Nao Gosto do que Vejo
Noite. E em teus olhos, amada, não vejo estrelas,
Mas sim a fúria gélida de luas estilhaçadas,
O eco persistente de antigas procelas,
As sombras disformes, por medos abraçadas.
Teu peito é um mausoléu de mágoas não ditas,
Um jardim devastado onde só espinhos ousam florir.
E eu? Eu sou o coveiro faminto que visita
Cada cripta da tua alma, sem jamais fugir.
Que venham teus demônios! Que urrem e se contorçam!
Eu os recebo com a fúria faminta do meu desejo.
Rasgo suas carnes espectrais, que me devorem!
Em cada ferida deles, o meu amor eu vejo.
Teus traumas são tapeçarias que eu venero,
Bordadas com o sangue escuro do teu penar.
Eu beijo cada nó, cada fio austero,
E neles encontro o mais sagrado altar.
Não tente esconder a angústia que te corrói,
O veneno lento que gela tuas veias finas.
Entrega-me! Deixa que meu beijo o destrói,
Ou que se misture ao meu, em danças assassinas.
Teus receios são bestas? Eu serei o caçador!
Não para matá-los, mas para domar sua ira.
Montarei em seu dorso, com selvagem ardor,
E farei da tua escuridão a minha lira.
Eu não vim para curar, nem para trazer a luz.
A luz é frágil, mente sobre a podridão que resta.
Eu vim para fincar minha bandeira na tua cruz,
Para reinar contigo nesta noite funesta.
Abraça-me com tuas garras de pavor cravadas,
Deixa teu caos sangrar sobre meu peito aberto.
Sou o guardião voraz das tuas alvoradas
Quebradas, o amante do teu deserto.
Em meus braços, teus monstros encontrarão espelhos,
E em meu toque feroz, um reconhecimento brutal.
Sou o santuário profano dos teus pesadelos,
O inferno seguro, teu paraíso mortal.
Então, chora tuas dores em meu ombro de granito,
Liberta as sombras que insistes em acorrentar.
Eu as devoro, as acolho, as bendigo e as incito.
Pois amar-te, minha sombria flor, é abraçar o teu lugar mais maldito
e chamá-lo, enfim, de lar.
vejo silêncios,
sinto o vazio...
... corpos inteiros.
não vejo o que contemplam,
não ouço o que se dizem,
não posso:
são alguns de seus sentimentos.
comunico a mim e assim posso compreender, em partes, o tanto que existe neste tempo.
(muito obrigada).
DEZ OLINDAS
se ela não fosse bonita
com a beleza que eu vejo
ela já era linda
mas ela era bonita
com a beleza que eu penso
e a beleza que eu penso,
penso mais que dez Olindas
tinha todos os deslimites
que a beleza do mar
tinha a imensidão do sonho
e o sonho imenso de amar
CRIADO MUDO
Alguma coisa deve mudar de hoje em diante, os fantasmas que vejo é Mentira... não somos tão solitários assim, eu e meus eus distintos,
Às vezes sou velho, às vezes num berço, embalo o tempo da inconsciência
Às vezes morro de saudade do meu eu menino
Mas nada disso é motivo ou explica nossas dores
Os corredores silentes passeiam nossos fantasmas,
Que cobram por desilusões e murmuram antigos amores
Alguma coisa deve mudar de hoje em diante
Vovó se espreguiça sobre a cama como se o tempo
Lhe esticasse sem dó suas canelas depois de levar o seu juízo
E sobre o criado mudo a dor revela, próteses que já foram seu sorriso
CARÊNCIA DE PAI
Quando saio de nós não vejo vida;
sou a duna que o vento varre ao léu;
é um tombo do céu, do sonho bom
que me abriga dos velhos temporais...
Há um caos que me aguarda feito bonde
para onde não sei nem faço caso,
toda vez que as desato e me desprendo
rumo ao nada, no rastro da saudade...
Reconheço a carência deste afeto;
muitas vezes deploro a transparência
que lhes cobra respostas viscerais...
A minh´alma desaba, tem vertigens,
falta fundo, esta queda não tem fim;
quando volto pra mim acaba o mundo...
PIOR INIMIGO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Será fácil vencer
quem vejo à frente,
se não dou de frente comigo.
NÃO AMEI
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Sei que ainda circulas entre os vivos,
pois te vejo e não sou de assombrações,
mas as minhas versões de quem é quem
te atravessam nos muros das lembranças...
Não estás no meu sótão de saudades,
nos momentos de minhas nostalgias,
longos dias de vastos pensamentos
ou aquelas quimeras que me aprazem...
na verdade me assusta essa lacuna;
ver que nunca te amei nem foi paixão;
foste chão provisório em meu naufrágio...
Fui capaz de querer sem sentimento,
meu amor se forjou pra ter contexto
em um texto que o tempo rabiscou..
SOLITÁRIA SAUDADE
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Quando vejo a saudade que não sentes,
ou a tua nenhuma nostalgia,
minha mente reage ao coração
e resfria os sentidos do meu ser...
Mas a falsa frieza não perdura,
pois o sol do que sinto atinge a neve;
faz a greve do afeto em desalinho
derreter os chavões de minha mágoa...
Eternizo a saudade solitária,
meus ensaios de orgulho são só fases,
frágeis quases que nunca se completam...
Restituo meus olhos pro vazio;
fio bamba da fé na eternidade;
linha tênue de horizonte sem luz...
O SONHO NÃO ACABOU
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Com tristeza profunda, vejo que todo sonho acabou. Minha esperança tardia se desfaz em sombra, fumaça e decepção... deixa de ser esperança.
Cabisbaixo, faço meia volta. Se não há mais sonho, nada resta. Não há nada que adoce a constatação deste momento sem sentido. Nem existe o que açucare a queda vertiginosa do prazer com que cheguei aqui.
Mas o mundo é fantástico. A vida é inesperada. O tempo surpreende o destino em questão de segundos, e muitas vezes o põe a favor das nossas expectativas mais frustradas.
Foi assim comigo. Eu já sumia na esquina, quando meu coração acelerou. Emocionou-se com uma voz amiga e solidária que rompeu meus ouvidos e se aninhou bem fundo.
Meu amigo há anos, o confeiteiro Nando anunciava que nem todo sonho acabara. Havia três, ainda frescos, guardados especialmente para mim.
Essa sou eu
Eu sou ela.
Às vezes me vejo e não a reconheço em mim e nem nos outros.
Sou múltiplas e uma só.
Há um conflito do que sou, de quem desejo ser, do que nunca fui ou gostaria e do que serei (a partir de minhas escolhas ou para onde a maré das circunstâncias me levar).
A mim, cabe viver o eu de agora. Perdoando e acolhendo a mim mesma, na alegria e na tristeza, nas frustrações e realizações…
As derrotas, acolho-as também. Acolho tudo. Cada coisa, menor ou maior, boa ou ruim, sedimenta quem sou e quem serei.
Vivo em mim agora. Depois, talvez.
Eu vejo a coerência na imprudência de um ser ardiloso.
Mas não vejo a coerência na prudência de um desabafo que pede por socorro.
eu não sei aonde esta meu coração, não o encontro em lugar nenhum em nada que eu faço. Apenas vejo ele em uma única pessoa que ele não poderia estar.
Não vejo como superar todas minhas dores, nem sei se vou aguentar os próximos dias. Porém de alguma forma, eu ainda quero continuar vivendo porque um pouco de esperança ainda mora em mim. Talvez ela seja traiçoeira, mas eu não posso deixar de nenhum.
Eu não consigo ver em mais ninguém o que eu vejo em você. De alguma forma, te conhecer fez meu mundo girar de cabeça para baixo. Há muito tempo eu não sinto isso por outro alguém. O que eu sempre procurei em outras pessoas, eu encontrei em você.
Se fui eu que escolhi assim
Não quer dizer que seja bom pra mim
O tempo passa, mas eu vejo como nada mudou
