Eraldo Cunha

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Quem tem habilidade para falar com a massa o que ela quer ouvir tem facilidade em dominá-la.

Inserida por Eraldocunha

R E C O N S T R U I N D O


A cidade estava toda pronta para uma noite de Natal iluminada.
O clima era de festa completa. O comércio cheio, as ruas lotadas, o povo indo e vindo com sacolas nas mãos, com aquela pressa boa de quem quer celebrar. Ninguém sabia o que estava por vir após o anoitecer.
Anoiteceu. Jiquiriçá acendeu suas luzes. Em cada casa, a mesa quase posta, a ceia quase pronta.
Já era quase à meia-noite quando a chuva começou. Ela veio sem pedir licença, sem dar tempo para pensar.
A água rompeu as ruas com fúria, engolindo tudo pela frente. O que até então era chão firme e seguro, de repente virou mar.
A alegria virou pranto num instante. Lares foram largados para trás no escuro e inundados. Gente em disparada, com o que coube nas mãos, buscando um ponto mais alto para se abrigar naquela madrugada.
Do alto, abrigados como deu, vimos nossas casas tombarem. E não era só parede caindo. Era uma vida inteira boiando. O retrato da formatura, a geladeira a prazo, o suor de anos, tudo se perdeu rapidamente.
Naquela virada, o brilho do Natal se apagou no lamaçal.
A perda foi sem medida. Aquilo abalou profundamente nosso povo e fez Jiquiriçá chorar.
Os dias que se sucederam foram duros, de muita luta e labuta, mas nada nos abalou. A vida sempre teima em não parar, e nós estamos firmes nessa luta que é de todos.
E é com fé, suor, garra e com a força de quem vive aqui que estamos reconstruindo, tijolo por tijolo.
Não está longe o dia em que a veremos renascida, mais iluminada, mais bonita do que nunca, a nossa querida Jiquiriçá.


Eraldo Cunha

Não esqueça!




Na minha inutilidade, peço apenas cuidado
Não quero fortuna, nem piedade
Que me guardem num gesto delicado
Com um pouco de bondade


Que me levem ao sol, ao brilho do dia
E se lembrem de me abrigar
Que me amparem no banho, sem agonia
Sem no banheiro me abandonar.


Que fiquem por perto para conversar
Ouçam com calma a mesma história
Mesmo que eu torne a recontar sem parar
Sem reclamar, guardem na memória.


Que sejam meus amigos até o fim
Sem nada em troca querer cobrar
Que estejam comigo, perto de mim
Apenas ter aprendido a me amar.








Pano de fundo: Uma reflexão feita pelo Pe Fábio de Melo, sendo assim, uma paráfrase.

Inserida por Eraldocunha

Não esqueça!


Na minha inutilidade, peço só atenção
Não quero esmola, quero gesto de carinho
Quero ser lembrado
Mesmo que eu fique aqui sozinho


Que me levem ao sol no claro do dia
E não se esqueçam de me guardar
Que no banho me tratem com valia
Sem no frio me deixar


Que fiquem por perto para me escutar
Ouçam serenos a mesma história
Mesmo que eu torne a recontar
Guardem com afeto na memória


Que sejam meu amigo com lealdade
Sem de mim nada querer
Que me queiram bem de verdade
Só por me querer bem, por me querer.






É uma paráfrase de uma reflexão do Pe Fábio de Melo

O PÁSSARO DE ASA QUEBRADA


Era noite de 29 de janeiro. Ele saiu do trabalho e resolveu ir até a cidade vizinha. Numa curva, a moto derrapou em algo espalhado no asfalto. Seu corpo foi arremessado contra o guarda-corpo. Ali ficou, desorientado, aguardando socorro.
O SAMU apareceu, estabilizou e o levou ao hospital da cidade vizinha. Dali, encaminharam-no para o hospital regional, mas no caminho foi preciso parar em outra unidade de saúde. Os sinais vitais diminuíam, a morte era iminente. Moveram céu, mar e terra para ele não partir. Ele parecia ter sede de viver.
Reanimado, seguiu para o HRSAJ. Os dias foram difíceis: intubação, dezenas de dias em coma. A morte insistia em ser sua maior companheira, tentando levá-lo a qualquer custo.
A comunidade, comovida, se uniu numa corrente de fé em oração, reza e preces pela sua recuperação.
A medicina, por várias vezes, já não era suficiente. Era necessário um milagre. Os dias longos e as noites intermináveis pareciam não passar.
De forma milagrosa, ele retornou do coma. As sequelas eram visíveis: fala limitada, sons inaudíveis, limitação motora e uma grave fratura num dos braços ainda o atormentava. Submeteu-se à cirurgia, colocando uma estrutura que em muito se assemelhava a uma antena externa de TV de antigamente.
Recebeu alta, adaptou-se em casa uma espécie de quarto-enfermaria e a luta continuou.
Sua reabilitação necessitou de fonoaudiologia e ainda continua com sessões de fisioterapia para restabelecer o movimento do braço.
Ele, que esteve muito perto de fazer a viagem rumo ao desconhecido, hoje está praticamente curado.
É um pássaro com uma asa em recuperação, pronto para, a qualquer momento, voar livre por aí.

A VELOCIDADE QUE CEGA




A velocidade tornou-se inimiga da profundidade. A ilusão do conhecimento sacia mais do que a busca pela verdade. Ler virou um ato mecânico; compreender tornou-se um artigo de luxo.


A sociedade está imersa num oceano de informações que circulam numa velocidade incomensurável. Um povo que vive correndo e não para para quase nada acaba não examinando o que chega a cada instante na tela do celular, na TV.


Aí está o perigo de se fazer juízo de valor das coisas de forma rasa, superficial. O "ouvi dizer", o "alguém me contou", tudo isso passou a ser verdade incontestável.

Outro ciclo


A água da chuva que escorre pela ladeira não volta para lavar a mesma rua. Ela segue seu curso. Em outro ciclo, quem sabe, ela volte a cair no mesmo lugar.

Inserida por Eraldocunha

O ciclo



A água que escorre pela ladeira não retorna à mesma rua.
Ela cumpre seu curso.
E apenas em outro ciclo, se ousar, volta a cair no mesmo lugar.

A medida da vida


A vida....
É curta para quem só olha.
É longa para quem vive.


Viver não é apenas respirar, é interagir com a natureza, com as pessoas. É desfrutar dos minutos, das horas, dos dias, meses e anos.


Curta para quem tem pressa de chegar e chegar de qualquer jeito.
Longa para quem aprende a observar o caminho durante a tranquila e suave caminhada.


É longa para quem se movimenta. Para quem faz, tenta, erra e recomeça. Para quem acredita que tudo passa e por isso não estaciona esperando a vida passar.


E não passa para quem não se move.
Porque quem não se move, não vive. Só espera.
E esperar cansa, desmotiva, isola, desbota.
Viver alivia.


No fim, não é sobre ter muitos anos de vida.
É sobre ter muita vida nos anos vividos.

A TEMPESTADE QUE EU CRIO


A água, quando encontra um obstáculo,
não perde tempo discutindo quem pode mais, quem é mais resistente, quem vence a batalha.


Ela para um pouco,
analisa o cenário
e toma uma decisão:
busca um atalho e segue sua vida, sem gastar energia com o que pode ser resolvido usando a sabedoria.


Na trajetória da vida,
quando tudo está muito calmo,
a alma tranquila, o céu mais iluminado, o aroma da natureza contagiando o ambiente, os negócios, o trabalho, a família... tudo em perfeita sintonia, um verdadeiro concerto,
abruptamente emergem situações querendo roubar a nossa paz, tirar-nos do chão, nos arrastar para o abismo, penhasco.


Se nessa hora me desorganizo, danifico meus alicerces, minhas estruturas
querendo resolver ao meu modo e às pressas, posso me afogar na tempestade que eu mesmo estou criando.


Como a água, preciso parar.
Respirar.
Contornar.


E seguir em paz
Porque uma coisa é certa: nem a alegria é constante, nem o caos é para toda vida.

E S P E L H O




Uma avaliação seca, simples, sem contexto revela muito a forma rasa como o educador executa suas atividades em sala de aula.

G A N G O R R A


Quando tudo na sua vida estiver muito calmo, água tranquila, barulho apenas do cantar dos pássaros ou do vento a tocar nas folhas das árvores, não se acomode. A "paz" aqui não é duradoura.


De uma hora para outra tudo muda. Um turbilhão de situações desagradáveis nos cerca, leva-nos para regiões abissais.


É nessa hora, embora com dificuldade, que precisamos compreender o verdadeiro balanço da vida, a gangorra na qual vivemos.


Uma hora no alto, com o vento a favor.
Outra hora embaixo, aprendendo a respirar fundo e a encontrar força onde parecia não haver.


Nem a calmaria é eterna, nem o caos é o fim.
Tudo é movimento. E é esse movimento que nos mantém vivos.

PLANEJAR É RESPEITAR QUEM VOLTOU


Planejar aula para criança é importante.
Planejar aula para aluno da EJA é um ato de respeito.
O aluno da EJA não é obrigado a estar aqui. Ele escolheu estar. Ou veio porque foi "forçado" pelos mais diversos fatores.
Ele já trabalhou o dia todo. Ele deixou o filho com a vizinha. Ele se deslocou de longe. Ele venceu a vergonha de voltar a estudar depois de anos. Ele está cansado e, mesmo assim, ele veio.
Quando a gente entra sem planejar, com a aula improvisada só no piloto e no quadro, sem pensar nele, o que a gente está dizendo, sem falar, é: "O seu esforço para vir não valeu o meu esforço para preparar." E, infelizmente, o aluno da EJA nota, com exatidão, quem faz e como faz. E ele percebe.
O aluno da EJA percebe tudo. Ele pode não saber as fórmulas complexas de matemática, mas ele sabe quando foi respeitado e quando foi enrolado.
Planejar para a EJA não é preencher papel. É responder a três perguntas antes de entrar em sala:
A) O que da minha aula serve para a vida dele amanhã de manhã?
Se eu vou ensinar porcentagem, por exemplo, como isso ajuda ele a não ser enganado no mercado, no empréstimo, na venda da sua produção?
B) Ele vai participar das atividades ou vai ser só ouvinte? Ele coloca a mão na "massa" também?
Adulto não aprende só ouvindo. Ele aprende fazendo, falando, medindo, calculando o seu próprio salário, a sua própria roça, a sua própria receita. Se ele só copiou, ele não aprendeu.
C) O que eu vou fazer se ele não entender?
Porque, na maioria dos casos, ele vai ter vergonha de dizer "não entendi". O planejamento já precisa ter o plano B, com outra explicação, com um exemplo mais simples, mais perto da realidade dele.
Professor da EJA, o seu caderno de planejamento não é um documento para a secretaria. É o mapa do caminho de alguém que confiou em você para recomeçar.
Improvisar é até humano, todos nós improvisamos um dia. E, às vezes, a realidade nos impõe a fazer caminhos diferentes do que foi traçado.
Mas viver improvisando na EJA é dizer para aquele pai, para aquela mãe, para aquele jovem trabalhador: "O seu sonho pode esperar, porque eu não tive tempo de pensar nele."
Planejar é o contrário. É dizer: "Eu pensei em você antes mesmo de você chegar. Eu preparei essa aula pensando no seu cansaço, no seu trabalho e no seu sonho de terminar os estudos."
Quando você entrar na sala, antes de abrir o livro, abra a história da sua turma.
Planejar é isto: transformar conteúdo em esperança.
E esperança, para quem voltou a estudar, vale mais que qualquer conteúdo.
Por fim: não somos forçados a fazer "muito", mas o que nos dispomos a fazer, que seja feito como se fosse para nós, nosso filho, para a pessoa de quem mais gostamos. Nosso aluno só leva da escola o conhecimento que conseguiu produzir. Tudo, além disso, fica impregnado no papel, nos protocolos, em documentos.

O monopólio da sua verdade acabou. O mundo mudou, o acesso se democratizou e qualquer narrativa sem base cai em um clique. Quem dependia da ignorância alheia para liderar, hoje se perde na própria arrogância.

A amizade e o custo da ilusão


Eu costumava acreditar que tinha amigos incontáveis. Hoje, no entanto, a clareza me trouxe uma constatação amarga: eles nunca quiseram a minha amizade, queriam apenas o que eu podia lhes proporcionar.Agora, no silêncio da minha própria companhia, compreendi que comprei afetos em vez de conquistá-los. Aquilo que eu julgava ser bondade e gentileza era, na verdade, a moeda com que eu financiava a presença deles. O mais doloroso é ver que aqueles que antes me rodeavam agora simulam amnésia; dizem que mal me conheciam, embora todas as evidências provem o quanto éramos próximos, o quanto dividíamos o que eu acreditava serem os melhores momentos de nossas vidas.Diante desse cenário, sou obrigado a me perguntar: de que valeu tudo o que fiz, sem critérios, sem medir os riscos? Valeu alguma coisa?Sim, valeu. Valeu para que a ilusão finalmente terminasse. Essa solidão de hoje não é um castigo por eu ter sido bom, mas o preço do meu despertar. Descobrir que ninguém ficou quando o banquete acabou é um indicador brutal, mas limpo. Aprendi, da forma mais dura, que o meu afeto e o meu tempo são valiosos demais para serem entregues a quem só sabe aplaudir enquanto o sol brilha, mas desaparece na primeira tempestade.

"Quando você nasceu, já trouxe consigo a passagem de volta; falta apenas definir as circunstâncias, a data e o horário da partida."

NINGUÉM NASCE PRONTO.


A borboleta não nasce pronta. Ela rasteja, se recolhe, se transforma no silêncio do casulo para então ser bela e voar. Assim somos nós. As dificuldades não são o fim, são fases. Cada dor nos ensina, cada espera nos prepara. Não tenha pressa de ser borboleta, respeite seu processo.

Memória da internet




O mundo ficou exposto. Do nada, você surge com verdades absolutas, com ideias bem definidas e discurso incontestável. Só que na internet tudo deixa rastro. Basta um clique para suas pegadas antigas desmentirem todo o seu discurso de hoje.

Educação "ultra-passada"


O modelo educacional adotado no Brasil nas últimas décadas pode ser considerado ultrapassado, pois já não atende aos anseios de uma juventude imersa na era digital. Essa desconexão é agravada por metodologias obsoletas, nas quais muitos profissionais, por falta de formação continuada, ainda replicam o tradicional modelo de memorização passiva. Soma-se a isso a escassez de infraestrutura tecnológica nas escolas públicas, que acentua o abismo entre a realidade escolar e o dinamismo do século XXI, transformando a sala de aula em um ambiente desestimulante. Essa engrenagem falha se retroalimenta na base: o magistério perdeu prestígio e, lamentavelmente, passou a recrutar justamente os estudantes com menor desempenho no ensino médio. Sem salários competitivos ou um plano de carreira que garanta a ascensão profissional, a docência deixa de ser uma escolha de excelência, comprometendo a renovação intelectual de que o sistema tanto necessita.