Coleção pessoal de TiagoScheimann
Eu carrego um deserto na boca do estômago, onde cada passo é areia movediça e cada sonho, um miragem que não se aproxima.
A tristeza vem como uma estação implacável, sem aviso, sem pausa e nos deixa com as mãos frias, tocando lembranças que nunca se foram.
Quando olho minhas cicatrizes, percebo que elas não são falhas, mas mapas de lugares onde um dia a minha esperança foi reduzida à poeira e ainda assim se recosturou.
Às vezes, meus passos ecoam no vazio da minha alma, como se cada movimento fosse um sussurro de quem insiste em existir mesmo quando tudo grita o oposto.
No fim, sobrará apenas esse amontoado de letras que eu deixei espalhadas pelo caminho, como migalhas de pão que não serviram para eu voltar para casa, mas que talvez alimentem a alma de algum outro pássaro ferido que passar por aqui. Se a minha dor serviu de consolo para a sua, então valeu a pena cada gota de tinta.
- Tiago Scheimann
O corpo é um mapa de lugares onde ninguém mais quer morar, um terreno baldio cheio de placas de “vende-se” que ninguém se interessa em comprar. Mas eu ainda cultivo algumas flores nesse solo cansado, umas orquídeas de esperança que teimam em brotar entre as rachaduras. E mesmo quando o vento leva embora o pouco de cor que resta, há raízes silenciosas insistindo em permanecer, como se soubessem algo que eu ainda não entendi. Porque dentro desse abandono aparente, existe uma vida que não se rende, uma força quase invisível que recusa o esquecimento. Talvez ninguém veja beleza nesse cenário quebrado, mas há uma espécie de milagre discreto acontecendo aqui, uma resistência quieta, que não pede aplauso, só espaço para continuar existindo. E é nessa teimosia delicada que eu ainda me reconheço.
- Tiago Scheimann
A minha vida é uma colcha de retalhos feita de momentos de lucidez e longos períodos de neblina existencial, onde eu me perco de quem eu achava que era. Costuro esses pedaços com o fio da escrita, tentando criar um manto que me proteja do frio que sopra de dentro para fora.
Às vezes sinto que estou gritando debaixo d'água, vendo as bolhas do meu desespero subirem à superfície sem que ninguém entenda a mensagem que elas carregam. Escrever é aprender a desenhar na areia do fundo do mar, esperando que a maré alta leve o recado para alguém que saiba nadar.
A melancolia é o eco das histórias que a nossa alma esqueceu de contar e que agora insistem em sussurrar nas noites vazias, pedindo para serem registradas. Eu sou o escrivão desses fantasmas, o secretário de uma dor que não tem nome mas que exige ser ouvida.
Sigo pela vida como quem atravessa campos desconhecidos, guiado mais pelo instinto do que pela certeza, aprendendo que nem toda busca termina em conquista. Há batalhas que travamos em silêncio, onde o verdadeiro troféu não é vencer, mas suportar o peso de continuar mesmo quando tudo parece perdido.
Carrego nos ombros as marcas de cada tentativa, não como derrota, mas como prova de que resisti quando o mundo esperava minha queda. E entre erros e acertos, compreendi que a vitória nem sempre está no resultado, mas na coragem de permanecer de pé diante do inevitável. Porque no fim, a verdadeira caçada é contra nós mesmos e sobreviver já é, por si só, a mais difícil e silenciosa das vitórias.
- Tiago Scheimann
Trago no peito a lembrança de um tempo simples, onde o riso corria solto e a vida cabia inteira na inocência de dois caminhos que ainda não conheciam despedidas. Éramos feitos de chão, de poeira e de afeto bruto, desses que não se explicam, apenas se vivem, como se o mundo fosse pequeno demais para nos separar. Mas o tempo, silencioso e inevitável, foi abrindo distâncias onde antes só havia presença, transformando parceria em memória. Hoje carrego comigo aquilo que ficou, não como peso, mas como parte de quem me tornei, marcado pelas ausências que ensinaram mais que qualquer permanência.
Porque existem laços que nascem lado a lado, mas o destino insiste em escrever em caminhos diferentes, deixando na alma a saudade do que poderia ter sido eterno.
- Tiago Scheimann
Sou como um canto que nasceu livre, mas aprendeu cedo o peso invisível das próprias grades, não as que se veem, mas as que se sentem no fundo da alma. Há em mim um desejo antigo de voo, desses que não pedem destino, apenas horizonte, mas que se desfazem toda vez que a lembrança me puxa de volta. Minha liberdade mora longe, talvez no tempo em que o peito ainda não conhecia o silêncio imposto pela dor. E mesmo assim, continuo cantando baixo, como quem tenta não esquecer a própria essência, ainda que tudo ao redor insista em aprisioná-la. Porque existem almas que nasceram para o céu, mas aprenderam a sobreviver dentro de gaiolas feitas de saudade.
- Tiago Scheimann
Há amores que não partem, apenas se retiram do mundo visível, recolhendo-se às fissuras mais íntimas da alma, onde permanecem como um eco teimoso que o tempo não consegue dissolver. A saudade, então, deixa de ser ausência e se torna uma presença densa, quase palpável, feita daquilo que não se pode mais tocar, mas que insiste em existir com uma força silenciosa. Trago em mim os vestígios do que fomos, vozes que já não soam, sorrisos que o tempo apagou, promessas que agora repousam como ruínas dentro da memória.
E nesse vazio paradoxal, onde tudo falta e ao mesmo tempo transborda, compreendo que amar nunca foi possuir, mas resistir à permanência daquilo que se perdeu. Porque há histórias que se encerram no mundo, mas se recusam a terminar dentro de quem aprendeu a sobreviver carregando eternidades em forma de dor.
- Tiago Scheimann
O destino é um tabuleiro de xadrez onde eu sou apenas um peão que sonha em ser rei, mas que sabe que acabará sendo sacrificado para que o jogo continue sem mim. Aceito meu papel com a dignidade de quem sabe que, na caixa, todas as peças voltam a ser do mesmo material.
Minhas palavras não buscam salvar o mundo, buscam apenas ser o espelho onde alguém possa se olhar e dizer: "pelo menos não sou o único que se sente assim". A validação da dor alheia é o maior ato de caridade que um escritor pode oferecer ao seu leitor cansado.
Ser humano é ser uma contradição ambulante, um ser que deseja o céu mas que está irremediavelmente preso à terra por fios de necessidade e medo. Vivemos nesse esticamento eterno, nessa tensão que é o que nos faz produzir música, arte e esses suspiros que chamamos de frases.
Frases por vezes complexas, paradoxalmente intrigantes, frutos de uma mente em flagelo que já não distingue o real da fantasia melancólica. É o eco de uma alma cansada que, por vezes jogada ao pedregal, entrega-se aos abutres e corvos necrófagos, onde cada bicar das aves retira um pedaço do que outrora foi esperança. Ali, entre o pó e a pena, a mente finalmente cessa a luta contra o delírio, aceitando que a beleza, ainda que fúnebre e dolorosa, reside na coragem de desintegrar-se diante do próprio destino.
- Tiago Scheimann
Minha mente é um calabouço, frio, escuro e esquecido. Aqui dentro, o tempo é relativo, um nó entre o passado e o presente. Tudo é confuso, há mais perguntas que respostas. Não sei quanto tempo faz, nem se a liberdade é uma promessa real. Enquanto o fim não vem, vou aceitando esse estado de sobrevivência.
Os espíritos imundos não param de sussurrar no meu ouvido, vivo em um cemitério de lápides vazias, quebradas, com nomes escritos que não consigo decifrar. Os fantasmas que me atormentam não têm rostos, não falam comigo, apenas me observam na escuridão em que me enterro.
Há uma tristeza que é hereditária, que vem no sangue como uma herança maldita de antepassados que também não souberam o que fazer com a própria vida. Eu tento quebrar essa corrente usando a poesia como um alicate, cortando os elos de amargura que tentam me prender ao passado.
