CALÇADA DA ROÇA Quando o Sol se... Jose Vidal de Negreiros Neto...

CALÇADA DA ROÇA


Quando o Sol se despedia
Por detrás da serrania,
E o céu vestia de ouro
A última luz do dia,


Lá estava ela, paciente,
Feita sala de estar do chão:
A velha calçada da roça,
Ponto de encontro e união.


Chegava um com sua cadeira,
Outro com banco de madeira,
Trazendo histórias guardadas
Na alma a vida inteira.


Ali não havia relógio
Mandando o tempo correr.
A pressa ficava distante
Para a conversa acontecer.


Falava-se da chuva antiga,
Do inverno que prometia,
Do milho, do feijão plantado,
Da colheita que viria.


Os meninos corriam soltos,
Inventando assombração.
Enquanto os velhos contavam
Casos de outra geração.


As moças trocavam sorrisos,
Os rapazes olhares também.
Muita história de amor nasceu
Sem que ninguém soubesse bem.


Quando a noite se achegava
Com seu manto estrelado,
A Lua fazia companhia
Ao povo ali acomodado.


E cada prosa partilhada
Virava riqueza sem preço.
Pois quem reparte palavras
Também reparte afeto.


Hoje o mundo corre ligeiro,
Pela tela e pela conexão.
Mas ainda mora saudade
No fundo do coração.


Saudade daquele costume
Que o tempo não levou embora:
Ver o dia se despedindo
Sentado do lado de fora.


Porque a calçada da roça
Nunca foi somente lugar.
Foi varanda da amizade,
Escola do escutar,


Foi descanso para o corpo,
Foi remédio para a solidão,
Foi o endereço mais simples
Da humana comunhão.