Coleção pessoal de Negreiros
ALICE RAIO DE LUZ
Nas terras de Canaã,
Num reino abençoado,
Onde o amor faz morada
E o bem é celebrado,
Há uma princesa encantada
Por todo povo admirado.
O amor reina soberano,
A justiça é sentinela,
A paz floresce nos campos
Feito jardim de aquarela,
E a esperança canta versos
Sob a luz da lua bela.
Seu nome é doce Alice,
Raio de luz reluzente,
Beleza de anjo divino,
Sorriso puro e contente,
Que espalha brilho e ternura
Por onde passa entre a gente.
Seu olhar lembra as estrelas
Que iluminam o sertão,
Seu coração generoso
Transborda compreensão,
Distribuindo bondade
Como chuva sobre o chão.
Nobres curvam-se à sua graça,
Plebeus lhe ofertam carinho,
Pois nunca negou um abraço
Nem deixou alguém sozinho,
Transformando cada encontro
Num florido e doce caminho.
Sua realeza não vive
De ouro, prata ou riqueza,
Mas da sabedoria justa
Aliada à gentileza,
Que faz do seu reino inteiro
Um exemplo de grandeza.
Quando Alice dá conselho,
Fala mansa e verdadeira,
Até o vento silencia
Na mais distante fronteira,
Para ouvir sua palavra
Tão serena e certeira.
Os jardins ganham mais flores,
Os pássaros mais canções,
As fontes correm mais claras,
Os campos têm mais paixões,
Pois sua presença espalha
Luz nos mais nobres rincões.
Nas maravilhas do reino,
Entre encantos e magia,
Alice segue brilhando
Como o sol que anuncia
Que a bondade e a esperança
Vencerão a cada dia.
E assim canta este cordel
Com respeito e devoção:
Viva Alice, raio de luz,
Orgulho de Canaã então,
Princesa amada por todos,
Rainha do coração.
LUZGIRASSOL
No sertão da Paraíba,
onde o mandacaru vigia,
nasceu uma linda donzela
feita de encanto e poesia.
Chamaram-na Luzgirassol,
nome de ouro e claridade,
mistura de flor e estrela,
de beleza e suavidade.
Tem os olhos da manhã
quando o sol vem despontando,
e um sorriso tão sereno
que faz a seca ir passando.
No jardim onde ela mora,
entre rosas e alecrins,
parece um girassol vivo
enfeitando os seus caminhos.
As abelhas a cortejam
com seu canto laborioso,
vendo nela o doce néctar
de um destino venturoso.
Os passarinhos do campo,
do canário ao corrupião,
fazem festa em sua volta
como num grande mutirão.
Obra da mão da natureza,
mas também do Criador,
que moldou sua presença
com ternura e muito amor.
Quando passa pela estrada,
o vento muda de tom;
até a sombra das árvores
quer seguir seu caminhar bom.
Privilegiado será
aquele que ela escolher,
pois em seu jardim de afetos
há sementes a crescer.
E dos frutos desse encontro,
regados por devoção,
florescerão novas vidas
como espigas no sertão.
Luzgirassol é assim:
sol que nunca perde o brilho,
flor que transforma a paisagem
e ilumina cada trilho.
No sertão paraibano,
entre a terra e o firmamento,
vive essa deusa de luz,
girassol do sentimento.
BODINHO, O FIAT
Bodinho, velho guerreiro,
Fiat Uno afamado,
Nas estradas da memória
Seu nome ficou gravado.
Por onde passava firme,
Sempre era respeitado.
Tudo começou um dia
Quando Israel o comprou,
Com zelo e muito carinho
Seu destino encaminhou.
Depois ao Sargento Damásio
A chave ele repassou.
O tempo seguiu ligeiro,
Fez a vida seu roteiro,
Até chegar às mãos certas
De um novo companheiro.
Negreiros Neto o guardou
Como peça de museu inteiro.
Mas pense que está parado?
Isso ninguém acreditou!
Pois dentro daquelas chapas
Muita história se alojou.
Cada risco da lataria
Uma aventura contou.
Saiu de Aldeia ligeiro,
Sem nunca olhar para trás,
Por Araçoiaba corria
Como quem queria mais.
Subia Três Ladeiras rindo
E vencia os canaviais.
Nas estradas de barro grosso
Nunca teve aflição,
Enquanto outros atolavam
Pedindo socorro ao chão,
O Bodinho seguia em frente
Com coragem de campeão.
De Itaquitinga partia
Cheio de disposição,
Passava por Santo Antônio
Com firme determinação.
Entrando pelas pedras de Sapé
Mostrava sua vocação.
Quando surgia um riacho
Não mudava direção,
Cruzava a água sorrindo
Sem perder a precisão.
Dava um olé nos obstáculos
Com sua velha tradição.
Foi também para Condado
Levando sonho e alegria,
Passou por Matary primeiro
Naquela mesma energia.
Visitou Upatininga e Esconso
Antes de clarear o dia.
Seguiu viagem pra Goiana
Num passo firme e certeiro,
Só não foi pra Ponta de Pedras
Por escolha do companheiro.
Que desistiu da jornada,
Mas não por medo do guerreiro.
Nazaré e Tracunhaém
Conheciam seu roncar,
Carpina também o via
Pelas ruas passear.
Era um amigo da estrada
Sempre pronto pra rodar.
Não tinha hora marcada,
Nem relógio pra mandar.
De dia ou mesmo de noite
Bastava alguém chamar.
Entrava, girava a chave
E o motor queria cantar.
Nas festas de padroeiro
Era rei da procissão,
No Carnaval desfilava
Misturado à multidão.
No São João se enfeitava
Com bandeira e balão.
Muitos diziam sorrindo
Ao vê-lo em circulação:
"Esse carro não tem motor,
Nem trabalha com pistão.
O que move o Bodinho
É alma e coração."
Hoje repousa tranquilo
Na garagem a descansar,
Mas quem conhece sua história
Sempre volta a recordar.
Que há carros que envelhecem,
E outros que aprendem a sonhar.
E assim vive o Bodinho,
Fiat Uno tão valente,
Guardado como relíquia
Na memória de muita gente.
Mais que carro, virou lenda,
Patrimônio permanente.
NETOS
Meu bisavô começou
Com coragem e tradição,
Plantou nome e deu exemplo
No terreiro do sertão.
Fez da honra uma bandeira,
Do trabalho uma lição.
Meu Bisavô começou,
meu Pai continuou,
minha parte Eu fiz.
Agora é você Filho que diz.
Meu avô pegou a chama
Que o tempo não apagou,
Guardou cada ensinamento
Que a família lhe deixou.
Foi ponte entre as gerações,
Nunca o rumo abandonou.
Meu Bisavô começou,
meu Pai continuou,
minha parte Eu fiz.
Agora é você Filho que diz.
Meu pai seguiu a jornada
Com firmeza e devoção,
Carregando o sobrenome
Com respeito e gratidão.
Mostrou que a verdadeira herança
Mora no bom coração.
Meu Bisavô começou,
meu Pai continuou,
minha parte Eu fiz.
Agora é você Filho que diz.
Chegou a vez deste Neto
Assumir a construção,
Erguer sonhos, criar filhos,
Cultivar a tradição.
Pois o sangue que nos une
É mais forte que o sertão.
Meu Bisavô começou,
meu Pai continuou,
minha parte Eu fiz.
Agora é você Filho que diz.
Quando nasce um Bisneto
A esperança faz morada,
É a história caminhando
Pela estrada iluminada.
Cada nome é uma semente
Na família semeada.
Meu Bisavô começou,
meu Pai continuou,
minha parte Eu fiz.
Agora é você Filho que diz.
E se vier um Trineto
Num futuro abençoado,
Vai ouvir dos mais antigos
O legado preservado.
Que um nome vale pouco
Sem caráter ao seu lado.
Meu Bisavô começou,
meu Pai continuou,
minha parte Eu fiz.
Agora é você Filho que diz.
Assim segue a corrente
Que o tempo nunca desfez,
De Bisavô para Neto,
De filho para outra vez.
Pois quem honra suas raízes
Multiplica sua altivez.
Meu Bisavô começou,
meu Pai continuou,
minha parte Eu fiz.
Agora é você Filho que diz.
RAÍZES DA VERDADE
Enterraram sementes de promessas
Nos campos férteis da esperança,
Regaram discursos com aplausos
E colheram dúvidas na lembrança.
A verdade, porém, não vive nas vitrines,
Nem nos palácios de mármore polido;
Ela cresce escondida sob a terra,
Onde o povo pisa, sofre e é ouvido.
Suas raízes atravessam mandatos,
Não conhecem partidos ou bandeiras;
Bebem das lágrimas dos injustiçados
E da força das mãos trabalhadeiras.
Enquanto alguns disputam os galhos,
Os frutos e a sombra do poder,
A raiz permanece silenciosa,
Preparando o tempo de florescer.
Pois a mentira teme a profundidade,
Necessita da pressa e da aparência;
A verdade aceita a demora,
Mas nunca renuncia à existência.
E quando o vento da história sopra,
Levando embora folhas e vaidades,
Fica de pé apenas o que foi plantado
Nas raízes profundas da verdade.
FESTA NA CHUVA
Quando a chuva vem cantando
Nos telhados do sertão,
Parece que a natureza
Faz festa no coração.
Cada gota é um convite,
Cada nuvem, uma canção.
As crianças, sorridentes,
Correm soltas pelo chão,
Fazem barcos de papel
Navegando na enxurrada então.
Pulam poças, dão risadas,
Sem temer repreensão.
Os jovens, no campinho,
Transformam lama em diversão,
Jogam bola entre os pingos
Com coragem e paixão.
Cada gol vira uma festa,
Cada queda uma emoção.
Os homens seguem na lida,
Com fé, força e devoção,
Lançando sementes à terra
Com esperança na mão.
Pois quem planta sob a chuva
Colhe fartura e pão.
Os velhos, atrás da janela,
Contemplam a imensidão,
Vendo o tempo desenhar
Memórias no coração.
Cada gota lhes desperta
Uma antiga recordação.
As donzelas sonham longe,
Em doce imaginação,
Tecendo futuros encontros
Feitos de amor e paixão.
Enquanto a chuva borda versos
Na moldura da estação.
As senhoras, na varanda,
Na cadeira de balanço então,
Só espiando o movimento
Da rua e da plantação.
Guardam no olhar a sabedoria
De toda uma geração.
De repente, no horizonte,
Surge em bela aparição
Um enorme arco-íris
Anunciando a renovação,
Como uma ponte colorida
Entre a terra e a criação.
E as plantas, agradecidas,
Rompem a escuridão,
Brotam verdes, vigorosas,
Num milagre de expansão.
Pois a chuva é a mensageira
Da vida em transformação.
Assim acontece a festa
Que não precisa salão:
Basta chuva, céu e terra,
Esperança e gratidão.
Porque quando a água chega,
Floresce toda a criação.
MONARQUIA DO AMOR
No reino verde de Itaquitinga,
onde o vento espalha raiz,
floresceu um trono de afeto
sob um céu sereno e feliz.
Entre canaviais e memórias,
entre o campo e a matriz,
Israel tomou por coroa
o sorriso da Beatriz.
No reinado de Itaquitinga
a felicidade é Imperatriz.
Não governam com espadas,
nem decretos por um triz;
seu poder nasce do abraço,
da palavra que bendiz.
Quando o Rei estende a mão,
quando a Rainha a conduz,
o amor acende caminhos
como estrelas dando luz.
No reinado de Itaquitinga
a felicidade é Imperatriz.
Israel, monarca do sonho,
cavaleiro aprendiz,
aprendeu que a maior riqueza
é amar e ser feliz.
Beatriz, rainha das flores,
de coração sempre gentil,
transforma simples instantes
em tesouros do Brasil.
No reinado de Itaquitinga
a felicidade é Imperatriz.
As muralhas desse reino
não são feitas de verniz;
são erguidas com respeito,
com ternura que não diz.
Seu castelo tem alpendres,
tem varanda e tem raiz;
e a bandeira que tremula
é a esperança que reluz.
No reinado de Itaquitinga
a felicidade é Imperatriz.
Quando o tempo passar ligeiro
e a juventude se for,
ficará gravada na história
a grandeza desse amor.
Pois há reinos que se acabam,
há impérios por um triz;
mas o reino dos que amam
permanece e sempre existe.
E dirá o povo em festa,
cantando pela matriz:
No reinado de Itaquitinga
a felicidade é Imperatriz.
EU, POEMA DE MIM
Sou verso antes da palavra,
eco antes do som,
mistério que se procura
no espelho do próprio dom.
Habito em muitas moradas,
sou plural em cada fim;
às vezes nem me conheço
quando faço poema de mim.
Sou o eu lírico que canta
o amor, a dor e a esperança,
que veste roupas de sonho
e brinca com a lembrança.
Sou o eu inanimado,
pedra, estrada e paredão;
dou voz ao banco da praça,
à enxada, ao velho portão.
Sou a poeira do caminho,
a folha seca a cair,
o relógio esquecido
que continua a seguir.
Sou também o abstrato,
o que ninguém pode tocar;
sou saudade, sou silêncio,
sou vontade de ficar.
Sou a dúvida da noite,
a fé buscando razão,
o medo escondido em sombras,
a coragem do coração.
Mas sou também o real,
carne, osso e cicatriz;
sou o homem que tropeça
na procura de ser feliz.
Carrego marcas do tempo,
vitórias, perdas e ais;
sou feito de muitas vidas
que já não voltam jamais.
E quando junto esses eus
num só verso, enfim, assim,
descubro que o universo
fez um poema de mim.
Pois sou palavra e ausência,
fantasia e chão sem fim;
sou o que escrevo no mundo
e o mundo escreve em mim.
TSAS A MORTE LENTA
Pela manhã a tela acende,
faz da janela um muro digital.
O corpo esquece o movimento,
a alma perde o rumo natural.
O sofá abraça sem maldade,
convida ao descanso e à rendição.
Pouco a pouco prende os passos,
transforma a força em ilusão.
O açúcar veste roupa de festa,
adoça a boca, seduz o paladar.
Mas cobra caro pelo encanto,
quando chega a hora de cobrar.
O sal tempera a convivência,
dá sabor ao feijão e ao pão.
Porém, em excesso silencioso,
cerca a vida de preocupação.
São prazerosos, mas é morte lenta para todos.
São prazerosos, mas é morte lenta para todos.
No brilho da tela, no abraço do sofá,
no doce do açúcar e no sal a transbordar.
São prazerosos, mas é morte lenta para todos.
Não vieram como inimigos,
nem carregam espada ou canhão.
Entram sorrindo pela porta,
ganham espaço no coração.
A televisão rouba o tempo,
o sofá negocia a disposição.
O açúcar compra o instante,
o sal disfarça a condição.
Enquanto o mundo corre lá fora,
a vida pede participação.
Caminho, esforço e equilíbrio
são remédios sem prescrição.
São prazerosos, mas é morte lenta para todos.
São prazerosos, mas é morte lenta para todos.
Quando o excesso vira costume,
e o costume vira prisão,
São prazerosos, mas é morte lenta para todos.
Então façamos nova escolha,
sem guerra, culpa ou radicalismo.
Que a tela informe, não domine;
que o descanso não seja abismo.
Que o açúcar seja visita,
não morador do coração.
Que o sal conheça limites,
respeitando a moderação.
Pois viver é mais que prazer,
é movimento, consciência e valor.
E o tempo, que tudo revela,
é o mais exigente julgador.
ZÉ VOLANTE E MERCEDINHA (BOLEIA DA 1313)
Depois de haver nascido na boleia da 1313 e ter meus primeiros dias dentro dela vívido, fiquei uns tempos distante, pois meu pai, Zé Volante, uma viagem longa havia conseguido.
Quando ele retornou, eu já estava um pouco crescido. Lembro-me bem do ronco do motor e da buzina, que era aquele estampido. Meu pai chegou, saí correndo aos gritos, abracei meu velho e fiquei admirando sorridente a Mercedinha, meu caminhão magnífico.
Saltos de felicidade de longe eram vistos, atraindo as atenções de familiares e amigos. Logo todos entenderam que Zé Volante chegou, e a 1313 tá consigo. Minha mãe chegou e juntou seu abraço comigo. Pegamos o velho pelos braços e levamos para casa, seu segundo abrigo.
As histórias de viagem ainda hoje trago comigo, pois me lembro até das caronas que ele dava aos amigos. Passando por Ilhéus, quem pegou carona foi Jorge Amado, porque estava apressado para o lançamento do livro “Gabriela, Cravo e Canela”.
Um dia, logo no amanhecer, para mim foi inesquecível. Meu pai me chamou para viajar dentro da boleia daquele caminhão incrível. Eram tantos detalhes: luzes, painéis, botões, chaves, alavancas, volante e a visão do motorista, nada passou despercebido.
Fiquei abestalhado de tanta alegria, querendo tudo conhecer, e muita euforia envolvia o meu ser. Eram tantas perguntas que mal completava uma, e a outra já queria saber. Fui viajando num imaginário de tantas viagens.
As paisagens, cidades e amigos compõem a felicidade que um dia iria conhecer. Essa minha primeira viagem me deu a certeza de que um bom motorista eu queria ser. E, em breve, junto com a 1313 tudo isso eu irei viver.
ZÉ VOLANTE E MERCEDINHA (A DESPEDIDA)
Após conseguir minha habilitação, muitas viagens realizei nesta vida, mas existe uma que chamo de despedida. Não havia entregas, e a 1313 na garagem permanecia. Era um dia, como tantos outros, de idas e vindas.
A família reunida com os amigos que nos visitavam todos os dias. Era sagrado esse encontro em todas as vindas. Meu pai, Zé Volante, contando as viagens de um jeito que só ele sabia, não perdia um detalhe, pelo contrário, acrescentava e sorria.
À tardinha, seu cochilo era certo, e todos já sabiam que horas depois ele voltaria. A gente ficava aguardando pra saber que nova história Zé Volante contaria. Fiquei desconfiado do aceno do meu pai naquele dia, sentindo no fundo do coração um sentimento de despedida.
Muitas horas se passaram, e Zé Volante não aparecia. Alguns já perguntava se ele ainda dormia. Minha mãe foi procurar saber o que acontecia. Houve gritos e muito desespero, e eu nada entendia. Minha mãe pediu chorando: “Acorde Zé Volante!” Mas, por mais que eu suplicasse, ele não acordaria.
Ele fez a viagem que todos nós faremos um dia. Naquele aceno, meu pai de mim se despedia. Os olhos mostram o que o coração sentiria. Caminhando lento, ele, pela última vez, me ensinou que nessa viagem não tem correria. O destino tá traçado, e a encomenda é a nossa vida.
ZÉ VOLANTE E MERCEDINHA – "A PRIMEIRA VIAGEM"
Depois de viajar pelo interior da 1313 e conhecer seus comandos e compartimentos, fui convidado pelo meu pai, "Zé Volante", para ajudá-lo numa entrega de cestas básicas aos desabrigados de uma enchente.
Fiquei eufórico e contente, mas triste pelo sofrimento daquela gente. Minha primeira viagem, sobravam sentimentos. Ajudei nos preparativos, observando os procedimentos. A carga, a amarração, o roteiro e a segurança da gente.
Tudo nos conformes, escutei o ronco do motor e a longa estrada em nossa frente. Agradecemos a Deus, rezamos o Pai Nosso e seguimos em frente. Eram dias de estrada, mas tudo me deixava contente.
Os momentos tristes vinham quando pensava no sofrimento daquela gente. Próximo ao destino, um grande engarrafamento. Muitas pessoas andando sem rumo, fugindo da enchente. Um guarda rodoviário nos informou que uma ponte desabou, e por isso não seria possível o acesso da gente.
Meu pai argumentou: "Levo comida, e nada vai me impedir de entregar àquela gente”. Diga outro caminho que seguimos o destino em frente. O guarda disse: "Existe uma passagem,
porém perigosa. Se o caminhão não for bom, é melhor aguardar, para evitar acidentes”.
“Não seja por isso, me dê o trajeto que a 1313 assume o risco”, insistiu meu pai. Pegamos o novo destino e seguimos contentes. Passamos por barreiras, andamos na beira de precipícios, cruzamos margens de rios e chegamos à cidade inesperadamente.
Distribuímos as cestas, ajudamos na reconstrução. Ainda hoje, sinto um aperto no coração, mas voltamos para casa com orgulho e satisfação. Agradecemos a Deus por nos ter ajudado a cumprir essa missão.
ZÉ VOLANTE E MERCÊDINHA
Caminhoneiro afamado na região, Zé Volante era por todos conhecido, muito respeitado e amado. Dirigir caminhão é sua sina; aprendeu com o pai, que herdou do avô no passado.
Recebeu do pai um Ford antigo, o maior patrimônio da família. De viagem em viagem, juntava dinheiro para realizar seu sonho, sua grande conquista.
Sonhava comprar uma Mercedes 1313 seminova, pois uma nova não podia. Os anos se passaram, e o sonho se realizaria. Agora na garagem uma Mercedes 1313 existia.
Feliz e realizado, não demorou a pedir em casamento a bela Patrícia. Moça educada, que também era sonho de conquista pra formar uma família para toda vida.
Casa e caminhão são suas duas moradias, mas não se sabe onde Patrícia ficou grávida. O que se sabe é que nove meses depois, em 19 de março, nasce na boleia da 1313 o varão da família.
Em homenagem ao santo, com o nome de José lhe batiza, mas é o apelido de Mercedinha que se eterniza. E é agora que minha história se inicia.
BOI TALUDO
Da minha infância doce e dolorida, lembro-me dos fatos, alguns inesquecíveis. Esse que aqui início a contar é lindo e incrível, fala de um boi aqui no sítio nascido.
Refiro-me ao Boi Taludo, o maior e mais querido, forte e manso, mas bravo se seus donos são agredidos.
É o Sanção dos animais do sítio. Protetor, amigo de todos os animais da região. Recebe carinho e amor como forma de gratidão.
Forte e valente, no trabalho não dá mole não. Arar a terra pra ele é moleza; ouvi falar que Taludo já puxou um caminhão.
Lobos e raposas não chegam perto do sítio, não. Porque Taludo fica sempre na guarda e de prontidão.
Muitos querem lhe levar para os rodeios, mas ele não vai, não. Dócil e manso, não serve para esse tipo de apresentação.
Seus donos, que o conhecem bem só para desfilar e fotografar. Nisso Taludo é bom, conquistando sempre o primeiro lugar.
Era assim a vida de Taludo, pacata e simples, de inverno a verão. Amado por todos, que lhe devotavam muita admiração.
Num certo dia, choveu muito na região. E a casa do sítio, que era antiga, com seu velho telhado, não iria aguentar toda aquela agitação.
Houve um grande estrondo, e as madeiras foram ao chão. Todos correram para se proteger, mas Taludo não.
Ficou segurando o peso do telhado, dando tempo pra saída da família do patrão. Quando todos se retiraram, o telhado veio ao chão.
Nesse dia, morreria o boi mais forte da região. Taludo deu a vida para salvar a família do seu patrão.
Construíram uma estátua de Taludo na entrada do sítio, homenageando o boi mais forte e valente de toda a região.
A JAQUEIRA DE SÃO JOSÉ
Segundo uma história do município de Itaquitinga/PE, todas as manhãs um menino saía para caçar passarinhos nos arredores, com sua baladeira, usando como munição caroços de jaca.
Certo dia, ele avistou um pássaro no céu, que, pela distância, não o reconheceu; mesmo assim, armou sua baladeira com o último caroço de jaca que havia e não se abateu.
Esticou a baladeira tão forte que a liga ficou fina e mirou no pássaro com a certeza de que o alvo acertaria. Soltou os dedos, e o caroço subiu feito um míssil teleguiado, mesmo assim o pássaro não alcançaria.
O caroço desceu com o dobro da velocidade com que havia subido. Era mês de março, dia 19, e a chuva tinha castigado o município, mas a terrinha estava preparada para o plantio do milho.
Quando o caroço desceu, na terra úmida se meteu, numa profundidade tão grande que o menino nunca mais o encontrou. Curiosamente, após o fato acontecido o menino marcou o local e protegeu de todos os perigos.
Contou o fato a seu pai, que logo se tornou seu aliado e fiel guardião do local escolhido. Os anos se passaram, e o lugar protegido recebeu plantação de milho e mandioca, mas o cantinho não era mexido.
Quando menos se esperava, num belo dia de sol, um broto de jaqueira havia surgido. Foi uma festa no município, pois todos, na região, a história já tinha ouvido.
Mais anos se passaram, e os cuidados haviam permanecido, mesmo com o menino já rapaz e seu velho pai envelhecido. Certo dia, o rapaz viajou, porque precisava estudar pra ser militar.
Seu pai cansado e fraco, das terras não poderia mais cuidar. Precisando de dinheiro para sobreviver e os estudos do filho pagar, teve que as terras vender a Luiz Maranhão, um usineiro do lugar.
A este pediu para a jaqueira lá deixar. Contou-lhe a história, e o usineiro ficou encantado e resolveu de a jaqueira cuidar. Fez um campo de futebol para a população jogar, deixando a jaqueira perto pra na farta sombra descansar.
O tempo continuou passando, e nas férias o rapaz vinha a jaqueira visitar. Já subia em seus galhos, chegando até com ela conversar. Perguntava pelo pássaro, pois nunca havia visto um igual em outro lugar.
A jaqueira balançava seus galhos como se tivesse respondendo ao que o rapaz insistia em perguntar. Outros anos se passaram, e o usineiro, velho e cansado, teve que as terras lotear. Fez um acordo com o prefeito Zeca Vidal para a jaqueira nunca derrubar.
O prefeito, que já conhecia a história da jaqueira, se comprometeu de em um lote ela ficar e, ao seu lado, uma igreja mandou edificar. Os lotes foram distribuídos e vendidos, mas o terreno da jaqueira ficou com Dona Ester, a tabeliã do cartório, porque ninguém quis comprar.
A jaqueira ficava no centro, impossibilitando uma casa levantar. O rapaz, agora militar, com sua família veio a terrinha visitar. Sabendo do acontecido, foi a dona do cartório procurar e lhe fez a proposta de o terreno comprar.
Sabendo da história do militar com aquela jaqueira e o lugar, pediu-lhe valor acima dos demais terrenos que estava a negociar.
Sem pestanejar, o militar fez a compra do terreno para da jaqueira cuidar. Foi uma festa no município, pois todos tinham certeza que ela permaneceria em seu lugar.
No dia 19 de março, na festa de São José, foi inaugurada a igreja para o santo homenagear. Nesse dia, batizaram a árvore com o nome de "Jaqueira de São José".
0 militar instalou uma pousada para a família visitar. E criou um jardim, onde, entre gramas e flores, há uma jaqueira no centro pra se cuidar.
ONTEM E HOJE
Ontem,
a carta cruzava estradas,
levando notícias e emoção;
Hoje,
a mensagem corta os céus
na velocidade da conexão.
Ontem,
o avô contava histórias
à sombra do velho juazeiro;
Hoje,
o mundo inteiro cabe
na tela de um aparelho.
Ontem,
a enxada riscava a terra
sob o calor do verão;
Hoje,
máquinas guiadas por satélites
fazem a mesma plantação.
Ontem,
o valor estava na palavra,
no aperto firme da mão;
Hoje,
contratos digitais registram
o peso da obrigação.
Mas nem tudo mudou,
nem tudo ficou para trás;
a tradição guarda as raízes,
a inovação abre portais.
A primeira ensina quem somos,
a segunda onde chegar;
uma sustenta o presente,
a outra faz avançar.
Pois o futuro mais seguro
não nasce da divisão:
é quando o ontem oferece sabedoria
e o hoje traz renovação.
CALÇADA DA ROÇA
Quando o Sol se despedia
Por detrás da serrania,
E o céu vestia de ouro
A última luz do dia,
Lá estava ela, paciente,
Feita sala de estar do chão:
A velha calçada da roça,
Ponto de encontro e união.
Chegava um com sua cadeira,
Outro com banco de madeira,
Trazendo histórias guardadas
Na alma a vida inteira.
Ali não havia relógio
Mandando o tempo correr.
A pressa ficava distante
Para a conversa acontecer.
Falava-se da chuva antiga,
Do inverno que prometia,
Do milho, do feijão plantado,
Da colheita que viria.
Os meninos corriam soltos,
Inventando assombração.
Enquanto os velhos contavam
Casos de outra geração.
As moças trocavam sorrisos,
Os rapazes olhares também.
Muita história de amor nasceu
Sem que ninguém soubesse bem.
Quando a noite se achegava
Com seu manto estrelado,
A Lua fazia companhia
Ao povo ali acomodado.
E cada prosa partilhada
Virava riqueza sem preço.
Pois quem reparte palavras
Também reparte afeto.
Hoje o mundo corre ligeiro,
Pela tela e pela conexão.
Mas ainda mora saudade
No fundo do coração.
Saudade daquele costume
Que o tempo não levou embora:
Ver o dia se despedindo
Sentado do lado de fora.
Porque a calçada da roça
Nunca foi somente lugar.
Foi varanda da amizade,
Escola do escutar,
Foi descanso para o corpo,
Foi remédio para a solidão,
Foi o endereço mais simples
Da humana comunhão.
WHISK DE ITAQUITINGA
Depois da segunda dose
Fiz tanta coisa
Que Nosso Senhor
Não acreditou de lá de cima
Dei salto, soutei, pulo três por quatro
Que mestre de maracatu não ensina
Chamei Lampião de frouxo
Pra brigar na lazarina
Debochei de Luiz Gonzaga
Cantando em praça o Xote das Meninas
Incabulei o Padre Cícero
Abençoando os matutos da Caatinga
Provoquei o mestre Chico Science
Comendo caranguejo na praia do Pina
Calei o rei Reginaldo Rossi
Cantando Garçom no bar da esquina
Desafiei Alceu Valença
Cantando Anunciação no Carnaval de Olinda
Frustrei Ariano Suassuna
Mentindo mais que Chicó e João Grilo nas telinhas
Ganhei de Miguel Arraes
Na disputa da reeleição na terrinha
Magoei o mestre Vitalino
Fazendo o maior presépio de barro da festa natalina
De tudo que fiz
Só me arrependo de ter
Decepcionado o de lá de cima
Se não fosse por isso
Tomava mais duas doses
Do Whisk de Itaquitinga.
RELÓGIO DE DEUS
Quarenta dias...
Tempo de chuva sobre a Terra, tempo de água sobre os erros, tempo de uma arca navegando entre o juízo e a esperança.
Quarenta dias...
O dilúvio cobriu montanhas, mas não afogou a promessa. Quando a pomba voltou com o ramo, a humanidade aprendeu que toda renovação nasce depois de uma tempestade.
Quarenta dias...
No deserto caminhou Moisés, entre o fogo da presença e o peso da missão. A pedra recebeu palavras, e o povo recebeu direção. A aprovação exige disciplina, e a liberdade cobra responsabilidade.
Quarenta dias...
Espias atravessaram Canaã, vendo cachos de abundância e muralhas de temor. Uns enxergaram gigantes, outros enxergaram futuro. A prova revelou o tamanho da fé de cada coração.
Quarenta dias...
Elias caminhou até Horebe, alimentado pela esperança quando a força já faltava. Aprendeu que Deus não mora apenas no trovão e no terremoto, mas também na voz silenciosa que resiste dentro da alma.
Quarenta dias...
No deserto esteve Cristo, entre a fome e a tentação, entre o poder e a renúncia. Ali não venceu pela espada, mas pela fidelidade. A aprovação tornou-se exemplo para todas as gerações.
Quarenta dias...
Após a ressurreição, o Mestre permaneceu entre os seus, ensinando que a morte não possui a última palavra. A renovação caminhava viva entre aqueles que ainda duvidavam.
Quarenta dias...
Punição para os soberbos. Salvação para os justos. Provação para os chamados. Renovação para os que perseveram.
Quarenta dias...
Não são apenas uma medida de tempo. São a forja da humanidade. São o intervalo entre o erro e o perdão, entre a queda e o recomeço, entre a travessia e a chegada.
Se hoje fossem dados quarenta dias à humanidade, não seriam para contar horas, mas para contar escolhas.
Pois quarenta dias, desde os tempos antigos, sempre foram o relógio de Deus marcando a oportunidade de um novo mundo nascer.
