Corpo
... a este corpo
que, prestadio, nos encarna,
tempera e possibilita, a nossa mais
digna e venturosa utilidade. E ao espírito —
a este espírito que somos todos — tudo
o que o enalteça, o prove e o
potencialize!
Quanto a nossa condição de espíritos, momentaneamente, embutidos em um corpo,
a expressão 'estar velho' deveria dar lugar a uma outra mais coerente e auspiciosa,
ou seja,'atualizado'!
O CORPO DE JESUS À LUZ DO ESPIRITISMO:
A DISTINÇÃO ENTRE O CORPO CARNAL E O CORPO FLUÍDICO.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
A natureza do corpo de Jesus constitui um dos temas mais debatidos da história do Cristianismo e, igualmente, um dos mais importantes para a compreensão da Cristologia espírita. Em torno dessa questão, surgiram inúmeras interpretações que variam desde a concepção de um corpo puramente aparente até a afirmação de um organismo humano integralmente semelhante ao de qualquer homem.
À luz da Codificação Espírita, J. Herculano Pires retoma o método de Allan Kardec e oferece uma interpretação que preserva simultaneamente a racionalidade, a lógica doutrinária e a grandeza espiritual do Cristo. Sua análise afasta especulações místicas incompatíveis com o método kardequiano e procura compreender os fatos evangélicos segundo as leis naturais que regem a relação entre Espírito e matéria.
JESUS NASCEU COMO QUALQUER SER HUMANO.
Segundo Herculano Pires, a teoria espírita conduz a uma conclusão bastante clara: Jesus nasceu mediante os processos naturais da encarnação. Seu corpo possuía matéria orgânica semelhante à de todos os homens.
Essa compreensão está em perfeita consonância com o princípio fundamental estabelecido por Allan Kardec: a encarnação é uma lei universal para os Espíritos destinados a viverem na Terra. O Espiritismo não admite privilégios que contrariem as leis divinas, pois Deus governa o Universo através de leis imutáveis e universais.
Entretanto, afirmar que Jesus possuía um corpo humano não significa reduzi-lo espiritualmente. Ao contrário, sua superioridade residia precisamente no Espírito que animava esse organismo.
Seu corpo refletia o equilíbrio de um Espírito absolutamente puro. Se apresentava maior harmonia fisiológica, maior delicadeza ou excepcional domínio das funções orgânicas, isso decorria da supremacia espiritual exercida sobre a matéria.
Enquanto nós frequentemente nos deixamos dominar pelos impulsos do corpo, em Jesus ocorria o inverso: o Espírito governava plenamente o organismo físico.
Essa observação possui profundo alcance psicológico e filosófico. O corpo não era um obstáculo para Jesus, mas um instrumento perfeitamente subordinado à inteligência e à vontade moral.
A RESSURREIÇÃO E A TRANSFORMAÇÃO DO CORPO.
É precisamente após a crucificação que ocorre uma mudança essencial.
Herculano Pires observa que os próprios relatos evangélicos revelam uma realidade diferente daquela vivida antes da morte.
Maria Madalena inicialmente não o reconhece junto ao sepulcro.
Os discípulos de Emaús caminham longamente ao seu lado sem perceber quem era.
Nas aparições aos apóstolos, Jesus surge repentinamente em ambientes fechados e desaparece da mesma forma.
Esses acontecimentos indicam que já não se tratava do corpo carnal utilizado durante a vida terrestre.
Segundo a explicação espírita, após o desligamento definitivo do organismo físico, Jesus manifesta-se através de um corpo fluídico — formado pelos elementos do perispírito — capaz de assumir diferentes aparências e tornar-se visível ou invisível conforme as circunstâncias.
Assim, a ressurreição não representa o retorno do cadáver à vida, mas a manifestação consciente do Espírito mediante seu envoltório perispiritual.
Essa interpretação elimina dificuldades que, durante séculos, alimentaram debates teológicos acerca da natureza do corpo ressuscitado.
O MÉTODO KARDEQUIANO E A LUCIDEZ DOUTRINÁRIA.
Uma característica marcante da análise de Herculano Pires é sua absoluta fidelidade ao método estabelecido por Allan Kardec.
Não se recorre ao sobrenatural para explicar os acontecimentos.
Não se anulam as leis naturais.
Não se criam exceções incompatíveis com a justiça e a sabedoria divinas.
Ao contrário, compreende-se que as manifestações do Cristo ressuscitado pertencem ao campo das propriedades do perispírito, amplamente estudadas na Codificação Espírita.
Essa perspectiva preserva tanto a grandeza espiritual de Jesus quanto a coerência científica da Doutrina Espírita.
A SUPERIORIDADE DE JESUS NÃO ESTAVA NA MATÉRIA.
Um dos maiores ensinamentos dessa interpretação consiste em distinguir a perfeição espiritual da constituição material.
Jesus não era superior porque possuía um corpo milagroso.
Era superior porque seu Espírito alcançara a máxima elevação moral conhecida pela humanidade terrestre.
Seu organismo apenas refletia essa condição.
A verdadeira grandeza nunca pertence à matéria, mas ao Espírito que a dirige.
Essa distinção impede tanto o materialismo quanto o misticismo exagerado, conduzindo a uma compreensão equilibrada da missão do Cristo.
CONSIDERAÇÕES.
A análise apresentada por J. Herculano Pires demonstra que a Doutrina Espírita não diminui a figura de Jesus; ao contrário, engrandece-a por meio da razão.
O Cristo viveu plenamente a experiência humana durante sua existência terrena, submetendo-se às mesmas leis biológicas que regem toda encarnação. Após a desencarnação, porém, manifesta-se por intermédio do corpo fluídico, fenômeno compatível com as leis espirituais estudadas por Allan Kardec.
Essa interpretação harmoniza os relatos evangélicos com a lógica, preserva a universalidade das leis divinas e reafirma que o maior milagre realizado por Jesus não foi possuir um corpo diferente, mas revelar, por sua perfeição moral, o destino sublime reservado ao Espírito humano.
Fontes:
KARDEC, Allan. A Gênese, capítulo XV ("Os Milagres do Evangelho").
KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns, Segunda Parte, capítulos XIV e XV.
KARDEC, Allan. Revista Espírita (1858–1869), estudos sobre aparições e manifestações tangíveis.
PIRES, J. Herculano; ABREU FILHO, Júlio. O Verbo e a Carne.
ESPIRITISMO E ESPIRITISMO KARDECISTA:
UM É CORPO DE DOUTRINA, O OUTRO, MÉTODO DE ESTUDO.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
Há uma distinção que merece ser examinada com maior atenção dentro do próprio movimento espírita: a diferença entre Espiritismo e aquilo que muitos denominam Espiritismo kardecista.
A primeira expressão designa a Doutrina.
A segunda, embora não seja uma denominação criada por Allan Kardec para nomear uma nova doutrina, é utilizada contemporaneamente por aqueles que desejam destacar sua vinculação à codificação kardeciana e, sobretudo, ao modo pelo qual Allan Kardec investigou, organizou e submeteu os ensinamentos espíritas ao exame da razão.
É nesse sentido que a distinção pode ser formulada:
O Espiritismo constitui o corpo de princípios doutrinários; o kardecista, em sua acepção metodológica, identifica aquele que toma Kardec e seu método como referência fundamental para o estudo e a compreensão desse corpo doutrinário.
Não se trata, portanto, de colocar uma coisa contra a outra.
Trata-se de compreender funções diferentes.
O QUE É O ESPIRITISMO?
Allan Kardec empregou a palavra Espiritismo para designar a doutrina decorrente do estudo dos fenômenos espíritas e dos ensinamentos dos Espíritos.
Em O Livro dos Espíritos, encontramos a conhecida definição:
“O Espiritismo é uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal.”
Há, portanto, um conjunto de princípios.
Deus.
A existência e imortalidade do Espírito.
A pluralidade das existências.
A pluralidade dos mundos habitados.
A comunicabilidade dos Espíritos.
A lei de causa e efeito.
O progresso espiritual.
A responsabilidade moral.
A vida futura.
Esses princípios compõem aquilo que podemos chamar de corpo doutrinário espírita.
O Espiritismo, nesse sentido, não é simplesmente uma maneira particular de estudar os Espíritos. É um conjunto organizado de conhecimentos e consequências filosóficas e morais decorrentes desse estudo.
E O QUE SIGNIFICA “KARDECISTA”?
É aqui que a palavra precisa ser empregada com precisão.
Kardecista é uma designação derivada do nome de Allan Kardec.
Não foi Kardec quem denominou sua doutrina de “Kardecista”, nem “Espiritismo kardecista” foi o nome original escolhido para a Doutrina.
O termo surgiu posteriormente e passou a ser utilizado para identificar aqueles que se vinculam de maneira especial à codificação de Allan Kardec.
Quando alguém afirma ser espírita kardecista, normalmente está procurando dizer que não deseja apenas identificar-se genericamente com o Espiritismo, mas enfatizar uma determinada fidelidade à obra de Kardec.
E essa fidelidade não deveria ser entendida como culto à personalidade.
Deveria ser entendida como fidelidade aos princípios e ao método de investigação que caracterizaram a Codificação.
É justamente aí que aparece o ponto central da nossa proposição.
O CORPO DE DOUTRINA E O MÉTODO.
O Espiritismo oferece o objeto do conhecimento.
A orientação kardecista procura preservar o modo de estudá-lo.
Em outras palavras:
O Espiritismo diz respeito ao conteúdo doutrinário.
O kardecista, quando utilizado em sentido metodológico, diz respeito à maneira de abordar esse conteúdo a partir da obra e do método de Kardec.
Essa diferença parece pequena, mas possui enormes consequências.
Porque uma doutrina pode ser conhecida sem que seu método seja compreendido.
É possível conhecer as conclusões de Kardec e desconhecer o caminho intelectual que conduziu a elas.
Pode-se decorar conceitos espíritas sem compreender como foram estabelecidos.
Pode-se repetir mensagens mediúnicas sem submetê-las ao exame racional.
Pode-se citar O Livro dos Espíritos sem estudar a metodologia que está por trás de sua elaboração.
E então ocorre uma inversão perigosa:
o estudante passa a tratar como dogma aquilo que Kardec tratou como objeto de investigação.
SER KARDECISTA NÃO É ACREDITAR EM KARDEC.
Aqui está talvez a questão mais importante.
Ser kardecista não deveria significar:
“Eu acredito em Kardec.”
Isso seria insuficiente.
E, em certa medida, contrariaria o próprio espírito da metodologia kardeciana.
O verdadeiro respeito a Kardec está menos em acreditar nele do que em compreender como ele trabalhou.
Kardec investigava.
Comparava.
Questionava.
Examinava.
Classificava.
Raciocinava.
Procurava concordâncias.
Identificava contradições.
Distinguia opinião de princípio.
Não aceitava automaticamente uma comunicação apenas porque ela vinha de um Espírito.
E não transformava a mediunidade em garantia absoluta da verdade.
Essa postura é fundamental.
Porque o médium pode equivocar-se.
O Espírito comunicante pode equivocar-se.
O intérprete pode equivocar-se.
E o próprio estudante pode equivocar-se.
Por isso, o método torna-se instrumento de proteção contra a precipitação.
O KARDECISTA E A RAZÃO.
O kardecista, nesse sentido, não deveria ser aquele que encerra a inteligência diante de Kardec.
Deveria ser aquele que aprendeu com Kardec a não abdicar da inteligência.
A fidelidade verdadeira não é repetição mecânica.
É compreensão.
Não consiste em transformar cada frase antiga em resposta definitiva para qualquer problema contemporâneo.
Consiste em compreender os princípios e aplicar o método de maneira coerente, sem adulterar seus fundamentos.
Isso explica por que a palavra “kardecista” pode ter utilidade quando alguém deseja diferenciar sua orientação de outras correntes que também utilizam a palavra “espiritismo”, mas que incorporaram elementos estranhos ou posteriores à codificação.
Nesse caso, “espiritismo kardecista” funciona como uma delimitação de referência.
Não significa uma segunda doutrina.
Significa uma identificação com a tradição doutrinária fundada na Codificação de Allan Kardec.
A DOUTRINA E A DISCIPLINA DO PENSAMENTO.
Talvez possamos representar a distinção de modo ainda mais simples.
O Espiritismo é o edifício doutrinário.
O kardecista é aquele que procura estudar esse edifício seguindo a orientação intelectual estabelecida por Kardec.
Um corresponde ao conhecimento.
O outro, à disciplina com que esse conhecimento é examinado.
E essa disciplina é indispensável.
Porque sem ela o Espiritismo pode ser progressivamente misturado com opiniões pessoais, superstições, revelações particulares, interpretações mediúnicas não verificadas e conceitos estranhos à Codificação.
O problema não está na evolução do pensamento.
O Espiritismo jamais precisaria temer o conhecimento novo.
O problema está em atribuir à Doutrina aquilo que pertence apenas à opinião individual de alguém.
É justamente para evitar essa confusão que o método possui tanta importância.
CONCLUSÃO.
Assim, quando alguém afirma:
“Sou espírita kardecista”,
podemos compreender essa declaração como uma maneira de afirmar:
“Minha referência fundamental para compreender o Espiritismo é a Codificação de Allan Kardec e o método de estudo que a caracteriza.”
Mas é importante não transformar essa expressão em uma nova religião.
O nome da Doutrina é Espiritismo.
Kardec é o codificador.
Kardecista é a designação posterior daquele que se vincula à orientação kardeciana.
E a diferença essencial está justamente aí.
O Espiritismo oferece o corpo de princípios.
A orientação kardecista preserva a importância do método de estudo, exame e discernimento legado por Kardec.
Por isso, talvez a maior homenagem que se possa prestar ao Codificador não seja repetir constantemente seu nome.
É fazer aquilo que ele nos ensinou:
estudar antes de afirmar, examinar antes de aceitar, raciocinar antes de concluir e jamais confundir a verdade com a simples autoridade de quem fala.
Porque o verdadeiro espírito kardeciano não é aquele que teme a pergunta.
É aquele que sabe que uma convicção verdadeiramente esclarecida não precisa fugir do exame.
E, no Espiritismo, estudar não é apenas acumular respostas.
É aprender a fazer perguntas melhores.
ENTRE O CORPO E O INFINITO.
Entre o corpo e o infinito, o Espírito humano constrói sua eternidade. Cada gesto de cuidado, cada palavra de amor e cada pensamento de fé convertem-se em sementes que florescem no jardim da alma.
A educação moral, a comunicação consciente e a oração sincera são os três pilares de uma nova civilização mais fraterna, mais justa e espiritualmente desperta.
Que saibamos, pois, reencontrar o equilíbrio entre a matéria e o espírito, transformando o cotidiano em um hino silencioso de amor e progresso.
“A verdadeira paz nasce quando a alma aprende a conversar com Deus dentro de si.”
MIGALHAS DA GRANDE MESA.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
Há dores que não começam no corpo. Há aflições que não nascem no instante presente. Certas angústias parecem emergir de regiões mais profundas da consciência, como se a alma carregasse em silêncio vestígios antigos de si mesma. Sob a ótica espírita, o ser humano não é apenas matéria organizada biologicamente. Ele é uma inteligência imortal revestida temporariamente pela carne, trazendo consigo um patrimônio invisível de experiências acumuladas através das existências sucessivas.
O Espiritismo compreende que aquilo que chamamos personalidade não se forma apenas pela educação atual ou pelas circunstâncias sociais contemporâneas. Em cada criatura permanecem tendências morais sedimentadas ao longo dos séculos. Inclinações para a benevolência ou para o egoísmo. Facilidade para o perdão ou propensão à violência. Aptidões espirituais e fragilidades emocionais. Essas disposições interiores não surgem ao acaso. Constituem resíduos psíquicos de experiências pretéritas armazenadas no perispírito.
Segundo a doutrina espírita, o perispírito é o envoltório semimaterial do Espírito. Não é apenas uma estrutura energética abstrata. Ele funciona como arquivo vivo da individualidade. Nele encontram-se impressões emocionais acumuladas pelas vivências da alma. Cada trauma moral, cada gesto de amor, cada abuso cometido contra si ou contra o próximo imprime marcas sutis nesse organismo espiritual.
A psicologia espírita compreende que o ser humano cria automatismos psíquicos conforme repete pensamentos, emoções e atitudes ao longo das encarnações. O hábito mental transforma-se em estrutura íntima. O orgulho reiterado converte-se em reflexo automático. O medo constante cristaliza-se como insegurança existencial. A culpa prolongada pode converter-se em autopunição inconsciente. Assim, muitos conflitos emocionais atuais representam a continuidade de estados mentais cultivados durante longos períodos da trajetória espiritual.
Não se trata de fatalismo. O Espiritismo rejeita a ideia de condenação eterna ou destino imutável. O que existe é continuidade psicológica da consciência. O Espírito herda de si mesmo aquilo que construiu intimamente. Cada existência corporal torna-se oportunidade pedagógica para corrigir desequilíbrios anteriores e ampliar aquisições morais.
As memórias profundas da alma nem sempre emergem como lembranças objetivas. Na maioria das vezes manifestam-se como sensações indefiníveis. Antipatias espontâneas. Medos sem causa aparente. Afinidades instantâneas. Tristezas antigas sem explicação racional. Desejos de reparação moral. Sob a ótica espírita, tais conteúdos podem constituir reminiscências emocionais de experiências anteriores conservadas no perispírito.
A antropologia espiritual proposta pela doutrina kardecista observa o homem como ser multimilenar em processo contínuo de aperfeiçoamento. Nenhuma existência isolada seria suficiente para explicar integralmente as desigualdades intelectuais, morais e afetivas da humanidade. As matrizes reencarnatórias funcionam como estruturas organizadoras das futuras experiências corporais. Antes do renascimento, o Espírito participa da elaboração de provas, expiações e circunstâncias educativas compatíveis com suas necessidades evolutivas.
É por intermédio dessas matrizes que o Espírito modela futuras experiências corporais. O corpo não seria mero acidente biológico desprovido de sentido transcendente. Ele converte-se em instrumento pedagógico da consciência. Certas limitações físicas, tendências emocionais ou desafios familiares podem representar mecanismos educativos destinados ao reajuste íntimo do ser.
Muitos sofrimentos físicos são interpretados, na visão espírita, como repercussões perispirituais de abusos pretéritos. Isso não significa punição arbitrária divina. A lei espiritual opera segundo causalidade moral educativa. Quem utiliza mal as forças da vida frequentemente imprime desequilíbrios em sua própria estrutura espiritual. Tais desarmonias podem refletir-se posteriormente no organismo físico através de enfermidades, predisposições ou limitações específicas.
A obsessão pelo poder pode converter-se em experiências futuras de humilhação regeneradora. O abuso das faculdades intelectuais pode conduzir a provas de silêncio e recolhimento. A violência sistemática pode gerar encarnações marcadas pela fragilidade corporal. Entretanto, o sofrimento não possui finalidade vingativa. Seu objetivo maior é despertar consciência, sensibilidade moral e transformação interior.
Sob análise psicológica profunda, o sofrimento humano frequentemente produz dois caminhos distintos. Pode endurecer a criatura através da revolta ou amadurecê-la pela reflexão. O Espiritismo insiste que a dor não santifica automaticamente ninguém. O que transforma é a maneira pela qual o Espírito responde às experiências difíceis. A revolta prolonga os ciclos de perturbação. A compreensão moral favorece libertação íntima.
Existe também importante dimensão sociológica nessa interpretação espiritual da existência. Uma sociedade materialista tende a enxergar o homem apenas como organismo biológico condicionado economicamente. A visão espírita amplia essa compreensão ao reconhecer responsabilidade moral contínua do Espírito perante si mesmo e perante a coletividade. Assim, a construção ética da civilização depende igualmente da reforma íntima dos indivíduos.
Quando o ser humano alimenta ódio, inveja, crueldade ou egoísmo sistemático, ele não destrói apenas relações externas. Corrói a própria arquitetura psíquica. Cada pensamento reiterado modifica o campo vibratório do Espírito. Cada emoção sustentada molda disposições futuras da consciência. A alma converte-se lentamente naquilo que escolhe cultivar.
Por isso a doutrina espírita valoriza tanto vigilância mental, disciplina emocional e educação moral. O Evangelho, dentro dessa perspectiva, não é apenas código religioso devocional. Constitui terapêutica profunda para reorganização das estruturas íntimas do Espírito. O perdão dissolve cadeias psíquicas de ressentimento. A caridade suaviza endurecimentos morais. A humildade rompe cristalizações do orgulho. A oração reorganiza o campo mental.
O homem contemporâneo frequentemente busca curar apenas os sintomas exteriores de sua angústia. Todavia, segundo a visão espírita, muitas dores existenciais exigem tratamento mais profundo. Não basta anestesiar emoções. É necessário compreender suas raízes espirituais. O Espírito necessita reconciliar-se consigo mesmo, reconstruindo lentamente sua harmonia interior através do amor, do dever e da renovação moral.
Cada criatura vive das migalhas da grande mesa divina enquanto aprende a transformar instintos em consciência, impulsos em discernimento e sofrimento em sabedoria. A existência terrestre não representa abandono celeste. É escola austera onde o Espírito, entre lágrimas e esperanças, aprende gradualmente a tornar-se digno da própria luz.
Fontes.
O Livro dos Espíritos.
A Gênese.
O Céu e o Inferno.
Evolução em Dois Mundos.
Missionários da Luz.
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O ESPÍRITO DIANTE DO PRÓPRIO SEPULTAMENTO.
Marcelo Caetano Monteiro.
Quando o corpo desce ao silêncio do túmulo, a consciência não mergulha no nada. A morte não extingue o Espírito. Apenas rompe os vínculos materiais que o prendiam provisoriamente à veste carnal. O homem continua vivendo além da sepultura, levando consigo a memória, os afetos, as virtudes e as imperfeições que cultivou na Terra.
Em “O Livro dos Espíritos”, capítulo VII, questão 327, a Doutrina Espírita ergue um dos mais profundos esclarecimentos acerca da sobrevivência da alma. Allan Kardec pergunta aos Espíritos Superiores se o Espírito assiste ao próprio enterro. A resposta possui extraordinária gravidade filosófica.
“Frequentemente assiste, mas, algumas vezes, se ainda está perturbado, não percebe o que se passa.”
A revelação dissolve séculos de materialismo e superstição. O Espírito não perde instantaneamente a consciência ao desprender-se do corpo. Muitos acompanham o velório, observam os familiares, percebem as homenagens, as lágrimas e até mesmo os pensamentos daqueles que se aproximam de seus despojos mortais. Outros, entretanto, permanecem em estado de perturbação espiritual transitória, semelhante ao despertar confuso de alguém arrancado abruptamente de profundo sono.
A perturbação após a morte constitui fenômeno natural do desligamento perispiritual. Em “O Livro dos Espíritos”, itens 164 e 165, os Benfeitores ensinam que a alma experimenta inicialmente um estado de torpor. As ideias tornam-se nebulosas. A memória parece vacilar. A consciência necessita readaptar-se à nova esfera de existência.
Essa perturbação varia conforme o adiantamento moral do Espírito. Para alguns, dura breves horas. Para outros, meses ou anos. Não existem duas desencarnações rigorosamente idênticas, porque cada criatura parte segundo o peso de sua própria consciência.
O homem virtuoso, que cultivou o bem, a oração, a caridade e a reflexão espiritual durante a existência terrena, desprende-se com maior serenidade. Já o Espírito excessivamente apegado à matéria, dominado pelo orgulho, pela revolta ou pelas ilusões materialistas, experimenta sombras íntimas mais profundas.
Muitos, acreditando na destruição absoluta da vida, despertam em estado doloroso ao perceberem que continuam vivos além da sepultura. Outros acompanham, estarrecidos, a decomposição do próprio corpo, tentando inutilmente reanimá-lo, presos mentalmente à matéria que já não lhes pertence.
Também os adeptos das religiões superficiais, que prometem o Céu sem renovação moral, surpreendem-se diante da realidade espiritual. A lei divina não consagra privilégios. O destino da alma não se decide por fórmulas exteriores, mas pela transformação íntima, pelas obras e pela elevação do sentimento.
Na questão subsequente, Kardec indaga aos Espíritos.
“A concorrência de muitas pessoas ao enterramento o lisonjeia?”
A resposta possui sublime profundidade moral.
“Mais ou menos, conforme o sentimento que as anima.”
Não é a multidão que consola o desencarnado. É o amor verdadeiro. Uma prece sincera possui maior luminosidade espiritual que homenagens vazias. O Espírito percebe os sentimentos ocultos sob as aparências humanas. Reconhece a autenticidade da dor, da gratidão e da fraternidade.
Sob a ótica espírita, o funeral não representa um fim definitivo. É apenas uma passagem entre dois estados da vida. A alma permanece consciente e sensível às vibrações que a cercam. Por isso, o desespero excessivo, a revolta e o apego desesperador podem dificultar-lhe o refazimento. A oração serena, ao contrário, converte-se em bálsamo invisível para aquele que retorna à pátria espiritual.
Em “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, capítulo X, item 18, encontra-se a exortação consoladora.
“Espiritismo. Doutrina consoladora e bendita. Felizes os que te conhecem e tiram proveito dos salutares ensinamentos dos Espíritos do Senhor.”
O Espiritismo não glorifica os túmulos. Não cultua a morte. Ilumina a continuidade da vida. Revela que a consciência sobrevive à destruição do corpo e prossegue submetida às soberanas leis de Deus, da justiça e da caridade ensinada por Jesus Cristo.
A sepultura encerra apenas a matéria fatigada. O Espírito prossegue sua jornada eterna, recolhendo, além do túmulo, a luz ou a sombra que edificou dentro de si mesmo.
Fontes.
“O Livro dos Espíritos”. Allan Kardec. Capítulo VII. Questão 327. Itens 164 e 165.
“O Céu e o Inferno”. Allan Kardec. Parte I. Itens 6, 7, 12 e 13.
“O Evangelho Segundo o Espiritismo”. Allan Kardec. Capítulo X. Item 18.
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Setenta dias é tempo suficiente pra aprender um idioma novo, pra treinar um corpo diferente, pra plantar uma horta e já colher alguma coisa. E eu, nesse mesmo tempo, aprendi só a beber devagar e a não mandar mensagem.
"Algumas pessoas pensam que são o que sua aparência física revela. O corpo nada mais é que a garagem onde temporariamente estacionamos a alma."
Me perco e me encontro..
Nas curvas, do teu corpo , me perco e me encontro, na mais pura paixão..
No doce mel, de teus beijos, me faço um colibri, a voar pelo céu..
"Caio Camara Cesar"
