A Mulher Que Ficou Apenas na Memória No... Hassamo Abdurrahimo
A Mulher Que Ficou Apenas na Memória
No primeiro dia de novembro,
o tempo escreveu o teu nome
na página mais bonita da minha vida.
E eu, sem saber,
entreguei-te o coração
como quem entrega uma casa
a alguém que promete nunca partir.
Em março,
vestimos o amor de eternidade.
Diante do mundo jurámos permanecer,
ignorando que até as promessas
podem sangrar em silêncio.
Vivemos instantes
que hoje parecem pertencer
a outra existência.
Havia poesia no teu olhar,
calma nas tuas mãos,
abrigo no teu abraço
e esperança no sabor do teu beijo.
Tu caminhavas com a elegância
de quem fazia da ternura
a sua mais bela linguagem.
Então a vida,
cruel sem pedir licença,
arrancou-nos um filho
antes que ele pudesse conhecer
o calor dos nossos braços.
Naquele dia,
não morreu apenas um sonho.
Morreu um pedaço de nós.
Depois desse vazio,
vieram os silêncios.
Quem me chamava “amor”
passou a pronunciar apenas o meu nome,
como se cada letra apagasse
a história que juntos escrevemos.
O eterno começou a desfazer-se
sem ruído.
Como um castelo de areia
que o mar leva,
grão por grão,
até nada restar.
Tentámos regressar.
Houve pontes reconstruídas,
palavras ensaiadas,
esperanças teimosas.
Mas nunca faltou amor.
Faltou coragem.
A coragem de reconhecer,
de pedir perdão,
de olhar para as próprias sombras
sem fugir delas.
Hoje encontro diante de mim
uma mulher que tem o teu rosto,
a tua voz
e o teu nome…
Mas já não tem a alma
por quem um dia me apaixonei.
Onde havia princípios,
ergueram-se muralhas.
Onde existia admiração,
cresceu a indiferença.
Onde florescia a verdade,
restou apenas o eco
das promessas que o vento levou.
E então compreendi
a mais amarga das verdades:
às vezes,
a pessoa que perdemos
não parte.
Ela transforma-se
numa estranha
enquanto ainda respira.
Não sei se mudaste.
Ou se apenas deixaste cair
a máscara que o amor,
cego e generoso,
nunca me permitiu ver.
Hoje não choro
porque a nossa história terminou.
Choro porque continuo à procura
da mulher
que conheci naquele novembro.
Da mulher
que me olhava como destino.
Da mulher
que me abraçava como lar.
Da mulher
que um dia prometeu eternidade…
e que agora vive apenas
no lugar onde ninguém consegue morrer:
a memória
de um coração
que amou
até ao último pedaço de si.
Hassamo Abdurrahimo
