Dormir em seu Colo e Morrer em seus Bracos
TEU ABRAÇO É MINHA PORTA
Dos seus olhos flui sedução
Seguras em minhas mãos
Devoras-me sem perdão
Penetra bem fundo ao coração
Tua ausência é meu lamento
Mas me despertas como o vento
Teu perfume paira no ar
Vontade louca de te encontrar
Grudar-me ao telefone sem querer
Sua voz tranquiliza o meu ser
Pensamentos teus me invade
Ardente força da saudade
Mesmo sem bem saber o que falar
Em seu olhar fico a tracejar.
Componhas-me e me segura
Eu ainda estou no ar
Você é meu maior presente
Mesmo estando ausente
És a realidade da minha alegria
Como se eu vivesse uma eterna magia
Estar em teus braços é momento a eternizar
Seu beijo me envolve tanto, chego até a delirar.
Necessito neles permanecer toda minha vida
Sem pensar na sua partida
Aconchegar-me no teu amor
Sem jamais sair de lá.
ATALHOS DO TEU OLHAR
Seus olhos são portas que me levam
Para onde nem sei chegar
Suas palavras que cegam
Na força intensa do teu olhar
Buscam encontrar em mim respostas
Domínio cruel em direções opostas
Sigo em túneis de incerteza
Aproximando-me de tua beleza
E quanto mais de ti procuram
Menos sabem te entender
Com suas incógnitas choram
De ti querendo saber
Dentro de mim apenas loucura
De um olhar que me despi
Fogo ardente que tortura
E inconsciente vem me ferir
Inquietude, és meu caminho.
Buscando teus atalhos
Arranha-me com os passos
Que deseja teu carinho
Em tempos de medo
Mal posso te encontrar
Nas reflexões me perco
Na tortura de te amar.
Todos conhecemos os céticos.
Eles pedrificaram seus sentimentos.
Criaram uma defesa amarga.
Rejeitam qualquer nova doçura.
Tudo pelo medo de sofrer.
Ninguém é feliz com medo!
O Diabo é adotador da morte?Vivos julgam mortos com seus critérios vitais; os mortos jugam os vivos pelo mistérios da morte.
Percorro meus caminhos como quem sem medo percorreu seus caminhos descalços,sem medo de deixar sua trilhas.
Vou trilhando meus caminhos longos, como quem não temeu exibir sua difícil trajetória. Meus astutos passos lentos, passos lentos e cansados.
De vez enquanto vou deixando alguma esmola, camuflando meus duros passos, lentos e cansados.
Passos cautelosos e repletos de amargas lições de vida. Passos firmes que apesar de lentos não permitem que retroceda, tal e qual o fiz noutrora; quando caminhava sem astucia a velocidade do vento.
FIM DE ESPETÁCULO
Desfez-se
o espetáculo,
desfez-se
a euforia!
Nos seus
olhos
de festa
(agora
desolados),
há
um
prelúdio
de ilha!...
Tu sabe que em teu peito bate meu coração.
Que tua voz é como a mais bela canção.
Que seus olhos para mim são prisão.
Que teu corpo é uma escultura a ser contemplada.
Minha mão com a sua, se encaixa.
E minha alma a tua, se enlaça.
Era você e era eu.
Nasceu
o grande amor
que o destino nos prometeu.
Você trouxe os seus desejos,
e eu lhe entreguei os sonhos meus.
Aconteceu:
Um do outro, no caminho, se perdeu,
mas tudo o que dividimos
permaneceu.
Não morreu.
Por tudo isso,
todo o nosso amor valeu!
Na calada da noite
Os sentimentos me embrulhavam
Se seus beijos não me ocupassem
Minha boca teria cuspido meu coração
Na calada da noite,
As emoções misturavam - se
Minha face era expressiva
O cachorro latia
Na calada da noite,
O medo de ser apanhado
Era assustadoramente confuso
Pelo com pelo à flor da pele
Na calada da noite,
Não sabia se ficava ou se corria
Tentávamos manter o silêncio
Mas nossos corações não permitiam
Na calada da noite,
Meus batimentos eram carnaval
Os ruídos eram ali do lado
Os zumbis nos perseguiam
Na calada da noite,
Os sussurros diziam que a loucura também tem o seu sabor
A gente sorria
E os vizinhos dormiam
Na calada da noite,
A gente se enganava
Achando que podíamos controlar os nossos desejos e os nossos mundos
Na calada da noite,
Os passos eram na ponta dos pés
Os cobertores foram ao chão
E os abraços eram mantas quentes
Na calada de uma segunda de escuridão
A noite foi de primeira
O diferente é admirado, aplaudido e afagado pelos seus iguais e desdenhado, rejeitado e repugnado pelos seus diferentes.
Élcio José Martins
O DESCARTE DE UMA VIDA
Nasceu na fazenda Descarte.
Seus avós moraram lá.
Seus pais da Europa pra cá,
Sua esposa também se instalou lá.
Na lida do campo foi campeão,
Cultivou o alimento do patrão.
Café, cana, arroz, feijão,
Tudo teve seu amor e os calos de sua mão.
Madrugada, já estava na lida,
O orvalho molhava sua pele cuspida.
Suor e lágrimas vendidas,
Pra levar o pão à família construída.
O trabalho era pesado,
Anos e anos de um tempo apagado.
Por certo tempo ainda teve respaldo,
Valeu da força e seu suor sagrado.
Mas nem tudo é permanente,
Sol nascente e sol poente,
Sorriso sorridente,
E lágrimas descontentes.
Como um animal para o descarte,
Que o tempo apagou sem arte.
Na fileira para o abate,
Triste espera de quem o remate.
Aposentadoria de pobre,
Apesar do tempo nobre.
Vê na família o desamparo,
O máximo que pode é um três no baralho.
A demissão cortou na carne,
Perdeu a classe pelo desarme.
A tristeza nas linhas da idade,
Vê no retrovisor os rastros de maldade.
Élcio José Martins
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