Coleção pessoal de TiagoScheimann

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Há algo profundamente contraditório em continuar, mesmo quando nenhuma razão clara se apresenta, mas talvez seja nessa contradição que nasce a resistência, uma força que não precisa de explicação para existir.

Eu me tornei um observador da própria dor, como se houvesse uma distância entre quem sente e quem entende, e talvez seja isso que me mantém funcional, porque sentir tudo diretamente seria insuportável.

Eu não tenho medo da dor, tenho medo da ausência de sentido, porque sofrer sem direção é como existir no vazio absoluto, e eu já me perdi vezes demais dentro de mim, mas foi nesse labirinto que encontrei pequenas razões para continuar.

Se o sentido precisa ser criado, então ele nasce frágil, vulnerável a qualquer ruptura, como algo sustentado por certezas que nunca foram sólidas, e talvez seja isso que torna tudo tão instável e humano.

A dor não chegou de uma vez, ela foi construída, em camadas tão sutis que quase passaram despercebidas, até que um dia percebi que já não era mais o mesmo, mas também não era alguém completamente perdido.

24 Prelúdios, Op. 28, de Frédéric Chopin.


Naquela noite em Valldemossa, o mundo parecia ter sido reduzido ao som da água.


O mosteiro respirava um silêncio antigo, quebrado apenas pelo insistente cair das gotas — como se o céu, cansado de sustentar seus próprios pesos, decidisse chorar sobre a pedra fria. Dentro de um quarto úmido, Frédéric Chopin não dormia. O corpo frágil repousava, mas a alma permanecia desperta, inquieta, à beira de algo que não se pode nomear.


Dizem que a chuva o atravessou.


Não por fora — mas por dentro.


Cada gota que tocava o telhado encontrava eco em seu peito, como um pulso repetido, uma lembrança que se recusa a morrer. E então, entre a febre e o silêncio, ele viu — ou sentiu — a si mesmo afundando lentamente em um lago escuro, onde o tempo não corre, apenas escorre.


Gota.


Gota.


Gota.


Não era mais o mundo que chorava.


Era ele.


Quando George Sand voltou, encontrou um homem que já não estava inteiro. Havia nele algo que tinha ficado naquela água imaginada, submerso entre sombras e sons. Mas sobre o piano, quase como um reflexo involuntário da dor, nascia uma sequência de notas que insistiam em cair — sempre a mesma, sempre igual, como se a música tivesse aprendido a imitar a chuva… ou a memória.


Ele negaria depois.


Diria que não era chuva.


Que não havia gotas.


Que a música não descreve, apenas existe.


Mas há verdades que não pertencem ao compositor — pertencem ao abismo de onde a música vem.


E naquele prelúdio, escondido entre luz e tempestade, ainda é possível ouvir:


não a chuva do céu,


mas a que cai dentro de alguém.




- Tiago Scheimann

Eu aprendi a sorrir como quem esconde evidências, arquivando sentimentos em lugares que nunca deveriam ser revisitados, porque algumas verdades não libertam, elas desmontam, e ainda assim, algo em mim insiste em reconstruir.

O pensamento não resolve a existência, mas torna impossível ignorá-la, e quando se enxerga demais, não há retorno para a ignorância confortável que um dia protegeu.

Há uma solidão que não depende da ausência de pessoas, ela se instala mesmo em meio à presença, porque não é sobre estar acompanhado, é sobre ser compreendido, e isso é algo que raramente acontece de verdade.

Eu já considerei a possibilidade de que nada disso tenha significado, e, estranhamente, essa ideia não me destruiu por completo, talvez porque até no vazio exista uma presença silenciosa, a experiência inevitável de ainda estar aqui.

Minha mente é um quebra-cabeça sem imagem final, onde cada peça parece deslocada, sem encaixe possível, e ainda assim eu insisto em montar algum sentido, como se desistir fosse admitir que tudo foi em vão.

Eu me tornei alguém que observa mais do que vive, como se estivesse sempre um passo atrás da própria existência, avaliando cada emoção antes de permitir que ela me atravesse, mas sempre algo escapa… e talvez seja isso que ainda me mantém humano.

Eu não sei se busco sentido ou apenas evito o vazio, porque, no fundo, os dois caminhos se confundem como sombras no mesmo corredor escuro, e talvez toda busca seja apenas uma tentativa elegante de não encarar o abismo de frente, um desvio consciente para não admitir que o nada também me observa.




- Tiago Scheimann

Há uma exaustão que não vem do corpo, mas do peso de sustentar pensamentos que não descansam, como se minha mente fosse um tribunal permanente, onde eu sou, ao mesmo tempo, acusado, juiz e sentença.

A consciência não permite descanso completo, porque mesmo no silêncio ela continua ativa, revisando, questionando, reconstruindo, como se existir fosse um trabalho que nunca termina.

Pensar é um risco contínuo, porque cada conclusão abre espaço para novas dúvidas, e não existe ponto final nesse processo, apenas pausas temporárias antes de recomeçar.

O vazio não é ausência, é presença sem significado, é estar cercado de tudo e ainda assim não encontrar sentido, e talvez seja isso que mais desgasta, não a dor em si, mas a falta de razão para ela existir.

Há uma diferença entre estar vivo e estar consciente da vida, e eu já não consigo mais separar os dois, porque cada instante carrega uma análise implícita, e, nesse excesso de lucidez, a simplicidade se tornou inacessível.

Existir não é um presente é uma condição, e talvez o erro esteja em esperar conforto disso, porque a consciência não foi feita para ser leve, ela foi feita para perceber,
e perceber quase sempre dói.

Vejo o mundo através de uma lente que só revela sombras e tons de cinza, onde a alegria parece luz de outro universo, inalcançável e distante.