Galo
O galo é o dono dos ovos, a galinha é quem os bota e o pinto é compatriota da miséria de outros povos.
Até o meu corpo dói...
Acordo de madrugada
Na hora que o galo canta
Depois eu volto a dormir
Quando ele abre a garganta
O dia vem clareando
Minha cabocla levanta
Eu também pulo da cama
Tenho que cuidar das plantas
A vida do sertanejo
É uma luta quase
santa
E já vou para o rocado
Na hora que o sol desponta
Trabalho o dia inteiro
Até na hora da janta
Quando eu chego em casa
Minha mulher me encanta
Serve tutu com torresmo
E outras iguarias tantas
Depois eu pego a viola
E vou entoando um mantra
Que tem coro ritmado
Melodia sacrosanta
Num hino de Santos Reis
A minha voz se levanta
Diz o adágio popular
Quem canta seu mal espanta
E viver triste e calado
A vida se desencanta
Pois até meu corpo dói
Se minha alma não canta
Francisco Garbosi
UM POUCO DA MINHA VIDA
Nasci e me criei em fazenda
Acordando com o canto do galo
Tudo se tornava especial
Não precisava de legenda.
Tive momentos de tristeza e alegria
Duas revoltos como tempestade
Mas nada poderia arrancar
A nossa harmonia.
Tive uma infância preenchida
Com sonhos e brincadeiras
Se pudesse com certeza voltaria
Reviver cada momento daquela vida.
Apagaria todos os problemas
Bordaria tudo de bom que vivi
Acreditem, tudo eu transformaria
Versos dos meus poemas.
Irá Rodrigues.
O galo não é despertador, é poesia,
Cantando o início de mais um lindo dia.
E o cheiro... ah, o cheiro! Café em brasa,
Se misturando ao perfume que mora na casa.
O bolo de milho, de receita guardada,
Era a ponte doce da vida adoçada.
Mas nada, nada superava o calor
Do abraço da Vó, feito de puro amor.
No colo macio, o tempo parava,
Tudo de ruim ali se apagava.
Saudade que pulsa, lembrança que fica,
Daquele tempo onde a vida era rica.
No som que acorda, o galo em seu ofício,
E o vapor do café, fresco e propício.
Mas o coração bate forte, a memória voa,
Pois o cheiro do bolo de milho ecoa.
A Vó, de avental, mãos que fizeram magia,
Transformava o milho em pura alegria.
Não era só bolo, era história contada,
Com a manteiga derretendo, a infância guardada.
E no fim de tudo, a fatia na mão,
O abraço apertado, o mais puro perdão.
Saudade que arde, mas também conforta,
Pois o sabor da Vó jamais se transporta,
Ele vive em mim, em cada despertar,
No cheiro de café e no galo a cantar.
Galo a cantar, cheiro de café no ar,
O aroma do bolo de milho a nos chamar.
Na mesa simples, o afeto está,
Lembrança de vó, saudade a apertar.
Um tempo de criança que não volta mais,
Mas vive no gosto que a alma refaz.
Cada mordida, um abraço, um acalento,
Doce memória em todo momento.
Quer que eu tente escrever um poema um pouco maior ou com foco em outro detalhe dessa lembrança, como o abraço da avó?
Pra se alcançar um sonho
É preciso se esforçar
Acordar de manhãzinha
Antes de o galo cantar
Pois a quem cedo madruga
Nosso Deus confere ajuda
E dá forças pra lutar
Que o suor escorra pelo corpo! É folia, Galo da Madrugada, Homem da Meia Noite e muito calor. Se não aguentar corra…
Genera, gestante, gravidez, Grande Arquiteto do Universo, gravitação universal, galo.
O que esses nomes tem em comum?
7
A luz...
Véspera de Ano Novo em Rodeio
O galo canta antes do Sol raiar,
o Ano Novo está dando
os primeiros sinais em mim,
A passarada começou a cantar
para a nossa cidade de Rodeio
no Médio Vale do Itajaí,
Nesta véspera de Ano Novo
desejo para mim e para ti
a tranquilidade para seguir adiante
para viver esta vida como quem
escreve um grande romance
e que nunca nos falte disposição
para não desistir de ser feliz.
O ENIGMA
Como uma canção que soa ao vento,
Ouço a cantiga enrouquecida de um galo.
De longe, avisto a paisagem patética, como um vão.
É como se alguma coisa parasse no tempo.
Uma estrada pedregulhada eu avisto, e caminho sem parar, sem nada ver.
Aquela paisagem vai chegando ou eu...
Que chego com ela?
Um cachorro magro me late. Em pouco,
A vista me parece escura, o enigma continua.
Chegarei ali, um dia? Talvez, um dia!
Um dia...
O Galo
Impotência, inutilidade, medo, pequenez. Chame como quiser. A verdade, é que as palavras jamais conseguirão expressar com exata precisão o que eu sinto ao ver aquilo. O que? Um galpão. Um imenso, fedorento e decadente galpão. Milhares de olhos tristes emolduram os rostos grandes. Bolas negras de inocência dilaceram meu coração em bilhões de pedaços. São os olhos da carne. É a comida demonstrando sentimentos adversos, tentando impor, de forma inútil, a vida que nunca lhes pertenceram.
O que acontecerá depois de hoje? A quem pertencerão?
Um futuro incerto, recheado de crescimento econômico está sendo pactuado em contratos legais de compra e venda. Eles não são animais, são coisas. Bens que nos pertencem e podem ser vendidos, assassinados, comidos ou amados. Nas jaulas frias, flashs de câmeras fotográficas inibem uma psique descontrolada. O bico frenético do galo negro morde, com demasiada ansiedade, meus dedos trêmulos.
“Você vai ficar bem”, tento dizer de forma inútil, enquanto percebo a mentira que escorre pela minha fina linha de voz. Falo como um sopro. As lágrimas me veem aos olhos, transformando diversos sentimentos em uma gota de agua palpável, a matéria da minha subjetividade não compreendida. O galo tem o olho esquerdo machucado, as patas são enormes, o corpo beira o absurdo. Hormônios. O animal foi vendido por quinhentos reais, as placas indicam que ele é o vencedor no quesito de reprodução de matrizes. Misturar raças e rações é o segredo para essa geração de aves mutantes. Claro, precisamos de galinhas fortes, recheadas com proteínas induzidas para nos dar alguma dose de energia. Mas ele não sabe, não percebe. Seu instinto diz que precisa reproduzir, seu corpo pede por comida, seus olhos ardem. O estresse diminui sua produtividade como galo. Meu Deus, será que o galo sabe que é galo? Acho que não. Está perdido na escola do professor Xavier para super dotados. O galo é um super galo. O galo me bica, pra tentar impor sua grandiosidade. O galo é apenas o galo que engole medalhas pela garganta e, ainda assim, não deixa de ser galo. Mas eu, a garota de fora que esconde o choro, sei que ele é apenas um galo que foi induzido a ser, literalmente, grandioso.
Vou embora, me despedindo daquele ser perturbado. Dobro à direita e encontro mais jaulas. Gaiolas pequenas enfestadas de animais sensíveis de pelugem branca reluzente. Eles são os melhores no quesito de pelugem, os melhores no quesito de carne, os melhores no quesito de venda. São coelhos. As orelhas pontiagudas saem por fora dos buracos minúsculos, os flashs desafiam a capacidade visual dos animais, induzindo-os a um estado de torpor. Os corpos trêmulos demonstram fragilidade. As placas brancas de madeira rústica, demonstram preços. Eles são separados de acordo com seus quesitos mais impressionantes. Crianças se amontoam à minha frente, com os dedos pequeníssimos a tocar-lhes o pelo premiado. Mães sorriem, tiram fotos, explicam a vida do ser que está enjaulado como algo banal, um destino certo, uma beleza que está ali para ser vista e depois esquecida. Nada de nos aprofundarmos. Corações tão rasos quanto seus interesses. Eles são a base sólida de um mundo já corrompido, a ignorância em massa que carregará para sempre os mais aptos nos ombros. A ignorância que alimenta a violência, que educa com cegueira, que vive em vão, que morre sem orgulhos.
Ao lado, uma loja de roupas vende casacos de pele, paralelo a uma loja de filhotes de chinchila. Mais fotos, mais crianças. O peso de não se ser ignorante em uma terra enfestada de burrice. Tento sair dali, trancar minha respiração, fechar meus olhos. Temo não suportar o abismo que se abre em frente aos meus passos febris. Mas suporto. Suporto o suficiente para chegar até o galpão ao lado, onde o meu principal destino se encontra: os bovinos.
Nada de jaulas, nada de flashs. Aqui, há somente vacas, bois e cheiro de estrume. Placas enormes indicam os melhores matadouros, a melhor vaca para alimento, o melhor touro para reprodução. Cartazes esplendorosos exibem, com certa soberba, o orgulho de um boi em especial. Não lembro com exatidão o nome dele, mas sei que era muito, muito especial. Seu Sêmen foi vendido para dois continentes. Sua espécie, sua raça, ou sei lá o que, eram do mais alto escalão de linhagem bovina. Se você quer carne macia e animais dóceis, venha até mim. Se você quer animais submissos e uma linhagem mais rápida, venha até mim. Meu boi é o melhor e maior reprodutor do mundo. Venha até mim.
Eu vou.
Vou até o boi de quem tanto falam e não vejo nada além de um boi. O boi que, de tanto ser exaltado como boi, também pode se ter esquecido de que era boi. Mas eu... Ah, eu sabia que ele era um boi. Ele não me vê, estava ocupado demais regurgitando aveia. Mas eu estava lá. E eu via. O tamanho anormal, o pelo excessivamente penteado. O principal objeto de consumo, a melhor propaganda possível do objeto mais caro. O capitalismo agindo na sua forma mais pura para manipular a pecuária de que tanto dependemos. Continuo olhando e vejo apenas um boi. Um boi lotado de compromissos, fotos, folders, medalhas, filhos e linhagens inteiras de comida. Ao lado, mais bois. Todos os tipos de bois. Não conheço raças nem nada, mas sei distinguir cores. Bois brancos, bois marrons, bois pretos. Todo tipo de boi. E todos os bois que eu vi, devolviam o olhar meio incerto. O destino que nada lhes trazia, a compaixão que não lhes era devida. Olhos tristes. Bolas negras, repletas de mistérios e amores não percebidos. Bolas negras que continuavam a perfurar meu coração.
Será que o galo sabia que era galo ou apenas se convencia do contrário?
Por que estou começando a perceber falhas na minha identidade que não condizem comigo mesma. E, talvez, também ache que sou um galo. Na minha fraqueza, na minha pequenez. A indústria que consome meu dinheiro, de forma indireta. A pecuária que me engole pelas pernas contra a minha vontade. O mundo gira, enquanto acho que sou galo. E, nesses giros em descompasso, me perco numa identidade já não tão natural. Sou um galo que não se reconhece como galo, e, talvez por isso, me intitule como humana.
VIDA DE PEÃO I
Vem raiando o dia, a aurora a despontar
Desperta o galo “campina”. é hora de levantar
Calço as “butina inda suja”, da noite passada
E tomo um preto selvagem,
pra encarar a alvorada.
Vida de peão rotineiro, e batalhador
Enfrenta solos agrestes deste interior
Lamenta o cheiro brejeiro que ficou pra trás
E um gosto de um beijo ardente
Do seu grande amor.
Um grito grosso de um berrante acende
Na madrugada ao alazão surpreende
A energia solta e leve na brisa
Essa paixão desse peão ameniza
Antes que venha a noite, vê os amigos
Conta estórias, relembra os perigos
As voltas dadas ao redor deste mundo
E os desafios dos oito segundos.
Com seu chapéu trinta x é agora
Olhar do touro diz que esta é a hora
E na arena aquela que o desprezou
Tão linda ainda faz lembrar uma flor
Momentos duros de pura emoção
O velho amor martela o coração
e desligado do rodeio é o fim
quando sem pena o boi derruba o peão.
O galo a cantar...a prenunciar...O Juízo iminente e a necessidade de nossa vigilância, súplicas e orações; para que não estejamos dormindo, o sono da morte; e sejamos supreendidos com a volta do nosso Supremo Redentor, já batendo na nossa porta!
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