Coleção pessoal de TiagoScheimann

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Talvez viver seja isso: aprender a caminhar acompanhado pelo próprio enigma, sem exigir que a estrada explique o destino.

A solidão não me roubou; ela retirou o excesso de vozes até sobrar a pergunta que realmente importava.

Em certos dias, estar vivo é apenas sustentar a consciência de que o mundo segue enquanto minha alma negocia com o próprio eco.

Minha infância foi difícil. A fada do dente arrancava meus dentes sem anestesia e ainda roubava meu dinheiro.

O homem se perde com mais facilidade quando tenta ser espelho para os outros e se esquece de ser casa para si.

Há uma solidão fértil, como terra depois da chuva, que não me isola: me prepara.

A existência pesa menos quando paro de fingir que preciso caber em todos os olhares.

Fui me encontrando nas horas em que ninguém me aplaudia, porque a vida, sem espectadores, revela a textura do que sou.

O vazio não me assusta quando o reconheço, o que me apavora é a tentativa de preenchê-lo com qualquer coisa que não seja verdade.

Ser inteiro é suportar a própria companhia sem transformar a alma em ruído de fundo.

Há solidões que não expulsam, apenas iluminam o contorno exato daquilo que eu nunca tive coragem de admitir.

Quando ninguém me espera, o tempo perde sua educação e mostra que a existência não tem plateia, tem apenas presença.

A solidão é a sala onde o mundo tira a máscara e me obriga a descobrir se existe alguém em mim além da voz que os outros ouviram.

Aprendi que a dor não pede licença para existir; ela entra, rearranja a casa e, se eu sobreviver, ainda me obriga a agradecer pela mobília que restou.

Existem dias em que o coração não quebra, apenas se torna mais nítido, e essa nitidez dói como luz em olhos cansados.

A melancolia é uma janela aberta por dentro, o vento entra, desarruma tudo e, ainda assim, deixa o quarto menos morto.

O que me fere não é apenas perder, mas descobrir que parte de mim já havia se despedido antes de eu perceber.

Há um tipo de tristeza que não afunda: ela paira, pesada, sobre a rotina, transformando o banal em lembrança de naufrágio.

Carrego dias quebrados como quem leva vidro no bolso: com cuidado, com medo e com a estranha gratidão de ainda sentir o peso das coisas.

O sofrimento, quando não me destrói, me afina, ele remove excessos e deixa exposta a nota grave que sempre esteve escondida.