Coleção pessoal de giuliocesare
Tinha alguém com quem falava, ria, rosnava, chorava, até cuidava e, principalmente, sonhava. Optou por libertar, deixar voar, não por desdém, mas por amor. Não se deve prender uma linda borboleta. A natureza reclama e as flores agradecem.
Um dia você abre os olhos e vê a luz: nasceu.
Outro dia, acorda e tá na hora de ir ao colégio.
Outro dia, o despertador berra: atrasado para o futebol com os amigos do Clube da Esquina.
Outro dia, desperta ao lado do primeiro amor, depois de muito amor.
Outro dia, de madrugada, o alarme dispara: primogênito com fome.
Outro dia, o celular interrompe a soneca pós-almoço: mensagem da neta distante.
Outro dia, acorda assustado por ter passado do horário dos remédios.
E chega o dia do agradecimento, de abrir os olhos e ver a luz de um novo dia.
A vida ensina que algumas pessoas passam, outras permanecem e algumas deixam discretos rastros de luz pelo caminho. Há gestos tão simples que parecem pequenos, mas encontram um jeito de tocar o coração. Em um mundo onde tantos aprendem a disfarçar sentimentos, a espontaneidade de uma criança continua sendo uma das mais belas formas de verdade. Obrigado, Cacá!
Tirei uma dúvida com a janela do meu quarto: além do bem-te-vi despertador de todo dia; da visita de um solitário beija-flor; e rota das maritacas, quando chego na janela não espanto a turma e não espantando, evidencia que existe empatia, solidariedade e amizade comigo também. Assim, pelo privilégio, a janela e eu ficamos felizes e confortados, pois a solidariedade é inimiga da solidão.
Por opção, renunciou ao palco e foi para a platéia; virou espectador. No início, ficou na primeira fila, mas com o passar dos anos, na última. Como sempre foi coadjuvante, administrou o anonimato numa boa. Esquecimento dos fãs foi natural, mas o dos colegas e amigos, doeu. Não reclama; era o contexto esperado pela sua opção, e o mundo é feito de opções, exceto ficar órfão do amor. Vive como os passarinhos vivem. Seu cotidiano: contemplar o universo pela janela. E o que restou do último ato: ainda sorri.
As palavras ganhos, perdas, chegadas e partidas, são marcantes em nossa existência. Suas consequências, efeitos diretos e colaterais, são moduladas pelas etapas da vida, principalmente na última: ganhos e chegadas reduzem; partidas e perdas aumentam, sendo o tempo responsável. É uma visão restrita a pessoal. Sem métrica, a simples meditação a respeito ou retrospecto da própria vida, faz assimilar e valorizar a palavra maior: tempo.
Uma reflexão sobre um adjetivo e um verbo: sensorial e sentir.
Sensorial é o físico: visão, audição, olfato, tato e paladar, como o toque de um abraço, o cheiro de alguém querido, o som da voz que conforta.
Sentir é muito mais amplo: pode ser físico, emocional ou até metafísico. Não depende apenas dos sentidos; pode existir mesmo à distância, sem contato físico, como quando sentimos alguém que não está presente.
Amor é sentir.
Uma boa evidência e alerta é quando os próximos passam a ficar distantes: é o sintoma de que você virou um ‘chatão’. Aliás, que fique registrado: se os próximos não reclamaram e sumiram à ‘francesa’, nunca foram. Duas, uma: recorra à psicanálise ou ligue o ‘foda-se’, assuma o ‘chatão’ e saia do armário. Assim, quem sabe, seja realizado, feliz e passe a ter próximos, ou melhor, amigos de verdade.
Metamorfose: da ave belíssima para um tatu. Do voo migratório entre continentes para debaixo da terra. De trocar a luz do sol pelas trevas de uma toca. Da vida em bando para a mais absoluta solidão. De contemplar longínquos horizontes para mal ver próprio focinho; e da vocação de buscar a estratosfera para a espera de ser consumido pela terra.
Interessante: o desventurado ou exótico ser, sem o mais remoto parentesco com hienas, ainda sorri. Pasmem, existem vários exemplares por aí
Atribui-se a Carl G. Jung a seguinte frase: "A solidão é perigosa e viciante. Quando você se dá conta da paz que existe nela, não quer mais lidar com as pessoas."
A solidão oferece paz, silêncio e autoconhecimento. Porém, quando se torna morada definitiva, afasta-nos da convivência, dos afetos e da própria vida.
Quem sempre esteve certa era minha avó, filósofa da simplicidade: "Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Tudo em excesso faz mal."
A Navalha de Occam, ou Navalha de Ockham, criada por Guilherme de Ockham, é um princípio filosófico que sugere que, ao enfrentar várias explicações para um fenômeno, a mais simples tende a ser a correta. Em regra, a solução mais prática e econômica costuma ser a mais provável, no geral.
Ockham foi um frade franciscano inglês do século XIV. Seus conceitos filosóficos entraram em conflito com a Igreja e, como consequência, ele foi excomungado pelo Papa João XXII.
Nesse princípio, vejo uma boa reflexão quando o extrapolamos para a atualidade, em particular para o nosso país.
Mês de junho passando. Mês festeiro de Santo Antônio, São João e São Pedro. Mês de dançar quadrilhas. Mês do quentão e do salsichão. Mês do frio. Mês dos namorados. Mês de ficar na cama quentinha, com o amor de conchinha, fazendo muitas gracinhas. Mês que traz relíquias de lembranças, de muitos que hoje vivem na distância, de um mês tão feliz.
Diante de uma considerável diferença de idade, por medo, covardia ou insegurança, faz um dos amantes renunciar à união. Aí vem um genial filósofo mundano e rotula como: antagonismo temporal, fincado na pedra da solidão, e o amor, náufrago, penitenciado eternamente no mar do esquecimento.
O problema quando recebe um abraço apertado, gostoso, energético, eletrizante, daqueles que não quer sair. Vem uma vontade louca de apertar e concluir com um hollywoodiano beijo. Porém, lamentavelmente acaba, retorna a distância, com ela o protocolo e fica sem saber se é namoro ou amizade. Como na cabeça de uma mulher, às vezes, nem os anjos ousam adentrar, você fica na trágica dúvida de Shakespeare: ser ou não ser. O problema enigmático continua, e a vida segue dantes no Quartel de Abrantes.
Não custa lembrar: são os erros que nos ensinam a errar menos. Porém, o maior erro que podemos cometer é ter medo de errar — assassino da criatividade, do desenvolvimento, da evolução e do sucesso.
Um veterano olha para trás, vê a vida passando, acelerando, o horizonte se distanciando e perdendo de vista. Fica prosa por estar ainda na estrada, sem dar a mínima para o que vem à frente e o destino final. Mas fica triste pelas boas companhias perdidas ao longo das estradas da sua vida.
Dia após dia, num presente bobão ou autista, cujo passado esconde a saudade, sendo a realidade uma metáfora da vida, padecendo de uma perene mitomania, dentro de um sufocante avatar, que tudo dissimula num palco de alegria.
Perguntado ao coração qual a diferença entre paixão e amor, com a convicção de fiel depositário da verdade respondeu: paixão é uma dependência quase química, uma necessidade com prazo de validade. Já o amor é uma conexão afetiva sem prazo de validade; aliás, podendo até ser imortal.
O Sorriso, o sorrir quebra o mau humor ambiente. É um recurso natural disponível na face, de grande valia. Com seu sorriso, conseguir mudar uma cara carrancuda para outro sorriso é ganhar o dia, boas energias e um indicativo para um belo dia.
O fato de aceitar que a sua caixinha não é a única e melhor; aceitando, antes de criticar ou demonizar outras caixinhas, entender; e, entendendo, admitir a convivência, já deu um passo gigantesco para uma comunidade, uma sociedade e um mundo melhor.
