MACALÃ — A AGUARDENTE DOS CORRUPTOS... Jose Vidal de Negreiros Neto...

MACALÃ — A AGUARDENTE DOS CORRUPTOS


Lá pras bandas de Brasília
Tem reunião todo dia,
Homem de terno alinhado,
Cheio de pompa e regalia,
Coleirinho bem branquinho,
Com discurso de carinho,
Mas por trás, quem saberia?


Sentados numa grande mesa,
Com fartura e gentileza,
Político e empresário,
Autoridade e alteza,
Fazem brinde, apertam mão,
Trocam papel e comissão,
Tudo em nome da riqueza.


No centro daquela mesa
Tem uma garrafa acesa,
Com um nome bem sugestivo,
Que causa muita surpresa:
MACALÃ, a aguardente,
Que deixa o corrupto contente
E embriaga a esperteza.


Um diz: “Vamos conversar,
Tem contrato pra assinar.”
Outro responde sorrindo:
“Tem licitação pra ganhar.”
Um terceiro, muito ligeiro:
“Se sobrar algum dinheiro,
A gente pode repartir.”


E a garrafa vai passando,
E o acordo vai fechando,
Um gole pra cada amigo,
Todo mundo comemorando.
Quem pergunta fica de fora,
Quem se cala ganha a hora,
E o povo fica pagando.


Tem gravata e tem colarinho,
Tem discurso bem mansinho,
Tem promessa de progresso,
Tem aperto de carinho.
Mas quando a conta aparece,
O pobre é quem paga a prece
E fica sozinho no caminho.


Falam muito em democracia,
Em justiça e cidadania,
Em combate à corrupção,
Em moral e economia.
Mas se a porta se fechar,
Tem segredo pra guardar
Debaixo da mesa fria.


Macalã corre ligeira
Pela mesa traiçoeira;
Quem bebe perde a vergonha,
Quem vende ganha a carreira.
E aquele que diz “não quero”
É chamado de exagero
Por não entrar na brincadeira.


Tem obra, tem emenda,
Tem contrato que se estenda,
Tem privilégio escondido,
Tem promessa que se venda.
Enquanto o povo trabalha,
Tem quem faça sua farra
Com a riqueza desviada.


Mas cuidado, meu cidadão,
Não aceite essa ilusão:
Corrupção não é destino,
Nem faz parte da nação.
Se o poder perde a medida,
Quem sofre na própria vida
É quem paga a corrupção.


Brasília pode ser bela,
Mas não deve ser janela
Pra quem olha o povo de longe
E só protege a sua cela.
O poder que vem da gente
Deve servir honestamente,
Não alimentar mamela.


E se a Macalã surgir
Com alguém querendo servir,
Pergunte antes do brinde:
“Quem vai depois ressarcir?”
Porque enquanto eles bebem
E seus acordos concebem,
É o povo que vai pagar.


MACALÃ, pode guardar,
Não venha nos embriagar!
O Brasil precisa é de justiça,
De coragem pra fiscalizar.
Pois quando a esperteza impera,
A corrupção prospera
E o povo começa a acordar.


No fim deixo este refrão,
Como alerta à população:


“Macalã embriaga o corrupto,
Mas não embriaga o cidadão;
Enquanto uns brindam ao lucro,
O povo paga a conta na mão!”