Era
AZUL TURQUESA
Quando era sábado eu era magro
E só tinha a ilusão incandescente de um adolescente
O céu era azul turquesa
Como as minhas poesias,
Julieta jamais morreria se eu tivesse um romance,
Mas antes, muito antes
Quando eu ainda não ousara sonhar
Eu só tinha as pipas e piões
E muitas indecisões
Eu já idealizara o olhar dos olhos dela...
Enquanto contemplava
Pássaros, borboletas e libélulas
Eu já era poeta e não sabia
E o olor de viver, o ardor de sobreviver
A dor de subviver era poesia
Eu só precisava daquele beijo
Pra perceber a abóboda azul turquesa,
Pra saber que nos sábados somos magros;
Nos domingos somos lindos
E nas segundas... nas segundas-feiras
Percebemos de quem sentimos falta...
ETERNIDADE
Era uma casa grande de frente ampla pra um imenso campo de pasto, que se perdia ao longe com elevações de algumas colinas onde invariavelmente o sol repousava nos finais das tardes. Um rio riscava a paisagem com algumas curvas sinuosas donde surgiam carroças e mulheres com bacias nas cabeças seguidas por crianças que vadiavam entre flores, libélulas, borboletas e alguns passarinhos que festejavam a aurora ou alardeavam nos finais de tardes, anunciando as noites. Neste cenário vivemos os mais belos anos de nossas vidas de uma paixão, que certamente inspiraria poetas, romancistas, cantores e qualquer ser vivente com um pouco de sensibilidade.
Protagonista desta história, posso afirmar, que a felicidade faz galopar o tempo num tropel frenético e irrefreável. Foi lindo, foi infindo, foi infinito; mas até o infinito é arrastado pelo galopar enlouquecido do tempo; e um dia eu me vi sozinho, tonto com o serpentear do rio, as vertiginosas colinas e um vulto que dava sentido àquele cenário. ah, tantas coisas mudaram naquele cenário; os horizontes foram se limitando dando lugar a torres, antenas e telhados: mas o que eu via era o passado, longe de asfaltos e pontes, perto de auroras incríveis e ocasos paradisíacos. Um dia reuniram-se irmãos, filhos e netos e choraram pelos que eu jamais choraria. O tempo galopara a minha existência; mas agora, este plasma infinito dessa ternura louca, fiel e inabalável insiste: é uma casa grande, de frente ampla pra um imenso campo de pasto que se perde ao longe nas elevações de algumas colinas, onde invariavelmente o sol repousa nos finais de tardes... com sua roupa branca como a candura de um anjo, ela caminha em minha direção sem nenhuma pressa, sabe que temos toda a eternidade...
Na adolescência eu era um anjo triste
Desses que perambulam,
que caem, que existem
melancólicos, sonhadores,cinzentos
Como os finais de tardes dos dias invernosos
A minha solidão respingava nas vidraças
Como a neblina fria jogada pelo vento
Que doía fundo na minha carapaça
E a minha angústia,
a dor daquele sentimento
A solidão de me sentir sozinho
Não era solitária, era uma multidão
E como cada um faz seu rumo, seu destino
De fazer da multidão, a sua poesia
Aquele garoto triste um dia teve o tino
EU VI
eu vi um homem que não era mais homem
e tinha um olhar que não era mais seu
e tinha a ausência de todos os fantasmas
e tinha a asma de todos os gatos
e tinha os mistérios dos cemitérios
a pele morta, sem vida,
dentes sem precedentes
um odor inconcebível;
não era mais um ser vivente,
por mais que parecesse gente,
não era um cachorro,
os cachorros são felizes e são gratos,
os gatos têm orgulho,
era maior que um rato em tamanho,
mas revirava o lixo
com a ânsia desse bicho
eu vi um homem que não era mais homem
ou vi um bicho que não era mais bicho
O que é que está acontecendo comigo
o gato que eu era em cima do telhado
de repente soltou seu miado
e sardinha, a piranha que dormia na calha
se espreguiçara indiferente
o meu olhar quarenta e tres
só vale dez por cento dos dez por cento que valia
Aceb, o mulçumano,
não entendia eu te amo
como eu entendia Aceb e sua filosofia...
o que acontece comigo
não olho mais o por do sol como eu olhara um dia
não arquiteto o teto sob estrelas
e tê-la, somente tê-la é minha obsessão,
só resta-me uma vida, só uma vida, das sete que se presumira
a brisa que leva seu perfume, leva a minha existência
e o felino que habitava este coração
caminha silencioso sob o firmamento riscado por meteoros buscando entender o que acontece...
BEIRUTE
Ainda tinha as lembranças de alguns meses atrás, era uma marquise aconchegante apesar do mal cheiro de um contêiner de lixo que exalava mais forte com os pingos de uma chuva de um verão ardente, e chegava-nos de longe, provavelmente de algum veículo, o som de uma música de um tempo romântico quando nossas asas eram ainda imaculadas. Beirute mencionara uma coisa bonita como alguém mencionara há muito tempo atrás, passou as mãos nos meus cabelos, como aquele alguém querido, mas o que fizemos ali não foi amor... parecia mas uma louca tentativa de segurar algo que parecia escapar das nossas almas como a capacidade de amar; amor; acho que não sabíamos mais o que era isso. No nosso mundo chovia meteoros como nosso planeta em formação, e algumas espécies foram exterminadas.
Marco Aurélio Penha ganhara o apelido exato para retratar sua alma em conflito: Beirute. Ainda bem lá no fundo, percebia-se, tinha a sensibilidade de uma adolescência bem-amada por sua família do agreste nordestino, que ficara esperando notícias do jovem que partira paro sudeste em busca de emprego. Não fora fácil pra Mirica: (Mirian Ribeiro Castro), aproximar-se de Beirude; ele era arredio, introspectivo, tímido; e só quando ela se mostrara como álibi, durante uma abordagem policial que o acusara de conduzir drogas que foram encontradas próximo a ele... assim, Mirica conseguira a confiança de Beirute a ponto de ser sua confidente e leal parceira.
Marinalva e Jocasta, mãe, e filha que provavelmente nem tinha nascido, quando ele decidiu tomar o rumo do Rio de Janeiro; eram esses os nomes que seriam sua redenção, o que trazia algum brilho ao par de olhos negros confusos e tristes. Era só um “avião”, era assim que se identificava; “só um avião, os “passageiros” querem “viajar” e eu tenho que decolar”. Não contava as vezes que tinha que subir o morro para atender pedidos. Essa era a vida de Beirute, as vezes que tentara fugir disso não deram certo; uma parada na central do brasil que lhe rendera um linchamento quase fatal e uma parada em Copacabana que lhe deixaram duas cicatrizes de bala na perna esquerda; depois disso parece que aprendera, e só subia o morro para pegar alguma coisa. Isso era decolar. “O morro é meu, o Rio não é uma faixa de gaza, Beirute não é alvo”; Dizia sorrindo sem perceber a guerra onde a guerra não se mostra, onde não parece haver fronteiras; onde qualquer atitudde é um ato político, onde qualquer roupa é a sua indumentária.
Agora estava ali, estendido, uniforme do ferroviário estava manchado de sangue, no antebraço esquerdo a tatuagem: Jocasta, o nome da filha que nem chegara a conhecer. Era uma calçada imunda, húmida, sob uma marquise rachada que ameaçava desabar sobre quem passasse por ali; ao lado do cadáver de Beirute estava mogango, o vira-lata preto e branco pra quem ele trazia restos de comida.
Mirika enxugou o par de lágrimas que rolara dos seus olhos, jamais subiria aquele morro novamente, seu amigo fora assassinado provavelmente porque fazia isso; escreveria uma carta a dona Nigéria, mãe de Beirute, mas não lhe falaria de morte, não lhe falaria de coisas tristes, falar-lhe-ia dos passeios na Quinta, do Fla x Flu no Maraca, da saudade que ele mencionara da família e dos amigos da igreja; guardaria a grande surpresa pra quando lá chegasse: Isaac, o feto de três meses, que já se mexia ali no seu ventre, e jamais permitiria que conhecesse aquele lado sombrio da vida.
Pobre Coração
Pobre coração
Tão ingênuo e apaixonado
Achou que o amor era eterno
Deitado nos braços de alguém que nem se ama
Mergulhado em mentiras e promessas quebradas
Acreditou que seria diferente,
mas nada mudou
Nunca muda
Pobre coração
Foi dar ouvidos à um cupido
Cupido tal que só o fez sofrer
Acreditou que o amor curava,
mas só adoeceu
Como podes sentir falta de algo que nunca foi bom?
O início era apenas mentira,
mas a verdade apareceu
Sempre aparece
Pobre coração
Quebrado e desiludido
Em mil pedaços se desfez
A esperança de um futuro juntos se dissipou
E o libertou
Já fui tantas vezes amado sem amar.
Já amei tanto sem saber que era amor.
Já vivi tanto sem viver e agora vivo por viver.
Quando as pessoas se desassociam por opção de caminhos mas, até o epílogo, era um reino do sentimento, do apreço, da consideração e do respeito, escrito ficará no diário de bordo das suas vidas e, assim, jamais será deletado ou esquecido.
Antigamente, o eremita era de fato um ermitão. Isolado em seu eremitério, lugar deserto ou caverna em uma montanha inóspita, cumpria penitência em seu plácido ostracismo até o dia em que encontrou um celular e, pior, funcionando. Coitado, foi abduzido pela humanidade.
Coisas do passado, hoje distantes: era o encontro dos blocos de rua das Petequinhas e dos Piu-Piu, das meninas com os meninos. Um momento de alegria geral, lúdico, com todos a caráter e, no final, o bônus do amor espontâneo, com cheiro de cerveja e licor de anis.
Quando andava por este mundão livre, solto e em busca, o mês que mais gostava era junho: pela alegria das festas, pelo aconchego do inverno e pelo céu especialmente belo. Contemplava e confidenciava um pedido de um grande amor. Um dia, me presentearam, a busca acabou. Mas logo levaram a felicidade, virou uma estrela. Hoje, a busca continua como nunca, mas no firmamento, para saber onde a encontrar.
Ela veio me visitar hoje! A solidão veio me visitar mais uma vez, ela me abraçou, seu abraço era tão forte e envolvente, acho que agora ela realmente conseguiu me dominar!
Era uma vez uma vez, que seria a dos pobres. Dos ditos excluídos e desamparados. Porque era uma vez uma voz, a da "bola da vez", que nasceu no seio da falta de vez e voz e rompeu a muralha dos donos do silêncio popular. Era uma era, a de quem não via a hora de ver a pátria mudar. Não para outra pátria, mas de postura e realidade. Uma era de quem por ora sonhava aplacar a ira da fome de justiça, igualdade e pão. Cidadania.
Mas era mais uma dessas horas que a ilusão não faz. A voz da veia de quem renegou a vez e se rendeu a vós sabeis bem o quê. Voz com que os nossos avós e ainda os mais antigos sonhavam. E assim fizeram, de todos nós, herdeiros tontos da crença no ser humano que alcança o poder. E era uma vez o sonho desse "venha a nós" de vez em quando. Continuamos no "seja feita a vossa vontade" sem nenhum retorno em nossas esperanças.
A voz, que no fim das contas não foi da nossa vez, calou-se no turbilhão das vantagens pessoais. Das chantagens partidárias. Dos deslumbramentos e da preguiça... Preguiça essa, de sacrificar-se tantas vezes quanto necessário, em razão de tantas vozes que mais uma vez se calam...
Numa era em que a gente
Faz do amor um artigo
Em extinção,
Qualquer bicho é uma espécie
Em distinção.
PRESSA DO TEMPO - Demétrio Sena, Magé - RJ.
O ano passou tão rápido que quando março abril já era dezembro.
DESILUSÃO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Um dia ele percebeu que de ambos, era só ele quem propunha. Fora sempre assim. Nenhuma proposta era "de lá pra cá". Só de "cá pra lá". Nunca teve uma chance de responder. Dizer sim ou sim, como sempre seria, mas dizer. Ser solicitado por ela. Ficar envaidecido pela procura. Ter sua vez de ser cortejado.
Foi assim que outro dia resolveu trocar de margem. Remanejar os extremos. Ficar em silêncio e ver no que dava. Tinha esperança de que o silêncio faria "vir de lá" o que sempre "foi de cá". Jurava em seu íntimo que aquilo não era uma disputa, mas achava que ele mesmo nunca dera uma chance de ser o alvo; a caça. Era sempre o caçador.
O tempo se foi. Ele foi se deixando. Sua espera ganhou brio, quando percebeu que nunca "veio de lá" qualquer convite. Nenhuma proposta; solicitação. Ela não o amava; correspondia ao seu amor. Não o queria. Cedia generosamente ao seu querer. Até então, estava sempre ali. Provisoriamente ao seu alcance.
No fim das contas, ele não a tinha. Era tão somente contemplado pela preguiça do seu não... pela esmola do seu sim.
