Coleção pessoal de Negreiros

21 - 40 do total de 345 pensamentos na coleção de Negreiros

EU, POEMA DE MIM

Sou verso antes da palavra,
eco antes do som,
mistério que se procura
no espelho do próprio dom.

Habito em muitas moradas,
sou plural em cada fim;
às vezes nem me conheço
quando faço poema de mim.

Sou o eu lírico que canta
o amor, a dor e a esperança,
que veste roupas de sonho
e brinca com a lembrança.

Sou o eu inanimado,
pedra, estrada e paredão;
dou voz ao banco da praça,
à enxada, ao velho portão.

Sou a poeira do caminho,
a folha seca a cair,
o relógio esquecido
que continua a seguir.

Sou também o abstrato,
o que ninguém pode tocar;
sou saudade, sou silêncio,
sou vontade de ficar.

Sou a dúvida da noite,
a fé buscando razão,
o medo escondido em sombras,
a coragem do coração.

Mas sou também o real,
carne, osso e cicatriz;
sou o homem que tropeça
na procura de ser feliz.

Carrego marcas do tempo,
vitórias, perdas e ais;
sou feito de muitas vidas
que já não voltam jamais.

E quando junto esses eus
num só verso, enfim, assim,
descubro que o universo
fez um poema de mim.

Pois sou palavra e ausência,
fantasia e chão sem fim;
sou o que escrevo no mundo
e o mundo escreve em mim.

TSAS A MORTE LENTA

Pela manhã a tela acende,
faz da janela um muro digital.
O corpo esquece o movimento,
a alma perde o rumo natural.

O sofá abraça sem maldade,
convida ao descanso e à rendição.
Pouco a pouco prende os passos,
transforma a força em ilusão.

O açúcar veste roupa de festa,
adoça a boca, seduz o paladar.
Mas cobra caro pelo encanto,
quando chega a hora de cobrar.

O sal tempera a convivência,
dá sabor ao feijão e ao pão.
Porém, em excesso silencioso,
cerca a vida de preocupação.

São prazerosos, mas é morte lenta para todos.
São prazerosos, mas é morte lenta para todos.
No brilho da tela, no abraço do sofá,
no doce do açúcar e no sal a transbordar.
São prazerosos, mas é morte lenta para todos.

Não vieram como inimigos,
nem carregam espada ou canhão.
Entram sorrindo pela porta,
ganham espaço no coração.

A televisão rouba o tempo,
o sofá negocia a disposição.
O açúcar compra o instante,
o sal disfarça a condição.

Enquanto o mundo corre lá fora,
a vida pede participação.
Caminho, esforço e equilíbrio
são remédios sem prescrição.

São prazerosos, mas é morte lenta para todos.
São prazerosos, mas é morte lenta para todos.
Quando o excesso vira costume,
e o costume vira prisão,
São prazerosos, mas é morte lenta para todos.

Então façamos nova escolha,
sem guerra, culpa ou radicalismo.
Que a tela informe, não domine;
que o descanso não seja abismo.

Que o açúcar seja visita,
não morador do coração.
Que o sal conheça limites,
respeitando a moderação.

Pois viver é mais que prazer,
é movimento, consciência e valor.
E o tempo, que tudo revela,
é o mais exigente julgador.

ZÉ VOLANTE E MERCEDINHA (BOLEIA DA 1313)


Depois de haver nascido na boleia da 1313 e ter meus primeiros dias dentro dela vívido, fiquei uns tempos distante, pois meu pai, Zé Volante, uma viagem longa havia conseguido.
Quando ele retornou, eu já estava um pouco crescido. Lembro-me bem do ronco do motor e da buzina, que era aquele estampido. Meu pai chegou, saí correndo aos gritos, abracei meu velho e fiquei admirando sorridente a Mercedinha, meu caminhão magnífico.
Saltos de felicidade de longe eram vistos, atraindo as atenções de familiares e amigos. Logo todos entenderam que Zé Volante chegou, e a 1313 tá consigo. Minha mãe chegou e juntou seu abraço comigo. Pegamos o velho pelos braços e levamos para casa, seu segundo abrigo.
As histórias de viagem ainda hoje trago comigo, pois me lembro até das caronas que ele dava aos amigos. Passando por Ilhéus, quem pegou carona foi Jorge Amado, porque estava apressado para o lançamento do livro “Gabriela, Cravo e Canela”.
Um dia, logo no amanhecer, para mim foi inesquecível. Meu pai me chamou para viajar dentro da boleia daquele caminhão incrível. Eram tantos detalhes: luzes, painéis, botões, chaves, alavancas, volante e a visão do motorista, nada passou despercebido.
Fiquei abestalhado de tanta alegria, querendo tudo conhecer, e muita euforia envolvia o meu ser. Eram tantas perguntas que mal completava uma, e a outra já queria saber. Fui viajando num imaginário de tantas viagens.
As paisagens, cidades e amigos compõem a felicidade que um dia iria conhecer. Essa minha primeira viagem me deu a certeza de que um bom motorista eu queria ser. E, em breve, junto com a 1313 tudo isso eu irei viver.

ZÉ VOLANTE E MERCEDINHA (A DESPEDIDA)


Após conseguir minha habilitação, muitas viagens realizei nesta vida, mas existe uma que chamo de despedida. Não havia entregas, e a 1313 na garagem permanecia. Era um dia, como tantos outros, de idas e vindas.
A família reunida com os amigos que nos visitavam todos os dias. Era sagrado esse encontro em todas as vindas. Meu pai, Zé Volante, contando as viagens de um jeito que só ele sabia, não perdia um detalhe, pelo contrário, acrescentava e sorria.
À tardinha, seu cochilo era certo, e todos já sabiam que horas depois ele voltaria. A gente ficava aguardando pra saber que nova história Zé Volante contaria. Fiquei desconfiado do aceno do meu pai naquele dia, sentindo no fundo do coração um sentimento de despedida.
Muitas horas se passaram, e Zé Volante não aparecia. Alguns já perguntava se ele ainda dormia. Minha mãe foi procurar saber o que acontecia. Houve gritos e muito desespero, e eu nada entendia. Minha mãe pediu chorando: “Acorde Zé Volante!” Mas, por mais que eu suplicasse, ele não acordaria.
Ele fez a viagem que todos nós faremos um dia. Naquele aceno, meu pai de mim se despedia. Os olhos mostram o que o coração sentiria. Caminhando lento, ele, pela última vez, me ensinou que nessa viagem não tem correria. O destino tá traçado, e a encomenda é a nossa vida.

ZÉ VOLANTE E MERCEDINHA – "A PRIMEIRA VIAGEM"


Depois de viajar pelo interior da 1313 e conhecer seus comandos e compartimentos, fui convidado pelo meu pai, "Zé Volante", para ajudá-lo numa entrega de cestas básicas aos desabrigados de uma enchente.
Fiquei eufórico e contente, mas triste pelo sofrimento daquela gente. Minha primeira viagem, sobravam sentimentos. Ajudei nos preparativos, observando os procedimentos. A carga, a amarração, o roteiro e a segurança da gente.
Tudo nos conformes, escutei o ronco do motor e a longa estrada em nossa frente. Agradecemos a Deus, rezamos o Pai Nosso e seguimos em frente. Eram dias de estrada, mas tudo me deixava contente.
Os momentos tristes vinham quando pensava no sofrimento daquela gente. Próximo ao destino, um grande engarrafamento. Muitas pessoas andando sem rumo, fugindo da enchente. Um guarda rodoviário nos informou que uma ponte desabou, e por isso não seria possível o acesso da gente.
Meu pai argumentou: "Levo comida, e nada vai me impedir de entregar àquela gente”. Diga outro caminho que seguimos o destino em frente. O guarda disse: "Existe uma passagem,
porém perigosa. Se o caminhão não for bom, é melhor aguardar, para evitar acidentes”.


“Não seja por isso, me dê o trajeto que a 1313 assume o risco”, insistiu meu pai. Pegamos o novo destino e seguimos contentes. Passamos por barreiras, andamos na beira de precipícios, cruzamos margens de rios e chegamos à cidade inesperadamente.
Distribuímos as cestas, ajudamos na reconstrução. Ainda hoje, sinto um aperto no coração, mas voltamos para casa com orgulho e satisfação. Agradecemos a Deus por nos ter ajudado a cumprir essa missão.

ZÉ VOLANTE E MERCÊDINHA

Caminhoneiro afamado na região, Zé Volante era por todos conhecido, muito respeitado e amado. Dirigir caminhão é sua sina; aprendeu com o pai, que herdou do avô no passado.
Recebeu do pai um Ford antigo, o maior patrimônio da família. De viagem em viagem, juntava dinheiro para realizar seu sonho, sua grande conquista.
Sonhava comprar uma Mercedes 1313 seminova, pois uma nova não podia. Os anos se passaram, e o sonho se realizaria. Agora na garagem uma Mercedes 1313 existia.
Feliz e realizado, não demorou a pedir em casamento a bela Patrícia. Moça educada, que também era sonho de conquista pra formar uma família para toda vida.
Casa e caminhão são suas duas moradias, mas não se sabe onde Patrícia ficou grávida. O que se sabe é que nove meses depois, em 19 de março, nasce na boleia da 1313 o varão da família.
Em homenagem ao santo, com o nome de José lhe batiza, mas é o apelido de Mercedinha que se eterniza. E é agora que minha história se inicia.

BOI TALUDO


Da minha infância doce e dolorida, lembro-me dos fatos, alguns inesquecíveis. Esse que aqui início a contar é lindo e incrível, fala de um boi aqui no sítio nascido.
Refiro-me ao Boi Taludo, o maior e mais querido, forte e manso, mas bravo se seus donos são agredidos.
É o Sanção dos animais do sítio. Protetor, amigo de todos os animais da região. Recebe carinho e amor como forma de gratidão.
Forte e valente, no trabalho não dá mole não. Arar a terra pra ele é moleza; ouvi falar que Taludo já puxou um caminhão.
Lobos e raposas não chegam perto do sítio, não. Porque Taludo fica sempre na guarda e de prontidão.


Muitos querem lhe levar para os rodeios, mas ele não vai, não. Dócil e manso, não serve para esse tipo de apresentação.
Seus donos, que o conhecem bem só para desfilar e fotografar. Nisso Taludo é bom, conquistando sempre o primeiro lugar.
Era assim a vida de Taludo, pacata e simples, de inverno a verão. Amado por todos, que lhe devotavam muita admiração.
Num certo dia, choveu muito na região. E a casa do sítio, que era antiga, com seu velho telhado, não iria aguentar toda aquela agitação.
Houve um grande estrondo, e as madeiras foram ao chão. Todos correram para se proteger, mas Taludo não.
Ficou segurando o peso do telhado, dando tempo pra saída da família do patrão. Quando todos se retiraram, o telhado veio ao chão.
Nesse dia, morreria o boi mais forte da região. Taludo deu a vida para salvar a família do seu patrão.


Construíram uma estátua de Taludo na entrada do sítio, homenageando o boi mais forte e valente de toda a região.

A JAQUEIRA DE SÃO JOSÉ


Segundo uma história do município de Itaquitinga/PE, todas as manhãs um menino saía para caçar passarinhos nos arredores, com sua baladeira, usando como munição caroços de jaca.
Certo dia, ele avistou um pássaro no céu, que, pela distância, não o reconheceu; mesmo assim, armou sua baladeira com o último caroço de jaca que havia e não se abateu.
Esticou a baladeira tão forte que a liga ficou fina e mirou no pássaro com a certeza de que o alvo acertaria. Soltou os dedos, e o caroço subiu feito um míssil teleguiado, mesmo assim o pássaro não alcançaria.
O caroço desceu com o dobro da velocidade com que havia subido. Era mês de março, dia 19, e a chuva tinha castigado o município, mas a terrinha estava preparada para o plantio do milho.
Quando o caroço desceu, na terra úmida se meteu, numa profundidade tão grande que o menino nunca mais o encontrou. Curiosamente, após o fato acontecido o menino marcou o local e protegeu de todos os perigos.
Contou o fato a seu pai, que logo se tornou seu aliado e fiel guardião do local escolhido. Os anos se passaram, e o lugar protegido recebeu plantação de milho e mandioca, mas o cantinho não era mexido.
Quando menos se esperava, num belo dia de sol, um broto de jaqueira havia surgido. Foi uma festa no município, pois todos, na região, a história já tinha ouvido.
Mais anos se passaram, e os cuidados haviam permanecido, mesmo com o menino já rapaz e seu velho pai envelhecido. Certo dia, o rapaz viajou, porque precisava estudar pra ser militar.
Seu pai cansado e fraco, das terras não poderia mais cuidar. Precisando de dinheiro para sobreviver e os estudos do filho pagar, teve que as terras vender a Luiz Maranhão, um usineiro do lugar.
A este pediu para a jaqueira lá deixar. Contou-lhe a história, e o usineiro ficou encantado e resolveu de a jaqueira cuidar. Fez um campo de futebol para a população jogar, deixando a jaqueira perto pra na farta sombra descansar.
O tempo continuou passando, e nas férias o rapaz vinha a jaqueira visitar. Já subia em seus galhos, chegando até com ela conversar. Perguntava pelo pássaro, pois nunca havia visto um igual em outro lugar.
A jaqueira balançava seus galhos como se tivesse respondendo ao que o rapaz insistia em perguntar. Outros anos se passaram, e o usineiro, velho e cansado, teve que as terras lotear. Fez um acordo com o prefeito Zeca Vidal para a jaqueira nunca derrubar.
O prefeito, que já conhecia a história da jaqueira, se comprometeu de em um lote ela ficar e, ao seu lado, uma igreja mandou edificar. Os lotes foram distribuídos e vendidos, mas o terreno da jaqueira ficou com Dona Ester, a tabeliã do cartório, porque ninguém quis comprar.
A jaqueira ficava no centro, impossibilitando uma casa levantar. O rapaz, agora militar, com sua família veio a terrinha visitar. Sabendo do acontecido, foi a dona do cartório procurar e lhe fez a proposta de o terreno comprar.
Sabendo da história do militar com aquela jaqueira e o lugar, pediu-lhe valor acima dos demais terrenos que estava a negociar.
Sem pestanejar, o militar fez a compra do terreno para da jaqueira cuidar. Foi uma festa no município, pois todos tinham certeza que ela permaneceria em seu lugar.
No dia 19 de março, na festa de São José, foi inaugurada a igreja para o santo homenagear. Nesse dia, batizaram a árvore com o nome de "Jaqueira de São José".
0 militar instalou uma pousada para a família visitar. E criou um jardim, onde, entre gramas e flores, há uma jaqueira no centro pra se cuidar.

ONTEM E HOJE

Ontem,
a carta cruzava estradas,
levando notícias e emoção;
Hoje,
a mensagem corta os céus
na velocidade da conexão.

Ontem,
o avô contava histórias
à sombra do velho juazeiro;
Hoje,
o mundo inteiro cabe
na tela de um aparelho.

Ontem,
a enxada riscava a terra
sob o calor do verão;
Hoje,
máquinas guiadas por satélites
fazem a mesma plantação.

Ontem,
o valor estava na palavra,
no aperto firme da mão;
Hoje,
contratos digitais registram
o peso da obrigação.

Mas nem tudo mudou,
nem tudo ficou para trás;
a tradição guarda as raízes,
a inovação abre portais.

A primeira ensina quem somos,
a segunda onde chegar;
uma sustenta o presente,
a outra faz avançar.

Pois o futuro mais seguro
não nasce da divisão:
é quando o ontem oferece sabedoria
e o hoje traz renovação.

CALÇADA DA ROÇA


Quando o Sol se despedia
Por detrás da serrania,
E o céu vestia de ouro
A última luz do dia,


Lá estava ela, paciente,
Feita sala de estar do chão:
A velha calçada da roça,
Ponto de encontro e união.


Chegava um com sua cadeira,
Outro com banco de madeira,
Trazendo histórias guardadas
Na alma a vida inteira.


Ali não havia relógio
Mandando o tempo correr.
A pressa ficava distante
Para a conversa acontecer.


Falava-se da chuva antiga,
Do inverno que prometia,
Do milho, do feijão plantado,
Da colheita que viria.


Os meninos corriam soltos,
Inventando assombração.
Enquanto os velhos contavam
Casos de outra geração.


As moças trocavam sorrisos,
Os rapazes olhares também.
Muita história de amor nasceu
Sem que ninguém soubesse bem.


Quando a noite se achegava
Com seu manto estrelado,
A Lua fazia companhia
Ao povo ali acomodado.


E cada prosa partilhada
Virava riqueza sem preço.
Pois quem reparte palavras
Também reparte afeto.


Hoje o mundo corre ligeiro,
Pela tela e pela conexão.
Mas ainda mora saudade
No fundo do coração.


Saudade daquele costume
Que o tempo não levou embora:
Ver o dia se despedindo
Sentado do lado de fora.


Porque a calçada da roça
Nunca foi somente lugar.
Foi varanda da amizade,
Escola do escutar,


Foi descanso para o corpo,
Foi remédio para a solidão,
Foi o endereço mais simples
Da humana comunhão.

WHISK DE ITAQUITINGA


Depois da segunda dose
Fiz tanta coisa
Que Nosso Senhor
Não acreditou de lá de cima


Dei salto, soutei, pulo três por quatro
Que mestre de maracatu não ensina


Chamei Lampião de frouxo
Pra brigar na lazarina


Debochei de Luiz Gonzaga
Cantando em praça o Xote das Meninas


Incabulei o Padre Cícero
Abençoando os matutos da Caatinga


Provoquei o mestre Chico Science
Comendo caranguejo na praia do Pina


Calei o rei Reginaldo Rossi
Cantando Garçom no bar da esquina


Desafiei Alceu Valença
Cantando Anunciação no Carnaval de Olinda


Frustrei Ariano Suassuna
Mentindo mais que Chicó e João Grilo nas telinhas


Ganhei de Miguel Arraes
Na disputa da reeleição na terrinha


Magoei o mestre Vitalino
Fazendo o maior presépio de barro da festa natalina


De tudo que fiz
Só me arrependo de ter
Decepcionado o de lá de cima


Se não fosse por isso
Tomava mais duas doses
Do Whisk de Itaquitinga.

RELÓGIO DE DEUS

Quarenta dias...
Tempo de chuva sobre a Terra, tempo de água sobre os erros, tempo de uma arca navegando entre o juízo e a esperança.
Quarenta dias...
O dilúvio cobriu montanhas, mas não afogou a promessa. Quando a pomba voltou com o ramo, a humanidade aprendeu que toda renovação nasce depois de uma tempestade.
Quarenta dias...
No deserto caminhou Moisés, entre o fogo da presença e o peso da missão. A pedra recebeu palavras, e o povo recebeu direção. A aprovação exige disciplina, e a liberdade cobra responsabilidade.
Quarenta dias...
Espias atravessaram Canaã, vendo cachos de abundância e muralhas de temor. Uns enxergaram gigantes, outros enxergaram futuro. A prova revelou o tamanho da fé de cada coração.
Quarenta dias...
Elias caminhou até Horebe, alimentado pela esperança quando a força já faltava. Aprendeu que Deus não mora apenas no trovão e no terremoto, mas também na voz silenciosa que resiste dentro da alma.
Quarenta dias...
No deserto esteve Cristo, entre a fome e a tentação, entre o poder e a renúncia. Ali não venceu pela espada, mas pela fidelidade. A aprovação tornou-se exemplo para todas as gerações.
Quarenta dias...
Após a ressurreição, o Mestre permaneceu entre os seus, ensinando que a morte não possui a última palavra. A renovação caminhava viva entre aqueles que ainda duvidavam.
Quarenta dias...
Punição para os soberbos. Salvação para os justos. Provação para os chamados. Renovação para os que perseveram.
Quarenta dias...
Não são apenas uma medida de tempo. São a forja da humanidade. São o intervalo entre o erro e o perdão, entre a queda e o recomeço, entre a travessia e a chegada.
Se hoje fossem dados quarenta dias à humanidade, não seriam para contar horas, mas para contar escolhas.
Pois quarenta dias, desde os tempos antigos, sempre foram o relógio de Deus marcando a oportunidade de um novo mundo nascer.

FORJA DA HUMANIDADE

Quantos Gênesis serão precisos para ensinar ao homem o valor da própria criação?

Quantas auroras deverão nascer sobre mares recém-formados, quantas sementes romperão a terra, quantas vidas serão sopradas pelo fôlego da esperança?

Um Gênesis não bastou.

Erguemos cidades, mas também muralhas. Criamos ferramentas, mas também correntes. Descobrimos estrelas, mas ainda tropeçamos na sombra dos próprios passos.

Vieram dilúvios, vieram desertos, vieram profetas, vieram cruzes, vieram lições escritas em pedra, sangue e memória.

Ainda assim, o homem insiste em reinventar o erro com a mesma criatividade com que reinventa o progresso.

Quantos Gênesis serão precisos?

Talvez um para cada guerra. Talvez um para cada preconceito. Talvez um para cada criança que nasce acreditando num mundo melhor e encontra um mundo inacabado.

Mas a criação não desistiu.

A cada nascimento, um novo capítulo é escrito. A cada gesto de bondade, uma luz acende nas primeiras páginas do amanhã.

Porque a verdadeira forja não acontece no fogo das estrelas, nem no coração dos vulcões.

Acontece dentro do homem.

É ali que o ferro da ignorância enfrenta o martelo da experiência. É ali que a consciência é aquecida pela verdade até transformar-se em sabedoria.

Talvez não sejam necessários novos Gênesis.

Talvez seja necessário que a humanidade finalmente leia o primeiro.

E compreenda que a criação ainda não terminou.

Ela continua sendo escrita em cada escolha, em cada encontro, em cada geração.

Pois a maior obra do universo não foi a criação do mundo.

É a lenta e interminável Forja da Humanidade.

AS PÁGINAS DO AMANHÃ

Se o amanhã continuar escrevendo com a tinta de hoje, as páginas do futuro carregarão as mesmas manchas que recusamos apagar.

Os céus estarão mais próximos, mas os corações mais distantes.

As máquinas aprenderão a conversar com os homens, enquanto os homens desaprenderão a conversar entre si.

Haverá cidades de vidro, pontes de luz, estradas cruzando oceanos e naves tocando outros mundos.

Mas ainda existirão muros invisíveis separando irmãos pela cor, pela fé, pela riqueza e pela origem.

As bibliotecas caberão na palma da mão, e o conhecimento correrá mais veloz que os rios.

Entretanto, a sabedoria continuará rara, como água em terra seca.

O homem enxergará o nascimento das estrelas distantes, mas permanecerá cego ao sofrimento da casa ao lado.

As florestas pedirão socorro num idioma que todos entenderão, e ainda assim muitos fingirão não ouvir.

Os mares devolverão aquilo que receberam. O vento cobrará suas dívidas. A terra lembrará aos homens que nenhum império é maior que a natureza.

As multidões estarão conectadas por fios invisíveis, mas a solidão caminhará entre elas como uma rainha.

Os números crescerão. Os lucros crescerão. As torres crescerão.

E, por vezes, o próprio homem diminuirá.

Mas as páginas do amanhã não estão completamente escritas.

Entre as linhas da ganância, ainda existe espaço para a compaixão.

Entre as palavras do medo, ainda cabe a coragem.

Entre os capítulos da destruição, ainda pode nascer uma nova história.

Porque o futuro não é uma sentença.

É um manuscrito aberto, segurado pelas mãos da geração presente.

E quando os filhos do amanhã abrirem suas páginas, lerão não apenas o que herdaram de nós,

mas aquilo que tivemos a coragem de mudar.

As páginas do amanhã ainda estão em branco nos cantos mais importantes.

E é justamente ali que a humanidade escreve o seu destino.

HINO NORDESTINO DO BRASIL

Ô meu Brasil de sol queimando
De mandacaru florescendo
Do vaqueiro forte lutando
E do povo nunca se rendendo.

Terra de fé e de coragem
De sanfona, verso e oração
Que transforma a dor da viagem
Em esperança no coração.

Do sertão ao verde da mata
Do agreste ao mar de anil
Cada canto dessa pátria
É um pedaço do Brasil.

Respeite esse chão sagrado
Que tanto filho já criou
Com suor foi cultivado
Com amor se levantou.

Se a seca castiga a terra
A coragem faz resistir
Nordestino não se encerra
Nasceu mesmo pra seguir.

Brasil amado, companheiro
Nosso orgulho sem igual
Do Oiapoque ao Juazeiro
És gigante e fraternal.

Salve o povo brasileiro
Salve a força do sertão
Que carrega o mundo inteiro
Dentro do seu coração.

RAIZ E COPA

Ontem meu velho Avô
Disse que a raiz é despercebida
Não é formosa e bela
Mas é a base da vida

Hoje o mundo corre depressa,
Busca o brilho e a inovação;
Colhe frutos em abundância,
Mas nem sempre cultiva o chão.

Os antigos cuidavam das raízes;
Admiravam a copa e seus frutos
A sabedoria estava no saber
Que um dependia do outro.

Hoje toda atenção
É voltada para o fruta e a copa
Visibilidade, aparência e resultado
É o que mais importa

Raiz não tem fruto
Mas faz ele surgir
Copa só busca a exibição
Sem base para produzir

A cada geração
O equilíbrio é fundamental
A Herança e a Mudança
Precisam ser proporcional

A Raiz e a Copa
São fontes excenciais
Uma é base e começo
E a outra os finais.

"Nave ou Navio Negreiro? A liberdade de construir a embarcação pertence á humanidade."

"O Submundo é um paraíso incompreendido."

TRAJETÓRIA DO AMOR


"Caminhando na mesma via nos encontramos com Philia e nesta trajetória, Eros apareceu num ponto da avenida. Nesse longo caminhar, Ágape estava desde a partida."

Para os dias difíceis, saiba que tem um braço forte e uma mão amiga ao seu lado.