.



Quando assisto os jogos antigos de nossa seleção, chega a dar emoção, partidas incríveis aconteciam, os jogadores treinavam muito, e mesmo ganhando uma mixaria de dinheiro, eles estavam lá, porque honraram sua camisa. E se quiser uma prova disso, pergunte para alguém de umas duas gerações passadas, o que acha dos jogos do Brasil de hoje em dia. A decepção em seus olhos é clara, e na maioria dos casos nem acompanham a copa do mundo, e eu não julgo de forma alguma, já que a situação é crítica. E por que ficou dessa forma? Boa pergunta. Acredito que seja pelo fato de ter muito marketing em cima, muita marca querendo ter visibilidade fácil, talvez tenha sido aí que começou a se perder o amor em campo.



E quando falamos dos outros esportes, não tem visibilidade alguma. Já fui atleta profissional de natação e o incentivo quase não existe, não é à toa que quase nenhum brasileiro chega no topo nas outras modalidades. Me sinto péssima com isso, pois esse foi um dos motivos por eu ter deixado o alto rendimento no esporte, a natação é um desporto extremamente caro de se praticar, além de você ter de treinar muito. Hoje no Brasil não é viável viver do esporte profissional, com certeza vai passar muito aperto financeiro se escolher esse destino, a menos que você seja do futebol, de resto esquece. Além disso, vai ter que implorar por patrocínio, enquanto os jogadores lucram milhões por mês, sendo que um atleta de vôlei, natação, corrida, e outras diversas modalidades, muitas vezes fazem o dobro e não ganham nem um por cento daqueles milhões. Que fique claro que não é por falta de dedicação!



O que quero dizer aqui é, se você quer torcer pra seleção brasileira, vá em frente, torça! Acho isso ótimo inclusive, precisamos de alguma esperança, mas não se esqueça dos podres que tem por trás. Da mesma forma, não julgue alguém que torce para outro país, provavelmente essa pessoa viu naquele outro grupo, a emoção que sentia quando o Brasil jogava antigamente, e que hoje em dia não consegue sentir com o próprio país jogando. E não só por isso, tem muita gente por aí que não aceita essa hipocrisia, inclusive eu, e está tudo bem. Eu realmente queria conseguir torcer para o Brasil, é meu país, onde eu nasci, mas eu não consigo mais, não depois de tudo o que vivi e percebi.

DEPOIS QUE TUDO VAI EMBORA


Será que o amor realmente existe depois que tudo de 'bom’ acaba? Pois bem, sabemos que esse sentimento está presente de diversas maneiras na vida do ser humano e está lá até antes mesmo de nascermos. Mas como saber se todo amor que damos, sentimos ou recebemos é de fato algo real, profundo e verdadeiro? E até que ponto ele é capaz de chegar? Eis algumas das questões mais alarmantes da humanidade.


Para ilustrar tudo isso melhor, tomarei nota de um livro que li recentemente, A Metamorfose de Franz Kafka. A partir do momento em que Gregor se transforma em um inseto de certa forma asqueroso, ninguém mais é capaz de amá-lô, exceto pela mãe dele que até certo ponto não permitiu que ô matassem, mas não foi suficiente. Essa é uma das metáforas mais verdadeiras que existem, quando alguém perde a serventia o amor raso não resiste. Não é preciso ir muito longe para ilustrar isso na vida real. Quando um ente querido de nossa família adoece, por exemplo uma mãe ou algo do tipo, perde-se a felicidade em estar com ela. O indivíduo torna-se um fardo para todos da família. Mas as pessoas, na maior parte do tempo, não levam em consideração como foram amadas por aquela pessoa, como ela serviu toda a família por incalculáveis anos, e agora descartam-na, como se nunca tivesse tido importância. Desse modo, onde está o verdadeiro amor nesses casos? Se realmente fosse real, a união não se perderia por simples acasos.

As pessoas neste mundo levam muito em consideração a aparência uma das outras. De certa forma não acho que esteja totalmente errado, mas tudo nessa vida tem limites, por mais asqueroso que Gregor tenha se tornado após a metamorfose, ele continuava sendo o mesmo. Seus princípios e sentimentos internos estavam ali, mesmo que parecesse imperceptível, um livro de capa duvidosa, mas de páginas que nunca perderam seu valor. Independente de sua indumentária, ele continuava sendo filho, irmão, amigo, era parte de uma família, de uma sociedade, e não poderia ser apagado de forma impiedosa somente por que não podia mais dar sustento à sua família.


Infelizmente, nós, seres humanos somos substituíveis, isso de acordo com o pensamento da grande maioria, que mesmo achando não pensar dessa forma no fundo agiria do mesmo modo. Obviamente eu não concordo com essa afirmação, o amor verdadeiro está aí para quebrar isso, se existe esse sentimento os laços são eternos, independente dos ocorridos da vida. Quem ama de verdade não dá tanto valor ao externo, quem ama de verdade leva muito mais em consideração os sentimentos que têm ao estar ao lado daquela pessoa querida. Contudo, se queres transformar-se insubstituível, valorize e lapide seu interno, mas tome cuidado, pois somente pessoas de consciência semelhante, são capazes de valorizar a índole do ser em primeiríssimo lugar. Caso contrário seu destino corre o risco de ser parecido com o de Gregor, se não houver uma mudança. Talvez aí esteja a solução, ter deveras atenção em quem ama, porque um rostinho bonito acha-se em qualquer lugar, mas histórias ricas são raras, então se for de amar alguém, que seja por um todo e não somente por aquilo que é supérfluo, e claro sempre em alerta. Isso, meus caros amigos, serve para toda relação interpessoal humana.

OLHO DO FURACÃO


Como eu queria estar escrevendo sentimentos bons, mas a vida me trouxe aqui, para mais uma reflexão um tanto quanto avassaladora, com a qual talvez muita gente se identifique. Meu sentimento agora, eu diria que é deveras triste e solitário, mas dizem por aí que as melhores escritas vêm de dias cinzentos. Sendo assim, olho pela janela e me pergunto: por que as pessoas têm tanto medo? Por que insistem em se esconder atrás dele, a ponto de não estarem dispostas a viver?


Pois bem, todo ser humano desta Terra tem medo; todo mundo, sem exceção, sente, já sentiu ou vai sentir esse sentimento, e está tudo bem, é a coisa mais natural do mundo. Mas agora é que vem o problema: muita gente por aí perde a chance de sentir, fazer e experimentar por causa do pânico.


Tomemos como exemplo uma estação de trem e uma pessoa com um destino predeterminado. Se esse indivíduo não estiver na hora e no momento corretos, corre o risco de perder o trem. Chegando atrasado, pode ser que tenha a sorte de ele também estar fora do horário de partida, o que é uma rara exceção. No pior cenário, aquele que é o mais provável, infelizmente ele terá de esperar sentado no banco o próximo trem passar, porque nenhum maquinista espera ninguém infinitamente. Mas será que esse novo trem vai levá-lo ao mesmo destino? Provavelmente não, e talvez o primeiro nunca mais volte à sua estação.


Nesse compasso de espera, criam-se as desculpas para o atraso. E sim, de fato, algumas coisas está tudo bem perder, mas deixar ir tudo e qualquer coisa por se esconder atrás do medo de embarcar? O preço, no futuro, pode ser alto demais. Como eu disse anteriormente, todo mundo tem medos, mas há quem esteja disposto a enfrentá-los. Quem realmente quer, tenta, continua, persiste, dá um jeito. Por mais impossível que seja alcançar aquele vagão, por mais pedras que haja no caminho, por mais árdua que seja a caminhada, quem quer, vence! Mas aí vem a pergunta: o que eu faço com meus medos, inseguranças e traumas? Coloca no bolso e vai. Enfrenta, seja corajoso, não deixe passar a oportunidade da tua vida por causa de um sentimento desses.


Entretanto, a vida é difícil mesmo; é uma batalha diária, não é um conto de fadas para ninguém. O meu conselho para mim, para você, leitor, e para qualquer pessoa deste mundo é: viva, arrisque, permita-se sentir, mas não espere estar pronto para tudo, não espere o momento ou a fase certa da vida. Experimente tudo em meio ao caos da rotina, do mundo; enfim, vista o arquétipo do louco e vai para cima. Se não for no meio do olho do furacão, então nunca vai ser. Caso contrário, a vida cobrará o preço por meio do arrependimento, que pode não ter mais volta. Então, se prefere ficar seguro, fique; quem não sai da zona de conforto não muda a vida nem para melhor, nem para pior. Na minha visão, prefiro passar pelo medo da mudança, mesmo que isso pareça infinitamente difícil — porque é, eu sei que é —, do que ficar estagnada em um só lugar pelo resto da minha existência. O não dar certo vira experiência e história para contar; é disso que precisamos: bagagem. Que graça tem a vida sem enfrentar aquilo que tanto tememos? No final, o maior fracasso não é tentar e dar errado, e sim deixar o medo decidir por nós mesmos.

RECALCULANDO ROTA


Cá estou eu novamente, sentada em minha cama, olhando para o infinito, em uma sexta-feira à noite. Você deve estar se perguntando: o que uma jovem de 17 anos está fazendo em casa em um dia desses? Deveria estar, no mínimo, em uma "baladinha" qualquer. A minha resposta será um tanto avassaladora, talvez assuste muita gente por aí, mas é como me sinto de fato: diferente.


Já fui de sair muito, ter diversos amigos, paqueras, risadas, momentos bons, mas tudo mudou quando meu GPS interno recalculou a rota da minha vida. Comecei a ler, praticar muitos esportes, estudar, espiritualizar-me, focar muito mais em mim mesma. E meus amigos? Eu ainda os tinha, claro, mas de forma cada vez mais distante. Os interesses não se encaixavam mais; enquanto as conversas giravam em torno de quem ficou com quem, eu queria estar falando de livros, futuro, oportunidades e desejos puros. Para mim, não faziam sentido todas aquelas falas e, no fim, acabei sendo rejeitada por ser muito diferente. Não os julgo. Talvez eu sempre tenha sido dessa forma, mas me escondia atrás de uma pessoa que não tinha nada a ver comigo para ser aceita como uma adolescente normal em uma sociedade rasa. De fato, uma hora ou outra eu mesma iria me distanciar.


Tive de aprender a lidar com a solidão na marra, mas, com o tempo, isso virou solitude, o que é deveras diferente. Aprendi muito nesse meio-tempo. Entendi que nossa própria companhia é a que mais importa. Mas agora cheguei a uma fase da minha vida em que eu gostaria tanto de ter um grupo de amigos. E, afinal, onde vou encontrá-los? Não me encaixo em lugar nenhum. Um exemplo são os amigos que tento fazer no esporte. Descobri algo muito estranho aos meus olhos: só é seu parceiro enquanto você apresenta um desempenho inferior ao dele. Sim, eu sei, é triste.


Às vezes, tenho a impressão de que a vida virou uma disputa para ver quem é mais orgulhoso, quem tem o ego mais inflado, quem menos dá o braço a torcer. Esse é o valioso, dizem os idiotas. Aí é que eu quebro a cara. Para mim, amizade, relacionamento ou qualquer coisa que envolva o outro envolve empatia. E, quanto mais eu me importo com o sentimento dos outros, mais eu me machuco, mais pedradas levo e mais distante eu me torno.


E, se entrar no campo dos relacionamentos amorosos, aí desaba tudo. Sempre, em minha vida, eu fui um quase e nunca uma certeza. Não que eu tenha tido muitas oportunidades, mas, quando acontecia, era assim. Quando, de certa forma, me isolei do mundo, como diz meu pai, "foi o boi com a corda" de vez. Se me perguntar se sou seletiva, a resposta é óbvia: muito. Mas sei que ninguém é perfeito. Tem uns que chegam e, só de olhar, eu penso: "Não têm nada a ver comigo". Querem só rolo, "passar na cara", não pensam em construir algo maior. E há outros que, ao meu ver, seriam perfeitos, coisa rara de acontecer. E, quando acontece, na minha cabeça daria super certo, mas, aos olhos do outro, é impossível. Talvez o problema seja eu, uma pessoa que pensa demais, planeja demais, sente demais, ou talvez eu esteja em um mundo raso demais. Já nem sei mais o que pensar, realmente.


Pergunto-me todos os dias quando voltarei a ser um pouco mais normal, a ser aceita novamente, a socializar com facilidade, quando finalmente terei um namorado. Penso que possa estar destinada à solitude eterna. Apesar de tudo, no fundo eu a prefiro, mesmo doendo demais. Só quem passa por isso sabe.
Penso que boa parte da minha geração vive em torno somente de festas, bebidas, baladas, drogas e redes sociais. Nem falarei das indumentárias; complica demais. Como posso me encaixar nisso? Será possível não existir ninguém parecido comigo? Óbvio que existe, mas minhas esperanças, no momento, estão desvairadas. E, enquanto não encontro as pessoas certas para caminhar ao meu lado, continuo olhando para o infinito, ou melhor, escrevendo crônicas em uma sexta-feira à noite qualquer.