Depois
E se o depois da vida for apenas a continuação do que já sentimos aqui, mas sem pressa, sem medo e sem despedidas? Talvez o amor ao próximo seja a única coisa que atravessa tudo — como uma força invisível que nos conecta, mesmo quando não entendemos o porquê.
Há quem diga que o “cupido” nos une como uma magia silenciosa, aproximando caminhos que nunca se cruzariam. Mas, como toda magia, às vezes ela se desfaz… e o que sobra não é vazio, mas aprendizado.
Talvez, na eternidade, o amor deixe de ser paixão e se transforme em algo mais puro — uma amizade leve, sem expectativas, sem perdas. E se tudo isso for uma grande ilusão bonita? Um roteiro invisível que nos guia, colocando pessoas certas em momentos certos.
Nem todas permanecem. Mas nenhuma vem por acaso. Cada encontro deixa uma marca silenciosa que, de alguma forma, nos transforma para sempre.
Às vezes é necessário
Se perder por um momento
Pra depois se encontrar
E tudo ter fundamento.
Gélson Pessoa
Santo Antônio do Salto da Onça RN
13/08/2026
“Cativar alguém e depois abandonar é o mesmo que conquistar um objeto de desejo e depois deixá-lo à parte por perda de interesse”
Ney P. Batista
Jul/12/2021
hourglass.
Existe uma espécie de loucura em reconhecer alguém mesmo depois de tanto tempo. Não porque a pessoa continuou presente, mas justamente porque conseguiu ir embora e, ainda assim, alguma coisa dela ficou funcionando em silêncio, escondida entre coisas que pareciam resolvidas.
Ele já tinha aprendido a viver sem procurar. Tinha colocado outras pessoas em lugares diferentes, conhecido outras versões de si mesmo, seguido dias que não tinham mais aquele nome no meio. E talvez tivesse acreditado que certas histórias acabam simplesmente porque o tempo passa. Até perceber que algumas não acabam. Só deixam de fazer barulho.
O estranho é que não era saudade o tempo inteiro. Era pior. Era aquela sensação ocasional de que, se aquela pessoa aparecesse de novo, talvez uma parte dele reconhecesse antes mesmo que a cabeça pudesse entender. Como se anos não fossem apenas anos, mas uma quantidade absurda de pequenas coisas que o tempo não sabe apagar: uma maneira específica de olhar, uma conversa que ficou sem conclusão, um lugar que ainda parece ocupado mesmo depois de tanto tempo.
E talvez ninguém esteja pedindo para voltar ao que era. Talvez o que assuste seja justamente imaginar que, depois de tudo, ainda poderia existir alguma forma de proximidade que não precisasse repetir o passado. Não o mesmo relacionamento, não as mesmas promessas, não aquela versão dos dois que um dia pareceu ter futuro garantido.
Só a pergunta.
Ainda existe amizade onde antes existia amor?
Ainda dá para conversar sem que tudo aquilo que ficou para trás sente à mesa junto?
Ainda dá para rir de alguma coisa antiga sem precisar fingir que não doeu quando terminou?
Porque algumas pessoas não precisam voltar para a nossa vida do mesmo jeito. Às vezes basta saber que, apesar da distância, das escolhas e de tudo que mudou, ainda existe um caminho possível entre dois pontos que um dia foram inseparáveis.
E talvez seja isso que ele nunca conseguiu descobrir.
Se ela tivesse voltado, ele teria escolhido ficar?
Se ela tivesse chamado, ele teria atendido?
Se os dois se encontrassem agora, seriam estranhos com uma história em comum ou duas pessoas que ainda reconhecem alguma coisa uma na outra?
Ele não sabe.
E quanto mais tenta encontrar uma resposta, mais percebe que talvez certas histórias não tenham sido feitas para terminar com uma conclusão bonita. Algumas simplesmente ficam ali, como uma porta que ninguém trancou completamente.
Talvez por isso ele ainda olhe para certas lembranças sem saber exatamente o que procura.
Não necessariamente uma segunda chance.
Talvez só a confirmação de que aquilo foi real.
Porque quando alguém já ocupou um lugar tão grande na sua vida, você não precisa querer aquela pessoa de volta para continuar imaginando como seria se ela estivesse por perto.
Às vezes basta uma pequena possibilidade.
E é aí que tudo fica perigoso.
Porque talvez exista um futuro onde os dois se encontrem novamente, talvez exista outro onde nunca mais aconteça nada. Talvez a distância tenha sido apenas distância. Talvez tenha sido o ponto final que nenhum dos dois teve coragem de escrever.
Quem sabe?
Talvez ela esteja vivendo uma vida completamente diferente agora, cercada de coisas que ele nunca vai conhecer. Talvez ele também tenha se tornado alguém que ela não reconheceria de primeira. E talvez seja justamente por isso que a ideia ainda tenha alguma beleza: se um dia os caminhos se cruzassem novamente, nenhum dos dois estaria encontrando exatamente quem deixou para trás.
Seriam duas versões novas carregando a memória de duas versões antigas.
E talvez isso fosse suficiente.
Porque algumas pessoas vão embora, atravessam oceanos, mudam a própria vida e deixam de fazer parte da rotina.
Mas existe uma diferença entre sair da sua vida e deixar de existir dentro dela.
E essa diferença pode durar muito mais do que qualquer distância.
No fim, ele não sabe se ainda existe alguma coisa esperando por eles.
Não sabe se existe amizade, amor, acaso ou simplesmente memória.
Não sabe se ela pensa nele quando alguma música toca, quando alguma lembrança aparece ou quando a noite fica silenciosa demais.
Não sabe nem se deveria querer saber.
Só sabe que, entre tudo aquilo que o tempo levou, ainda existe uma pergunta que nunca morreu completamente.
E talvez algumas perguntas sejam assim.
Não precisam de resposta para continuar sendo verdade.
Só precisam de duas pessoas, em algum lugar do mundo, olhando para a mesma história e pensando, cada uma do seu lado:
e se ainda houver alguma coisa aqui?
A História é cíclica.
Brevemente, regressaremos ao éden para depois sermos tentados pelo salafrário imortal.
Talvez amanhã,
ou depois de amanhã,
mais tarde,
qualquer dia,
daqui a dois ou três anos,
nós nos veremos de novo.
Nós amaremos novamente,
seremos dois loucos lutando contra o mundo, o tempo, a vida, a realidade seca e as palavras que fazem doer.
Talvez hoje eu chore, sinta saudades, sinta remorso e arrependimento por ter soltado sua mão, dito que não te amava, que não te esperava, por causa de míseras palavras bobas que saíram da sua boca.
Reconheço meu erro. Reconheço que éramos dois, éramos um, e agora só restou uma história linda que acabou no começo — no começo de um “oi”,
de um “tô do seu lado”, que pulou para um “eu te amo” e acabou em um “enfim”.
E acabou em uma madrugada de quarta-feira, sem muita cerimônia, sem muitas palavras. Só um toque soberbo, uma palavra e um adeus.
Adeus...
Depois de uma vida observando gente, aprende-se que quase ninguém sofre daquilo que diz sofrer.
O sujeito chega reclamando da esposa, da política, do chefe, do aluguel ou da bebida quente. Mas isso é apenas o embrulho. O conteúdo é outro.
O que os corrói é a incapacidade de tocar e ser tocado.
Vivem como se enxergassem o mundo em preto e branco. Não porque lhes faltem olhos, mas porque perderam as cores antes mesmo de perceber que elas existiam. Tudo precisa ser amor ou ódio. Vitória ou fracasso. Aprovação ou desprezo. Já não reconhecem os meios-tons, justamente onde a vida costuma acontecer.
É um estranho tipo de daltonismo.
Não dos olhos.
Da alma.
Vejo isso todos os dias. Homens transformando ironia em escudo. Mulheres aprendendo a sorrir para esconder o próprio silêncio. Casais inteiros conversando sobre contas, filhos e séries de televisão, enquanto duas solidões dividem a mesma cama sem jamais se encontrarem.
Ninguém diz: "Tenho medo de ser visto."
Inventam palavras mais elegantes.
Dizem que são independentes.
Que não nasceram para relacionamentos.
Que preferem a própria companhia.
Mentem com uma convicção admirável.
A verdade é mais feia.
Passaram tanto tempo reforçando a própria pele que ela deixou de separar o corpo do mundo para se tornar uma cela. Cada decepção acrescentou uma camada. Cada abandono endureceu outra parte. Cada traição fez acreditar que sentir menos era viver melhor.
Não era.
Era apenas sobreviver.
O curioso é que todos desejam exatamente a mesma coisa: que alguém atravesse esse couro endurecido sem destruir o que ainda resta dentro. Querem ser encontrados, mas tornam impossível qualquer aproximação. Quando alguém se aproxima demais, recuam. Quando vai embora, confirmam a velha teoria de que ninguém fica.
Chamam isso de destino.
Eu chamo de medo.
E medo, quando envelhece, ganha aparência de personalidade.
É por isso que tantos caminham pelas ruas como fantasmas bem vestidos. Trabalham, sorriem, publicam fotografias impecáveis, colecionam contatos e permanecem inacessíveis. Quanto mais conectados parecem, mais isolados se tornam. Descobriram todas as maneiras de falar, menos a única que importa: aquela que deixa a carne exposta.
Talvez seja esse o grande fracasso da nossa época.
Não a falta de amor.
A falta de coragem para suportar o amor quando ele exige que a pele deixe de ser armadura e volte a ser apenas pele.
Ainda assim, de vez em quando, acontece um milagre discreto.
Alguém baixa a guarda por alguns segundos.
Uma conversa atravessa a superfície.
Um olhar permanece tempo suficiente.
Uma confissão escapa antes que o orgulho consiga engoli-la.
São instantes pequenos.
Quase invisíveis.
Mas é neles que as cores retornam.
E, por um breve momento, o mundo deixa de ser uma fotografia em preto e branco para lembrar que nunca foi a realidade que perdeu as cores.
Foram as pessoas que desaprenderam a enxergá-las.
Domingo de primavera. Depois de uma semana enterrado num escritório e de algumas noites oferecendo meu fígado aos deuses baratos dos bares, resolvi sair para tirar o mofo da alma. O sol fazia um trabalho honesto. Não prometia felicidade. Apenas lembrava que a pele ainda era capaz de sentir alguma coisa.
O parque estava cheio de gente satisfeita consigo mesma. Dá para reconhecer esse tipo à distância. Carregam diplomas como soldados carregam medalhas. Aprenderam meia dúzia de palavras elegantes, descobriram uma profissão rentável e passaram a acreditar que o universo inteiro cabe dentro do currículo. Falavam de carreira, mercado, investimentos, produtividade. Nunca da morte. Nunca do medo. Nunca daquele silêncio que aparece às três da manhã e pergunta se tudo isso valeu a pena. Talvez porque certas perguntas não caibam em salas de reunião.
Sempre achei curioso que uma pessoa possa estudar durante vinte anos e ainda não saber conversar sobre a única matéria obrigatória para todos: a condição de estar vivo.
Mas havia outros. Sempre há.
Não fazem alarde. Não precisam parecer inteligentes porque vivem ocupados demais tentando compreender. Olham para uma árvore e enxergam mais do que sombra. Olham para um velho e veem o próprio futuro. Olham para uma criança correndo e lembram que um dia também acreditaram que o mundo era infinito.
São pessoas perigosas para qualquer sociedade construída sobre distrações. Pensam na morte sem desespero, porque entendem que ela dá valor às manhãs. Pensam no amor sem transformá-lo em mercadoria. Desconfiam das respostas prontas e das certezas vendidas em palestras motivacionais.
E o mais bonito é que não vivem presos nessas profundezas.
São capazes de rir de uma piada idiota até faltar o ar. Sentam para tomar um café sem pressa. Observam a chuva escorrendo pela janela como quem assiste a um concerto. Fazem pequenas loucuras só para lembrar ao coração que ele ainda não virou uma máquina de bater ponto.
A maioria das pessoas escolhe um dos extremos. Ou vive afogada nas banalidades do cotidiano, anestesiada por contas, status e compromissos. Ou se perde em labirintos filosóficos até esquecer o sabor de uma tarde de domingo.
Talvez a sabedoria esteja justamente no meio do caminho.
Ter coragem suficiente para olhar o abismo sem desviar os olhos, mas também humildade para sorrir quando uma criança cai na grama e levanta rindo. Pensar na eternidade enquanto o café ainda solta fumaça. Conversar sobre a morte e, logo depois, admirar um pôr do sol como se fosse o primeiro.
Quando deixei o parque, percebi que os homens mais interessantes nunca foram os que tinham todas as respostas.
Foram aqueles que carregavam perguntas demais e, apesar disso, ainda encontravam tempo para brindar a vida, rir de si mesmos e sentir o calor manso de um domingo de primavera sobre o rosto.
No fim, talvez seja isso que nos salve. Não os diplomas, não as certezas, não as biografias cuidadosamente polidas para impressionar desconhecidos. O que nos salva é conservar a estranha capacidade de habitar dois mundos ao mesmo tempo: o das perguntas que jamais serão respondidas e o das pequenas alegrias que jamais deveriam ser subestimadas. Contemplar o infinito sem deixar de notar o aroma do café, o riso espontâneo de uma criança, a sombra fresca de uma árvore ou o dourado silencioso do fim da tarde. Porque a vida nunca foi apenas um enigma a ser resolvido. Ela também é um instante para ser sentido antes que desapareça.
*O FILTRO É O PROBLEMA*
No primeiro sábado realmente quente depois do inverno, fui ao parque central da cidade.
Não por esperança. Tenho idade suficiente para desconfiar de qualquer coisa que prometa renovação.
A primavera tinha chegado sem pedir licença. Havia flores demais, folhas novas demais, gente demais tentando recuperar em poucas horas aquilo que o frio havia roubado durante meses.
As crianças ocupavam os espaços com a irresponsabilidade própria de quem ainda não descobriu que a vida cobra juros. Algumas brincavam. Outras apenas estavam ali, largadas ao sol, como se não houvesse nada urgente no mundo.
Os adolescentes circulavam em pequenos grupos. Ensaiavam aproximações. Um olhar demorava mais que o necessário. Uma risada surgia sem motivo. Um deles ajeitava o cabelo antes de passar perto de alguma garota. Pequenas operações de guerra, ainda sem mortos.
Os adultos eram mais complicados.
Alguns caminhavam como se estivessem cumprindo uma obrigação médica. Outros conversavam, sorriam, fotografavam flores, filhos, cães, os próprios pés, qualquer coisa que pudesse provar depois que haviam participado daquele dia.
Havia também os de sempre.
Sentados com a expressão de quem fora condenado a respirar o mesmo ar que os outros.
Reclamavam da quantidade de pessoas.
Do barulho.
Das crianças.
Do calor.
Da primavera.
Esses deveriam ter ficado em casa.
Não porque o mundo lhes devesse silêncio, mas porque certas pessoas carregam uma espécie de quarentena particular. Saem de quatro paredes e levam outras quatro dentro da cabeça.
O curioso é que chamavam aquilo de realidade.
Fiquei observando.
O parque não era bonito.
Também não era feio.
Era apenas um lugar cheio de gente tentando interpretar o que estava diante dos olhos.
E foi aí que percebi o truque.
Talvez o caos nunca tenha sido tão caótico quanto parece.
Talvez o problema esteja no sujeito que olha.
Um homem vê uma multidão e sente ameaça.
Outro vê companhia.
Um enxerga crianças fazendo barulho.
Outro enxerga infância.
Um vê adolescentes desperdiçando tempo.
Outro reconhece, com alguma vergonha, a própria juventude.
A mesma cena. Cabeças diferentes.
E cada cabeça jurando possuir a versão correta.
Passei boa parte da vida fazendo isso.
Escolhendo um ângulo.
Defendendo uma interpretação.
Chamando suas preferências de princípios e suas feridas de experiência.
Depois comecei a perceber que muita coisa que eu chamava de verdade era apenas uma maneira confortável de permanecer sentado dentro da minha própria versão dos acontecimentos.
O sujeito cria uma explicação.
Depois passa a viver dentro dela.
Cria um inimigo.
Depois precisa encontrá-lo todos os dias.
Cria uma identidade.
Depois passa o resto da vida protegendo-a.
Cria uma história sobre si mesmo.
E quando alguém ameaça essa história, reage como se estivessem tentando arrancar-lhe a pele.
Talvez liberdade seja uma coisa bem menos gloriosa do que imaginamos.
Talvez seja simplesmente deixar de acreditar tanto na própria narrativa.
Eu olhei novamente para as pessoas.
As crianças continuavam brincando.
Os jovens continuavam tentando impressionar uns aos outros.
Os adultos continuavam fingindo que sabiam para onde estavam indo.
Os mal-humorados continuavam mal-humorados.
Nada havia mudado.
Só havia mudado o lugar de onde eu estava olhando.
E isso foi desconfortável.
Porque, quando o observador percebe que também faz parte da cena, perde a vantagem de julgar.
Não há mais plateia.
Não há mais personagem principal.
Há apenas alguém olhando.
E esse alguém também está sendo observado pela própria consciência.
Nesse instante, minha história pareceu menos importante.
As coisas que eu havia defendido.
As coisas que eu havia perdido.
As pessoas que eu culpei.
As versões que construí para suportar determinadas noites.
Tudo começou a parecer uma coleção de móveis dentro de uma casa que eu já não precisava habitar.
Foi estranho.
Não houve revelação.
Nenhuma luz desceu do céu.
Nenhuma música começou a tocar.
Apenas uma pequena suspeita.
Talvez eu não seja aquilo que penso sobre mim.
Talvez você também não seja.
Talvez sejamos menos definidos do que passamos a vida tentando parecer.
Fiquei ali por mais alguns minutos.
Sem procurar significado.
Sem tentar consertar o mundo.
Sem transformar o parque em uma lição.
As pessoas continuavam passando.
E, pela primeira vez em muito tempo, eu não precisei decidir o que aquilo significava.
Foi quase nada.
Mas, para quem passou anos carregando explicações, quase nada já é uma forma razoável de liberdade.
Rugi alto, mas em silêncio me destruí.
Porque depois de tudo isso, o verbo nunca toma a mesma conjugação.
O que achei depois da ilusão
Esta não é uma carta de prosperidade.
Não é um relato de vitória.
Não é uma narrativa otimista construída para convencer alguém de que tudo acontece por uma razão ou de que, no final, tudo ficará bem.
Não sei se ficará.
Escrevo de um intervalo.
Um espaço estranho entre quem fui e aquilo que ainda não sei nomear.
Durante muito tempo acreditei que estava vivendo minha própria vida.
Hoje suspeito que apenas executava uma sequência de instruções herdadas.
Estude. Trabalhe. Produza. Conquiste. Resista. Suporte.
E eu suportei.
Suportei tanto que transformei o peso em identidade.
Passei a admirar minhas cicatrizes mais do que minhas necessidades.
Confundi exaustão com virtude.
Confundi utilidade com valor.
Confundi sobrevivência com existência.
Fui o homem que carregava.
O homem que resolvia.
O homem que seguia.
O homem que sempre encontrava uma forma.
Mas ninguém me perguntou se eu ainda queria carregar aquilo tudo.
Nem eu.
Talvez porque algumas perguntas sejam perigosas demais.
Elas não derrubam apenas respostas.
Derrubam estruturas inteiras.
Então o abismo apareceu.
Não como um monstro.
Não como um inimigo.
Mas como um espelho.
E pela primeira vez percebi algo perturbador:
eu não estava com medo do abismo.
Estava com medo do que descobriria sobre mim ao olhar para dentro dele.
Porque durante anos me tornei especialista em observar o mundo.
Analisei sistemas.
Pessoas.
Comportamentos.
Estratégias.
Falhas.
Mas havia uma região inteira de mim que permanecia interditada.
Uma caverna onde escondi desejos.
Medos.
Raivas.
Carências.
Sonhos abandonados.
Partes de mim que não cabiam na narrativa do homem forte.
E quando aquela porta começou a abrir, tudo entrou em conflito.
A carreira.
Os relacionamentos.
As crenças.
A espiritualidade.
A identidade.
A própria ideia que eu tinha sobre quem era.
Descobri que saber meu nome não responde quem sou.
Saber meus gostos não responde quem sou.
Saber meus objetivos não responde quem sou.
Nem mesmo minhas conquistas respondem.
Porque existe um ponto da existência onde o currículo perde valor.
Onde a performance social perde força.
Onde os títulos deixam de explicar a alma.
E foi exatamente ali que me encontrei.
Ou talvez tenha sido exatamente ali que me perdi.
Ainda não sei.
Só sei que algo morreu.
Não fisicamente.
Mas simbolicamente.
Morreram versões de mim que eu jurava serem definitivas.
Morreram certezas.
Morreram personagens.
Morreram narrativas que me mantiveram funcional por anos.
E quando a poeira baixou, restou apenas o silêncio.
Um silêncio pesado.
Incômodo.
Sem promessas.
Sem aplausos.
Sem distrações.
Foi então que percebi que minha solidão não era ausência.
Era convocação.
Ela não queria me punir.
Queria conversar.
Queria que eu sentasse diante dela sem telefone, sem trabalho, sem justificativas e sem fuga.
Queria me apresentar a alguém que passei anos evitando.
Eu mesmo.
E essa conversa continua acontecendo.
Nem sempre de forma gentil.
Nem sempre de forma bonita.
Às vezes ela chega como revolta.
Às vezes como vergonha.
Às vezes como tristeza.
Às vezes como uma pergunta simples que destrói uma semana inteira:
"Se ninguém esperasse nada de você, quem você escolheria ser?"
Ainda não tenho a resposta.
Mas pela primeira vez parei de fingir que tenho.
Hoje compreendo algo que antes me ofendia:
a consciência tem um preço.
Toda visão ampliada dói.
Toda lucidez cobra.
Toda verdade exige espaço.
Porque enxergar não é ganhar conforto.
É perder ilusões.
E nenhuma ilusão abandona o palco sem resistência.
Por isso não escrevo esta carta como alguém que venceu.
Escrevo como alguém que despertou.
E despertar não é um momento glorioso.
É um processo brutal.
É perceber que algumas das grades eram feitas pelas próprias mãos.
É descobrir que parte do sofrimento vinha das correntes que chamávamos de identidade.
É admitir que certas escolhas eram abandono disfarçado de responsabilidade.
Hoje caminho sem muitas respostas.
Mas com menos mentiras.
E isso precisa bastar por enquanto.
Não sei exatamente quem me tornarei depois desta travessia.
Mas sei quem não consigo mais continuar sendo.
Talvez esse seja o verdadeiro começo.
Não a certeza.
Não a paz.
Não a iluminação.
Mas a coragem de permanecer acordado enquanto tudo aquilo que era falso desmorona.
E continuar olhando.
Mesmo quando o abismo devolve o olhar.
Ela respira, muda, colide, rompe, amadurece. Nada em nós permanece imóvel depois que a vida nos atravessa com suas forças invisíveis.
"A vida é uma constante colisão transmutativa."
"A mentira de campanha é apenas o cartão de visitas. Depois de eleito, o mentiroso profissional finalmente assume o cargo de chefe de estragos, com mandato garantido e potencial ilimitado."
"Achar que político mentiroso muda depois de eleito é como contratar um cupim para restaurar móveis antigos e esperar que ele mude a dieta.Com a caneta na mão, o estrago é garantido."
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