Memória

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O Direito é memória organizada, mas também deve ser imaginação institucional.

Uma testemunha segura de sua memória não torna sua memória necessariamente verdadeira.

A Constituição é a memória jurídica de que nenhum poder deve ser absoluto.

O precedente é uma memória institucional; a inovação é sua capacidade de responder ao presente.

A reputação é uma memória social; quando essa memória se torna permanente, o erro humano corre o risco de adquirir eternidade tecnológica.

A memória é o lume secreto pelo qual o passado resiste à soberania do esquecimento.

O que o amor não consegue conservar na matéria, a memória restitui como réstia.

A certeza humana é frequentemente apenas uma dúvida que adquiriu memória suficiente para parecer antiga.

A esperança é uma espécie de memória antecipada: a capacidade de enxergar uma possibilidade de futuro quando o presente ainda não oferece nenhuma evidência suficiente.

Quem se acostuma a dizer a verdade economiza uma quantidade impressionante de memória e uma quantidade ainda maior de desculpas.

Sabedoria não é acumular acontecimentos na memória; é transformar experiência em compreensão suficiente para não repetir cegamente aquilo que a própria vida já ensinou.

Estudar sem curiosidade é lançar palavras à memória sem oferecer-lhes raízes; aquilo que não desperta a inteligência raramente sobrevive ao esquecimento.

A máquina pode reproduzir uma memória; somente o homem pode sofrer por aquilo que lembra.

A história é a memória da humanidade tentando compreender aquilo que ela mesma produziu sem compreender inteiramente.

A Mulher Que Ficou Apenas na Memória

No primeiro dia de novembro,
o tempo escreveu o teu nome
na página mais bonita da minha vida.

E eu, sem saber,
entreguei-te o coração
como quem entrega uma casa
a alguém que promete nunca partir.

Em março,
vestimos o amor de eternidade.
Diante do mundo jurámos permanecer,
ignorando que até as promessas
podem sangrar em silêncio.

Vivemos instantes
que hoje parecem pertencer
a outra existência.

Havia poesia no teu olhar,
calma nas tuas mãos,
abrigo no teu abraço
e esperança no sabor do teu beijo.

Tu caminhavas com a elegância
de quem fazia da ternura
a sua mais bela linguagem.

Então a vida,
cruel sem pedir licença,
arrancou-nos um filho
antes que ele pudesse conhecer
o calor dos nossos braços.

Naquele dia,
não morreu apenas um sonho.

Morreu um pedaço de nós.

Depois desse vazio,
vieram os silêncios.

Quem me chamava “amor”
passou a pronunciar apenas o meu nome,
como se cada letra apagasse
a história que juntos escrevemos.

O eterno começou a desfazer-se
sem ruído.

Como um castelo de areia
que o mar leva,
grão por grão,
até nada restar.

Tentámos regressar.

Houve pontes reconstruídas,
palavras ensaiadas,
esperanças teimosas.

Mas nunca faltou amor.

Faltou coragem.

A coragem de reconhecer,
de pedir perdão,
de olhar para as próprias sombras
sem fugir delas.

Hoje encontro diante de mim
uma mulher que tem o teu rosto,
a tua voz
e o teu nome…

Mas já não tem a alma
por quem um dia me apaixonei.

Onde havia princípios,
ergueram-se muralhas.

Onde existia admiração,
cresceu a indiferença.

Onde florescia a verdade,
restou apenas o eco
das promessas que o vento levou.

E então compreendi
a mais amarga das verdades:

às vezes,
a pessoa que perdemos
não parte.

Ela transforma-se
numa estranha
enquanto ainda respira.

Não sei se mudaste.

Ou se apenas deixaste cair
a máscara que o amor,
cego e generoso,
nunca me permitiu ver.

Hoje não choro
porque a nossa história terminou.

Choro porque continuo à procura
da mulher
que conheci naquele novembro.

Da mulher
que me olhava como destino.

Da mulher
que me abraçava como lar.

Da mulher
que um dia prometeu eternidade…

e que agora vive apenas
no lugar onde ninguém consegue morrer:

a memória
de um coração
que amou
até ao último pedaço de si.

Hassamo Abdurrahimo

escrever sem pressão
entre pausas
surge uma lembrança na memória
entre respiros
um suspiro
e uma nova forma de me reconectar comigo
diferente
única
e acolhedora


eu gosto de escrever
isso me liberta
me traz de volta
para as melhores partes de mim
De quem sou
do que gosto
e o novo eu descubro,
de mim.
e me liberto
das correntes
que me aprisionam
uma nova versão renasce
como se ela estivesse adormecida
esquecida
empoeirada
guardada dentro de um baú
para ninguém ver como brilha
como inspira


Como é possível?
Ficar tão escondida!


agora sua luz ilumina o caminho
consigo ver a direção que eu devo tomar
e que a luz me leva


enxergo o céu sobre a minha cabeça
sinto os pés no chão
e o cheiro das flores por onde passo
o mundo do qual sempre fiz parte


é estranho como havia caminhos nebulosos
dentro de mim
mas como é bom estar de volta
para quem sempre fui.

A segurança jurídica é uma espécie de memória institucional: permite que as pessoas organizem o presente confiando que certas consequências permanecerão previsíveis.

Memória da internet




O mundo ficou exposto. Do nada, você surge com verdades absolutas, com ideias bem definidas e discurso incontestável. Só que na internet tudo deixa rastro. Basta um clique para suas pegadas antigas desmentirem todo o seu discurso de hoje.

⁠Os melhores e maiores eventos da minha vida, hoje, são registrados na memória.O mundo não precisa mais saber, nem dos meus amores, nem das minhas glórias.

" As Águas que Coroam Outubro é Osún: Memória, Estratégia e Resistência"


Há meses que carregam no próprio ritmo uma inflexão do tempo. Quando outubro se instala, o calendário parece mudar de densidade, tingindo-se do amarelo e do ouro que anunciam a regência de Osun, Mais do que uma marcação litúrgica, essa presença no décimo mês do ano evoca camadas profundas de nossa história, unindo a espiritualidade, a estratégia e a resistência do povo negro no Brasil.


Na vivência popular e tradicional, o dia 12 de outubro carrega o sincretismo que uniu a veneração dà Grande Mãe das águas doces à figura de Nossa Senhora Aparecida. Longe de ser apenas uma imposição colonial, essa aproximação foi uma trincheira engenhosa de sobrevivência cultural. Nossos antepassados garantiram que o culto à rainha da fertilidade, do ventre e do ouro continuasse a pulsar, transformando a devoção em um ato político de preservação da memória. Celebrar Osum em outubro é, portanto, afirmar que a fé preta é um território soberano que o tempo e a opressão não conseguiram apagar.


Viver este mês sob a égide das águas doces é ser convidado a uma travessia filosófica. É compreender que a doçura não é sinônimo de passividade, mas a correnteza mansa que contorna a pedra mais rígida até abri-la ao meio. É erguer o espelho do Abebé não como culto à vaidade, mas como o resgate urgente do autoamor, da dignidade inegociável e do reconhecimento da própria imagem em uma sociedade que tentou nos desfigurar.


Em outubro, as águas de Osúm nos lembram que cuidar do fluxo da vida, proteger as nascentes e nutrir o futuro com inteligência e afeto são as formas mais radicais de insurgência. Ora Yê Yê Ô!