SUSSURRANDO COM O VENTO Minhas conversas... Jose Vidal de Negreiros Neto...
SUSSURRANDO COM O VENTO
Minhas conversas o vento interpretam,
umas deixam e outras levam.
Quando a tarde vai chegando,
E o silêncio vem pousar,
Fico ouvindo o vento manso
Pelas folhas a passar.
Ele sopra uma cantiga
Que ninguém consegue cantar.
Não sei se é voz ou segredo,
Se é lembrança ou pensamento,
Mas escuto cada sopro
Como um velho juramento.
O vento fala baixinho
Com a linguagem do tempo.
Minhas conversas o vento interpretam,
umas deixam e outras levam.
Conto a ele meus segredos,
Minhas dores, meu querer,
As palavras que escondemos
Quando é difícil dizer.
O vento guarda o que escuta
Sem jamais me responder.
Se uma lágrima aparece,
Ele passa devagar,
Como quem seca o meu rosto
Sem sequer me tocar.
E aquilo que me entristece
Ele aprende a carregar.
Minhas conversas o vento interpretam,
umas deixam e outras levam.
Quando o tempo vai passando,
Vou sentindo o seu movimento;
Cada brisa é uma lembrança,
Cada rajada, um momento.
O relógio não tem asas,
Mas o vento tem o tempo.
Ele conhece as estradas,
As montanhas e o sertão,
Já brincou com muitas folhas,
Já beijou muita plantação.
E carrega pelo mundo
Fragmentos do coração.
Minhas conversas o vento interpretam,
umas deixam e outras levam.
Quando a noite abre os braços
E o cansaço vem chegar,
Deixo a janela entreaberta
Para o vento me embalar.
Ele sopra uma canção
Que me ensina a descansar.
Vento amigo, vento irmão,
Companheiro sem morada,
Quando o mundo me aperta,
Tu me dás uma parada.
Com teu sopro adormeço
E acordo em outra jornada.
E, dormindo, eu sonho longe,
Sem saber onde vou dar;
Talvez siga com o vento
Por caminhos sobre o mar.
Pois quem aprende a ouvi-lo
Também aprende a sonhar.
Minhas conversas o vento interpretam,
umas deixam e outras levam.
Se amanhã eu for silêncio,
Se meu verso se calar,
Que o vento leve meus sonhos
Para alguém que queira escutar.
Porque a poesia é semente
Que o vento pode espalhar.
E assim sigo conversando,
Sem ninguém me interromper,
Pois o vento é confidente
Que não julga o meu viver.
Ele leva o que é tristeza
E deixa o que faz crescer.
Minhas conversas o vento interpretam,
umas deixam e outras levam.
