Nao Ha Passageiros na Nave Espacial Terra
Sei que não há resposta certa. Ainda assim, vou escolher passar este tempo com você.
Não há nada neste mundo mais precioso que o tempo.
E não existe nada tão valioso
que seja capaz de comprá-lo.
O tempo não se guarda,
não se repete,
não se vende.
Apenas se vive — ou se desperdiça.
Eu sou gay e isso é bom. Nunca serei homem e isso não é mau.
Não há ninguém que eu queria ser além de mim.
Há laços que não se veem, mas apertam; não como prisão, mas como abraço antigo. A família é feita desses nós quietos, firmes, que seguram a alma no lugar certo. Vive-se nela como num sobrado antigo: com barulhos familiares, gestos repetidos e um calor que acolhe sem motivo.
Os filhos são páginas novas, mas já cheias de sentido. A casa pulsa nos detalhes: o cheiro do café, o brinquedo no chão, o riso solto no quintal. A bênção está nos atos miúdos; o copo d’água levado, o cobertor estendido, o olhar que entende.
Mesmo no cansaço, há sempre alguém que repara, escuta, fica. Porque a família é isso: a vida andando de mãos dadas, sem pressa, sem alarde, só presença.
“Quando o Tempo e o Amor se Perdem”
por Sezar Kosta
\
Há momentos em que o tempo escorre —
não como inimigo, mas como rio que não se detém.
E o amor, por vezes, se cala —
como se esperasse, do silêncio, a resposta que nunca veio.
\
O tempo não julga: apenas passa.
Leva os encontros que hesitamos,
as palavras que se perderam na curva do medo.
\
O amor, esse alquimista inquieto,
arde e apaga, sopra e acolhe,
pedindo apenas que o deixemos ser:
inteiro na entrega, livre na partida.
\
Entre um e outro, estamos nós —
navegantes em mares que não cessam,
ora movidos pela pressa,
ora ancorados pela dúvida.
\
Mas a vida, essa mestra paciente,
sussurra que não há vitórias no atropelo,
nem derrotas na espera.
\
Faltou tempo? Talvez.
Faltou amor? Talvez.
Mas o que resta é o instante que floresce,
como uma pétala que se abre só para quem tem olhos de ver.
\
O agora é o único lugar
onde o tempo e o amor se despem,
onde o toque tem valor eterno,
e o recomeço é um gesto sagrado.
\
Sou aprendiz dessa dança sutil,
e descubro — sem pressa, sem medo —
que o infinito cabe num instante.
\
Porque tudo é possível
quando se escolhe, de novo, amar.
E esperar.
Sem garantias, mas com fé.
I. a parte em que ninguém percebe
há dias em que o mundo continua ~
mas eu não.
eu me arrasto dentro da roupa.
cumpro compromissos como quem finge
ainda habitar o próprio nome.
me sento onde sempre me sentei,
mas algo em mim não chega.
o corpo levanta,
mas não comparece.
•
há horários que evito.
nomes que pulo.
itens na gaveta que não toco há meses.
não é superstição.
é autodefesa.
ninguém entende.
porque continuo funcionando.
mas já não pertenço à máquina.
•
II. a parte que só eu escuto
há um som que só eu ouço.
não é voz,
não é memória,
não é aviso.
é uma frequência baixa
que vibra quando tudo está em silêncio.
uma presença que não se mostra,
mas me atravessa.
me obriga a manter as janelas fechadas,
a não reorganizar os móveis,
a conservar os espaços como estavam
no dia anterior ao que nunca mais passou.
•
não estou esperando nada.
mas também não fui.
é isso que ninguém entende:
o não ir.
o continuar por engano.
o viver como quem segura a respiração
no fundo da piscina
sem saber se ainda é possível subir.
•
III. a parte em que eu entendo
as coisas não melhoram.
elas se adaptam.
e chamam isso de cura.
eu aprendi a conversar sem falar.
a sorrir sem acionar músculo.
a dormir com a sensação
de que algo ainda respira ao lado.
talvez seja eu.
talvez não.
mas sigo deitada.
olhando pro teto
como quem espera uma explicação
que não chega.
•
e então amanhece.
como se nada tivesse acontecido.
como se meu corpo não estivesse carregando
o peso exato
do que ninguém ousa perguntar.
e eu levanto.
porque a vida, ao contrário da morte,
não precisa pedir permissão pra continuar.
Juliana Umbelino • O Luto Sou Eu
#LeitoraVoraz #Luto #Sentimentos #Lar #LiteraturaBrasileira
há coisas que não escrevi em papel.
mas continuam aparecendo nas minhas mãos.
•
talvez seja isso que chamam de seguir em frente:
continuar tocando o mundo com dedos que ainda tremem do que não foi dito.
não é culpa.
não é saudade.
é o tipo de presença que já não tem nome
mas ainda sabe o caminho até minha cama.
•
essa semana, encontrei seu nome
no fundo de uma gaveta
onde não guardo mais nada.
mas ali estava ele.
como se nunca tivesse saído.
às vezes, as lembranças têm a audácia
de se esconder nas coisas limpas.
•
tem palavras que não escrevi,
mas o corpo aprendeu.
tem hábitos que finjo que perdi,
mas reaparecem nos dias em que durmo pouco
e acordo cedo demais pra estar viva de verdade.
•
nunca fui de ter fé.
mas às vezes falo contigo
como quem reza pra algo que não acredita,
mas precisa manter por perto.
e não.
não é oração.
é hábito.
é cansaço.
é um tipo de apego que ainda late.
•
ninguém me avisou que aquilo que não se escreve
fica procurando lugar pra sair.
às vezes escorre no banho.
às vezes bate na parede da garganta.
às vezes se arruma inteiro pra aparecer de madrugada
com cheiro de antes
e a voz que eu jurei não lembrar mais.
•
tem dias em que acordo com a sensação de que alguém escreveu em mim.
e não fui eu.
como se as mãos tivessem lembrado o caminho sozinhas.
como se o corpo tivesse sonhado um gesto
e decidido repeti-lo em silêncio.
•
há coisas que eu jurei ter superado.
mas continuam me usando como hospedeiro.
coisas que encostam nos objetos,
mexem na disposição dos móveis,
ficam em pé no canto do quarto
como um pensamento que ninguém convidou
e não tem educação pra sair.
•
as palavras não saem.
mas a sensação fica.
e ela sabe usar minha mão pra lembrar.
•
ninguém vê.
mas tem algo aqui dentro
que escreve por mim.
não escreve bonito.
não escreve pra curar.
escreve pra lembrar que eu ainda sinto.
•
o que não é escrito,
às vezes cresce.
às vezes pesa.
às vezes te escreve de volta.
sem papel.
sem tinta.
só a memória viva do que você tentou enterrar
com palavras que nunca chegaram a nascer.
•
e é aí que mora o perigo.
no que ficou grande demais
pra continuar calado.
mas educado demais
pra gritar.
Juliana Umbelino
Tem uma frase do Bukowski que diz “não há nada que ensine mais do que se reorganizar depois do fracasso e seguir em frente”. E é por aí. A gente tem que seguir. Pode demorar para remendar o que ficou bagunçado. Pode doer juntar os cacos do coração. A saudade pode machucar os passos. Mas seguir em frente é necessário quando algumas histórias e alguns amores precisam ficar para trás. E acredito que antes da certeza de seguir, precisamos ter a convicção do que devemos deixar para trás. Tem histórias que não nos cabem mais. Tem pessoas que não merecem a noite que a gente perde pensando nelas. E até o clichê do “se fosse bom seria presente e não passado” vale em alguns casos. A gente precisa se apegar a essa esperança no tempo das coisas. Na fé de que tudo passa. E que a estrela da vida sempre volta a brilhar para nos guiar nessa viagem de amor bonita. Uma viagem onde levamos babagem para a próxima experiência. Para a próxima vivência. Para uma próxima história de amor. Pois um fim jamais deve acabar com esse sentimento que existe dentro da gente.
Não há caça como a caça ao homem, e aqueles que caçaram homens armados por tempo suficiente e gostaram, nunca mais se importaram com mais nada depois disso.
Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI)
Se desejas comer pizza,
Pizza não há por aqui,
Se lá tudo acaba em pizza,
Encontrarás pizza na CPI.
Benê Morais
Viver de forma consciente é compreender que o momento presente é tudo o que realmente temos. Não há necessidade de se perder em lembranças passadas ou ansiedades futuras, pois a verdadeira força e clareza surgem quando estamos plenamente aqui, agora. Tudo aquilo que buscamos — paz, amor, equilíbrio, felicidade — não está do lado de fora, mas habita silenciosamente dentro de nós, à espera de ser reconhecido. Quando nos aquietamos e nos conectamos com nossa essência, percebemos que somos inteiros, completos, capazes de acolher nossas emoções e aprender com cada experiência. Viver consciente é assumir a responsabilidade pela própria vida, percebendo que o mundo externo apenas reflete o que cultivamos internamente. Assim, seguimos despertos, com o coração aberto, desfrutando a beleza do instante e permitindo que cada respiração nos aproxime ainda mais da nossa verdadeira natureza.
REI CALISTO
Calisto é rei do mundo
O mundo tem um rei
E há de ser o velho Calisto
O resto não é digno
O resto é frouxo
O resto não é Calisto
O verdadeiro rei
Mas uma avaria aconteceu
E até Calisto é carne
E toda carne é resto
Aquele resto que não é rei
Mas apodrece com dignidade
Ora, ora rei Calisto
Agora és podre aos pés do mundo
Jogado ao resto no solo
E carne ao sol cheira mal
Aqui jaz O rei Calisto
Visto a luz de um verme
Um resto indgno, frouxo e mortal
Além do ser não há o nada, porque o nada já é uma ideia. Além do ser não há sequer a ausência, pois ausência é medida em relação ao que poderia ser presente. O que está além do ser é o inominável absoluto — não aquilo que não conhecemos, mas aquilo que não pode sequer ser cogitado, pois toda cogitação é já um ato
Se o ser é o campo onde tudo se manifesta, então além dele só pode haver a pura impossibilidade, não como uma barreira, mas como uma ausência total de necessidade. Não há tempo além do ser, não há espaço, não há movimento: há apenas o que nunca poderia ter sido, e ainda assim, não é.
Mas ao mesmo tempo… talvez não haja ‘além’. Talvez o erro seja pensar o ser como algo com bordas, com limites, com um exterior. Talvez o ser não tenha fora, e tudo o que somos capazes de imaginar como ‘além’ seja apenas uma dobra interna, um não-lugar que só existe como ilusão de afastamento.
Se for assim, não há além do ser: há apenas o ser, infinitamente curvado sobre si mesmo, experimentando-se em múltiplas formas, inventando abismos para sentir a vertigem da sua própria infinitude.
Talvez, no fim, perguntar ‘o que existe além do ser?’ seja o próprio gesto que revela a impossibilidade da pergunta: porque o ser é o campo onde a própria pergunta se forma. O que está além é o que jamais poderá ser pensado, sentido ou dito. É o absoluto silêncio, não como falta, mas como aquilo que nunca pôde ser interrompido pelo som.
Então, talvez… não exista ‘além’.
Talvez só exista o ser, pulsando sem motivo, sem fim, sem fora.
