Coleção pessoal de Negreiros
GILBERTO FREYRE É PERNAMBUCANIDADE
No Recife nasceu um mestre,
De pensamento profundo,
Que levou Pernambuco
Para conversar com o mundo;
Gilberto Freyre escreveu
Sobre o Brasil e seu mundo.
Foi homem de muitas letras,
De pesquisa e tradição,
Estudou nossa cultura,
Nossa gente e formação;
E enxergou Pernambuco
Com os olhos do coração.
Foi dele uma palavra
Que ganhou força e verdade:
“Pernambucanidade”,
Nome de uma identidade;
Um jeito de ser da terra,
Memória e brasilidade.
O próprio Freyre afirmou
Com segurança e clareza:
“Essa palavra fui eu
Quem criou”, com firmeza;
E disse que a empregara
Antes de outra autoria expressa.
Não marcou o ano exato
Da primeira utilização,
Mas deixou uma importante
Pista para a investigação:
Já usava “pernambucanidade”
Antes de quarenta e três, então.
Em Salvador, no quarenta e três,
Numa conferência realizada,
Usou o termo “baianidade”,
Expressão então registrada;
E em Belo Horizonte, depois,
“Mineiridade” foi lançada.
Assim, Freyre relacionava
Os nomes à identidade:
Baianidade na Bahia,
Mineiridade na cidade;
E em sua terra querida,
A força da pernambucanidade.
Depois o tempo confirmou
Que a palavra ganhou lugar;
Na imprensa e nos estudos
Começou a circular;
E Pernambuco passou
A nela se reconhecer e falar.
Até que em setenta anos,
No primeiro de fevereiro,
No Diario de Pernambuco,
Escreveu o seu roteiro:
“Pernambucanidade: o que é?”
E explicou seu pensamento inteiro.
“Está em foco entre nós”
— assim começa a reflexão —
A palavra pernambucana
Que provoca discussão;
E Freyre assume sua história
E também sua criação.
Não queria uma identidade
De intolerância ou prisão;
Não era fechar Pernambuco
Dentro de uma separação;
Era reconhecer sua história,
Sua cultura e formação.
Pernambuco sempre recebeu
Quem chegou de outra terra:
Gente que aqui fez história,
Plantou trabalho e encerra
Sua vida junto ao povo
Que esta terra abraça e encerra.
A pernambucanidade,
Para Freyre, não seria
Um muro contra outros povos,
Nem orgulho que excluiria;
Mas uma forma de ser
Que a própria história construía.
E Nilo Pereira depois
Deu ao tema dimensão;
Escreveu Pernambucanidade:
Alguns aspectos históricos,
Obra publicada em oitenta e três,
Dando à palavra investigação.
Nilo olhou nossa história,
Nosso povo e tradição;
E fez da pernambucanidade
Objeto de reflexão;
Mostrando que essa palavra
Já possuía outra dimensão.
Gilberto Freyre e Nilo
Entram nessa caminhada:
Um reivindica a palavra,
Outro amplia sua estrada;
E Pernambuco vai fazendo
Da memória uma morada.
Tem o Recife e seus rios,
Tem o frevo e o maracatu,
Tem o engenho e tem a Zona
Da Mata verde e azul;
Tem o sertão resistente
Sob o céu de Norte a Sul.
Tem Capiba e tem Gonzaga,
Tem Nabuco e Frei Caneca,
Tem Cabral e Bandeira,
Tem a cultura que não seca;
Tem o povo que transforma
Toda dor em vida e festa.
Tem Palmares na memória,
Tem Guararapes na história,
Tem 1817
Na lembrança e na glória;
Tem um povo que carrega
Suas lutas na memória.
Mas se a palavra é recente,
A história é muito mais:
Pernambuco vem de longe
Com seus sonhos e seus ideais;
A palavra apenas nomeia
Sentimentos ancestrais.
Por isso digo no verso,
Sem medo de exagerar:
Gilberto Freyre é
Pernambucanidade,
Porque deu nome à expressão
De uma antiga identidade;
E ajudou Pernambuco
A pensar sua própria verdade.
Não é somente uma palavra,
Nem somente um escritor;
É memória, é resistência,
É cultura, é povo, é valor;
É Pernambuco contando
A história de seu amor.
E se alguém perguntar
O que é pernambucanidade,
Responda com nossa história,
Com cultura e liberdade:
É ser filho dessa terra
Sem esquecer a humanidade.
Gilberto Freyre deixou
Uma palavra para a gente;
Nilo Pereira deu-lhe história,
Tornando o estudo presente;
E o povo de Pernambuco
Segue escrevendo o repente.
Pernambucanidade!
Palavra de identidade!
Gilberto Freyre lhe deu nome,
Pernambuco lhe deu verdade;
E o povo segue escrevendo
Sua própria eternidade.
O POETA E A SANTA NATUREZA
Ser poeta é nobreza,
É dom de raro valor,
Seja matuto da roça,
Seja doutor ou escritor,
Pois a poesia floresce
No peito de quem tem amor.
O matuto sem leitura
Traz no peito inspiração,
Faz da vida poesia,
Tira versos do sertão,
Pois a voz da natureza
Também fala ao coração.
O doutor das belas letras
Pode versos compor,
Mas diploma não dá alma,
Nem fabrica o trovador.
A poesia nasce livre,
Como nasce livre a flor.
Foi a Mãe Natureza
Quem deu ao verso o fulgor,
Fez da palavra uma fonte,
Fez do silêncio um clamor.
E deu ao poeta a chama
De transformar dor em flor.
Não importa o pergaminho,
Nem o grau de formação,
Vale o dom que vem da alma,
Vale a pura emoção.
Ser poeta é ter no peito
A mais nobre distinção.
Pernambucanidade!
Palavra de identidade!
Gilberto Freyre lhe deu nome,
Pernambuco lhe deu verdade;
E o povo segue escrevendo
Por toda sua eternidade.
SÓ GRATIDÃO
Nasci trazendo esperança,
Sem saber o que viria,
A vida abriu sua estrada,
E eu segui com alegria.
Por ter recebido a vida,
Agradeço a cada dia.
Sobrevivi às tempestades,
Atravessei vendavais,
Caí, levantei de novo,
Não quis olhar para trás.
Cada dor deixou ensino,
Cada passo trouxe paz.
Superei tantos obstáculos,
Que pensei não suportar,
Descobri dentro de mim
Uma força pra lutar.
Quem persiste diante da vida
Sempre aprende a superar.
Agradeço à minha família,
Aos amigos de verdade,
A quem segurou minha mão
Nos momentos de dificuldade.
Quem compartilha nossa estrada
É riqueza e amizade.
Agradeço as minhas derrotas,
E também cada vitória;
Pois a queda me ensinou
A escrever minha história.
Vitória sem aprendizado
É apenas vã memória.
Agradeço o que aprendi
E aquilo que pude ensinar;
Conhecimento compartilhado
Faz a vida prosperar.
Quem ensina também aprende,
Quem aprende pode ensinar.
Agradeço pela fé,
Por crer e também confiar;
Quando a estrada fica escura,
Tenho Deus para me guiar.
Quem conserva a esperança
Nunca deixa de caminhar.
Agradeço o que plantei,
Mesmo antes de colher;
Toda semente tem seu tempo,
Cada fruto seu nascer.
Quem trabalha com esperança
Tem razões para agradecer.
Agradeço os meus erros,
E os acertos que conquistei;
Foi errando que aprendi
Os caminhos que trilhei.
Cada erro corrigido
Foi um passo que avancei.
Agradeço por amar,
E por também ser amado;
Pois o amor deixa na alma
Um caminho iluminado.
Quem ama nunca caminha
Neste mundo abandonado.
Agradeço pelos filhos,
Pelos livros que escrevi;
Pois aquilo que deixamos
É semente após partir.
Quem perpetua seus valores
Continua a existir.
Se a vida me deu espinhos,
Também me ofertou flores;
Deu-me noites tão difíceis,
Mas também belos albores.
Entre lágrimas e risos,
Fui juntando meus valores.
Hoje olho para a estrada
E agradeço o que passou;
Cada encontro, cada ausência,
Cada abraço que ficou.
Tudo fez parte da história
Que a própria vida escreveu.
Se amanhã vier incerto,
Não preciso me assustar;
Levo fé dentro do peito
E coragem pra enfrentar.
Enquanto houver vida em mim,
Terei motivos pra amar.
Pelo dom de estar presente,
Pelo ontem e pelo agora,
Pelo sonho que permanece
E pela esperança que aflora;
Por nascer, vencer, aprender
E deixar sementes mundo afora.
PERNAMBUCANIDADE
Pernambuco é uma chama
Que ninguém consegue apagar,
É povo que enfrenta a luta
Sem jamais se acovardar;
Traz no peito a resistência
E o orgulho de seu lugar.
Desde o tempo das batalhas,
Nossa história tem memória,
De Guararapes aos engenhos,
Cada luta fez história;
Foram bravos brasileiros
Construindo a nossa glória.
Nilo Pereira em três volumes,
Expressou de forma verdadeira
Esse amor que a todos incendeia,
Como chama sertaneja,
Como paixão verdadeira
Por nossa terra altaneira.
Pernambuco tem no sangue
Mistura de muitas raças,
Índio, negro, português,
Cada qual deixando marcas;
Dessa união tão diversa
Nasceram nossas praças.
Tem o frevo pelas ruas,
Maracatu no terreiro,
Caboclinho, ciranda,
Baque solto e batuqueiro;
Tem o coco, tem o forró,
Tem repente e violeiro.
Tem a voz dos nossos mestres,
Tem a arte popular,
Tem o barro de Tracunhaém,
Tem o verso a improvisar;
Tem xilogravura e cordel
Contando o nosso lugar.
Tem Olinda em suas ladeiras,
Recife à beira do mar,
Tem o Agreste e o Sertão,
Tem canavial a brotar;
Do litoral ao Sertão,
Há um povo a celebrar.
E quando tremula ao vento
Nossa bandeira querida,
O azul lembra o céu aberto,
O branco lembra a paz da vida;
O arco-íris traz esperança
Nessa terra aguerrida.
O sol mostra a força viva
De um povo trabalhador,
A cruz lembra a história
De sua fé e seu valor;
E a estrela representa
Um sonho de esplendor.
Heróis ficaram na história,
Com seus feitos e bravura;
Outros vivem nos terreiros,
Na escola e na cultura;
Pois herói também é o povo
Que preserva sua cultura.
Pernambucano não esquece
O chão onde nasceu,
Guarda a fala dos antigos,
O conselho que recebeu;
Ama a terra dos seus pais,
Ama aquilo que viveu.
Pernambuco é resistência,
É coragem e tradição,
É memória, é identidade,
É cultura e coração;
É um povo que transforma
Cada luta em celebração.
Se perguntarem quem somos,
Não precisa explicação:
Somos filhos dessa terra,
Dessa forte geração;
Pernambuco é nossa casa,
Nossa história e nosso chão.
Nilo Pereira em três volumes,
Expressou de forma verdadeira
Esse amor que a todos incendeia;
É Pernambuco em nossa veia,
É paixão que não arrefeia,
É nossa Pernambucanidade inteira!
O LIVRO DA VIDA
1 — O começo
Minha vida é um livro,
Que começa ao nascer,
Todo dia há perigo,
Que o tempo faz escrever.
No livro da Vida
nem todas as páginas são coloridas.
2 — A infância
Na infância há folia,
Com brinquedo e correr,
Toda hora traz magia,
Sem ter medo de crescer.
No livro da Vida
nem todas as páginas são coloridas.
3 — A adolescência
Vem depois a mocidade,
Com desejo de voar,
Cheia de curiosidade,
Quer o mundo conquistar.
No livro da Vida
nem todas as páginas são coloridas.
4 — A juventude
O coração se desperta,
Quando aprende a desejar,
Uma paixão deixa aberta
Uma porta para amar.
No livro da Vida
nem todas as páginas são coloridas.
5 — A paixão
Tem olhar que diz carinho,
Sem sequer uma palavra,
E a paixão abre caminho,
Quando o coração se entrega.
No livro da Vida
nem todas as páginas são coloridas.
6 — A desilusão
Mas o amor também termina,
Quando a promessa se desfaz,
E a tristeza nos ensina
Que nem todo amor dá paz.
No livro da Vida
nem todas as páginas são coloridas.
7 — As lutas
Vêm as lutas da jornada,
Que nos fazem aprender,
Cada dor deixa ensinada
Uma forma de vencer.
No livro da Vida
nem todas as páginas são coloridas.
8 — As alegrias
Há momentos de alegria,
Que parecem não ter fim,
Há família em harmonia,
Com abraço e amor sem fim.
No livro da Vida
nem todas as páginas são coloridas.
9 — O tempo
O tempo passa ligeiro,
Sem parar pra nos esperar,
Leva o sonho derradeiro,
E nos manda envelhecer.
No livro da Vida
nem todas as páginas são coloridas.
10 — A maturidade
Cada ruga traz memória,
Cada marca, uma lição,
Cada queda conta história,
Cada perda, reflexão.
No livro da Vida
nem todas as páginas são coloridas.
11 — As perdas
Há páginas doloridas,
Que ninguém quer reler mais,
São lembranças tão sofridas,
De pessoas que se vão.
No livro da Vida
nem todas as páginas são coloridas.
12 — A velhice
Na velhice a gente entende
O valor de um bom viver,
Quem semeia amor, colhe e aprende
Que é preciso agradecer.
No livro da Vida
nem todas as páginas são coloridas.
13 — A morte
Todo livro tem seu fim,
Toda estrada tem chegada,
Quando a morte chega, enfim,
Fecha a última jornada.
No livro da Vida
nem todas as páginas são coloridas.
14 — O que fica
Mas o amor não morre inteiro,
Quando alguém deixa este chão,
Pois permanece verdadeiro
Na memória e no coração.
No livro da Vida
nem todas as páginas são coloridas.
15 — A lição
Não rasgue a página triste,
Nem esconda a cicatriz,
Pois a dor também existe
Pra ensinar a ser feliz.
No livro da Vida
nem todas as páginas são coloridas.
16 — A caminhada
Se a tristeza aparecer,
Não desista de lutar,
Toda dor pode ensinar
Outro jeito de viver.
No livro da Vida
nem todas as páginas são coloridas.
17 — A última página
Quando o livro for fechado,
E não der mais pra escrever,
Que seu nome seja lembrado
Pelo bem que fez crescer.
No livro da Vida
nem todas as páginas são coloridas.
18 — Conclusão
A vida é feita de histórias,
De alegrias e de dor,
De derrotas e de glórias,
De esperança, fé e amor.
No livro da Vida
nem todas as páginas são coloridas.
Nascer, crescer, amar e sofrer,
São páginas da existência;
Morrer é apenas devolver
Ao tempo nossa presença.
No livro da Vida
nem todas as páginas são coloridas.
Por isso escreva direito
As páginas do seu viver;
Faça o bem com muito jeito,
Enquanto puder viver.
No livro da Vida
nem todas as páginas são coloridas.
Pois ninguém escolhe as páginas
Que o destino vai trazer;
Mas pode escolher as marcas
Que deixará ao morrer.
No livro da Vida
nem todas as páginas são coloridas.
CORRER ATRÁS DO VENTO
Tem gente que vive a vida
Sem saber onde quer chegar,
Conquista tudo que sonha,
Mas não consegue enxergar
Que aquilo que já possui
Era o que queria alcançar.
Quer sempre mais uma coisa,
Depois outra sem parar,
Quando consegue o que busca,
Já começa a reclamar:
O desejo vira fome
Que não consegue saciar.
Constrói castelo de sonhos,
Mas não consegue morar,
Pois sua mente está sempre
Procurando outro lugar;
Tem o mundo nas suas mãos,
Mas só consegue enxergar
O que ainda não pode tocar.
É como um buraco negro
No fundo do pensamento,
Que engole toda conquista,
Todo afeto e sentimento;
Quanto mais recebe dentro,
Mais aumenta o seu tormento.
Olha a casa que comprou,
Mas deseja uma mansão;
Tem amor da sua família,
Mas procura outra paixão;
Tem saúde, tem amigos,
Mas reclama da situação.
Tem dinheiro no bolso,
Mas ainda quer acumular;
Tem estrada percorrida,
Mas só pensa em caminhar;
Não contempla a própria história,
Porque só quer conquistar.
O problema não é sonhar,
Nem querer prosperidade;
É transformar o desejo
Numa eterna necessidade,
E esquecer que a verdadeira
Riqueza é ter liberdade.
Quem vive correndo atrás
Do que pensa encontrar,
Pode passar pela vida
Sem sequer dela desfrutar;
Pois enquanto busca o futuro,
Deixa o presente escapar.
Há quem tenha quase tudo,
Mas se sinta sem ter nada;
Porque mede sua riqueza
Pelaquilo que é desejada,
E não pelo que já possui
Na caminhada encerrada.
O vento passa ligeiro,
Não se deixa aprisionar;
Quanto mais alguém o persegue,
Mais distante ele estará.
E quem vive nessa corrida
Pode a própria vida perder.
Não é errado querer mais,
Nem buscar transformação;
O perigo é nunca dizer:
"Já tenho o que é de bom."
Pois a fome sem medida
Também devora o coração.
A vida pede equilíbrio,
Entre o ter e agradecer;
Entre aquilo que se busca
E aquilo que se pode viver.
Quem só olha para frente
Pode esquecer de se ver.
Se a felicidade é sempre
A próxima coisa a alcançar,
Quando ela enfim se aproxima,
Outra irá ocupar seu lugar.
E assim a pessoa passa
A vida inteira a procurar.
Pare um pouco nessa estrada,
Respire e olhe ao redor;
Veja quanto já venceu,
Reconheça o seu valor.
Talvez o que tanto procura
Já esteja dentro do amor.
Pois quem não sabe agradecer
Pelo pouco que conquistou,
Pode ganhar o mundo inteiro
E continuar sem valor;
Porque nenhum bem material
Preenche o vazio interior.
E se quiser correr livre,
Corra, mas sem se perder;
Busque aquilo que deseja,
Sem esquecer de viver.
Pois mais importante que chegar
É saber o que fazer.
Correr atrás do vento
Só por brincadeira,
Pode até ser divertido
Numa tarde passageira;
Mas fazer disso uma vida
É correr a vida inteira.
TÁ NA SALA
Tá na sala o povo chegando,
Pra última despedida,
Uns trazendo no silêncio
As lembranças desta vida.
Eu, deitado, observo tudo,
Sem poder dar mais um pulo,
Pois já terminou minha lida.
Tem gente que fica calada,
Relembrando o que passou,
Revendo antigas histórias,
Tudo aquilo que viveu.
Outros dão boas gargalhadas
Das minhas velhas presepadas,
Das peripécias que aprontou.
Um lamenta a minha perda,
Diz que eu era bom amigo,
Outro fala: “É muito triste,
Nunca pensei nesse perigo.”
E entre um suspiro e outro,
Vão lembrando do meu rosto
E do tempo que esteve comigo.
Tem conversa sobre o presente,
Sobre a vida e a situação,
Enquanto alguém, bem baixinho,
Puxa outra recordação.
“Ele fez isso certa vez...”
E começa outra história
No meio da reunião.
Uns contam contos do falecido,
Que eu jamais pude imaginar;
Cada qual tem sua lembrança,
Cada qual tem seu contar.
E eu escuto em silêncio,
Percebendo que, no tempo,
Já não posso mais falar.
Chegam amigos e parentes,
Para os meus confortar,
Dão abraços apertados,
Tentando amenizar.
Mas, olhando aquela cena,
Descubro, sem mais problema,
Que não posso mais voltar.
Observo todos na sala,
Cada gesto, cada olhar,
E começo a compreender
O que é enfim descansar.
A conversa continua,
Mas minha voz ficou na rua,
Não tenho mais como falar.
Foi então que eu percebi
Que a vida tinha passado;
Eu estava ali presente,
Mas já não era mais lembrado
Como alguém que estava vivo.
Eu era apenas o motivo
De todos terem chegado.
Tá na sala a despedida,
Tá no rosto a emoção,
Tá no canto de um amigo,
Tá no abraço de um irmão.
E entre lágrimas e risadas,
Vão fechando as minhas estradas
Sem nenhuma explicação.
Quando o talude se fecha,
E termina a derradeira passagem,
Pela porta saio sozinho,
Sem bagagem, sem viagem.
Não levo ouro nem dinheiro,
Nem relógio, nem roteiro:
Só aquilo que fui na passagem.
A última porta se fecha,
E o silêncio toma o lugar.
Deixo a sala, deixo a casa,
Deixo o mundo e seu falar.
E sigo, sem mais demora,
Meu destino vida afora,
Para onde ninguém pode voltar.
Tá na sala!
Foi assim que eu compreendi:
Enquanto vocês se despediam,
Eu também me despedia de mim.
MACALÃ — A AGUARDENTE DOS CORRUPTOS
Lá pras bandas de Brasília
Tem reunião todo dia,
Homem de terno alinhado,
Cheio de pompa e regalia,
Coleirinho bem branquinho,
Com discurso de carinho,
Mas por trás, quem saberia?
Sentados numa grande mesa,
Com fartura e gentileza,
Político e empresário,
Autoridade e alteza,
Fazem brinde, apertam mão,
Trocam papel e comissão,
Tudo em nome da riqueza.
No centro daquela mesa
Tem uma garrafa acesa,
Com um nome bem sugestivo,
Que causa muita surpresa:
MACALÃ, a aguardente,
Que deixa o corrupto contente
E embriaga a esperteza.
Um diz: “Vamos conversar,
Tem contrato pra assinar.”
Outro responde sorrindo:
“Tem licitação pra ganhar.”
Um terceiro, muito ligeiro:
“Se sobrar algum dinheiro,
A gente pode repartir.”
E a garrafa vai passando,
E o acordo vai fechando,
Um gole pra cada amigo,
Todo mundo comemorando.
Quem pergunta fica de fora,
Quem se cala ganha a hora,
E o povo fica pagando.
Tem gravata e tem colarinho,
Tem discurso bem mansinho,
Tem promessa de progresso,
Tem aperto de carinho.
Mas quando a conta aparece,
O pobre é quem paga a prece
E fica sozinho no caminho.
Falam muito em democracia,
Em justiça e cidadania,
Em combate à corrupção,
Em moral e economia.
Mas se a porta se fechar,
Tem segredo pra guardar
Debaixo da mesa fria.
Macalã corre ligeira
Pela mesa traiçoeira;
Quem bebe perde a vergonha,
Quem vende ganha a carreira.
E aquele que diz “não quero”
É chamado de exagero
Por não entrar na brincadeira.
Tem obra, tem emenda,
Tem contrato que se estenda,
Tem privilégio escondido,
Tem promessa que se venda.
Enquanto o povo trabalha,
Tem quem faça sua farra
Com a riqueza desviada.
Mas cuidado, meu cidadão,
Não aceite essa ilusão:
Corrupção não é destino,
Nem faz parte da nação.
Se o poder perde a medida,
Quem sofre na própria vida
É quem paga a corrupção.
Brasília pode ser bela,
Mas não deve ser janela
Pra quem olha o povo de longe
E só protege a sua cela.
O poder que vem da gente
Deve servir honestamente,
Não alimentar mamela.
E se a Macalã surgir
Com alguém querendo servir,
Pergunte antes do brinde:
“Quem vai depois ressarcir?”
Porque enquanto eles bebem
E seus acordos concebem,
É o povo que vai pagar.
MACALÃ, pode guardar,
Não venha nos embriagar!
O Brasil precisa é de justiça,
De coragem pra fiscalizar.
Pois quando a esperteza impera,
A corrupção prospera
E o povo começa a acordar.
No fim deixo este refrão,
Como alerta à população:
“Macalã embriaga o corrupto,
Mas não embriaga o cidadão;
Enquanto uns brindam ao lucro,
O povo paga a conta na mão!”
O MEDO E A CORAGEM
O medo bate à porta,
Querendo entrar sem demora,
Dizendo: “Pare, desista,
Não enfrente a luta agora!”
Mas a coragem responde:
“Levante e lute sem demora!”
O medo gosta da sombra,
Da dúvida e da incerteza,
Faz o homem enxergar
A derrota como tristeza;
Mas quem enfrenta seus medos
Descobre a própria grandeza.
Quem tem medo da derrota,
Não é digno da vitória.
A coragem não é ausência
De medo no coração,
É seguir mesmo tremendo,
Sem perder a direção;
É transformar cada queda
Em degrau de superação.
Quem já caiu nesta vida
Sabe o preço de levantar,
Pois nem sempre quem tropeça
Está condenado a parar;
Às vezes, a própria queda
Ensina a gente a caminhar.
Se a estrada estiver difícil,
Não abandone a caminhada;
Toda subida cansativa
Pode terminar na chegada,
E a força de quem persiste
Faz nascer uma nova estrada.
Quem tem medo da derrota,
Não é digno da vitória.
Resiliência é ter força
Para outra vez começar,
Mesmo quando a tempestade
Parece nunca passar;
É juntar os próprios pedaços
E novamente se aprumar.
Determinação é seguir
Quando falta inspiração,
É carregar nos próprios ombros
O peso da obrigação;
É fazer do sonho uma meta
E da meta uma missão.
A vida testa os valentes
Com problemas e provações,
Mas ninguém vence uma batalha
Vivendo só de ilusões;
É preciso enfrentar o medo
E vencer as limitações.
Não existe grande vitória
Sem batalha para enfrentar,
Nem existe grande sonho
Sem alguém para acreditar;
Quem deseja chegar ao topo
Tem que aprender a escalar.
O medo diz: “Você não pode!”
A coragem diz: “Vou tentar!”
A dúvida diz: “É impossível!”
A fé manda continuar;
E a persistência responde:
“Eu nasci para lutar!”
Quem tem medo da derrota,
Não é digno da vitória.
Se hoje a vida lhe impõe
Uma barreira no caminho,
Não pense que está sozinho,
Nem que nasceu para o espinho;
Até o mais forte guerreiro
Já caminhou devagarinho.
O importante é não deixar
A esperança se apagar;
Pois enquanto houver vontade,
Sempre é possível recomeçar.
Quem persiste diante da vida
Uma hora consegue triunfar.
Medo pode ser aviso,
Mas jamais deve ser prisão;
Coragem é abrir a porta
E enfrentar a situação.
É fazer do impossível
Uma nova inspiração.
Portanto, amigo, prossiga,
Não deixe o medo mandar;
Se a derrota vier primeiro,
Não pare de batalhar.
Pois muitas vezes a vitória
Só precisa de quem não vai parar!
Quem tem medo da derrota,
Não é digno da vitória.
O ILUDIDO E O DOIDO
Tem gente que faz loucura
Sem pensar no que está fazendo,
Vai seguindo pela vida
Sem saber onde está indo.
Quando a coisa dá errado,
Diz: “Eu não sabia, não!”
Mas existe outro mais fino
Que conhece a situação.
O doido age sem juízo,
Sem medir consequência,
Já o iludido faz sabendo,
Mas disfarça a consciência.
Faz de conta que não sabe,
Muda logo a explicação,
E quando alguém desconfia,
Ele diz: “Foi impressão!”
O Iludido é pior que o Doido,
Um sabe a razão,
Outro faz sem noção.
Um conhece o caminho,
Mas finge estar perdido,
O outro vai sem rumo
Porque é doido ou distraído.
O Iludido é pior que o Doido,
Um sabe a razão,
Outro faz sem noção.
Na vida de um casal
Tem história de montão:
Um percebe a falsidade,
Mas faz cara de paixão.
Sabe onde está o problema,
Conhece a situação,
Mas prefere fazer de conta
Que não viu a traição.
Tem também quem viva em casa
Fazendo jogo ensaiado:
Sabe tudo que acontece,
Mas se mostra enganado.
Quando chega a tempestade,
Vem com aquela indagação:
“Quem foi que fez isso comigo?”
Sabendo a resposta de antemão.
No trabalho é parecido,
Tem sujeito especialista:
Sabe tudo que está errado,
Mas se faz de bom artista.
Quando a culpa bate à porta,
Ele muda de posição:
“Eu não estava sabendo!”
E escapa da confusão.
Tem colega que conhece
Cada passo da jogada,
Sabe quem puxa os cordões,
Sabe quem não faz nada.
Mas prefere ficar calado,
Esperando a ocasião,
Pois quem finge ser inocente
Muitas vezes tem intenção.
Entre amigos acontece
Uma coisa interessante:
Tem quem saiba da conversa
E se faça de ignorante.
O segredo está guardado,
Mas conhece a situação;
Só revela quando percebe
Que lhe traz algum tostão.
Na política é mais forte
Esse tipo de esperteza:
Tem discurso de esperança,
Mas por trás muita esperteza.
Promete céu ao eleitor,
Fala em povo e união,
Mas depois de eleito esquece
Da palavra e do povão.
Tem político que conhece
A miséria do lugar,
Sabe a dor de quem trabalha,
Sabe o povo reclamar.
Mesmo assim faz pouco caso,
Com conversa e distração,
Pois se faz de desentendido
Para fugir da obrigação.
E o povo muitas vezes
Também entra nessa história:
Sabe quem está enganando,
Mas insiste na memória.
Vota, sofre e depois diz:
“Eu não tinha informação!”
Quando a verdade estava
Bem diante da sua mão.
O doido pode ser franco,
Pode errar sem perceber;
Já o iludido tem ciência
Do que pretende fazer.
Um tropeça no caminho,
Outro escolhe a direção,
Mas se esconde atrás da fala
Para negar sua intenção.
Por isso tenha cuidado
Com quem vive disfarçado,
Que conhece cada coisa
E aparece desinformado.
Às vezes o mais perigoso
Não é quem perde a razão,
Mas quem sabe muito bem
E finge não saber, não!
O Iludido é pior que o Doido,
Um sabe a razão,
Outro faz sem noção.
Um conhece o caminho,
Mas finge estar perdido,
O outro vai sem rumo
Porque é doido ou distraído.
O Iludido é pior que o Doido,
Um sabe a razão,
Outro faz sem noção.
Na escola da existência
Todo mundo tem lição:
Nem todo silêncio é medo,
Nem toda fala é opinião.
Tem silêncio de quem pensa,
Tem palavra de ocasião,
E tem gente que se faz de doida
Pra esconder sua intenção.
Ser esperto é uma coisa,
Ser desonesto é outra,
Quem conhece seus próprios atos
Não deve viver na sombra.
Porque a vida dá voltas
E revela a situação:
Quem brinca de ser inocente
Pode cair na própria mão.
No final dessa peleja,
Fica a grande conclusão:
O doido pode ser doido,
Mas merece compreensão.
Já o falso desentendido,
Que calcula cada ação,
Sabe muito bem o que faz
E ainda nega a razão.
Por isso digo em meu verso,
Com respeito e sem engodo:
Não confunda quem não sabe
Com quem finge saber de tudo.
Pois há loucura sem maldade
E esperteza sem coração.
O Iludido é pior que o Doido,
Um sabe a razão,
Outro faz sem noção.
Se um erra sem perceber,
O outro erra decidido;
Um é doido por natureza,
O outro é malandro escondido.
O Iludido é pior que o Doido,
Um sabe a razão,
Outro faz sem noção.
A LEI DA CONVENIÊNCIA
Foi decretada pelo Congresso Nacional, sancionada pelo Presidente da República, homologada pelo Supremo Tribunal e rejeitada pelo povo.
A LEI DA CONVENIÊNCIA
A Lei da Conveniência
Tem força e autoridade,
Foi feita no Congresso
Com muita formalidade;
Depois foi sancionada
Com toda solenidade.
O Presidente assinou,
Dando força à decisão,
O Supremo homologou,
Com sua confirmação;
Mas o povo, indignado,
Fez sua reprovação.
Foi decretada em Brasília,
Com pompa e aprovação,
Cada poder deu seu aval,
Selando a legislação;
Mas faltou ouvir o povo,
Dono dessa nação.
Pois lei que serve ao poder,
Mas ao povo traz prejuízo,
Pode até ser conveniente,
Ter carimbo e ser preciso;
Mas quando falta justiça,
Perde o seu compromisso.
Congresso pode decretar,
Presidente sancionar,
Supremo homologar,
E o sistema festejar;
Mas se o povo não aceitar,
Quem vai poder sustentar?
A Lei da Conveniência
Pode até ter aprovação,
Mas quando o povo a rejeita,
Perde toda a razão;
Porque a voz da soberania
Deve vir da população.
A Peleja hoje finda sem muita complicação. Vamos colocar os pontos no Ypsilon, porquê no Í só tem um com razão.
PROFESSOR DE POETA
No sertão nasceu um mestre
Que ensinava sem cartilha,
Com a viola e a palavra
Fez da rima uma família;
E mostrou que a poesia
Também nasce na partilha.
Sou Poeta sem diploma no canudo,
mas cumpro o verdadeiro papel público
do intelectual Matuto.
Patativa do Assaré,
Ave sábia do sertão,
Transformou sua poesia
Em denúncia e oração;
Fez do verso uma ferramenta
De cultura e reflexão.
Sou Poeta sem diploma no canudo,
mas cumpro o verdadeiro papel público
do intelectual Matuto.
Seu cantar veio da roça,
Da enxada e do terreiro,
Da pobreza, da esperança,
Do vaqueiro e do roceiro;
E ensinou que o pensamento
Não precisa de dinheiro.
Sou Poeta sem diploma no canudo,
mas cumpro o verdadeiro papel público
do intelectual Matuto.
Em “Cante Lá, Que Eu Canto Cá”,
fez do canto profissão,
mostrando que cada terra
tem seu modo e tradição;
E que a voz de quem trabalha
também merece atenção.
Quando falou do “Caboclo Roceiro”,
deu ao campo dignidade,
fez da vida do agricultor
um retrato da verdade;
E levou para a poesia
a voz da comunidade.
Em “Triste Partida”,
fez a dor se levantar,
retratando o nordestino
obrigado a migrar;
E fez muita gente longe
do sertão se emocionar.
Não é apenas um poeta
que o tempo pode guardar;
Patativa é professor
que continua a ensinar:
quem conhece sua obra
tem mais força pra pensar.
Sou Poeta sem diploma no canudo,
mas cumpro o verdadeiro papel público
do intelectual Matuto.
Os poetas o admiram
pela força do seu dizer,
pela forma tão simples
de fazer o povo entender;
pois sabia transformar
o sofrer em aprender.
Negreiros Neto assim diz,
com respeito e clareza:
“O poeta é um título
da mais alta nobreza,
dado ao matuto analfabeto
e aos doutores da letra.”
Patativa nos mostrou
que a escola pode ensinar,
mas também existe a vida
com seus modos de educar;
e o poeta que a observa
tem lições pra revelar.
Foi professor de poetas,
sem cobrar mensalidade;
sua sala era o mundo,
seu diploma, a humildade;
seu quadro era o sertão,
sua matéria, a verdade.
Sou Poeta sem diploma no canudo,
mas cumpro o verdadeiro papel público
do intelectual Matuto.
Hoje, quando um poeta
pega a pena para escrever,
leva um pouco de Patativa
sem sequer perceber;
pois quem bebe dessa fonte
aprende também a viver.
Patativa, velho mestre,
teu legado é imortal;
tua poesia permanece
feito estrela no quintal;
Nordeste que vira verso,
sertão que vira jornal.
E aos doutores da palavra,
aos poetas do sertão,
fica viva a grande lição
do mestre da inspiração:
a maior sabedoria
é ter voz e coração.
Sou Poeta sem diploma no canudo,
mas cumpro o verdadeiro papel público
do intelectual Matuto.
Se Patativa foi mestre,
nós seguimos a lição:
fazer da poesia ponte,
da palavra, comunhão;
e colocar nosso verso
a serviço da nação.
ENCANTO DE CRIANÇA
Criança é feito encanto,
É estrela a cintilar,
É um mundo de descobertas
Que começa a despertar;
É semente pequenina
Que aprende a vida a amar.
Que venham a mim todas as crianças,
pois meu reino está a esperar.
Primeiro vem o nascimento,
Com seu choro e seu olhar,
Depois vem o colo amigo,
Onde aprende a descansar;
E, entre braços e carinhos,
Começa a se aventurar.
Que venham a mim todas as crianças,
pois meu reino está a esperar.
Depois começa a engatinhar,
Logo aprende a caminhar,
Dá tropeços, cai no chão,
Mas insiste em levantar;
Cada passo pequenino
É uma forma de sonhar.
Que venham a mim todas as crianças,
pois meu reino está a esperar.
Vem a fase das perguntas,
Do brinquedo e da invenção,
Do desenho colorido,
Da primeira imaginação;
A criança faz do mundo
Um brinquedo de emoção.
Que venham a mim todas as crianças,
pois meu reino está a esperar.
Depois chega a adolescência,
Com conflitos e mudanças,
Novos sonhos, novos medos,
Despedidas e esperanças;
Vai deixando a meninice,
Mas conserva as lembranças.
Que venham a mim todas as crianças,
pois meu reino está a esperar.
E o menino vira homem,
A menina vira mulher,
Cada qual seguindo a estrada
Do destino que escolher;
Mas quem guarda a sua infância
Nunca deixa de viver.
Que venham a mim todas as crianças,
pois meu reino está a esperar.
Pois existe uma criança
Que o tempo não faz morrer;
Ela mora nos bons homens,
Nos que sabem compreender,
Nos que têm mãos para o abraço
E um coração para acolher.
Que venham a mim todas as crianças,
pois meu reino está a esperar.
Homem bom brinca com filhos,
Sabe rir e sabe amar;
Não tem vergonha da infância
Que insiste em lhe acompanhar.
Quem conserva a alma criança
Nunca deixa de sonhar.
Que venham a mim todas as crianças,
pois meu reino está a esperar.
Ser adulto não é nunca
Ter vontade de brincar;
É saber que a vida é séria,
Mas também sabe encantar.
É guardar dentro do peito
Um menino a caminhar.
Que venham a mim todas as crianças,
pois meu reino está a esperar.
Crescer não significa
A infância abandonar;
É levar dentro da alma
Tudo aquilo que ensinar:
Que o amor, quando é verdadeiro,
Tem o dom de transformar.
Que venham a mim todas as crianças,
pois meu reino está a esperar.
E se o tempo envelhecer
O rosto, o corpo e a mão,
Que jamais envelheça
A ternura do coração;
Pois criança que permanece
É eterna inspiração.
Que venham a mim todas as crianças,
pois meu reino está a esperar.
Que venham com seus brinquedos,
Com seus sonhos e alegria;
Que venham com seus sorrisos,
Sua doce fantasia;
Pois onde existe criança,
Renova-se a poesia.
Que venham a mim todas as crianças,
pois meu reino está a esperar.
E quando a vida passar
E a velhice enfim chegar,
Que eu ainda tenha dentro
Uma criança a me ensinar:
Que nascer é começar,
E viver é se encantar.
Que venham a mim todas as crianças,
pois meu reino está a esperar.
"Sou Poeta sem diploma no canudo, mas cumpro o verdadeiro papel público do intelectual Matuto."
Salvas! A Patativa do Assaré.
VIVER EM MUTAÇÃO
A vida é feito um rio,
Que não para de correr,
Vai mudando suas águas
Sem deixar de ser viver;
E o homem muda com o tempo,
Sem saber o que vai ser.
Ontem fui uma semente,
Hoje sou árvore a crescer,
Amanhã serei talvez
Outra forma de florescer;
Pois quem pensa que é o mesmo
Não conhece o próprio ser.
Meu Eu de ontem morreu,
hoje vive outro Eu,
e amanhã quem será Eu?
Cada dor deixa uma marca,
Cada amor traz transformação,
Cada queda nos ensina
A buscar nova direção;
E a vida vai esculpindo
Nosso ser e coração.
Muda o corpo, muda a mente,
Muda o jeito de pensar,
Muda o sonho, muda o medo,
Muda o jeito de sonhar;
E até aquilo que amamos
Pode um dia se transformar.
Há um Eu que vai partindo,
Sem fazer despedimento,
Outro Eu chega ligeiro,
Carregado de momento;
Somos obras inacabadas
Nas oficinas do tempo.
Meu Eu de ontem morreu,
hoje vive outro Eu,
e amanhã quem será Eu?
Não devemos ter receio
Da mudança natural,
Pois a vida é movimento,
Nunca fica sempre igual;
Até pedra vira areia
Sob a força temporal.
Quem aceita a mutação
Aprende a se reinventar,
Troca o medo pelo sonho,
Deixa a vida lhe ensinar;
Pois mudar não é perder-se,
É uma forma de encontrar.
Eu já fui tantos de mim,
Que nem posso enumerar;
Cada fase foi um passo
Que me fez aqui chegar.
E o futuro é uma pergunta
Que ainda vou responder.
Se amanhã nascer um homem
Diferente do que sou,
Não direi que perdi a vida,
Direi: a vida me mudou.
Pois enquanto houver caminho,
Meu destino não parou.
Meu Eu de ontem morreu,
hoje vive outro Eu,
e amanhã quem será Eu?
Assim sigo nesta estrada,
Entre o ontem e o depois,
Reinventando meus caminhos,
Descobrindo novos nós;
Sou mudança, sou memória,
Sou futuro dentro de nós.
E se alguém me perguntar
Quem sou eu neste momento,
Responderei simplesmente:
Sou mutação e movimento.
Um ser que nasce a cada dia
Das mudanças do tempo.
