Claudia Vitalino

Encontrados 15 pensamentos de Claudia Vitalino

"Hora lagarta outras borboleta, as vezes o contrário, afinal este privilégio queapenas o tempo e as medalhas das lutas contra o racismo marcadas em minha pele, mas sem perder minha rebeldia"

Inserida por claudia_vitalino

⁠"Emancipar-se da condição de barbárie conformada pelo racismo.

Racismo esse criado, alimentado e mantido de pé, através dos mecanismos de controle da burguesia e escravista brasileira. Romper com a noção de ser negro sumiço imposta pela burguesia através do controle e da administração estrutural, impressa na cultura industrializada e vendida cotidianamente, através do discurso da representatividade, da igualdade e da inclusão" do negro "único"

Eu digo que: Nós pretas e pretos precisamos romper para além das falas de ordem ... Se somos irmãos de cor e de dor, temos que nos incentivar e nos abraçar nessa luta por cidadania . Pra deixar de sentir as brasas é uma ferramenta usada para marcar nosso povo ,marcou nossa alma e nos torna onde que estejamos um só...
Tudo que conquistamos de fato é nossa ancestralidade que é nosso legado Agora precisamos mostramos as garras da "pantera", beleza ,força a dominação não exterminou ... Nos reinventamos hoje mais que nunca, infelizmente em alguns casos reproduzidos pelos capitães do mato da modernidade que rendeu-se ao sistema opressor.
Infelizmente!
- Não e fácil ser herdeiros de DANDARA,ZUMBI e tantos outros que vieram antes ...
A população negra continua a sofrer em nosso país . Além de resistir, a gente precisa existir e não coexiste ...
Que a sonoridade exista de fato para todas as mulheres e pretos juntos, porque entre nós existe a Rebeldia que é nossa liga e alimento.

Inserida por claudia_vitalino

⁠O pensamento da Mulher Negra não é um Aditivo , mas uma "Formulação feita a partir das Necessidades "Negra"🐾 de sobrevivência genuína como guardiã da resistência de nosso povo em um dos momentos mais sóbrios onde nossa humanidade foi retirada

Inserida por claudia_vitalino

Metamorfose Negra

por Claudia Vitalino

Hora lagarta,
outras, borboleta —
às vezes, o contrário.
Nem sempre o voo vem antes da queda,
às vezes, é a queda que ensina o voo.
Esse direito de mudar,
de silenciar ou gritar,
de rastejar ou planar,
é privilégio
conquistado com o tempo,
com as medalhas invisíveis
de cada luta travada
contra o racismo
que marcou minha pele
feito fogo e ferro —
mas nunca calou minha alma.
Trago cicatrizes,
mas trago também asas.
Carrego dor,
mas sem perder
minha rebeldia.
Sou feita de fases,
de força e poesia.
E me recuso a caber
nos moldes que tentaram me impor.
Hoje, sou o que sou —
porque resisti.

Inserida por claudia_vitalino

Reparação Já!

Não é favor, é justiça.
Não é presente, é dívida antiga.
Não é concessão, é reparação.
É o grito do povo preto,
ecoando pelas ruas,
pelas periferias,
pelos corredores do poder
que por séculos nos ignoraram.

É a urgência das mães,
dos jovens,
dos anciãos,
que carregam na pele a marca da exclusão
e no peito o sonho interrompido.

É o Movimento Negro,
que não se curva, não se cala,
que planta consciência em solo fértil
e colhe a força de quem não se abala.
São organizações que se erguem
na borda do abismo social,
erguendo pontes,
construindo saídas,
escrevendo narrativas
para um futuro menos desigual.

Porque não basta sobreviver,
é preciso existir por inteiro.
Reconstruir o chão que nos negaram,
tomar de volta o que sempre foi nosso,
romper as cercas invisíveis,
criar espaços onde antes só havia negação.
Cotas, ações afirmativas,
educação com permanência e acesso,
crédito, emprego, oportunidades—
políticas que devolvem

o que nos foi roubado sem arrependimento.
Porque fomos empurrados ao porão da história,
mas seguimos de cabeça erguida,
com os pés fincados na luta,
com a alma acesa pela vida.
Reparar é corrigir o ontem,
é garantir o agora,
é fazer do amanhã um território
onde o racismo não mora.
Queremos igualdade de fato,
não apenas no papel.
Queremos justiça concreta,
e não um discurso superficial.

Reparar é romper as correntes invisíveis,
é libertar os corpos e os sonhos,
é construir um mundo
onde toda vida tenha o mesmo valor,
os mesmos caminhos,
as mesmas possibilidades.

Reparação é reconhecimento.
Reparação é reconstrução.
Reparação é justiça ancestral,
é equilíbrio histórico,
é dívida que precisa ser paga.

Reparação já, porque a nossa história não se apaga.
Reparação já, porque o tempo da espera não embala.
Reparação já, porque viver com dignidade
é direito, é raiz, é palavra sagrada.

Inserida por claudia_vitalino

"Não nascemos para que decidam por nós; nascemos com a força das nossas ancestrais para desenhar a nossa própria história e governar nosso próprio destino."

"O nosso futuro não é uma promessa assinada por mãos alheias, mas uma conquista diária desenhada com o nosso próprio trabalho, nossa consciência e nossa voz."

"Somos a ponte e o caminho: não aceitamos mais ser representadas por quem nunca sentiu o peso da nossa caminhada."

"A política institucional é só uma das ferramentas do nosso arsenal; a verdadeira revolução começa no instante em que decidimos não pedir licença para existir, ocupar e liderar."

"Sobreviver num país dividido não é o nosso objetivo final — o nosso propósito é derrubar os muros da desigualdade e reescrever as regras do jogo com as nossas próprias mãos."

"O trabalho da mulher negra sustentou o passado deste país; a consciência e a ação da mulher negra é o que vai emancipar o seu futuro."

"Recusamos a condição de meras espectadoras do nosso país. Quando a mulher negra se coloca como sujeito da sua própria história, a estrutura inteira precisa se mover."

" O Tempo Repousa no Gesto: Uma Reconfiguração do Pensamento Negro Contemporâneo"


Pensar a reflexão negra no mundo contemporâneo exige mover o eixo do debate. Por séculos, a produção intelectual e existencial negra foi tensionada a responder, primordialmente, à violência do racismo, ao apagamento colonial e às exigências da denúncia. Embora a resistência continue sendo um pilar fundamental de sobrevivência, um pensamento que se pretenda inédito precisa transcender a reatividade para fundar novas arquiteturas de mundo.


O ponto de virada dessa reflexão reside na superação do tempo linear da modernidade ocidental — uma lógica pautada na aceleração, no extrativismo e na produtividade contínua. Em contraposição a essa mecânica, emerge o **tempo-ancestral** não como um olhar saudosista para o passado, mas como uma tecnologia filosófica e política para o presente. Trata-se da compreensão de que o futuro não está postado adiante, no horizonte descolado do agora, mas habita a capacidade de aturar e reativar as memórias, os corpos e as experiências que nos trouxeram até aqui. A ancestralidade se consolida, assim, como um método rigoroso de leitura de mundo, capaz de orientar novas formas de gestão da vida, da pedagogia e da cidade.


Nessa perspectiva, o saber deixa de ser um mero exercício abstrato e cartesiano para se encarnar. O corpo que pensa é o mesmo corpo que canta, dança, cozinha, ensina e preserva. A oralidade, o ritmo, o gesto e a experiência compartilhada no espaço coletivo — seja no terreiro, no quilombo, no espaço educacional ou na comunidade — reivindicam o status de alta produção de conhecimento. O conceito de *Axé*, longe de se restringir à dimensão estritamente religiosa, manifesta-se como uma força vital de inovação e redistribuição, reconfigurando a relação com a terra e com o território. O espaço deixa de ser mera propriedade ou recurso de exploração para se tornar um ecossistema de cura, memória e continuidade ecológica.


A verdadeira insurgência desse pensamento reside na reivindicação do direito à imaginação. Rompe-se o enquadramento que confina a existência negra ao campo da dor para inaugurar uma poética do futuro. Ao projetar novos mundos onde a pluralidade, a justiça antirracista e o afeto organizem a convivência humana, o pensamento negro deixa de ser apenas uma resposta ao colonialismo e se firma como a chave epistemológica indispensável para regenerar o próprio futuro do planeta.

"O Ouro Sem Ódio: A Sabedoria da Serpente nas Águas de Oxum"


Nas margens onde o rio encontra a terra, a presença de Oxum manifesta-se no fluxo contínuo e sereno das águas doces. Reverenciada no panteão iorubá como a senhora da fertilidade, da beleza e da riqueza material e espiritual, a divindade carrega em sua simbologia um mistério de profundidade política, filosófica e existencial: o encontro entre a doçura e a soberania do saber.


Diferente do senso comum que reduz a doçura à passividade, a sabedoria das águas doces é uma força estratégica. Conta a tradição dos *Itãs* que, ao se ver ignorada pelos orixás masculinos na ordenação do mundo, Oxum não usou a força bruta nem a contenda direta; recolheu o seu axé — a energia vital —, fazendo com que toda a criação secasse, perdesse a fertilidade e paralisasse. O mundo só pôde renascer quando sua presença, sua soberania e seu poder foram plenamente reconhecidos. Nenhuma vida se sustenta sem o líquido amniótico da terra.


Associada ao leque e ao espelho — o *Abebé* —, a deusa ensina que olhar para si não é vaidade superficial, mas o ato primordial de tomar posse da própria história e dignidade. O ouro de Oxum não é a riqueza do ouro extraído pela ganância e pela violência colonial, mas o ouro da autoestimativa, do valor inegociável da existência e do axé que reside na comunidade.


Em suas águas habita também a serenidade das serpentes dos rios, que conhecem os atalhos, contornam os obstáculos de pedra e chegam ao oceano sem perder a essência. Essa dimensão revela uma diplomacia altiva: a arte de governar com estratégia, afeto e sabedoria, lembrando que preservar a vida, o cuidado e as nascentes do mundo é a forma mais radical e duradoura de insurgência.

" As Águas que Coroam Outubro é Osún: Memória, Estratégia e Resistência"


Há meses que carregam no próprio ritmo uma inflexão do tempo. Quando outubro se instala, o calendário parece mudar de densidade, tingindo-se do amarelo e do ouro que anunciam a regência de Osun, Mais do que uma marcação litúrgica, essa presença no décimo mês do ano evoca camadas profundas de nossa história, unindo a espiritualidade, a estratégia e a resistência do povo negro no Brasil.


Na vivência popular e tradicional, o dia 12 de outubro carrega o sincretismo que uniu a veneração dà Grande Mãe das águas doces à figura de Nossa Senhora Aparecida. Longe de ser apenas uma imposição colonial, essa aproximação foi uma trincheira engenhosa de sobrevivência cultural. Nossos antepassados garantiram que o culto à rainha da fertilidade, do ventre e do ouro continuasse a pulsar, transformando a devoção em um ato político de preservação da memória. Celebrar Osum em outubro é, portanto, afirmar que a fé preta é um território soberano que o tempo e a opressão não conseguiram apagar.


Viver este mês sob a égide das águas doces é ser convidado a uma travessia filosófica. É compreender que a doçura não é sinônimo de passividade, mas a correnteza mansa que contorna a pedra mais rígida até abri-la ao meio. É erguer o espelho do Abebé não como culto à vaidade, mas como o resgate urgente do autoamor, da dignidade inegociável e do reconhecimento da própria imagem em uma sociedade que tentou nos desfigurar.


Em outubro, as águas de Osúm nos lembram que cuidar do fluxo da vida, proteger as nascentes e nutrir o futuro com inteligência e afeto são as formas mais radicais de insurgência. Ora Yê Yê Ô!