Memória
BODINHO, O FIAT
Bodinho, velho guerreiro,
Fiat Uno afamado,
Nas estradas da memória
Seu nome ficou gravado.
Por onde passava firme,
Sempre era respeitado.
Tudo começou um dia
Quando Israel o comprou,
Com zelo e muito carinho
Seu destino encaminhou.
Depois ao Sargento Damásio
A chave ele repassou.
O tempo seguiu ligeiro,
Fez a vida seu roteiro,
Até chegar às mãos certas
De um novo companheiro.
Negreiros Neto o guardou
Como peça de museu inteiro.
Mas pense que está parado?
Isso ninguém acreditou!
Pois dentro daquelas chapas
Muita história se alojou.
Cada risco da lataria
Uma aventura contou.
Saiu de Aldeia ligeiro,
Sem nunca olhar para trás,
Por Araçoiaba corria
Como quem queria mais.
Subia Três Ladeiras rindo
E vencia os canaviais.
Nas estradas de barro grosso
Nunca teve aflição,
Enquanto outros atolavam
Pedindo socorro ao chão,
O Bodinho seguia em frente
Com coragem de campeão.
De Itaquitinga partia
Cheio de disposição,
Passava por Santo Antônio
Com firme determinação.
Entrando pelas pedras de Sapé
Mostrava sua vocação.
Quando surgia um riacho
Não mudava direção,
Cruzava a água sorrindo
Sem perder a precisão.
Dava um olé nos obstáculos
Com sua velha tradição.
Foi também para Condado
Levando sonho e alegria,
Passou por Matary primeiro
Naquela mesma energia.
Visitou Upatininga e Esconso
Antes de clarear o dia.
Seguiu viagem pra Goiana
Num passo firme e certeiro,
Só não foi pra Ponta de Pedras
Por escolha do companheiro.
Que desistiu da jornada,
Mas não por medo do guerreiro.
Nazaré e Tracunhaém
Conheciam seu roncar,
Carpina também o via
Pelas ruas passear.
Era um amigo da estrada
Sempre pronto pra rodar.
Não tinha hora marcada,
Nem relógio pra mandar.
De dia ou mesmo de noite
Bastava alguém chamar.
Entrava, girava a chave
E o motor queria cantar.
Nas festas de padroeiro
Era rei da procissão,
No Carnaval desfilava
Misturado à multidão.
No São João se enfeitava
Com bandeira e balão.
Muitos diziam sorrindo
Ao vê-lo em circulação:
"Esse carro não tem motor,
Nem trabalha com pistão.
O que move o Bodinho
É alma e coração."
Hoje repousa tranquilo
Na garagem a descansar,
Mas quem conhece sua história
Sempre volta a recordar.
Que há carros que envelhecem,
E outros que aprendem a sonhar.
E assim vive o Bodinho,
Fiat Uno tão valente,
Guardado como relíquia
Na memória de muita gente.
Mais que carro, virou lenda,
Patrimônio permanente.
CARRO DE BOI
Carro de boi é memória,
que o tempo nunca venceu;
leva o passado nas rodas
e o futuro que nasceu.
Nasceu de madeira bruta,
Talhada por boa mão;
Do machado e da enxó,
Do talento do artesão.
Feito com força e paciência,
Virou nobre criação.
Sem luxo, ferro ou riqueza,
Só madeira e precisão;
Cada peça bem medida,
Respeitando a tradição.
Era a ciência da roça
Guiando a civilização.
Foi companheiro do homem
Nas veredas do sertão;
Levando pedra e madeira,
Colheita, sonho e feijão.
Era o braço da esperança
Na mais dura plantação.
Carro de boi é memória,
que o tempo nunca venceu;
leva o passado nas rodas
e o futuro que nasceu.
Foi herança dos antigos,
Dos avós e dos bisavós;
Cada sulco que deixou
Ainda hoje fala a nós.
Sua história permanece
Na lembrança de todos nós.
Ajudou na colonização,
Rasgando o Brasil inteiro;
Abriu estrada e caminho,
Venceu barro e atoleiro.
Foi desbravador valente
Do sertão ao tabuleiro.
Na frente seguia o guia,
Experiente condutor;
Atrás vinha o boi de coice,
Também forte trabalhador.
Dois parceiros da jornada,
No serviço e no suor.
Quando o eixo reclamava
Num chiado agudo e forte,
Era um canto da madeira
Desafiando a própria sorte.
Parecia uma cantiga
Ecoando de sul a norte.
Levou engenho e farinha,
Levou cana e algodão;
Levou gente, levou vida,
Levou fé no coração.
Foi estrada sobre rodas,
Foi sustento da nação.
Carro de boi é memória,
que o tempo nunca venceu;
leva o passado nas rodas
e o futuro que nasceu.
Hoje dorme em museus,
Ou na sombra do terreiro;
Mas quem ouve o seu chiado
Vê renascer o vaqueiro.
Pois o carro de boi vive
Na alma do povo guerreiro.
🍃A bertalha e a minha memória afetiva👵
Tenho bordada na memória a culinária caipira da minha avó.
Na Zona da Mata mineira, o fogão a lenha ficava do lado de fora da casa, ao lado da cozinha.
Era ali, naquele fogo manso, que ela preparava quitutes cujos aromas despertavam o apetite até da paisagem.
A roça inteira parecia parar para desfrutar o aroma.
A bertalha, essa folha viçosa, carnuda, de um verde que brilha, como essas que colhi hoje e lavei, era presença certa.
Nascendo generosa pelos cantos do quintal, quase como mato para quem não conhece, mas para minha avó era riqueza pura.
Refogada com alho, cebola, açafrão da terra e outros temperos típicos da culinária mineira, aquele cheiro subia e impregnava o quintal inteiro.
Afogada na sopa, escorrendo aquele caldinho esverdeado que confortava a alma:
ou ainda enroladinha com linguiça e angu,
no capricho que só ela sabia fazer.
Era o verde que abraçava.
Hoje, ao lavar folha por folha, sinto de novo o cheiro da fumaça mansa, o estalo da lenha e a voz dela me chamando para a mesa.
A bertalha não é só PANC,
não é só alimento.
É colo. É um dos fios do cordão umbilical
que me liga à minha história caipira, à mão da minha avó que temperava tudo com ternura.
É a minha memória afetiva servida no prato.
✍@MiriamDaCosta
🍃 A bertalha e a minha memória afetiva ❤👵
Tenho bordada na memória a culinária caipira da minha avó.
Na Zona da Mata mineira, o fogão a lenha ficava do lado de fora da casa, ao lado da cozinha.
Era ali, naquele fogo manso, que ela preparava quitutes cujos aromas despertavam o apetite até da paisagem.
A roça inteira parecia parar para desfrutar o aroma.
A bertalha, essa folha viçosa, carnuda, de um verde que brilha, como essas que colhi hoje e lavei, era presença certa.
Nascendo generosa pelos cantos do quintal, quase como mato para quem não conhece, mas para minha avó era riqueza pura.
Refogada com alho, cebola, açafrão da terra e outros temperos típicos da culinária mineira, aquele cheiro subia e impregnava o quintal inteiro.
Afogada na sopa, escorrendo aquele caldinho esverdeado que confortava a alma:
ou ainda enroladinha com linguiça e angu,
no capricho que só ela sabia fazer.
Era o verde que abraçava.
Hoje, ao lavar folha por folha, sinto de novo o cheiro da fumaça mansa, o estalo da lenha e a voz dela me chamando para a mesa.
A bertalha não é só PANC,
não é só alimento.
É colo. É um dos fios do cordão umbilical
que me liga à minha história caipira, à mão da minha avó que temperava tudo com ternura.
É a minha memória afetiva servida no prato.
✍@MiriamDaCosta
❤🍃
👉 Propriedades nutricionais da bertalha👇
A bertalha é uma hortaliça e PANC
(Planta Alimentícia Não Convencional)
muito rica em vitaminas, minerais e fibras.
Principais Nutrientes 👇
Vitaminas:
Rica em vitamina A, vitamina C e vitaminas do complexo B (como B2, B5 e B6).
Minerais:
Alta concentração de ferro e cálcio, além de fósforo, potássio e magnésio.
Outros componentes:
Possui fibras alimentares, proteínas vegetais e compostos antioxidantes.
Benefícios para a Saúde👇
Previne a anemia: A combinação de ferro e ácido fólico ajuda na formação de células sanguíneas.
Fortalece a imunidade: As vitaminas A e C ajudam a proteger o organismo contra doenças.
Ajuda na digestão: As fibras regulam o trânsito intestinal.
Saúde dos ossos: O cálcio e o fósforo auxiliam na manutenção de ossos e dentes fortes.
Do Papel Vegetal ao Algoritmo: O Peso da Memória
Nas prateleiras da memória, o conhecimento tinha lombo de couro e cheiro de papel guardado. Para nós, da Geração X, o saber não era um "clique"; era uma expedição. Fazer um trabalho escolar exigia o ritual de abrir a Barsa ou a Universal, navegando por verbetes que pareciam sagrados. Ali, o mundo não era Made in China, mas sim forjado no rigor do Made in Japan — sinônimo de uma durabilidade que hoje soa como utopia.
Naquela época, a geografia era uma arte manual. Passávamos horas debruçados sobre o papel vegetal, traçando fronteiras com nanquim e colorindo estados com o cuidado de quem desenha o próprio destino. Cada mapa valia nota, mas, acima de tudo, valia o tempo investido. Não existia o imediatismo do Google Maps; o caminho a gente descobria gastando a sola do sapato ou, no meu caso, deslizando sobre patins pelas ruas de Santos para chegar ao trabalho.
O transporte era uma questão de esforço ou de sorte. O táxi era um luxo proibitivo, uma "fortuna" reservada a emergências raras. Não havia o conforto asséptico do Uber; havia o vento no rosto e a liberdade sobre rodas. E a urgência? Essa era medida em caracteres contados. O que hoje transborda em áudios infinitos de WhatsApp, antes era sintetizado na batida seca de um telegrama. Era preciso ser preciso. Era preciso ter peso.
O ápice desse esforço físico e intelectual acontecia no balcão do CPE Lanches, no Canal 4. Ali, a recompensa era um X-Tudo que desafiava a anatomia humana. Era um monumento gastronômico tão imponente que a etiqueta se impunha por necessidade: era preciso garfo e faca para domar aquele gigante.
Hoje, vejo a "Geração Enzo" navegar por um mundo de telas lisas e respostas prontas. Eles têm a velocidade, mas nós tínhamos a textura. Eles têm o acesso, mas nós tínhamos a jornada. Entre a Barsa e o algoritmo, talvez a maior lição seja que algumas coisas — como o sabor de um lanche no canal ou o traço de um mapa feito à mão — não podem ser digitalizadas. Elas precisam ser vividas, de corpo presente e, de preferência, sobre patins.
Haverá dias em que você vai olhar e dizer: tá na hora de virar a história, sair da memória e buscar a vitória.
Maurício Rodrigues Lucas: uma vida que permanece na memória
Há pessoas cuja existência não pode ser resumida por datas, documentos ou acontecimentos. Algumas vidas adquirem significado sobretudo pelos vínculos que constroem, pelo afeto que despertam e pela marca que deixam naqueles que tiveram a oportunidade de compartilhá-las. Maurício Rodrigues Lucas foi uma dessas pessoas.
Conhecido carinhosamente como Maumau, Maurício construiu sua presença no mundo através de uma característica que se tornou inseparável de sua memória: a capacidade de despertar amor. Para quem o conheceu intimamente, ele não foi apenas um companheiro, um amigo ou uma presença cotidiana. Foi parte da própria história afetiva de quem caminhou ao seu lado.
Sua trajetória esteve marcada por encontros, separações, reencontros e, acima de tudo, por um vínculo que resistiu às circunstâncias. Durante anos, William Contraponto e Maurício Rodrigues Lucas construíram uma relação na qual o amor não se apresentou como uma ideia abstrata, mas como convivência, cuidado, conflito, reconciliação e escolha.
Maumau também ocupou um lugar singular na vida de William. Se William era frequentemente conduzido pela intensidade de suas convicções, Maurício funcionava como contraponto. Não necessariamente porque pensasse da mesma maneira, mas porque sua presença fazia William refletir. Era o freio diante do acelerador, a lembrança de que uma convicção também precisa encontrar humanidade.
Essa dimensão talvez seja uma das mais importantes de sua memória.
Maurício não foi apenas alguém amado. Foi alguém que transformou quem o amava.
Há uma imagem particularmente forte nessa lembrança: o sorriso de Maumau. Um sorriso capaz de representar felicidade, reconhecimento e intimidade. Mesmo diante das circunstâncias mais difíceis, esse sorriso permaneceu associado àquilo que havia de mais precioso na relação entre os dois.
A doença e a proximidade da morte modificaram brutalmente o cotidiano, mas não apagaram essa história. Pelo contrário, fizeram com que pequenos elementos da convivência adquirissem uma dimensão ainda maior. Um olhar, um sorriso, uma lembrança, uma palavra ou simplesmente a presença de alguém ao lado passaram a carregar o peso de uma vida inteira compartilhada.
A morte encerra uma existência biológica, mas não determina sozinha o destino de uma memória.
Maurício continua existindo nas histórias contadas sobre ele, nas fotografias, nos objetos, nas lembranças e, principalmente, naquilo que modificou dentro das pessoas que o amaram.
Por isso, falar de Maumau não é apenas escrever sobre alguém que morreu. É escrever sobre alguém que continua produzindo significado depois da morte.
A memória de Maurício Rodrigues Lucas pertence também àqueles que o conheceram, mas existe uma dimensão profundamente particular nessa lembrança. Para William, Maumau foi o amor da sua vida. Foi companheiro, confidente, presença afetiva e referência. Foi também alguém que, de maneira silenciosa, ensinou que amar uma pessoa é permitir que ela transforme nossa maneira de enxergar o mundo.
Talvez seja justamente por isso que a memória de Maumau não precise ser construída como uma estátua distante ou como uma imagem idealizada. Sua grandeza está na humanidade.
Maurício foi uma pessoa real, com sua personalidade, seus afetos, suas contradições, suas alegrias e suas dificuldades. E é justamente essa humanidade que torna sua lembrança tão verdadeira.
A homenagem que permanece não precisa transformar Maurício em alguém que ele não foi. Pode simplesmente preservar aquilo que ele significou.
Nesse sentido, lembrar Maumau é uma forma de ação.
É afirmar que uma vida não desaparece completamente quando seu coração deixa de bater. Parte dela permanece naqueles que foram tocados por sua existência. Permanece no amor recebido, nas experiências compartilhadas e nas mudanças provocadas pela convivência.
William Contraponto, poeta e pensador, pode escrever sobre muitas coisas: existência, desamparo, sociedade, democracia, humanidade, liberdade. Mas existe uma dimensão de sua própria história que nenhuma reflexão filosófica consegue substituir.
É a experiência de ter amado Maurício.
E talvez seja justamente aí que a memória de Maumau encontre sua forma mais profunda.
Não como uma ausência absoluta, mas como uma presença transformada.
O homem que foi companheiro continua sendo lembrança. O sorriso continua sendo imagem. O amor continua sendo sentimento. A história continua sendo contada.
E enquanto houver alguém disposto a dizer seu nome, Maurício Rodrigues Lucas não será apenas uma pessoa que pertence ao passado.
Será alguém que continua fazendo parte da história de quem ficou.
Maurício Rodrigues Lucas.
Maumau.
O amor de uma vida.
E algumas histórias, mesmo quando terminam, nunca deixam de ser vividas dentro de nós.
A memória é o único espelho que consegue devolver o brilho exato de um segundo que a gente viveu sem pressa e sem notar.
O passado é uma foto antiga, o futuro é uma foto em branco, temos memória e imaginação, não podemos viver no passado nem no futuro, o passado traz depressão e o futuro ansiedade, nossa geração e cheia de ansiedades e depressões, porque vive no passado ou no futuro, precisa nos libertar desse ciclo e viver o presente.
Pensa comigo.
Memórias da infância
Minha casa da infância imatura
Guarda o cheiro, o afeto e a memória,
Onde os primeiros passos, inseguros,
Levaram-me a correr de forma notória.
Minha infância tem memórias
Tem cantigas e esconde-esconde
Guardo tudo da minha história
Que o coração aqui responde.
Bola de gude e pique-bandeira,
Passatempos de um tempo bom.
Hoje a tela criou distância,
As telas mudaram o nosso tom,
Deixando longe a nossa infância.
A casa que outrora estava sempre cheia,
Agora está vazia, sem o calor de alguém.
O aroma da comida ainda vagueia,
Lembrança viva do que esse tempo já não tem.
Quantas alegrias juntos em família,
Gritos, correrias e orientações.
Tudo fez parte dessa vigília,
Que hoje relembramos com emoções.
O espaço dos cômodos vazios
Parece ser maior com nossa ausência
A casa agora tão extensa e fria
Respira dor, tristeza e carência.
No quintal, árvores com galhos secos
Lembram dias de glórias e brincadeiras,
Cheiro de chuva na terra molhada
E o pé na lama dessa maneira.
Ah, que saudade desse tempo,
Doce parte da minha história!
São lembranças levadas ao vento,
Que eternizam nossa memória.
O tempo se encarrega de fazer esquecer
Lembranças amargas que só entristecem,
Mas traz também alegria e florescimento
De situações que na alma enriquecem.
Raimundo Nonato Ferreira
Julho/2026
Uma arma velha, quebrada e esquecida
Jaz no chão, como um cadáver da memória
Seu metal enferrujado, seu coração de pólvora
Um dia foi forte, agora é apenas um peso morto
Seu cano está quebrado, sua alma está perdida
Ninguém a usa, ninguém a quer
Ela sonha com o passado, com os tiros que deu
Mas agora é apenas um objeto, um peso vazio e inútil
Ela lembra dos gatilhos puxados, dos sons de guerra
Dos gritos, das lágrimas, das vidas ceifadas
Agora, apenas um silêncio ensurdecedor
Um lembrete de que a violência é estéril, e a morte é vã
Ela espera pelo fim, pelo descarte final
Para ser derretida, transformada em algo novo
Mas até lá, ela jaz aqui, quebrada e sozinha
Um símbolo da destruição, da dor e da morte. 😔
FIGURAS CINZAS
Quando a ausência ganha a cor da memória.
Talvez a vida seja como um álbum.
Nascemos com algumas páginas praticamente vazias. Não sabemos quantas existirão, quantas pessoas passarão por elas ou quais histórias serão escritas ao longo do caminho.
Então começamos a preencher.
Primeiro aparecem aqueles que já estavam conosco antes mesmo de compreendermos o significado da palavra família. Pai, mãe, irmãos, avós. Depois chegam os tios, primos, professores, colegas, amigos, amores, filhos, vizinhos e tantas outras pessoas que, de alguma maneira, encontram um espaço em nossas páginas.
Cada uma delas é uma figurinha.
E, enquanto está conosco, é colorida.
Algumas ocupam páginas inteiras. Outras aparecem discretamente em algum canto da nossa história. Há aquelas que permanecem durante décadas e aquelas que passam rapidamente, mas deixam uma marca que não desaparece.
Há figurinhas que trazem alegria.
Outras carregam ensinamentos.
Algumas nos fazem rir.
Outras nos fazem chorar.
Existem aquelas que nos abraçam e aquelas que nos ferem.
Algumas nos amam.
Outras nos decepcionam.
E há aquelas que simplesmente passam por nós sem perceber que, por algum motivo, deixaram uma pequena parte de si em nossa história.
É assim que o álbum vai crescendo.
Página após página.
Ano após ano.
Até que descobrimos uma coisa que ninguém nos ensina verdadeiramente a compreender:
o álbum também muda de cor.
Um dia, uma das figuras coloridas se torna cinza.
Não porque perdeu sua importância.
Não porque deixou de ser amada.
Não porque sua história deixou de ter valor.
Ela se torna cinza porque sua presença terminou e sua memória começou.
É o momento em que alguém parte.
Um avô.
Uma avó.
Um pai.
Uma mãe.
Um irmão.
Um amigo.
Um amor.
Alguém que, talvez, acreditássemos que estaria sempre ali.
E então descobrimos que algumas pessoas não desaparecem exatamente.
Elas apenas mudam de lugar.
Saem do espaço onde podíamos encontrá-las e passam a ocupar outro lugar, muito mais silencioso: a memória.
É por isso que algumas figuras ficam cinzas.
Não são figuras apagadas.
São figuras encerradas.
A história chegou ao seu ponto final.
E talvez seja justamente isso que torne a perda tão dolorosa.
Porque a morte não leva apenas uma pessoa.
Ela leva também a possibilidade de escrever novos capítulos com ela.
Não haverá mais aquela conversa.
Aquela ligação.
Aquele abraço.
Aquela discussão.
Aquela risada.
Aquele conselho.
Aquela presença aparentemente comum que, depois da partida, descobrimos ser extraordinária.
É então que sentimos saudade.
E a saudade talvez seja uma das formas mais silenciosas de amor.
Porque sentimos falta justamente daquilo que teve importância.
Ninguém sente saudade daquilo que nunca significou nada.
A dor da ausência é, de certa forma, a prova de que houve presença.
Talvez por isso devêssemos olhar para nossas figuras cinzas com um pouco mais de ternura.
Elas não representam somente aquilo que perdemos.
Representam também aquilo que tivemos.
Um dia aquela pessoa esteve ali.
Um dia houve convivência.
Houve histórias.
Houve abraços.
Houve conflitos.
Houve perdão.
Houve amor.
Houve vida.
E talvez essa seja a primeira grande lição das figuras cinzas:
não devemos permitir que a tristeza pelo fim apague a beleza do que existiu.
O ponto final não torna inútil a história.
Uma história não perde seu valor porque terminou.
Pelo contrário.
É justamente porque sabemos que ela terminaria algum dia que cada capítulo deveria ter sido vivido com maior intensidade.
A criança que brincou com o avô talvez não soubesse que um dia sentiria falta daquela voz.
O filho que achava cansativo ouvir os conselhos dos pais talvez um dia daria qualquer coisa para escutá-los novamente.
O amigo que sempre esteve por perto talvez só tenha revelado seu verdadeiro valor depois de partir.
A vida possui essa estranha capacidade de nos ensinar o valor das coisas muitas vezes depois que elas deixam de estar disponíveis.
Por isso, talvez devêssemos olhar mais para as figuras coloridas enquanto ainda estão coloridas.
Abraçar enquanto podemos.
Dizer “eu te amo” enquanto a pessoa pode ouvir.
Pedir perdão enquanto ainda existe tempo.
Perdoar enquanto ainda existe oportunidade.
Visitar enquanto a porta ainda pode ser aberta.
Ligar enquanto ainda existe alguém do outro lado da linha.
Porque não sabemos em qual página a cor vai mudar.
---
Com o passar dos anos, nosso álbum fica cheio.
E, inevitavelmente, algumas figuras coloridas começam a ficar cinzas.
Isso pode nos assustar.
Quando somos jovens, pensamos que viver é acrescentar pessoas.
Mais tarde descobrimos que viver também é aprender a conviver com as ausências.
Talvez amadurecer seja exatamente isso.
No começo, queremos preencher páginas.
Depois aprendemos a preservar páginas.
E, finalmente, compreendemos que algumas das páginas mais importantes de nossa existência são justamente aquelas que guardam pessoas que já não podemos abraçar.
O álbum da vida não é composto apenas pelas pessoas que permaneceram.
Ele também é formado por aqueles que partiram.
Somos, de certa maneira, uma coleção de pessoas.
Carregamos expressões que aprendemos com nossos pais.
Gestos dos nossos avós.
Conselhos de professores.
Histórias de amigos.
Manias de irmãos.
Lembranças de antigos amores.
Feridas deixadas por algumas pessoas.
Perdões oferecidos por outras.
Somos também aquilo que recebemos daqueles que passaram por nossa vida.
Talvez sejamos um pouco de cada pessoa que realmente nos tocou.
E, nesse sentido, as figuras cinzas continuam participando do álbum.
Elas já não podem acrescentar novos capítulos à própria história, mas continuam influenciando a nossa.
O avô que partiu pode continuar ensinando através de uma frase que repetimos.
A mãe pode continuar presente em um gesto que aprendemos.
O pai pode continuar vivendo em uma maneira de trabalhar, cuidar ou enfrentar dificuldades.
O amigo pode continuar provocando um sorriso quando lembramos de determinada história.
A pessoa que amamos pode continuar existindo na forma como aprendemos a amar.
É assim que a memória desafia a ausência.
Ela não devolve fisicamente quem partiu.
Mas impede que tudo aquilo que aquela pessoa representou desapareça completamente.
Enquanto alguém se lembrar, alguma parte daquela história continua existindo.
---
Talvez seja por isso que o cinza não deva ser entendido apenas como a cor da tristeza.
O cinza também pode ser a cor da permanência.
É a cor de uma presença que deixou de ser física, mas não deixou de ser significativa.
É a cor da memória.
E memória não é o contrário da vida.
É uma das maneiras pelas quais a vida continua dentro de nós.
Existe, então, uma esperança escondida nas figuras cinzas.
A esperança de que aquilo que foi verdadeiro não seja completamente perdido.
A esperança de que o amor não termine simplesmente porque o abraço terminou.
A esperança de que uma história possa continuar produzindo frutos mesmo depois de seu último capítulo.
Talvez a morte encerre uma existência, mas não consiga apagar todas as consequências de uma vida.
Uma pessoa pode partir e ainda permanecer na maneira como alguém pensa, educa, ama, trabalha, perdoa ou enfrenta o mundo.
Nesse sentido, algumas pessoas continuam vivendo através daqueles que deixaram para trás.
---
Imagine, então, alguém chegando ao final da própria vida e abrindo seu álbum.
Haverá muitas figuras coloridas.
Mas haverá também muitas figuras cinzas.
Algumas provocarão lágrimas.
Outras trarão risos.
Algumas despertarão arrependimento.
Outras, gratidão.
Talvez algumas páginas sejam difíceis de olhar.
Talvez existam pessoas que gostaríamos de encontrar novamente.
Talvez existam outras das quais gostaríamos de nos despedir melhor.
Mas todas elas terão alguma coisa em comum:
fizeram parte da história.
E talvez, naquele momento, seja possível compreender algo que levamos uma vida inteira para aprender.
O objetivo nunca foi manter todas as figuras coloridas.
Isso seria impossível.
O objetivo era viver.
Amar.
Conhecer.
Errar.
Perdoar.
Aprender.
Construir histórias.
Preencher páginas.
E, quando algumas figuras inevitavelmente mudassem de cor, ter memória suficiente para olhar para elas e dizer:
“Eu tive você na minha vida.”
Talvez essa seja uma das maiores formas de gratidão que podemos oferecer aos que partiram.
Não apenas chorar porque eles se foram.
Mas agradecer porque um dia estiveram conosco.
Porque, quando transformamos a lembrança em gratidão, a ausência começa a dividir espaço com a esperança.
E então percebemos algo ainda mais bonito.
O álbum não terminou.
Ainda existem páginas vazias.
Ainda existem pessoas que não conhecemos.
Amizades que ainda não começaram.
Abraços que ainda não demos.
Lugares onde ainda não estivemos.
Amores que ainda podem chegar.
Histórias que ainda não foram escritas.
E, principalmente, ainda podemos ser a figurinha colorida na vida de alguém.
Talvez seja essa a grande responsabilidade de estar vivo.
Enquanto nossas páginas ainda estão sendo preenchidas, precisamos cuidar da cor que deixamos nas páginas dos outros.
Porque um dia, para alguém, também seremos memória.
E quando esse dia chegar, talvez não sejamos lembrados pelo tamanho da nossa casa, pelo dinheiro que acumulamos, pelos cargos que ocupamos ou pelas coisas que possuímos.
Talvez sejamos lembrados por uma conversa.
Por um abraço.
Por uma ajuda.
Por uma palavra.
Por uma presença.
Por um momento em que fizemos alguém sentir que não estava sozinho.
No fim, talvez seja isso que realmente permaneça.
As coisas passam.
As pessoas partem.
As páginas viram.
As cores mudam.
Mas algumas histórias continuam.
E talvez a vida seja exatamente isso:
um álbum que começa vazio, se enche de cores e, lentamente, vai adquirindo tons de cinza.
Não devemos temer o cinza.
Porque o cinza nos lembra que houve cor.
E se ainda dói olhar para determinada figura, talvez seja porque aquela pessoa ainda possui um lugar dentro de nós.
Por isso, quando sentir saudade, não pense apenas na ausência.
Volte à página.
Olhe a figura.
Lembre da voz.
Lembre do sorriso.
Lembre da história.
E agradeça.
Porque nem todos têm a sorte de possuir uma memória que ainda dói.
Às vezes, a dor da saudade é simplesmente o coração dizendo:
“Isso foi importante.”
E talvez seja essa a esperança escondida nas figuras cinzas.
Algumas pessoas deixam de estar ao nosso lado, mas nunca deixam de fazer parte de quem somos.
O álbum continua aberto.
Ainda há páginas.
Ainda há cores.
Ainda há vida.
Preencha-as.
A natureza está de luto. A esverdeada pureza despiu-se de cinza em memória da beleza que um dia foi tua maior riqueza.
Respeite meu cabelo afro
Minhas crenças
Minha história
Minha memória
Respeite minha ideologia
Minhas escolhas
Respeite minha condição humana
Meu sorriso
Minha pele negra
Respeite minha capacidade
Minha habilidade
Minha felicidade
Respeite minhas conquistas
Meu carro importado
Ou bicicleta usada
Respeite minha dança
Minha confiança
Respeite minha mãe preta ou branca
Respeite meu sucesso
Minha liderança
Minha existência
Minha voz
Sou negro
Sou cidadão
Quero ser tratado como qualquer membro desta nação!
Viajar é desdobrar a vida em duas vidas: uma que fica guardada na memória, outra que se projeta no futuro.
Manuel de Oliveira Lima
A consciência não é o acúmulo de dados, mas a arte de saber o que esquecer para que a memória possa, enfim, criar.
