Coleção pessoal de Negreiros
TÁ NA SALA
Tá na sala o povo chegando,
Pra última despedida,
Uns trazendo no silêncio
As lembranças desta vida.
Eu, deitado, observo tudo,
Sem poder dar mais um pulo,
Pois já terminou minha lida.
Tem gente que fica calada,
Relembrando o que passou,
Revendo antigas histórias,
Tudo aquilo que viveu.
Outros dão boas gargalhadas
Das minhas velhas presepadas,
Das peripécias que aprontou.
Um lamenta a minha perda,
Diz que eu era bom amigo,
Outro fala: “É muito triste,
Nunca pensei nesse perigo.”
E entre um suspiro e outro,
Vão lembrando do meu rosto
E do tempo que esteve comigo.
Tem conversa sobre o presente,
Sobre a vida e a situação,
Enquanto alguém, bem baixinho,
Puxa outra recordação.
“Ele fez isso certa vez...”
E começa outra história
No meio da reunião.
Uns contam contos do falecido,
Que eu jamais pude imaginar;
Cada qual tem sua lembrança,
Cada qual tem seu contar.
E eu escuto em silêncio,
Percebendo que, no tempo,
Já não posso mais falar.
Chegam amigos e parentes,
Para os meus confortar,
Dão abraços apertados,
Tentando amenizar.
Mas, olhando aquela cena,
Descubro, sem mais problema,
Que não posso mais voltar.
Observo todos na sala,
Cada gesto, cada olhar,
E começo a compreender
O que é enfim descansar.
A conversa continua,
Mas minha voz ficou na rua,
Não tenho mais como falar.
Foi então que eu percebi
Que a vida tinha passado;
Eu estava ali presente,
Mas já não era mais lembrado
Como alguém que estava vivo.
Eu era apenas o motivo
De todos terem chegado.
Tá na sala a despedida,
Tá no rosto a emoção,
Tá no canto de um amigo,
Tá no abraço de um irmão.
E entre lágrimas e risadas,
Vão fechando as minhas estradas
Sem nenhuma explicação.
Quando o talude se fecha,
E termina a derradeira passagem,
Pela porta saio sozinho,
Sem bagagem, sem viagem.
Não levo ouro nem dinheiro,
Nem relógio, nem roteiro:
Só aquilo que fui na passagem.
A última porta se fecha,
E o silêncio toma o lugar.
Deixo a sala, deixo a casa,
Deixo o mundo e seu falar.
E sigo, sem mais demora,
Meu destino vida afora,
Para onde ninguém pode voltar.
Tá na sala!
Foi assim que eu compreendi:
Enquanto vocês se despediam,
Eu também me despedia de mim.
MACALÃ — A AGUARDENTE DOS CORRUPTOS
Lá pras bandas de Brasília
Tem reunião todo dia,
Homem de terno alinhado,
Cheio de pompa e regalia,
Coleirinho bem branquinho,
Com discurso de carinho,
Mas por trás, quem saberia?
Sentados numa grande mesa,
Com fartura e gentileza,
Político e empresário,
Autoridade e alteza,
Fazem brinde, apertam mão,
Trocam papel e comissão,
Tudo em nome da riqueza.
No centro daquela mesa
Tem uma garrafa acesa,
Com um nome bem sugestivo,
Que causa muita surpresa:
MACALÃ, a aguardente,
Que deixa o corrupto contente
E embriaga a esperteza.
Um diz: “Vamos conversar,
Tem contrato pra assinar.”
Outro responde sorrindo:
“Tem licitação pra ganhar.”
Um terceiro, muito ligeiro:
“Se sobrar algum dinheiro,
A gente pode repartir.”
E a garrafa vai passando,
E o acordo vai fechando,
Um gole pra cada amigo,
Todo mundo comemorando.
Quem pergunta fica de fora,
Quem se cala ganha a hora,
E o povo fica pagando.
Tem gravata e tem colarinho,
Tem discurso bem mansinho,
Tem promessa de progresso,
Tem aperto de carinho.
Mas quando a conta aparece,
O pobre é quem paga a prece
E fica sozinho no caminho.
Falam muito em democracia,
Em justiça e cidadania,
Em combate à corrupção,
Em moral e economia.
Mas se a porta se fechar,
Tem segredo pra guardar
Debaixo da mesa fria.
Macalã corre ligeira
Pela mesa traiçoeira;
Quem bebe perde a vergonha,
Quem vende ganha a carreira.
E aquele que diz “não quero”
É chamado de exagero
Por não entrar na brincadeira.
Tem obra, tem emenda,
Tem contrato que se estenda,
Tem privilégio escondido,
Tem promessa que se venda.
Enquanto o povo trabalha,
Tem quem faça sua farra
Com a riqueza desviada.
Mas cuidado, meu cidadão,
Não aceite essa ilusão:
Corrupção não é destino,
Nem faz parte da nação.
Se o poder perde a medida,
Quem sofre na própria vida
É quem paga a corrupção.
Brasília pode ser bela,
Mas não deve ser janela
Pra quem olha o povo de longe
E só protege a sua cela.
O poder que vem da gente
Deve servir honestamente,
Não alimentar mamela.
E se a Macalã surgir
Com alguém querendo servir,
Pergunte antes do brinde:
“Quem vai depois ressarcir?”
Porque enquanto eles bebem
E seus acordos concebem,
É o povo que vai pagar.
MACALÃ, pode guardar,
Não venha nos embriagar!
O Brasil precisa é de justiça,
De coragem pra fiscalizar.
Pois quando a esperteza impera,
A corrupção prospera
E o povo começa a acordar.
No fim deixo este refrão,
Como alerta à população:
“Macalã embriaga o corrupto,
Mas não embriaga o cidadão;
Enquanto uns brindam ao lucro,
O povo paga a conta na mão!”
O MEDO E A CORAGEM
O medo bate à porta,
Querendo entrar sem demora,
Dizendo: “Pare, desista,
Não enfrente a luta agora!”
Mas a coragem responde:
“Levante e lute sem demora!”
O medo gosta da sombra,
Da dúvida e da incerteza,
Faz o homem enxergar
A derrota como tristeza;
Mas quem enfrenta seus medos
Descobre a própria grandeza.
Quem tem medo da derrota,
Não é digno da vitória.
A coragem não é ausência
De medo no coração,
É seguir mesmo tremendo,
Sem perder a direção;
É transformar cada queda
Em degrau de superação.
Quem já caiu nesta vida
Sabe o preço de levantar,
Pois nem sempre quem tropeça
Está condenado a parar;
Às vezes, a própria queda
Ensina a gente a caminhar.
Se a estrada estiver difícil,
Não abandone a caminhada;
Toda subida cansativa
Pode terminar na chegada,
E a força de quem persiste
Faz nascer uma nova estrada.
Quem tem medo da derrota,
Não é digno da vitória.
Resiliência é ter força
Para outra vez começar,
Mesmo quando a tempestade
Parece nunca passar;
É juntar os próprios pedaços
E novamente se aprumar.
Determinação é seguir
Quando falta inspiração,
É carregar nos próprios ombros
O peso da obrigação;
É fazer do sonho uma meta
E da meta uma missão.
A vida testa os valentes
Com problemas e provações,
Mas ninguém vence uma batalha
Vivendo só de ilusões;
É preciso enfrentar o medo
E vencer as limitações.
Não existe grande vitória
Sem batalha para enfrentar,
Nem existe grande sonho
Sem alguém para acreditar;
Quem deseja chegar ao topo
Tem que aprender a escalar.
O medo diz: “Você não pode!”
A coragem diz: “Vou tentar!”
A dúvida diz: “É impossível!”
A fé manda continuar;
E a persistência responde:
“Eu nasci para lutar!”
Quem tem medo da derrota,
Não é digno da vitória.
Se hoje a vida lhe impõe
Uma barreira no caminho,
Não pense que está sozinho,
Nem que nasceu para o espinho;
Até o mais forte guerreiro
Já caminhou devagarinho.
O importante é não deixar
A esperança se apagar;
Pois enquanto houver vontade,
Sempre é possível recomeçar.
Quem persiste diante da vida
Uma hora consegue triunfar.
Medo pode ser aviso,
Mas jamais deve ser prisão;
Coragem é abrir a porta
E enfrentar a situação.
É fazer do impossível
Uma nova inspiração.
Portanto, amigo, prossiga,
Não deixe o medo mandar;
Se a derrota vier primeiro,
Não pare de batalhar.
Pois muitas vezes a vitória
Só precisa de quem não vai parar!
Quem tem medo da derrota,
Não é digno da vitória.
O ILUDIDO E O DOIDO
Tem gente que faz loucura
Sem pensar no que está fazendo,
Vai seguindo pela vida
Sem saber onde está indo.
Quando a coisa dá errado,
Diz: “Eu não sabia, não!”
Mas existe outro mais fino
Que conhece a situação.
O doido age sem juízo,
Sem medir consequência,
Já o iludido faz sabendo,
Mas disfarça a consciência.
Faz de conta que não sabe,
Muda logo a explicação,
E quando alguém desconfia,
Ele diz: “Foi impressão!”
O Iludido é pior que o Doido,
Um sabe a razão,
Outro faz sem noção.
Um conhece o caminho,
Mas finge estar perdido,
O outro vai sem rumo
Porque é doido ou distraído.
O Iludido é pior que o Doido,
Um sabe a razão,
Outro faz sem noção.
Na vida de um casal
Tem história de montão:
Um percebe a falsidade,
Mas faz cara de paixão.
Sabe onde está o problema,
Conhece a situação,
Mas prefere fazer de conta
Que não viu a traição.
Tem também quem viva em casa
Fazendo jogo ensaiado:
Sabe tudo que acontece,
Mas se mostra enganado.
Quando chega a tempestade,
Vem com aquela indagação:
“Quem foi que fez isso comigo?”
Sabendo a resposta de antemão.
No trabalho é parecido,
Tem sujeito especialista:
Sabe tudo que está errado,
Mas se faz de bom artista.
Quando a culpa bate à porta,
Ele muda de posição:
“Eu não estava sabendo!”
E escapa da confusão.
Tem colega que conhece
Cada passo da jogada,
Sabe quem puxa os cordões,
Sabe quem não faz nada.
Mas prefere ficar calado,
Esperando a ocasião,
Pois quem finge ser inocente
Muitas vezes tem intenção.
Entre amigos acontece
Uma coisa interessante:
Tem quem saiba da conversa
E se faça de ignorante.
O segredo está guardado,
Mas conhece a situação;
Só revela quando percebe
Que lhe traz algum tostão.
Na política é mais forte
Esse tipo de esperteza:
Tem discurso de esperança,
Mas por trás muita esperteza.
Promete céu ao eleitor,
Fala em povo e união,
Mas depois de eleito esquece
Da palavra e do povão.
Tem político que conhece
A miséria do lugar,
Sabe a dor de quem trabalha,
Sabe o povo reclamar.
Mesmo assim faz pouco caso,
Com conversa e distração,
Pois se faz de desentendido
Para fugir da obrigação.
E o povo muitas vezes
Também entra nessa história:
Sabe quem está enganando,
Mas insiste na memória.
Vota, sofre e depois diz:
“Eu não tinha informação!”
Quando a verdade estava
Bem diante da sua mão.
O doido pode ser franco,
Pode errar sem perceber;
Já o iludido tem ciência
Do que pretende fazer.
Um tropeça no caminho,
Outro escolhe a direção,
Mas se esconde atrás da fala
Para negar sua intenção.
Por isso tenha cuidado
Com quem vive disfarçado,
Que conhece cada coisa
E aparece desinformado.
Às vezes o mais perigoso
Não é quem perde a razão,
Mas quem sabe muito bem
E finge não saber, não!
O Iludido é pior que o Doido,
Um sabe a razão,
Outro faz sem noção.
Um conhece o caminho,
Mas finge estar perdido,
O outro vai sem rumo
Porque é doido ou distraído.
O Iludido é pior que o Doido,
Um sabe a razão,
Outro faz sem noção.
Na escola da existência
Todo mundo tem lição:
Nem todo silêncio é medo,
Nem toda fala é opinião.
Tem silêncio de quem pensa,
Tem palavra de ocasião,
E tem gente que se faz de doida
Pra esconder sua intenção.
Ser esperto é uma coisa,
Ser desonesto é outra,
Quem conhece seus próprios atos
Não deve viver na sombra.
Porque a vida dá voltas
E revela a situação:
Quem brinca de ser inocente
Pode cair na própria mão.
No final dessa peleja,
Fica a grande conclusão:
O doido pode ser doido,
Mas merece compreensão.
Já o falso desentendido,
Que calcula cada ação,
Sabe muito bem o que faz
E ainda nega a razão.
Por isso digo em meu verso,
Com respeito e sem engodo:
Não confunda quem não sabe
Com quem finge saber de tudo.
Pois há loucura sem maldade
E esperteza sem coração.
O Iludido é pior que o Doido,
Um sabe a razão,
Outro faz sem noção.
Se um erra sem perceber,
O outro erra decidido;
Um é doido por natureza,
O outro é malandro escondido.
O Iludido é pior que o Doido,
Um sabe a razão,
Outro faz sem noção.
A LEI DA CONVENIÊNCIA
Foi decretada pelo Congresso Nacional, sancionada pelo Presidente da República, homologada pelo Supremo Tribunal e rejeitada pelo povo.
A LEI DA CONVENIÊNCIA
A Lei da Conveniência
Tem força e autoridade,
Foi feita no Congresso
Com muita formalidade;
Depois foi sancionada
Com toda solenidade.
O Presidente assinou,
Dando força à decisão,
O Supremo homologou,
Com sua confirmação;
Mas o povo, indignado,
Fez sua reprovação.
Foi decretada em Brasília,
Com pompa e aprovação,
Cada poder deu seu aval,
Selando a legislação;
Mas faltou ouvir o povo,
Dono dessa nação.
Pois lei que serve ao poder,
Mas ao povo traz prejuízo,
Pode até ser conveniente,
Ter carimbo e ser preciso;
Mas quando falta justiça,
Perde o seu compromisso.
Congresso pode decretar,
Presidente sancionar,
Supremo homologar,
E o sistema festejar;
Mas se o povo não aceitar,
Quem vai poder sustentar?
A Lei da Conveniência
Pode até ter aprovação,
Mas quando o povo a rejeita,
Perde toda a razão;
Porque a voz da soberania
Deve vir da população.
A Peleja hoje finda sem muita complicação. Vamos colocar os pontos no Ypsilon, porquê no Í só tem um com razão.
PROFESSOR DE POETA
No sertão nasceu um mestre
Que ensinava sem cartilha,
Com a viola e a palavra
Fez da rima uma família;
E mostrou que a poesia
Também nasce na partilha.
Sou Poeta sem diploma no canudo,
mas cumpro o verdadeiro papel público
do intelectual Matuto.
Patativa do Assaré,
Ave sábia do sertão,
Transformou sua poesia
Em denúncia e oração;
Fez do verso uma ferramenta
De cultura e reflexão.
Sou Poeta sem diploma no canudo,
mas cumpro o verdadeiro papel público
do intelectual Matuto.
Seu cantar veio da roça,
Da enxada e do terreiro,
Da pobreza, da esperança,
Do vaqueiro e do roceiro;
E ensinou que o pensamento
Não precisa de dinheiro.
Sou Poeta sem diploma no canudo,
mas cumpro o verdadeiro papel público
do intelectual Matuto.
Em “Cante Lá, Que Eu Canto Cá”,
fez do canto profissão,
mostrando que cada terra
tem seu modo e tradição;
E que a voz de quem trabalha
também merece atenção.
Quando falou do “Caboclo Roceiro”,
deu ao campo dignidade,
fez da vida do agricultor
um retrato da verdade;
E levou para a poesia
a voz da comunidade.
Em “Triste Partida”,
fez a dor se levantar,
retratando o nordestino
obrigado a migrar;
E fez muita gente longe
do sertão se emocionar.
Não é apenas um poeta
que o tempo pode guardar;
Patativa é professor
que continua a ensinar:
quem conhece sua obra
tem mais força pra pensar.
Sou Poeta sem diploma no canudo,
mas cumpro o verdadeiro papel público
do intelectual Matuto.
Os poetas o admiram
pela força do seu dizer,
pela forma tão simples
de fazer o povo entender;
pois sabia transformar
o sofrer em aprender.
Negreiros Neto assim diz,
com respeito e clareza:
“O poeta é um título
da mais alta nobreza,
dado ao matuto analfabeto
e aos doutores da letra.”
Patativa nos mostrou
que a escola pode ensinar,
mas também existe a vida
com seus modos de educar;
e o poeta que a observa
tem lições pra revelar.
Foi professor de poetas,
sem cobrar mensalidade;
sua sala era o mundo,
seu diploma, a humildade;
seu quadro era o sertão,
sua matéria, a verdade.
Sou Poeta sem diploma no canudo,
mas cumpro o verdadeiro papel público
do intelectual Matuto.
Hoje, quando um poeta
pega a pena para escrever,
leva um pouco de Patativa
sem sequer perceber;
pois quem bebe dessa fonte
aprende também a viver.
Patativa, velho mestre,
teu legado é imortal;
tua poesia permanece
feito estrela no quintal;
Nordeste que vira verso,
sertão que vira jornal.
E aos doutores da palavra,
aos poetas do sertão,
fica viva a grande lição
do mestre da inspiração:
a maior sabedoria
é ter voz e coração.
Sou Poeta sem diploma no canudo,
mas cumpro o verdadeiro papel público
do intelectual Matuto.
Se Patativa foi mestre,
nós seguimos a lição:
fazer da poesia ponte,
da palavra, comunhão;
e colocar nosso verso
a serviço da nação.
ENCANTO DE CRIANÇA
Criança é feito encanto,
É estrela a cintilar,
É um mundo de descobertas
Que começa a despertar;
É semente pequenina
Que aprende a vida a amar.
Que venham a mim todas as crianças,
pois meu reino está a esperar.
Primeiro vem o nascimento,
Com seu choro e seu olhar,
Depois vem o colo amigo,
Onde aprende a descansar;
E, entre braços e carinhos,
Começa a se aventurar.
Que venham a mim todas as crianças,
pois meu reino está a esperar.
Depois começa a engatinhar,
Logo aprende a caminhar,
Dá tropeços, cai no chão,
Mas insiste em levantar;
Cada passo pequenino
É uma forma de sonhar.
Que venham a mim todas as crianças,
pois meu reino está a esperar.
Vem a fase das perguntas,
Do brinquedo e da invenção,
Do desenho colorido,
Da primeira imaginação;
A criança faz do mundo
Um brinquedo de emoção.
Que venham a mim todas as crianças,
pois meu reino está a esperar.
Depois chega a adolescência,
Com conflitos e mudanças,
Novos sonhos, novos medos,
Despedidas e esperanças;
Vai deixando a meninice,
Mas conserva as lembranças.
Que venham a mim todas as crianças,
pois meu reino está a esperar.
E o menino vira homem,
A menina vira mulher,
Cada qual seguindo a estrada
Do destino que escolher;
Mas quem guarda a sua infância
Nunca deixa de viver.
Que venham a mim todas as crianças,
pois meu reino está a esperar.
Pois existe uma criança
Que o tempo não faz morrer;
Ela mora nos bons homens,
Nos que sabem compreender,
Nos que têm mãos para o abraço
E um coração para acolher.
Que venham a mim todas as crianças,
pois meu reino está a esperar.
Homem bom brinca com filhos,
Sabe rir e sabe amar;
Não tem vergonha da infância
Que insiste em lhe acompanhar.
Quem conserva a alma criança
Nunca deixa de sonhar.
Que venham a mim todas as crianças,
pois meu reino está a esperar.
Ser adulto não é nunca
Ter vontade de brincar;
É saber que a vida é séria,
Mas também sabe encantar.
É guardar dentro do peito
Um menino a caminhar.
Que venham a mim todas as crianças,
pois meu reino está a esperar.
Crescer não significa
A infância abandonar;
É levar dentro da alma
Tudo aquilo que ensinar:
Que o amor, quando é verdadeiro,
Tem o dom de transformar.
Que venham a mim todas as crianças,
pois meu reino está a esperar.
E se o tempo envelhecer
O rosto, o corpo e a mão,
Que jamais envelheça
A ternura do coração;
Pois criança que permanece
É eterna inspiração.
Que venham a mim todas as crianças,
pois meu reino está a esperar.
Que venham com seus brinquedos,
Com seus sonhos e alegria;
Que venham com seus sorrisos,
Sua doce fantasia;
Pois onde existe criança,
Renova-se a poesia.
Que venham a mim todas as crianças,
pois meu reino está a esperar.
E quando a vida passar
E a velhice enfim chegar,
Que eu ainda tenha dentro
Uma criança a me ensinar:
Que nascer é começar,
E viver é se encantar.
Que venham a mim todas as crianças,
pois meu reino está a esperar.
"Sou Poeta sem diploma no canudo, mas cumpro o verdadeiro papel público do intelectual Matuto."
Salvas! A Patativa do Assaré.
VIVER EM MUTAÇÃO
A vida é feito um rio,
Que não para de correr,
Vai mudando suas águas
Sem deixar de ser viver;
E o homem muda com o tempo,
Sem saber o que vai ser.
Ontem fui uma semente,
Hoje sou árvore a crescer,
Amanhã serei talvez
Outra forma de florescer;
Pois quem pensa que é o mesmo
Não conhece o próprio ser.
Meu Eu de ontem morreu,
hoje vive outro Eu,
e amanhã quem será Eu?
Cada dor deixa uma marca,
Cada amor traz transformação,
Cada queda nos ensina
A buscar nova direção;
E a vida vai esculpindo
Nosso ser e coração.
Muda o corpo, muda a mente,
Muda o jeito de pensar,
Muda o sonho, muda o medo,
Muda o jeito de sonhar;
E até aquilo que amamos
Pode um dia se transformar.
Há um Eu que vai partindo,
Sem fazer despedimento,
Outro Eu chega ligeiro,
Carregado de momento;
Somos obras inacabadas
Nas oficinas do tempo.
Meu Eu de ontem morreu,
hoje vive outro Eu,
e amanhã quem será Eu?
Não devemos ter receio
Da mudança natural,
Pois a vida é movimento,
Nunca fica sempre igual;
Até pedra vira areia
Sob a força temporal.
Quem aceita a mutação
Aprende a se reinventar,
Troca o medo pelo sonho,
Deixa a vida lhe ensinar;
Pois mudar não é perder-se,
É uma forma de encontrar.
Eu já fui tantos de mim,
Que nem posso enumerar;
Cada fase foi um passo
Que me fez aqui chegar.
E o futuro é uma pergunta
Que ainda vou responder.
Se amanhã nascer um homem
Diferente do que sou,
Não direi que perdi a vida,
Direi: a vida me mudou.
Pois enquanto houver caminho,
Meu destino não parou.
Meu Eu de ontem morreu,
hoje vive outro Eu,
e amanhã quem será Eu?
Assim sigo nesta estrada,
Entre o ontem e o depois,
Reinventando meus caminhos,
Descobrindo novos nós;
Sou mudança, sou memória,
Sou futuro dentro de nós.
E se alguém me perguntar
Quem sou eu neste momento,
Responderei simplesmente:
Sou mutação e movimento.
Um ser que nasce a cada dia
Das mudanças do tempo.
ALÉM DA ETERNIDADE
Fique ao meu lado, segure minha mão,
e vamos caminhar sem medo de errar;
que o amor seja a nossa direção,
e o destino nos ensine a sonhar.
Se o mundo mudar de repente,
que eu tenha você junto a mim,
pois amor que é verdadeiro e presente
não conhece começo, nem fim.
Quero andar contigo pela estrada,
sob o sol, sob a chuva e sob o luar;
ter sua presença em minha jornada,
e em cada silêncio, poder te abraçar.
Se houver pedras no nosso caminho,
juntos saberemos como seguir;
pois nenhum coração fica sozinho
quando encontra outro para dividir.
Fique ao meu lado, não solte a mão,
deixe o tempo passar devagar;
que cada batida do meu coração
seja uma promessa de sempre te amar.
E quando a vida perder sua voz,
quando o tempo deixar de existir,
ainda haverá um caminho para nós,
onde o amor continuará a florir.
Fique ao meu lado, segure minha mão
e vamos caminhar além da eternidade.
Porque se o amor for nossa canção,
seremos para sempre uma só saudade
que nem o tempo conseguirá apagar,
nem a distância poderá separar:
dois corações que escolheram caminhar
juntos... além da eternidade.
JEJUM: CORPO, ALMA E MENTE
Jejuar para o Corpo,
Alma e Mente por alguns instantes se renovar.
Jejum não é só deixar
O alimento sobre a mesa,
É calar desejos vãos
E mergulhar na certeza
De que a força vem do Alto,
Quando a fé vence a fraqueza.
É renunciar por um tempo
Aos prazeres da matéria,
É buscar dentro do peito
Uma esperança mais séria,
É transformar o sacrifício
Numa oração sincera.
Jejuar para o Corpo,
Alma e Mente por alguns instantes se renovar.
O corpo sente a privação,
A carne pede e reclama,
Mas quem jejua aprende a ouvir
O que o silêncio proclama;
Pois quando a fome se apresenta,
A fé acende outra chama.
Não é castigo ao próprio corpo,
Nem vaidade espiritual,
É exercício de domínio
Sobre o impulso natural;
É mostrar que a nossa vontade
Pode vencer o desejo carnal.
Jejuar para o Corpo,
Alma e Mente por alguns instantes se renovar.
Jejuar também é silêncio,
É humildade e oração,
É reconhecer nossas falhas
Diante da imensidão;
É dobrar os próprios joelhos
E abrir o coração.
É súplica por direção
Quando a estrada fica escura,
É pedir sabedoria
Para enfrentar a travessia dura;
É procurar na voz divina
A resposta que perdura.
É arrependimento sincero,
É reconhecer o erro cometido,
É abandonar velhos caminhos
Que deixaram o coração ferido;
É pedir forças para mudar
E recomeçar renovado e decidido.
Jejuar para o Corpo,
Alma e Mente por alguns instantes se renovar.
Há um sacrifício físico
Quando o corpo é contrariado,
Mas existe um outro maior:
Vencer o eu acomodado;
Pois muitas vezes o inimigo
Mora dentro do próprio lado.
É superar a própria fraqueza,
É cultivar perseverança,
É transformar cada renúncia
Em resistência e esperança;
Quem suporta a caminhada
Fortalece sua confiança.
E quando a emoção apertar,
Quando a tristeza chegar,
Que o jejum seja uma ponte
Para a alma se reencontrar;
Pois há dores que só o silêncio
Consegue ajudar a curar.
Jejuar para o Corpo,
Alma e Mente por alguns instantes se renovar.
Jejum verdadeiro não busca
A plateia para admirar,
Nem procura reconhecimento
De quem possa observar;
Quem jejua diante de Deus
Não precisa anunciar.
Não é contar quantas horas
Conseguiu permanecer,
Nem transformar a renúncia
Em motivo para se engrandecer;
É diminuir o próprio ego
Para a humildade crescer.
Porque o jejum sem amor
Pode ser apenas aparência;
Sem misericórdia e justiça,
Perde a sua essência.
De nada vale fechar a boca
Se o coração mantém violência.
Jejuar para o Corpo,
Alma e Mente por alguns instantes se renovar.
Jejuar é dizer à carne:
“Nem todo querer é poder.”
É colocar freio nos impulsos,
É aprender a escolher;
É descobrir que a vontade
Também precisa obedecer.
É controlar a língua,
É vigiar o pensamento,
É dominar a ira e o orgulho,
É transformar ressentimento;
Pois o verdadeiro jejum
Também purifica o sentimento.
Se a boca deixa de comer,
Mas o coração não se transforma,
Se a mão permanece fechada
E a injustiça se conforma,
O jejum perde sua força
E a aparência vira norma.
Jejuar para o Corpo,
Alma e Mente por alguns instantes se renovar.
Que a fome seja lembrança
De quem vive em necessidade,
Que a renúncia desperte
Mais amor e fraternidade;
Que o sacrifício gere frutos
De justiça e caridade.
Que o corpo seja disciplinado,
Que a mente encontre clareza,
Que a alma encontre descanso,
Que a fé vença a incerteza;
E que o homem compreenda
Que é pequeno diante da grandeza.
Jejuar é uma travessia
Entre a fraqueza e a vitória,
É escrever dentro do peito
Uma nova e humilde história;
É trocar o orgulho humano
Pela esperança da glória.
E quando terminar o jejum
E a mesa novamente se abrir,
Que não volte o mesmo homem
Que decidiu ali resistir;
Que a verdadeira mudança
Continue depois de se nutrir.
Jejuar para o Corpo,
Alma e Mente por alguns instantes se renovar.
Pois o jejum que transforma
Não termina ao se alimentar;
Ele deixa dentro da alma
Uma maneira nova de olhar.
Quem renuncia por propósito
Aprende também a agradecer.
Corpo, alma e mente unidos,
Na busca pela direção,
Entre súplica e silêncio,
Entre fé e reflexão;
O verdadeiro jejum começa
Quando muda o coração.
Jejuar para o Corpo,
Alma e Mente por alguns instantes se renovar.
"A criança que brinca como adulto, perde a criança. O Adulto que não brinca como criança, perde ela também."
SUSSURRANDO COM O VENTO
Minhas conversas o vento interpretam,
umas deixam e outras levam.
Quando a tarde vai chegando,
E o silêncio vem pousar,
Fico ouvindo o vento manso
Pelas folhas a passar.
Ele sopra uma cantiga
Que ninguém consegue cantar.
Não sei se é voz ou segredo,
Se é lembrança ou pensamento,
Mas escuto cada sopro
Como um velho juramento.
O vento fala baixinho
Com a linguagem do tempo.
Minhas conversas o vento interpretam,
umas deixam e outras levam.
Conto a ele meus segredos,
Minhas dores, meu querer,
As palavras que escondemos
Quando é difícil dizer.
O vento guarda o que escuta
Sem jamais me responder.
Se uma lágrima aparece,
Ele passa devagar,
Como quem seca o meu rosto
Sem sequer me tocar.
E aquilo que me entristece
Ele aprende a carregar.
Minhas conversas o vento interpretam,
umas deixam e outras levam.
Quando o tempo vai passando,
Vou sentindo o seu movimento;
Cada brisa é uma lembrança,
Cada rajada, um momento.
O relógio não tem asas,
Mas o vento tem o tempo.
Ele conhece as estradas,
As montanhas e o sertão,
Já brincou com muitas folhas,
Já beijou muita plantação.
E carrega pelo mundo
Fragmentos do coração.
Minhas conversas o vento interpretam,
umas deixam e outras levam.
Quando a noite abre os braços
E o cansaço vem chegar,
Deixo a janela entreaberta
Para o vento me embalar.
Ele sopra uma canção
Que me ensina a descansar.
Vento amigo, vento irmão,
Companheiro sem morada,
Quando o mundo me aperta,
Tu me dás uma parada.
Com teu sopro adormeço
E acordo em outra jornada.
E, dormindo, eu sonho longe,
Sem saber onde vou dar;
Talvez siga com o vento
Por caminhos sobre o mar.
Pois quem aprende a ouvi-lo
Também aprende a sonhar.
Minhas conversas o vento interpretam,
umas deixam e outras levam.
Se amanhã eu for silêncio,
Se meu verso se calar,
Que o vento leve meus sonhos
Para alguém que queira escutar.
Porque a poesia é semente
Que o vento pode espalhar.
E assim sigo conversando,
Sem ninguém me interromper,
Pois o vento é confidente
Que não julga o meu viver.
Ele leva o que é tristeza
E deixa o que faz crescer.
Minhas conversas o vento interpretam,
umas deixam e outras levam.
CASA! ESCOLA DE CORAÇÕES
Casa! Escola de Corações.
Universo de tantas emoções.
No princípio da caminhada,
Quando o mundo era ilusão,
Foi a casa o primeiro livro,
Da mais nobre educação.
Ali nasce a esperança,
E floresce a formação.
Casa! Escola de Corações.
Universo de tantas emoções.
Tem chegada de um menino,
Tem partida de um ancião,
Tem abraço que conforta,
Tem silêncio e solidão.
Cada porta guarda um tempo,
Cada canto uma lição.
Casa! Escola de Corações.
Universo de tantas emoções.
Há encontros que eternizam,
Despedidas de doer,
Há promessas que florescem,
Outras param de viver.
Mas o tempo escreve histórias
Que ninguém pode esquecer.
Casa! Escola de Corações.
Universo de tantas emoções.
Ali mora o grande amor,
Também mora a ingratidão;
Há carinho que aproxima,
Há intriga e divisão.
Cada gesto deixa marcas
No jardim do coração.
Casa! Escola de Corações.
Universo de tantas emoções.
Perdas vêm como tempestes,
Ganhos brilham como o Sol;
Uns tropeçam na tristeza,
Outros seguem no arrebol.
Toda lágrima ensina
Mais que o ouro e o arrebol.
Casa! Escola de Corações.
Universo de tantas emoções.
Há alegrias em fartura,
Decepções pelo caminho,
Experiência faz o mestre,
Imaturidade é espinho.
Quem escuta os mais antigos
Nunca segue tão sozinho.
Casa! Escola de Corações.
Universo de tantas emoções.
Resiliência é a coluna
Que sustenta a construção;
Coragem faz cada passo
Enfrentar a provação.
Quem não teme as tempestades
Vence a força do trovão.
Casa! Escola de Corações.
Universo de tantas emoções.
Vitória bate à janela,
Derrota entra sem avisar;
Uma ensina a agradecer,
Outra obriga a levantar.
Quem aprende com as duas
Sempre volta a caminhar.
Casa! Escola de Corações.
Universo de tantas emoções.
União levanta pontes,
Desunião faz ruir.
Uma soma os sentimentos,
Outra faz o bem fugir.
Toda casa bem cuidada
Faz a esperança florir.
Casa! Escola de Corações.
Universo de tantas emoções.
Há caminhos luminosos,
Há desvios na estrada.
Quem cultiva bons exemplos
Tem a alma iluminada.
Quem abandona os valores
Vê a vida embaraçada.
Casa! Escola de Corações.
Universo de tantas emoções.
Base firme é fundamento,
Teto abriga da aflição.
Paredes guardam memórias,
Grades pedem reflexão.
Pois a casa não aprisiona,
Quando reina o coração.
Casa! Escola de Corações.
Universo de tantas emoções.
Amor vence o próprio ódio
Quando existe compaixão;
Vida nasce em cada berço,
Morte encerra a procissão.
Mas o bem que ali foi plantado
Nunca morre em vão.
Casa! Escola de Corações.
Universo de tantas emoções.
Seja humilde ou majestosa,
De madeira ou de tijão,
Toda casa é professora
Da maior das lições:
Quem constrói um bom lar na Terra
Edifica gerações.
Casa! Escola de Corações.
Universo de tantas emoções.
GRITO DO SILÊNCIO
No silêncio mora um grito
Que ninguém pode calar;
Ecoa além dos séculos,
Sem jamais se revelar.
Há mistérios escondidos
Que insistem em nos chamar.
Não há papiro que conte,
Nem pintura ancestral;
Mas existem tantos sinais
De presença imortal.
Vestígios que desafiam
O saber racional.
Há pegadas sem caminho,
Há muralhas sem pedreiro,
Há um mapa sem legenda,
Há um rumo verdadeiro.
Quem contempla tais mistérios
Fica mudo o mundo inteiro.
Descobertas escondidas
Dormem sob a própria luz;
Mãos humanas as ocultam,
Mas a verdade conduz.
Quem procura com justiça
Nunca perde a sua cruz.
Olhos veem o fenômeno,
Mas recusam explicar;
Cada nova observação
Faz a dúvida aumentar.
Há respostas escondidas
Que não querem revelar.
Explica o não do porquê
ou o porquê do não.
Há montanhas de perguntas
Sem resposta conclusiva;
Toda porta que se abre
Traz outra perspectiva.
O mistério alimentando
Nossa busca incessiva.
Há quem diga ser lenda,
Há quem jure ser verdade;
Uns chamam coincidência,
Outros, curiosidade.
Mas o tempo segue firme
Desafiando a humanidade.
Nem todo fato se escreve
Nos anais da tradição;
Nem toda história vivida
Cabe numa explicação.
Há segredos preservados
Pela própria criação.
O silêncio também fala
Para quem sabe escutar;
Nem tudo cabe na ciência,
Nem se pode imaginar.
Há verdades que esperam
Seu momento de brilhar.
Explica o não do porquê
ou o porquê do não.
Talvez um dia os mistérios
Saiam todos do esconder;
Ou talvez permaneçam
Sem ninguém compreender.
Pois nem tudo que existe
Foi nos dado conhecer.
Sigo ouvindo esse silêncio
Que parece até falar;
Cada dúvida desperta
Nova vontade de buscar.
Quem pergunta cresce sempre,
Quem procura vai achar.
E enquanto houver mistérios
Entre o céu, a terra e o chão,
Seguirei fazendo versos
Com respeito e reflexão.
Pois o grito do silêncio
Também mora em cada irmão.
Explica o não do porquê
ou o porquê do não.
MINHA VIAGEM AO SOL
Quando fechei meus olhos,
O impossível deu sinal;
A razão ficou na Terra,
Parti rumo ao Astro-Rei celestial.
No lombo da imaginação
Cruzei o vazio sideral.
Foi num instante de luz
que viajei até lá.
Disseram: "És um lunático,
Não sabes o que faz."
Respondi com um sorriso:
"Quem sonha sempre vai mais."
Pois o sonho abre caminhos
Que a dúvida nunca traz.
Foi num instante de luz
que viajei até lá.
Passei por luas e cometas,
Vi planetas a girar;
Cada estrela me saudava
Como quem sabe esperar.
No silêncio do Universo,
Aprendi a escutar.
Foi num instante de luz
que viajei até lá.
Quando alcancei o grande Sol,
Não encontrei destruição;
Vi um oceano de luz
Banhando toda a criação.
Seu calor não era fogo,
Era divina compaixão.
Foi num instante de luz
que viajei até lá.
No centro daquela chama
Vi um brilho sem igual;
Não tinha forma definida,
Nem princípio, nem final.
Era a Divindade de Luz,
Eterna, pura e celestial.
Foi num instante de luz
que viajei até lá.
Bastou um único olhar
Para entender o infinito;
Todo medo se desfez,
Todo mistério foi bendito.
Num segundo compreendi
O que jamais fora escrito.
Foi num instante de luz
que viajei até lá.
Voltei trazendo a certeza
Que o possível nasce em nós;
Quem alimenta a esperança
Faz mais forte a própria voz.
O impossível se rende
Quando Deus caminha após.
Foi num instante de luz
que viajei até lá.
Hoje contam minha história
Como um sonho sem igual;
Uns dirão que foi delírio,
Outros, viagem celestial.
Pouco importa o julgamento,
Se encontrei o essencial.
Foi num instante de luz
que viajei até lá.
Assina este viajante
Que fez do verso um altar;
Quem semeia a fantasia
Sempre aprende a alcançar.
Pois quem segue a luz divina
Nunca deixa de sonhar.
Foi num instante de luz
que viajei até lá.
"Pois viver é mais que prazer,
é movimento, consciência e valor.
E o tempo, que tudo revela,
é o mais exigente julgador."
LARVARUNCA
No terreiro da existência,
Vi um caso singular;
O varão perdeu o leme,
Deixou outro governar.
Quem já foi dono da casa
Nem se atreve a opinar.
LARVARUNCA, Ela manda e Ele nunca.
Ela escolhe a roupa dele,
O destino e o caminhar;
Marca a hora, muda os planos,
Diz se pode ou não falar.
Ele apenas balança a cabeça,
Sem coragem de negar.
LARVARUNCA, Ela manda e Ele nunca.
Se ela compra, ele paga;
Se ela vende, é sem consultar.
Ela muda os móveis todos,
Sem sequer lhe perguntar.
E o coitado só responde:
"Se você quiser, pode deixar."
LARVARUNCA, Ela manda e Ele nunca.
No passeio ou na cozinha,
No descanso ou no labor,
Ela dita as regras todas
Com firmeza e com vigor.
Ele segue obedecendo,
Sem mostrar qualquer valor.
LARVARUNCA, Ela manda e Ele nunca.
Mas cordel também ensina
Com respeito e sensatez:
Todo lar floresce mais
Quando existe altivez.
Diálogo, amor e acordo
Valem muito mais que a vez.
LARVARUNCA, Ela manda e Ele nunca.
Homem e mulher unidos,
Cada qual no seu lugar,
Dividindo os desafios,
Aprendendo a dialogar.
Quem governa junto a casa
Faz o amor sempre reinar.
LARVARUNCA, Ela manda e Ele nunca.
