" As Águas que Coroam Outubro é... Claudia Vitalino
" As Águas que Coroam Outubro é Osún: Memória, Estratégia e Resistência"
Há meses que carregam no próprio ritmo uma inflexão do tempo. Quando outubro se instala, o calendário parece mudar de densidade, tingindo-se do amarelo e do ouro que anunciam a regência de Osun, Mais do que uma marcação litúrgica, essa presença no décimo mês do ano evoca camadas profundas de nossa história, unindo a espiritualidade, a estratégia e a resistência do povo negro no Brasil.
Na vivência popular e tradicional, o dia 12 de outubro carrega o sincretismo que uniu a veneração dà Grande Mãe das águas doces à figura de Nossa Senhora Aparecida. Longe de ser apenas uma imposição colonial, essa aproximação foi uma trincheira engenhosa de sobrevivência cultural. Nossos antepassados garantiram que o culto à rainha da fertilidade, do ventre e do ouro continuasse a pulsar, transformando a devoção em um ato político de preservação da memória. Celebrar Osum em outubro é, portanto, afirmar que a fé preta é um território soberano que o tempo e a opressão não conseguiram apagar.
Viver este mês sob a égide das águas doces é ser convidado a uma travessia filosófica. É compreender que a doçura não é sinônimo de passividade, mas a correnteza mansa que contorna a pedra mais rígida até abri-la ao meio. É erguer o espelho do Abebé não como culto à vaidade, mas como o resgate urgente do autoamor, da dignidade inegociável e do reconhecimento da própria imagem em uma sociedade que tentou nos desfigurar.
Em outubro, as águas de Osúm nos lembram que cuidar do fluxo da vida, proteger as nascentes e nutrir o futuro com inteligência e afeto são as formas mais radicais de insurgência. Ora Yê Yê Ô!
