⁠Em meio a tanta Ferida Aberta no... Alessandro Teodoro

⁠Em meio a tanta Ferida Aberta no mundo, quem acha que não tem nenhuma é a própria Ferida Aberta. Há uma ironia muito silenciosa na condição humana: quase sempr... Frase de Alessandro Teodoro.

⁠Em meio a tanta Ferida Aberta no mundo, quem acha que não tem nenhuma é a própria Ferida Aberta.


Há uma ironia muito silenciosa na condição humana: quase sempre, aqueles que mais ferem são os que menos conseguem enxergar as marcas que deixam pelo caminho.


Não porque lhes faltem olhos, mas porque lhes falta, talvez, a coragem de olhar para dentro sem o disfarce das próprias certezas.


Existem feridas que sangram para fora e outras que aprenderam a sangrar sobre os outros.


Algumas se manifestam em gritos, outras se escondem atrás de discursos impecáveis, de julgamentos severos e de uma convicção quase sagrada de estar sempre do lado certo.


Afinal, é mais fácil apontar a dor alheia do que reconhecer o próprio sofrimento disfarçado de orgulho.


O ser humano tem uma capacidade extraordinária de construir espelhos que refletem apenas aquilo que deseja ver.


Diante deles, transforma a própria crueldade em sinceridade, a arrogância em personalidade, a intolerância em princípio e a incapacidade de amar em suposta superioridade moral.


Assim, vai atravessando a vida convencido de que o problema está sempre no mundo, nas pessoas, nas circunstâncias — em tudo, menos naquilo que carrega dentro de si.


E talvez resida aí uma das maiores tragédias da existência: a ferida que não se reconhece não procura cura; procura culpados.


Quem não compreende a própria dor pode acabar fazendo dela uma linguagem, uma espécie de herança involuntária que distribui aos outros sem perceber.


Fere porque foi ferido, humilha porque um dia se sentiu pequeno, controla porque teme perder, destrói porque não aprendeu a lidar com aquilo que não consegue possuir.


E, enquanto repete os próprios abismos nos caminhos alheios, acredita estar apenas se defendendo da maldade do mundo.


Mas compreender a origem de uma Ferida não significa absolver tudo aquilo que ela provoca.


A dor explica muitas coisas, mas não transforma toda atitude em inocência.


Há uma diferença muito profunda entre reconhecer as próprias cicatrizes e usá-las como licença poética para machucar.


Sofrer não nos torna automaticamente melhores; às vezes, apenas nos oferece uma escolha: interromper o ciclo ou perpetuá-lo.


Talvez a verdadeira maturidade comece quando deixamos de perguntar apenas quem nos feriu e passamos a investigar quem nos tornamos depois da ferida.


Quando percebemos que a nossa história merece compreensão, mas não precisa se transformar em sentença para os outros.


Quando entendemos que ter sido vítima de uma dor não nos concede o direito de nos tornarmos autores da dor alheia.


Porque há algo profundamente perigoso em quem se considera inteiramente são num mundo adoecido: a possibilidade de nunca questionar os próprios gestos, de nunca rever as próprias certezas, de jamais admitir que também pode ser parte daquilo que condena.


A consciência, por sua vez, não é um lugar confortável.


É um território de demolições íntimas, em que algumas verdades precisam cair para que outras possam nascer.


Exige que retiremos as máscaras que já se confundiram com o rosto, que revisitemos palavras das quais nos orgulhamos e atitudes que preferiríamos esquecer.


Exige, sobretudo, a humildade intelectual de admitir que nem sempre somos os heróis da história que contamos sobre nós mesmos.


E isso dói.


Dói descobrir que, em determinados momentos, fomos o silêncio que abandonou, a palavra que humilhou, a indiferença que agravou, a certeza que impediu o diálogo.


Dói perceber que, enquanto esperávamos compreensão, oferecemos julgamento; enquanto exigíamos respeito, distribuímos desprezo; enquanto pedíamos ao mundo que fosse menos cruel, talvez tenhamos contribuído, ainda que discretamente, para a crueldade que tanto nos incomoda.


Mas essa dor, quando acolhida com honestidade, pode deixar de ser uma ferida e tornar-se consciência.


Não precisamos ser pessoas sem cicatrizes.


Precisamos apenas aprender a não transformar cada cicatriz em uma arma.


Não precisamos ter todas as respostas, mas devemos conservar a disposição de questionar as nossas.


Não precisamos fingir que estamos curados, mas precisamos ter a responsabilidade de não fazer dos outros o campo de batalha das nossas guerras interiores.


No fim, talvez o mundo não esteja dividido simplesmente entre os que ferem e os que são feridos.


Talvez essa fronteira atravesse cada um de nós, em diferentes momentos, sob diferentes circunstâncias.


Somos capazes de acolher e rejeitar, de construir e destruir, de oferecer abrigo e de nos tornarmos tempestade.


A diferença não está em uma suposta pureza de quem nunca erra, mas na disposição de reconhecer o próprio erro, reparar o dano e escolher, conscientemente, não continuar ferindo.


Afinal, a maior cegueira não é desconhecer as feridas do mundo.


É acreditar que elas existem apenas nos outros.


E talvez a pergunta mais necessária não seja quantas Feridas Abertas conseguimos identificar ao nosso redor, mas quantas delas ajudamos a manter abertas.


E quantas vezes chamamos de justiça aquilo que era apenas ressentimento, de verdade aquilo que era apenas orgulho, de força aquilo que era apenas medo de admitir a nossa fragilidade.


Porque, em um mundo onde tantas dores disputam o direito de serem reconhecidas, talvez o primeiro gesto de transformação seja abandonar, por um instante, a necessidade de apontar o dedo e encontrar coragem para examinar a própria mão.


Há feridas que precisam de cuidado, há erros que exigem reparação e há consciências que precisam despertar.


Mas nenhuma cura começa enquanto a própria ferida insiste em acreditar que é apenas a cicatriz de alguém.