Naufrágio
Hoje é o reflexo do ontem, amanhã o espelho do hoje, e com todo naufrágio no mundo distorcido guia humanidade em rotação sem conhecer a verdade realidade.
'MAR... '
Nos extensos mares somos barcos naufrágios. As muitas correnteza [des]favoráveis sempre deixam ranhuras. As salinizadas águas com o tempo deixam cicatrizes. A dilaceração é perceptível com o tempo e o tempo é um desastre.
Vedar as fendas que surgem apenas prolonga o que de fato já se escreveu. Deixar o barco correr ou manter-se agitado? Há os que preferem a resistência, a mágoa de tentar subir as correntezas rumo às suas expectativas. Outros apenas flutuam. São levados pelo mar com aparente satisfação e ócio.
Mas sabe-se: todos querem um porto a qualquer valia. Chegar àquela luz que tanto brilha. Manter seguro a estrela que tanto se admira. Uma. Várias. O que vale é a energia. Flutuar sob as águas imensas. Belas. Delirantes. Mas com seus desafetos e sujeiras.
Com o tempo aprende-se a aceitar o extenso mar à nossa frente. Não importa como ele seja. Um dia nos levará para onde não queiramos. A tração que se tem é apenas temporada. Ajuda, mas não é duradouro.
A visão desse mar é fantástico. Inacreditável. Surpreendente. Nele todos movem-se sempre rumo ao desconhecido. E o tempo há de naufragar aquilo que tanto procuramos. Tempo? Não! O mar... essa coisa sombria e nefasta.
ALQUIMIA DE NAUFRÁGIO
Numa alquimia sem bruxo
Altas ondas suportou
Mesmo náufrago, sem susto
Desespero afastou
Entre o fluxo e o refluxo
Tanta coisa que passou
Foi bem forte o repuxo
Algo em si muito mudou
Hercúleo esforço sem ter luxo
Novo porto ancorou.
Refúgio
Em tempos tempestuósos
"Terra à vista" após o naufrágio...
Depois de um dia de sol
Que bom que a beleza da noite conforta...
Senão, o que seria de mim agora?
Te entreguei meu coração
Eu sei e sinto que recebi o teu de volta
Mas o dia foi curto...
Chegou a noite...
Ainda sinto teu toque, teu abraço apertado...
Teu cheiro grudou em mim, amor!
Sabe aquela blusa que você usou?
Não tive coragem de lavar...
Porque ainda te amo!
Perdemos-nos, não sei em que momento
Vou tomar água, olhar a lua...
Talvez cure esse nó na garganta
E acalme meu coração...
Que ainda quer ser teu.
Ensaio
Quantos naufrágios há de esconder este teu olhar oceânico?
Quantos corações terá tragado para teu íntimo profundo?
Quantos mistérios hão de repousar na calmaria de tuas águas?
E quanto sofrimento desaguou o teu peito por este mundo?
Ah, Poeta!
O que será de mim,
consumida por este mar,
n'uma ressaca tremenda de Amor,
que inconscientemente tragou
para dentro de si meu Coração,
e o arrebatou contra as rochas da Vida?
O que será de meus restos naufragados?
O que há de voltar p'ra mim - além da Solidão?
E o que há levar para si - além de meu Amor quebrado?
Diga-me, Poeta!
- O que há de tão profundo e devastador em teu olhar?
NAUFRÁGIO
Quem me leva para Galiza?
Meu barco ficou atolado
Quase afundado
Na Boca do Inferno
De Cascais da Costa da Guia
Inda quase a noite era já de dia
Com o leme despedaçado
Quando eu apontava no caderno
O norte onde eu queria
Alcançar a terra do meu fado.
Quem me leva para Galiza?
Às minhas amadas ilhas de Cies e Ons
Mágicas de vidas de outros sons
E tantas saudades das Sisargas
E a amada de San Simon
Onde repousa o coração
Do amigo das costas largas
Que a onda arrebatou em Medal
Na trágica noite do temporal...
Quem me leva para Galiza?
A terra verdadeira dos meus astros...
Se lá não voltar em vida
Certinho será na muerte
Consorte
Requerida
E então abraçarei meus avoengos
Velhinhos mas solarengos
Os meus saudosos Castros.
(Carlos De Castro, in Boca do Inferno de Cascais, 02-07-2022)
NAUFRÁGIOS
Umas me deitavam
Outras me cobriam
Sempre dei a sensação
De que era eu a caça
Era uma armadilha
E nunca deixei de ser ilha
E nesse mar de solidão
Elas se afogam
E pela madrugada
Vou recolhendo na lembrança
O que restou dos seus naufrágios...
Quabdo você me deixou
Vivo em naufrágios
Tudo virou um temporal
E todos os nossos sonhos
Evaporaram, não vejo teu sinal
De que voltarás...
Tuas palavras foram falsas
E inseguras...
Com certeza sairei desta situação,
E breve este meu coração,
Achará um alívio com direito a calmaria
E tudo será dissipado e abminado...
***
Não importa o caminho, o desfecho é sempre o mesmo. Eu, naufrágio de mim. É como se o erro estivesse gravado em minha essência, antes mesmo de eu nascer. Cada escolha apenas uma variação do inevitável. Luto, insisto, me debato, mas há algo maior, invisível, que já decidiu meu lugar, é à margem, entre os que tentam e nunca chegam.
“Se a vida é um oceano, minha casa é uma ilha, não me importo com os naufrágios, ou encontro meus sonhos, ou aprendo a transformar jangada em navio.”
Não há naufrágio mais medonho do que o do Pobre que naufraga no abismo das misérias, pelo prazer em comemorar a morte de um Rico.
Não há náufragos no mar das idealidades porque os sonhadores são ótimos timoneiros, os naufrágios restringem-se ao mar da realidade no qual viajamos como passageiros.
Nesta terra de mistérios,
piratas, tesouros e naufrágios,
Qualquer "Inveja de Bruxa"
deixo na Pedra Descansa Defunto
para que seja esquecida,
Não me ocupo com superstição
porque conheço desta
terra toda e qualquer direção.
Aprender a observar os próprios
naufrágios como quem está
em Cayo Nordisquí,
descobrir corais e se alegrar.
Nada pode parar quem tem
vontade de seguir em frente
com os seus sonhos navegando
porque sabe onde quer chegar.
Tenho o balanço do Mar do Caribe,
a fúria e a mansidão do vento
que tudo pode pôr em movimento.
Em tudo coloco a alma e o coração
com os pés na Terra e na mente
no Universo sem me perder da tua direção.
