Nosso Amor como o Canto dos Passaros
Ainda prefiro o mundo sem essa tela da modernidade. Sou mais feliz quando posso te encontrar em qualquer canto dessa cidade.
Acende uma vela
Reza pro teu santo!
Por desapego, por desespero,
E algum tipo de encanto.
Enquanto a luz do dia
Espera e te aguarda, como guia,
Pra você sentir a vida
Ao invés de ficar ajoelhado,
Em algum canto.
Lamentando
Por dizeres que sozinhos
Não movem um mundo,
Nem geram espanto.
De pedido em pedido
Impedindo de ser a vida
Que tanto ouve em forma
De melodia e canto!
Tu não me encantas.
Não do tanto que lhe encanto.
Se cantasse do meu canto,
E comigo se juntasse no meu canto,
Me encantaria, talvez,
Toda essa ladainha.
Acorde
no solo a argila chora
o som das angústias
pegadas pesadas profundas
ousadia em tocar solo
desempenho único
do instrumento, do canto
que entoa
sozinho
as notas da vida.
Espero acordar sempre com um canto
Diferente do canto d’outro dia...
Talvez, ouvir a mesma melodia,
Que não nova, me traga novo encanto.
O Canto da Maria
Aqui e agora
Tudo acontece.
Alguém esquece,
Outro murmura,
Alguém medita,
Alguém escuta
Talvez reflita
Um dá um grito,
Pede socorro,
Da um aviso,
Uma voz gritou,
E a corrente
Acorda a gente,
E já se quebrou.
O amanha já será tarde
O que passou
Não vai voltar.
Ouve a Maria Maria
De João Pessoa
Da poesia
Da alma boa
Da alegria
Este é o seu canto
Do sabiá.
“Passarinho que canta bonito vive preso, mas continua cantando, pois sua orquestra é ouvida na multidão e na solidão.”
Giovane Silva Santos
Canta América
Não o canto de mentira e falsidade
que a ilusão ariana
cantou para o mundo
na conquista do ouro
nem o canto da supremacia dos derramadores de sangue
das utópicas novas ordens
de napoleônicas conquistas
mas o canto da liberdade dos povos
e do direito do trabalhador…
O canto triste e melancólico
da sabiá-laranjeira
que reside aqui em frente,
invade minha solidão.
Formamos um belo par de solitários,
ambos fora de tom:
ela, com seu canto,
lamenta o amor que se foi,
eu, em meu canto,
lamento o amor que não veio.
Só tenho esse canto
É meu
Eu fiz
Eu compus
Nesse canto aqui canto meu canto
Um lamento sobre o encanto
Que falta
Que sobra
Que atrapalha
Um canto
Sem melodia
Sem letra
Sem ângulos
Um canto só meu
Fui vindo
Vindo e aqui parei
Por muitos desencantos
Aqui estou no meu canto
Nem o canto me ajuda
Mas acostumo
Canto no meu canto
Em silencio
Pois pouco sou
Pouco sei
Estou sempre no meu canto
Bosta.
A SERIEMA
Falam que a seriema, quando desata
O seu canto, no cerrado ali tranquilo
A viola do roceiro, chora, a segui-lo
Roncando esmorecimento pela mata
O retinir, longo, tal um sino de prata
Quando soa, longe, se pode ouvi-lo
Num tal solfejo, em aguda sonata
De um aristocrático canoro estilo
Quando a cantata, ressoa amolada
No coração do sertão, bem fundo
A saudade dói, e no peito faz morada
E o que mais neste canto se espanta
É que o canto de apenas um segundo
Na alma do sertanejo se agiganta...
© Luciano Spagnol – poeta do cerrado
2020/agosto, Triângulo Mineiro
Às vezes, experimentar uma leve sensação de sardinha de canto de lata pode nos fazer transbordar humanidades.
Não sei bem a que vim,
nem sei bem para onde vou,
eis que só entendo de mim
nesse momento onde estou!
Algumas vezes eu achava que a espada cantava. Era um canto fino, apenas entreouvido, um som penetrante, a canção da espada que desejava sangue; a canção da espada.
Minha Vida
Eu amo a vida
Porque dela faço parte
Não sou terço nem metade
Sou apenas a arte.
Eu amo a vida
Porque imagino ilusões
Faço trovões
E canto com a minha voz seca.
Eu amo a vida
Porque nela não vir por acaso
Eu sou um fato
E dela hei de fazer tantos atos.
Eu sou a vida
Porque ela está em mim
E eu nela estou.
Na sala de aula, num canto escuro da caverna, alunos acorrentados pelo uniforme, clamando pelo retorno do filósofo para matá-lo.
CANTAR O CERRADO
É cascalhado e sinuoso, mas todavia
de um encanto lotado de um alento
no seu sulcado chão tão macilento
poema se lê com rimas de teimosia
E uma vez que na extensa pradaria
ao admirar o horizonte pardacento
hora se faz dia e o dia o momento
nascendo o diverso em desarmonia
A velha terra, de poesia e liberdade
com tal melancolia e uma saudade
que encharca a sequidão de sabor
Então, ao encontra-lo, assuste não
Logo terá acordo e muita emoção
Pois, o cerrado passa além do amor...
© Luciano Spagnol - poeta do cerrado
11/11/2020, 08’47” – Araguari, MG
