Meio
A Polarização rachou o Brasil no meio, levando seu povo ao ápice da Efervescência Social: metade se vale da música, metade se vale do Santo Nome de Deus — e todos protestam.
Essa “coisa medonha” não apenas dividiu opiniões — ela partiu afetos, rachou mesas de família e transformou a praça pública num coro dissonante.
O Brasil ferve, e na ebulição cada metade encontrou seu próprio idioma para gritar: uns cantam ou fingem que cantam, outros oram ou fingem que oram.
Uns erguem cartazes ao som de refrões, outros levantam as mãos clamando o Santo Nome de Deus.
E todos protestam, embora uns nem saibam o porquê… e outros só acham que saibam.
A música vira trincheira, o louvor vira escudo.
O palco e o púlpito disputam o mesmo espaço simbólico: o de dar sentido ao caos.
Mas, enquanto cada lado acredita falar em nome do bem maior, o país sangra nas frestas do diálogo que não acontece.
O grito abafou a escuta; a convicção atropelou a compaixão.
Talvez o problema já não esteja na canção nem na oração, mas na incapacidade de reconhecer que ambas nascem do mesmo desassossego.
Às vezes há dor nos acordes e às vezes há medo e até arrogância nas preces.
Mas também há um pouco de esperança em ambos, ainda que deformada pela raiva de não ser ouvido.
Quando a fé vira slogan e a arte vira arma, perde-se o sagrado de ambas.
Deus não cabe na guerra palavrosa do palanque, e a música não foi feita para silenciar ninguém.
O Brasil não precisa escolher entre cantar ou ajoelhar — precisa aprender, urgentemente, a caminhar junto.
Porque enquanto metade canta para resistir e a outra ora para vencer, o país segue dividido, protestando contra si mesmo, esquecendo que nenhuma nação se salva quando transforma sua própria alma em campo minado de batalha.
Nós contra eles não dialogam…
Não há diálogo possível entre os cheios de Certezas e os cheios de Dúvidas, ambos se demonizam…
Quando não fazem pior: se desumanizam.
Tropeçamos quase todos nos infortúnios da polarização.
As Palavras Impensadas, ditas em meio à euforia, podem inviabilizar a calmaria de alguém.
Às vezes, não é o que sentimos que machuca — é o que deixamos escapar sem passar pelo crivo do silêncio.
Palavras ditas na euforia nascem sem freio, sem cuidado e sem escuta alguma.
Carregam o peso do instante, mas podem pousar na vida de alguém como sentença duradoura.
O que para quem fala é só excesso de emoção, para quem ouve pode ser o início de uma inquietação que não pediu para carregar.
A calmaria de alguém é frágil como água parada: qualquer pedra jogada sem intenção cria ondas que demoram a se desfazer.
E há palavras que, mesmo ditas sem maldade, afundam fundo demais.
Por isso, nem toda verdade precisa ser dita no calor do momento.
Há silêncios que não são covardes — são cuidados.
Porque preservar a paz do outro, muitas vezes, é um ato de maturidade muito maior do que vencer qualquer euforia passageira.
Em meio a tanta polarização, o ativo sombrio da Arrogância foi tão valorizado que até os Arrogantes já temem a concorrência.
Talvez nunca tenha sido tão fácil parecer certo — e tão difícil estar disposto a escutar.
Em tempos em que opiniões são vestidas como armaduras e não como pontes, a arrogância deixou de ser um desvio incômodo para se tornar moeda corrente.
Não apenas tolerada, mas premiada: quanto mais alto se fala, quanto mais categórico se afirma, mais visibilidade se conquista.
A dúvida, por outro lado, passou a ser confundida com fraqueza.
Há algo de paradoxal nisso tudo.
A arrogância, que antes isolava, hoje conecta — ainda que superficialmente — aqueles que compartilham certezas inabaláveis.
Mas essa conexão é frágil demais, porque não se sustenta na troca, e sim na validação.
Não há espaço para o encontro, apenas para o eco.
E, no meio desse ruído todo, cresce um medo silencioso: o de ser superado por alguém ainda mais seguro, ainda mais inflexível, ainda mais disposto a não ceder.
Quando até os arrogantes começam a temer a concorrência, talvez estejamos diante de um esgotamento desse modelo de convivência.
Afinal, se todos falam e ninguém escuta, o que realmente está sendo construído?
Se toda conversa vira disputa, o que ainda pode florescer ali?
A humildade, nesse cenário, torna-se quase um ato de resistência.
Não a humildade passiva, que se cala por receio, mas aquela que reconhece a complexidade das coisas e aceita que o outro pode, sim, ter algo a acrescentar.
É um gesto raro — e justamente por isso, poderoso.
Talvez o verdadeiro desafio do nosso tempo não seja vencer debates, mas reaprender a conversar.
Não se trata de afirmar certezas, mas sustentar perguntas com consciência de que são elas que movem o mundo.
Porque, no fim das contas, o conhecimento que não admite revisão não é força — é apenas rigidez disfarçada.
E tudo que é rígido demais, cedo ou tarde, se quebra.
No meio polarizado, é preciso ponderar que ambos os extremos são capazes de comportamentos ardilosos
em prol das agendas.
Talvez o maior engano do nosso tempo seja acreditar que a distorção da realidade pertença apenas ao lado oposto.
Como se a manipulação fosse sempre uma ferramenta do “outro”, nunca nossa.
No entanto, quando a convicção se transforma em identidade, a verdade deixa de ser um compromisso e passa a ser um recurso — moldável, conveniente e estratégico.
Nos extremos, o objetivo raramente é compreender; é vencer.
E, para vencer, vale simplificar o complexo, omitir o inconveniente, amplificar o medo e, sobretudo, reforçar certezas.
Não se debate para construir pontes, mas para erguer muros mais altos.
Cada argumento vira munição, cada dúvida é tratada como fraqueza, cada concessão como traição.
O problema não está apenas na existência de opiniões divergentes — isso é saudável —, mas na disposição de distorcer a realidade para sustentá-las.
Quando a narrativa importa mais do que os fatos, qualquer meio parece justificável.
E é aí que o ardil se instala: na edição seletiva da verdade, na escolha calculada do que mostrar e do que esconder.
No fim, o que se perde não é apenas o diálogo, mas a própria capacidade de reconhecer quando estamos sendo conduzidos — ou quando somos nós que estamos conduzindo os outros por caminhos tortuosos.
Porque admitir isso exige um exercício muito raro: desconfiar não só do que vem de fora, mas também do que pode nascer ou florescer em nós.
Talvez o verdadeiro equilíbrio não esteja em escolher um lado, mas em preservar a honestidade intelectual mesmo quando ela contraria até as nossas próprias convicções.
Afinal, em um cenário onde todos querem convencer, a integridade de pensar por conta própria se torna, paradoxalmente, um ato de profunda resistência.
Em meio a tanto ruído, já não se sabe se a fé da humanidade está sendo provada ou se é só para descobrir as cabeças alugadas.
Talvez o maior drama do nosso tempo não seja a ausência de informação, mas o excesso dela atravessando consciências cansadas.
Nunca se falou tanto sobre liberdade de pensamento e, paradoxalmente, nunca foi tão fácil encontrar pessoas repetindo discursos prontos como se fossem conclusões próprias.
A avalanche de opiniões instantâneas transformou convicções em mercadorias emocionais: compra-se uma narrativa, veste-se uma indignação e aluga-se a própria percepção em suaves parcelas ideológicas.
A fé — não apenas a teologal, mas também a humana — parece encurralada entre o barulho das certezas fabricadas e o medo de pensar por conta própria.
Porque pensar exige muita coragem…
Exige o desconforto de admitir dúvidas, rever posições, contrariar o próprio grupo e suportar o silêncio antes de formular uma opinião.
Mas o ruído moderno não tolera pausas; ele exige posicionamentos imediatos, reações inflamadas e fidelidades cegas.
Nesse cenário, muita gente já não busca compreender o mundo, apenas encontrar um coro que confirme aquilo que deseja sentir.
E quando a emoção substitui completamente o discernimento, a consciência deixa de ser território de reflexão para virar palanque de repetição.
É aí que surgem as “cabeças alugadas”: pessoas que terceirizam a própria capacidade crítica em troca do conforto de pertencer a algum rebanho político, religioso, cultural ou digital.
O mais curioso e inquietante é que os manipuladores nem sempre precisam mentir.
Basta alimentar medos, vaidades e ressentimentos pré-existentes.
Uma população emocionalmente exausta se torna vulnerável não apenas à desinformação, mas também à sedução das respostas simples para problemas complexos.
E toda resposta simples demais costuma cobrar um preço muito alto da lucidez.
Ainda assim, talvez exista alguma esperança justamente naqueles que continuam desconfiando do excesso de unanimidade.
Os que ainda conseguem ouvir, ponderar e mudar de ideia sem sentir que traíram a própria identidade.
Porque a verdadeira fé, sobretudo na humanidade, talvez não esteja em quem grita convicções, mas em quem preserva a honestidade — espiritual e intelectual — mesmo quando o ruído coletivo tenta sufocá-la.
No fim, a grande prova pode não ser descobrir quem está certo ou errado, mas quem ainda consegue pensar sem precisar entregar a própria mente para terceiros.
Com tanta consciência esvaziada no meio polarizado, para alugar cabeças de parte considerável de um povo, basta comprar algumas.
E talvez seja justamente esse o retrato mais inquietante do nosso tempo: a opinião deixou de ser construída para ser terceirizada.
Poucos pensam, muitos repetem.
Poucos lucram, multidões defendem.
E, no meio desse comércio invisível de narrativas, convicções passaram a ser tratadas como produtos de campanha — embaladas com medo, raiva, pertencimento e inimigos convenientes.
As lideranças populistas entenderam algo perigoso: não é necessário convencer uma sociedade inteira; basta capturar emocionalmente grupos barulhentos, disciplinados e permanentemente indignados.
A polarização faz o restante do trabalho.
Quando tudo vira disputa entre “nós” e “eles”, a verdade deixa de ser importante.
O que importa é vencer, humilhar, viralizar e manter o próprio lado em estado contínuo de alerta.
Nesse ambiente, a coerência se torna descartável.
Pessoas que antes condenavam autoritarismos passam a relativizá-los quando praticados por quem defendem.
Quem exigia ética aceita corrupção “do bem”.
Os que gritavam por liberdade apoiam censura seletiva.
Não porque mudaram seus valores, mas porque trocaram princípios por torcida.
E talvez o maior triunfo dessas lideranças não seja eleitoral, mas psicológico: transformar cidadãos em soldados emocionais incapazes de admitir a manipulação.
Porque a manipulação mais eficiente não é aquela percebida como imposição, mas a que é confundida com identidade.
Quando alguém acredita que questionar um líder é trair sua própria existência, o pensamento crítico já foi derrotado.
A polarização também produz um fenômeno cruel: o esvaziamento moral coletivo.
O adversário deixa de ser humano e passa a ser tratado como ameaça absoluta.
Com isso, desaparecem o diálogo, a nuance e até a honestidade intelectual.
Restam apenas caricaturas.
E caricaturas são mais fáceis de odiar do que pessoas reais.
Enquanto isso, os verdadeiros problemas sobrevivem confortavelmente no caos.
Desigualdade, violência, corrupção estrutural, precarização, desinformação e abandono institucional seguem existindo — muitas vezes alimentados pelos mesmos grupos que dizem combatê-los.
Afinal, uma população permanentemente dividida dificilmente se une para cobrar mudanças concretas.
O mais alarmante é perceber que muitos já não querem compreender; querem apenas confirmar.
Não buscam informação, mas validação emocional.
E, quando uma sociedade passa a consumir narrativas como quem escolhe times, a democracia começa a perder sua essência e ganha contornos de espetáculo.
Talvez a resistência mais revolucionária hoje não seja gritar mais alto, mas pensar com mais honestidade.
Ter coragem de criticar o próprio lado.
Recusar idolatrias políticas.
Desconfiar de quem lucra com o ódio permanente.
E lembrar que nenhuma liderança deveria valer mais do que a consciência individual de um povo.
Porque, quando cabeças são alugadas por conveniência ideológica, cedo ou tarde o preço é pago pela sociedade inteira.
O curioso não são soldados do exército pintando meio-fio, mas isso incomodar só os especialistas de uma guerra só:
a Palavrosa.
Porque há algo profundamente revelador no tipo de indignação que escolhemos cultivar.
Não é a fome que escandaliza.
Nem é o abandono.
E nem é a corrupção cotidiana que envelhece o país antes do tempo.
O que incomoda é a estética da simplicidade.
Um homem com enxada parece digno.
Um operário com uniforme parece digno.
Um gari varrendo rua parece digno.
Mas um soldado limpando praça ou pintando meio-fio vira símbolo de humilhação nacional para quem aprendeu a confundir utilidade com discurso.
Talvez porque a guerra palavrosa precise desesperadamente parecer mais importante do que é.
Existe uma elite emocional que vive da liturgia da crítica.
Não produz ponte, não recolhe lixo, não organiza fila, não constrói muro, não protege fronteira, não assenta tijolo — mas comenta tudo como se governasse o universo pela força do vocabulário rebuscado.
E, quando vê alguém executando uma tarefa simples, concreta e visível, reage com ironia, porque o concreto expõe a esterilidade do excesso de abstração.
Há gente que prefere um país perfeitamente teorizado e completamente abandonado a um país imperfeito, mas funcionando.
A tragédia moderna talvez esteja nisso: transformamos toda ação em símbolo, ideologia e todo símbolo em guerra moral.
Já não perguntamos se algo ajuda, organiza, melhora ou serve.
Perguntamos apenas se aquilo alimenta a narrativa que escolhemos.
E assim, pintar um meio-fio deixa de ser manutenção urbana e vira tese acadêmica improvisada.
Enquanto isso, o país real continua existindo longe dos debates performáticos.
Porque o país real pega ônibus cedo…
Troca de turno.
Limpa-chão.
Carrega peso.
Conserta rede elétrica.
Desentope outras.
Entrega comida.
Bate continência.
E, no fim do dia, entende uma verdade silenciosa que os sacerdotes da guerra palavrosa raramente suportam admitir:
Toda civilização depende muito mais de quem faz do que de quem só tenta diminuir quem fez.
No meio polarizado quem se enverniza de moral para usar o nome de Deus para se esconder, aparecer e se promover consegue vender até a chave do céu.
Em tempos de paixões acirradas, a aparência de virtude muitas vezes vale mais do que a própria virtude.
Não são poucos os que descobriram que vestir a linguagem da fé, da moralidade e das boas intenções pode ser uma estratégia poderosa para conquistar seguidores, blindar críticas e ampliar influência.
Quando a polarização domina o ambiente, o julgamento sereno costuma ser substituído pela identificação emocional.
Nesse cenário pervertido, basta que alguém se apresente como defensor dos “bons” contra os “maus” para que muitos deixem de avaliar suas ações e passem a consumir fervorosamente suas narrativas.
A coerência perde espaço para o espetáculo, e a devoção à verdade é frequentemente trocada pela devoção à personalidade.
O problema não está na fé, nem na espiritualidade, muito menos em Deus.
O problema surge quando o sagrado é transformado em ferramenta de marketing pessoal, escudo contra questionamentos ou palanque para ambições humanas.
Afinal, quem utiliza o nome de Deus para servir ao próprio ego não está elevando a fé; está instrumentalizando aquilo que deveria inspirar humildade.
A história repetidamente nos mostra que os maiores abusos raramente se apresentam como abusos.
Eles costumam chegar embalados em discursos nobres, promessas redentoras e certezas absolutas.
Por isso, a prudência recomenda observar menos os slogans e mais os comportamentos; menos as declarações de pureza e mais os frutos produzidos.
Talvez uma das formas mais maduras de preservar a própria consciência seja desconfiar daqueles que fazem questão de anunciar constantemente a sua superioridade moral.
A verdadeira integridade não precisa de holofotes permanentes, nem de certificados públicos de santidade.
Ela se revela silenciosamente na coerência entre palavras e atitudes.
No fim, quem aprende a distinguir fé de propaganda, convicção de fanatismo e espiritualidade de autopromoção torna-se menos vulnerável aos vendedores de certezas.
Porque, no mercado das paixões humanas, sempre haverá alguém tentando vender até a chave do céu.
Mas a sabedoria começa quando percebemos que aquilo que tem valor espiritual genuíno jamais pode ser transformado em mercadoria.
Não há
jeitinho meio certo
nem meio errado
de fazer nada
certo.
Isso provoca porque confronta uma das principais tentações humanas: a de acreditar que pequenos desvios são aceitáveis quando o objetivo parece nobre.
Mas nada é tão nobre ao ponto de flertar com pequenas concessões.
No entanto, o caminho escolhido para alcançar um resultado diz tanto sobre quem somos quanto o próprio resultado.
Integridade não se mede apenas pelas grandes decisões, mas, sobretudo, pelas escolhas silenciosas que fazemos quando ninguém está vendo.
O chamado “jeitinho” costuma se apresentar como uma solução prática, inofensiva ou até necessária.
Mas, quando normalizamos atalhos que ferem princípios, corremos o risco de transformar exceções em hábitos e conveniências em valores.
O que hoje parece um detalhe pode, amanhã, comprometer a confiança, a credibilidade e o caráter.
Fazer o certo exige coragem, paciência e, muitas vezes, renúncia.
Nem sempre é o caminho mais rápido, mais fácil ou mais vantajoso.
Ainda assim, é o único que permite dormir com a consciência tranquila e construir relações baseadas na confiança.
No fim, a ética não admite meias medidas.
O certo não precisa de maquiagem, justificativas ou adaptações oportunistas.
Quando escolhemos agir corretamente, escolhemos também honrar nossos valores.
Porque não existe um jeito “quase certo” de fazer o que é certo: ou se faz com integridade, ou se abre mão dela.
Na Seara Política, quase tudo que se diz em meio ao desespero é prosopopeia flácida para acalentar bovinos apaixonados.
Há momentos em que a política deixa de ser o território das ideias e passa a ser o palco das ilusões.
Quando os argumentos escasseiam, a realidade se torna incômoda e o futuro parece pouco promissor, surgem as palavras grandiosas, as promessas redentoras e as narrativas cuidadosamente embaladas para alimentar a esperança de quem já escolheu em que acreditar.
O desespero político tem uma característica muito curiosa: transforma desejo em previsão, torcida em certeza e discurso em suposta evidência.
O que deveria ser analisado com prudência passa a ser celebrado com euforia.
E quanto maior for a distância entre o que se deseja e o que os fatos permitem esperar, mais sofisticada precisa ser a retórica para preencher o vazio.
É nesse terreno miseravelmente fértil que prospera a prosopopeia flácida — frases que parecem profundas, metáforas que soam épicas e declarações que, examinadas mais de perto, não sustentam sequer o peso da própria linguagem.
Não se pretende convencer pela consistência; pretende-se acalentar.
Nem se busca esclarecer; busca-se manter acesa a chama da paixão.
Mas a política do espetáculo não deveria ser religiosamente recheada de resultados previamente escolhidos.
Democracia exige a capacidade — cada vez mais rara — de reconhecer que o adversário pode estar certo, que o aliado pode estar errado e que a realidade não se curva às nossas preferências.
O problema não está em ter esperança…
A esperança é uma virtude quando caminha ao lado da lucidez.
O problema começa quando a esperança precisa ser protegida dos fatos, quando qualquer evidência contrária é tratada como conspiração e quando o eleitor deixa de avaliar acontecimentos para simplesmente defender uma narrativa.
No fundo, toda paixão política desprovida de senso crítico corre o risco de transformar cidadãos em plateia e políticos em personagens.
E uma sociedade que troca reflexão por aplauso acaba acreditando não naquilo que é verdadeiro, mas naquilo que gostaria desesperadamente que fosse.
Talvez a maior maturidade política seja justamente esta: aprender a ouvir discursos inflamados sem se deixar incendiar por eles.
Porque, na política, nem toda frase de efeito anuncia uma vitória, nem todo discurso de esperança revela um caminho — às vezes, é apenas o desespero procurando palavras bonitas para não admitir que está perdido.
Acho que já nasci meio Cético, mas tenho certeza de que o Immanuel Kant poliu meu Ceticismo Desapaixonado.
Não porque tenha me ensinado a duvidar de tudo, mas porque me ensinou a desconfiar das certezas fáceis e, sobretudo, das fabricadas.
Há uma diferença enorme entre não acreditar e aprender a perguntar.
O ceticismo apaixonado, imaturo, fecha janelas; o pensamento crítico mete o pé na porta.
O mundo se move com as respostas, mas subsiste com as perguntas.
Kant me fez perceber que a razão, tão orgulhosa de sua capacidade de compreender o mundo, também precisa reconhecer os seus próprios limites.
Há coisas que podemos conhecer, coisas que podemos apenas pensar que conhecemos e outras diante das quais só nos resta o silêncio.
Talvez a verdadeira Maturidade Intelectual comece justamente quando deixamos de confundir aquilo que pensamos com aquilo que sabemos.
Com o tempo, descobri que duvidar não é necessariamente afastar-se da fé.
Às vezes, a dúvida é o caminho mais curto pelo qual a fé deixa de ser herança, hábito ou medo e passa a ser uma escolha consciente.
Uma fé que nunca enfrentou perguntas difíceis pode ser apenas uma convicção protegida do vento.
Já aquela que atravessou noites de dúvidas talvez tenha aprendido a permanecer de pé sem precisar fingir que possui todas as respostas.
Talvez por isso eu desconfie tanto dos que têm explicações definitivas para quase tudo.
Há uma espécie de Arrogância Intelectual em quem transforma o mistério em certeza e uma espécie de Sabedoria Portentosa em quem consegue dizer: “não sei”.
Afinal, pensar não é acumular respostas; é aprender a formular perguntas melhores.
E talvez o meu Ceticismo Desapaixonado tenha começado como uma resistência a acreditar em qualquer coisa, mas, depois de Kant, tornou-se algo mais humilde: a disposição de não acreditar cegamente nem naquilo que eu gostaria muito que fosse verdade.
No fim, talvez seja essa a grande lição: não precisamos abandonar a fé para respeitar a razão, nem abandonar a razão para admitir o mistério.
Podemos caminhar entre as duas, conscientes de que há verdades que a mente alcança, verdades que o coração intui e mistérios diante dos quais ambos precisam aprender a se calar.
Porque, às vezes, duvidar não é perder a fé.
É apenas impedir que a nossa certeza se atreva a tentar se tornar maior do que a verdade.
Em meio a
tantas Feridas Abertas no mundo, até os Carinhos nos cobram mais Cuidado.
Há tempos em que um Abraço já não pode ser apenas abraço.
Precisa ser Abrigo.
Uma Palavra já não pode ser apenas palavra.
Precisa carregar Delicadeza.
E um gesto de afeto, por menor que seja ou pareça, pode significar muito para quem atravessa batalhas que não consegue contar a ninguém.
Vivemos cercados de dores visíveis e invisíveis.
Há quem sorria enquanto tenta juntar os próprios pedaços; quem diga “está tudo bem” apenas porque não encontrou palavras para explicar o que sente.
Por isso, talvez estejamos sendo chamados a reaprender a maneira de tocar a vida dos outros.
Cuidar também é saber quando falar e quando silenciar.
É não transformar a fragilidade alheia em julgamento.
É oferecer presença sem exigir explicações, escuta sem pressa e carinho sem cobranças.
Porque nem todo mundo precisa de conselhos.
Às vezes, precisa apenas de alguém que permaneça.
E talvez essa seja uma das formas mais bonitas de resistência em tempos tão espinhosos: continuar sendo gentil sem ser ingênuo, continuar oferecendo afeto sem ignorar as feridas, continuar acreditando que um pouco de ternura pode fazer a diferença.
No fim, todos — ou quase todos — carregamos alguma cicatriz.
Algumas estão à mostra; outras aprendemos a esconder tão bem que às vezes até nós esquecemos que elas existem.
Por isso, que nossos afetos tenham mãos cuidadosas.
Que nossas palavras saibam acolher.
Que nossa presença não pese sobre quem já carrega tanto.
Há um mundo ferido pedindo menos pressa, menos julgamento e mais humanidade.
E, talvez, cuidar do outro comece justamente quando entendemos que toda alma merece, no mínimo, ser tocada com delicadeza.
Em meio a tanta Ferida Aberta no mundo, quem acha que não tem nenhuma é a própria Ferida Aberta.
Há uma ironia muito silenciosa na condição humana: quase sempre, aqueles que mais ferem são os que menos conseguem enxergar as marcas que deixam pelo caminho.
Não porque lhes faltem olhos, mas porque lhes falta, talvez, a coragem de olhar para dentro sem o disfarce das próprias certezas.
Existem feridas que sangram para fora e outras que aprenderam a sangrar sobre os outros.
Algumas se manifestam em gritos, outras se escondem atrás de discursos impecáveis, de julgamentos severos e de uma convicção quase sagrada de estar sempre do lado certo.
Afinal, é mais fácil apontar a dor alheia do que reconhecer o próprio sofrimento disfarçado de orgulho.
O ser humano tem uma capacidade extraordinária de construir espelhos que refletem apenas aquilo que deseja ver.
Diante deles, transforma a própria crueldade em sinceridade, a arrogância em personalidade, a intolerância em princípio e a incapacidade de amar em suposta superioridade moral.
Assim, vai atravessando a vida convencido de que o problema está sempre no mundo, nas pessoas, nas circunstâncias — em tudo, menos naquilo que carrega dentro de si.
E talvez resida aí uma das maiores tragédias da existência: a ferida que não se reconhece não procura cura; procura culpados.
Quem não compreende a própria dor pode acabar fazendo dela uma linguagem, uma espécie de herança involuntária que distribui aos outros sem perceber.
Fere porque foi ferido, humilha porque um dia se sentiu pequeno, controla porque teme perder, destrói porque não aprendeu a lidar com aquilo que não consegue possuir.
E, enquanto repete os próprios abismos nos caminhos alheios, acredita estar apenas se defendendo da maldade do mundo.
Mas compreender a origem de uma Ferida não significa absolver tudo aquilo que ela provoca.
A dor explica muitas coisas, mas não transforma toda atitude em inocência.
Há uma diferença muito profunda entre reconhecer as próprias cicatrizes e usá-las como licença poética para machucar.
Sofrer não nos torna automaticamente melhores; às vezes, apenas nos oferece uma escolha: interromper o ciclo ou perpetuá-lo.
Talvez a verdadeira maturidade comece quando deixamos de perguntar apenas quem nos feriu e passamos a investigar quem nos tornamos depois da ferida.
Quando percebemos que a nossa história merece compreensão, mas não precisa se transformar em sentença para os outros.
Quando entendemos que ter sido vítima de uma dor não nos concede o direito de nos tornarmos autores da dor alheia.
Porque há algo profundamente perigoso em quem se considera inteiramente são num mundo adoecido: a possibilidade de nunca questionar os próprios gestos, de nunca rever as próprias certezas, de jamais admitir que também pode ser parte daquilo que condena.
A consciência, por sua vez, não é um lugar confortável.
É um território de demolições íntimas, em que algumas verdades precisam cair para que outras possam nascer.
Exige que retiremos as máscaras que já se confundiram com o rosto, que revisitemos palavras das quais nos orgulhamos e atitudes que preferiríamos esquecer.
Exige, sobretudo, a humildade intelectual de admitir que nem sempre somos os heróis da história que contamos sobre nós mesmos.
E isso dói.
Dói descobrir que, em determinados momentos, fomos o silêncio que abandonou, a palavra que humilhou, a indiferença que agravou, a certeza que impediu o diálogo.
Dói perceber que, enquanto esperávamos compreensão, oferecemos julgamento; enquanto exigíamos respeito, distribuímos desprezo; enquanto pedíamos ao mundo que fosse menos cruel, talvez tenhamos contribuído, ainda que discretamente, para a crueldade que tanto nos incomoda.
Mas essa dor, quando acolhida com honestidade, pode deixar de ser uma ferida e tornar-se consciência.
Não precisamos ser pessoas sem cicatrizes.
Precisamos apenas aprender a não transformar cada cicatriz em uma arma.
Não precisamos ter todas as respostas, mas devemos conservar a disposição de questionar as nossas.
Não precisamos fingir que estamos curados, mas precisamos ter a responsabilidade de não fazer dos outros o campo de batalha das nossas guerras interiores.
No fim, talvez o mundo não esteja dividido simplesmente entre os que ferem e os que são feridos.
Talvez essa fronteira atravesse cada um de nós, em diferentes momentos, sob diferentes circunstâncias.
Somos capazes de acolher e rejeitar, de construir e destruir, de oferecer abrigo e de nos tornarmos tempestade.
A diferença não está em uma suposta pureza de quem nunca erra, mas na disposição de reconhecer o próprio erro, reparar o dano e escolher, conscientemente, não continuar ferindo.
Afinal, a maior cegueira não é desconhecer as feridas do mundo.
É acreditar que elas existem apenas nos outros.
E talvez a pergunta mais necessária não seja quantas Feridas Abertas conseguimos identificar ao nosso redor, mas quantas delas ajudamos a manter abertas.
E quantas vezes chamamos de justiça aquilo que era apenas ressentimento, de verdade aquilo que era apenas orgulho, de força aquilo que era apenas medo de admitir a nossa fragilidade.
Porque, em um mundo onde tantas dores disputam o direito de serem reconhecidas, talvez o primeiro gesto de transformação seja abandonar, por um instante, a necessidade de apontar o dedo e encontrar coragem para examinar a própria mão.
Há feridas que precisam de cuidado, há erros que exigem reparação e há consciências que precisam despertar.
Mas nenhuma cura começa enquanto a própria ferida insiste em acreditar que é apenas a cicatriz de alguém.
Natureza
Em meio aos belos campos verdes de encantar;
Nessa tarde iluminada pelo sol.
Os pássaros a cantarolar;
Seguindo o sol como um girassol.
Como eu amo esse lugar;
Os animais a morar.
Onde a paz a abusar;
E o destino aqui está.
Ao entardecer;
As vacas apartar.
Esta memória vem aparecer;
Me dando gosto de amar.
Ao amanhecer;
O sol a nascer.
As plantas estão a crescer;
Os pássaros passando consigo ver.
Eis a fazenda ou campo;
Não importa como conhece.
Eis um lugar de encanto;
Onde a magia da floresta aparece.
Os animais encantam;
O céu onde o sol, a lua e suas estrelas andam.
As águas que todos, acalmam;
As plantas que nos mostram como amam.
Aqui há magia;
Aqui há beleza.
O sol e a lua que guia;
Longe de qualquer frieza.
.. Hoje acordei meio assim sei lá,
com vontade de não sei o que. No fundo eu sabia sim de todos os meus desejos, pois na noite passada sonhei com você. Essa é realidade perfeita, nos meus sonhos é só eu e você. Eu, você e mais ninguém entendeu?!?..
A beleza de uma Mulher é como um farol na estrada em meio da escuridão, pois cega somente o que censura o desfilar oposto no seu rápido deslumbramento.
Acorda no meio da noite em silêncio pular a janela do quarto e sair de fininho sem que ninguém veja encontrar com você na porta da sua casa e só volta as cinco da manhã seria interessante não acha?
