Nao Chega aos meus Pes
LEMBRANÇAS
Nas horas em que bate uma incerteza,
em que meus pés não pisam com firmeza,
eu busco, pai, a força dos teus passos.
Como se eu fosse ainda uma criança
que tenta caminhar... treme... balança...
mas sabe que ao cair, cai em teus braços.
Nas horas em que eu erro (e eu erro tanto)
para acalmar as dores do meu pranto
eu tento recordar cada lição...
E então, como num toque de magia,
eu volto a ver o olhar que corrigia
e a ouvir a voz que dava o teu perdão.
Nas horas em que eu busco mais coragem,
ao reencontrar, na mente, a tua imagem,
com ela, os meus temores eu reparto.
E eu sinto que tu segues ao meu lado
me protegendo, como no passado,
afugentando os monstros do meu quarto...
Pai, eu cresci... E o teu menino agora
não pode te chamar sempre que chora
e nem pedir teu colo quando cai.
Porém eu sou, no mundo das lembranças,
a mais feliz de todas as crianças
por ter um grande amigo, herói e pai!
Aonde meus pensamentos me leva, meus pés não alcança.
Mais vejo tudo com o poder de tudo que nós criou.
Meus pés descalços
Não seguem em vão
Mesmo que ainda longe
Carregam o peso da carnede Adão
Eu entendi a importância de sonhar
E se ficar parado pouco ou nada posso mudar
O caminho é íngreme
Pedras podem rolar
Mas não me abalo
Vou caminhar
O gelado nos meus pés sentem sua falta acada batida do meu coração, não me sobrou muitas coisas, então te escrevo, até que um dia você canse de ler minhas palavras pobres, sem sentido e nada importantes.
Quis te ligar ontem, ouvir um boa noite calmo da sua voz, mas tive medo de não receber nada, eu entenderia...
Amanhã serão cinco dias que eu me vejo submersa num mar vasto e cheio de agulhas e pedras sobre mim, e eu fico inerte, morro de qualquer jeito, então eu permaneço ali, olhando o céu...
Acredito que tenha te dado momentos de tamanha felicidade, acredito que sim, mas eu sei que todos eles se tornaram poeira perto de todo o mal que te fiz, e nossa, eu realmente fiz...
Olhando o céu nesse momento, percebo que meu coração se tornou o que vejo, cinza, nublado, chorando sem se importar com qualquer ser humano, me resta uma resposta e eu tenho medo de perguntar, talvez eu prefira ficar assim, sem saber, no fim, eu sempre irei saber mesmo que eu lute contra.
Perdi minhas habilidades na fala, ja não sei mais o significado de muitas coisas, escrever me deixa tão burra as vezes, e eu me cubro de saudade e de vontade.
Eu so queria teu colo quente outra vez, nessa tarde fria...
E meus pés não se cansam, mas haverão de parar e esperar outros chegarem e talvez assim completar o caminho.
Que o chão desabe sobre meus pés
E que não sobre nada ao meu redor
Que o céu nublado desabe em uma torrencial tempestade
E arrefeça a já não existente planície
Que a neblina cubra todo o meu entorno
Para que eu não veja mais o abismo abaixo de mim
Nem o céu escurecido
E unicamente sinta os pingos de chuva sobre meu corpo
Levitando no vazio do nada.
Mergulho onde meus pés não encontram o controle. Afundo na distância onde os olhos não veem nenhum rastro de luz. Parece perdido, mas é onde me acho. Me acho na pele, no som, na cor, na forma, na dança. Danço na escuridão das águas que já estão sobre a minha cabeça e na lama que me prende ao chão. Como uma flor de lótus, me purifico e renasço.
No desespero, correr não me fará chegar mais rápido. Só fará com que tropece em meus próprios pés. A queda na pressa é inevitável.
Sou comprometida, tenho o amor mais lindo aos meus pés. Não... não contemple-me. O amor não é um arbítrio, ele nasce no coração mas se perpetua na alma do eleito. E uma vez na alma para sempre ficará.
Flávia Abib
ÁPICES
As horas se vão uma a uma
É Terra que meus pés já não pisam
Tic-tac surdo que me suga
Pisa
Que me rouba
Cada qual carrega o que deixei de fazer
Esse verdugo que é o Tempo me açoita
Por páginas não lidas de um livro
Pelo prato frio que já não pode ser comido
O que deveria ser vivido
O que lancei no amanhã
Um Sim que deixei no Talvez
Tudo aquilo que adiei
Corri atrás do Tempo!
Mas Ele já havia virado à esquina.
Não é os meus pés que movem meu corpo, mas meus pensamentos em você. E não há nada que eu faça que não seja por ti.
Querido passarinho
Um bosque, tão belo que não parecia real
Os meus pés andam sem uma direção correta
Nenhuma parte do meu corpo me obedece
Tão vivo que nem o que fazer
Distraído, trombo em uma árvore e ouço um estranho som
Olho para cima e vejo um pássaro em seu ninho
Tão azul quanto o céu, e tão belo quanto o seu bosque
- Olá! - Eu digo em alto tom para o pássaro me ouvir.
Ele não me respondeu, mas o vejo recuar.
- Eu te assustei? Perdão.
-- Não estou acostumado com pessoas. - Disse o pássaro.
- Podemos virar amigos e explorar juntos o bosque!
-- Não posso sair daqui.
- Por quê?
Ele não respondeu, imagino que está pensando na resposta.
- Bem, se isso te alivia, podemos brincar aqui mesmo.
-- Não tenho coragem de sair.
- Mas as suas asas são tão belas.
-- Asas? Que asas?
O pássaro começa a procura-las.
- As que estão em você.
-- Eu realmente não as vejo.
- Por quê?
Consigo ver nitidamente as suas belas asas, algo que ainda é estranho para mim.
-- Provavelmente porque elas não são mais úteis para mim.
Prefiro sofrer o escárnio e a indiferença, mas não dobro meus pés para deixar de imprimir a verdade nas mentes e nos corações de quem me ouve.
Não tenho interesse em ter todas as pessoas aos meus pés, me interessa andar lado a lado com os que estão a minha altura.
Vou engolir a vontade de gritar sobre você. Não vou alimentar o monstro. Vou enterra-lo em meus pesadelos e nunca mais verá a luz do meu dia.
Se eu quiser andar e os meus pés não poderem me seguir então me manterei estática, pois meus pés já não me obedecem.
Se eu quiser pensar e minha mente me enganar então serei louca, pois meus pensamentos se tornaram rebeldes.
A certeza é a maior dúvida que pode existir.
Se os meus olhos podem te tocar, minhas mãos já não me servem pra nada, pois meu maior desejo é tocar você.
Andanças climáticas
Meus pés rachados
e o meu caminhar
não se reconhecem mais
os mesmos pés
que pisavam no pomar
agora se dedicam a fugir do mar
e com certeza não é sobre amar
porque se fosse o caso
eu não estaria indo
em direção ao centro
sem um lugar
para descansar
o meu corpo cansado
e se eu ficasse
poderia me afogar
como os pés de planta
que ficaram para lutar.
